BEC: Convalescente e em estado terminal

Em campo, na derrota por 3 a 0 para o Operário de Mafra, tempos nebulosos e vegetativos para o BEC na Série B de 2015 (Rafaela Martins / Agencia RBS)

Em campo, na derrota por 3 a 0 para o Operário de Mafra, tempos nebulosos e vegetativos para o BEC na Série B de 2015 (Rafaela Martins / Agencia RBS)

29 de julho de 1989.

Vitorioso, forte e temido no estado, entrava ovacionado no gramado do jovem Estádio do Sesi o Blumenau Esporte Clube, o atual vice-campeão estadual, para a página mais importante da história.

Deu resistência, fez gol, mas não conseguiu parar o poderoso Flamengo de Zico, Alcindo, Leonardo, Cantarelli e tantos outros, sob a batuta do mestre Telê Santana. Foi uma derrota de 3 a 1 que se repetiria dias depois no gigante Maracanã, mas que seria um marco mais que histórico para o ainda insipiente, mas promissor, futebol do tricolor.

Na manchete, uma derrota. Até irrelevante pelo peso da história escrita (Santa/Adalberto Day)

Na manchete, uma derrota. Até irrelevante pelo peso da história escrita naquele julho de 1989 (Santa/Adalberto Day)

Corte rápido, 1 de julho de 2015…

O palco era o modestíssimo Estádio Hermann Aichinger, em Ibirama. Com um plantel desorganizado, literalmente sem reservas e em uma situação falimentar, o outrora poderoso BEC é (novamente) humilhado. Como se o 8 a 1 sofrido diante do Hercílio Luz, de Tubarão, fosse único diante das goleadas elásticas seguidas sofridas pelo time, que nem parece mais uma equipe profissional.

Calma, não comecei a falar ainda…tem mais…

Lia os comentários sempre certeiros do velho amigo e guru do esporte de Blumenau, o grande Emerson Luis, no Notícias do Dia. Desde que comecei no jornalismo, tomei o amigo como uma referencia total no esporte blumenauense, especialmente o futebol, onde é especialista de longa data (mesmo que nossos times do coração não batam, fato).

Lá estavam as palavras, não apenas de um entendedor, mas as falas fortes e firmes de alguém assustado com o que via. O outrora poderoso Blumenau Esporte Clube rendido, de joelhos, amontoado em desorganizações e várzea, com pontuação negativa na tabela por escalações irregulares, lanterna sem discussão e com um saldo horrendo de -26 gols. Não é mancha, cratera nem nada disto na história do mais querido, é um verdadeiro buraco negro impossível de ser apagado.

Do tempo de juventude do Emerson, era um time a se acompanhar aguçadamente, assim como eu ouvia falar ainda na minha inocente infância. Uma equipe que carregava o nome da cidade, superava todas as dificuldades de se fazer futebol em Blumenau e da qual me identifiquei, mesmo nos anos sem o tricolor no gramado.

Acredite...é um dia de jogo do BEC na Série B de 2015...(Rafaela Martins / RBS)

Acredite…é um dia de jogo do BEC na Série B de 2015…(Rafaela Martins / RBS)

Ao anunciar com os peitos altos a volta, em 2013, até suspirei, gritei gol e quebrei uma resistência de mim mesmo: A de acompanhar um jogo de futebol no estádio. Era a final do segundo turno da Série B do Catarinense daquele ano, vencida pelo BEC no Sesi, mas perdida de forma folclórica e roubada em Lages, pelo hoje sensação Internacional.

Hoje? Nem sombras daquela breve emoção de 2013, quiçá do que foi vivido nos dourados anos 80 e 90. Da equipe que, mesmo sem grandes glórias, levava multidões ao velho Deba para as pelejas no domingo a tarde. E para piorar ainda mais, seguem-se as manchas de uma página até bonita de nosso futebol.

Os torcedores, apaixonados, ainda acreditavam na volta do BEC em 2013, mesmo que este não fosse o verdadeiro Blumenau que se acostumaram a torcer. Não importava nada para ver o amado time em campo outra vez. Hoje, muitos do que sorriam naquele dia contra o Inter de Lages choram. Pedem, surpreendentemente, a morte deste BEC, deste grupo de esforçados atletas que, apesar da determinação, não conseguem superar as dificuldades e a inconsequência de quem os colocou neste incêndio. Paixão, infelizmente, apesar de consoladora, não traz resultados nem boas administrações.

Recém-criado, em 1980, em foto para a revista Placar. Tempos diferentes, onde o romantismo dos campos era compensado pela vontade de fazer Blumenau um grande nome no futebol catarinense (Placar/Antigamente em Blumenau)

Recém-criado, em 1980, em foto para a revista Placar. Tempos diferentes, onde o romantismo dos campos era compensado pela vontade de fazer Blumenau um grande nome no futebol catarinense (Placar/Antigamente em Blumenau)

E quando falo em eutanásia para o BEC, espantosamente lembro do grande Maicon Chatourni, o maior simbolo deste amor dos torcedores pelo tricolor blumenauense. Sempre sonhando com a volta do amado time aos gramados, exultou em 2013 trazendo aos montes as lembranças dos anos dourados. Uma grande pessoa que tive o prazer de conhecer justo dentro do Sesi lotado e empurrando o Blumenau, mas que hoje se entristece com o que vê e, para meu espanto, pede o que nunca pensei ver pedir, mesmo sendo um mero impulso de torcedor…fechem o time.

Logo Blumenau, a cidade onde fazer futebol dispende vontade e disposição para brigar, uma tragédia como esta acontece. Ingerência total, movida por uma paixão cega que não paga salários, promete ilusões e desmonta sonhos. Não existe dignidade nem boa vontade que alivie isso. E a morte é necessária, desligar os aparelhos que mantém-o vivo.

Começar de novo depois de tanto? Talvez nunca mais, o BEC pertence a uma história mais bela do que esta. Insistir somente mesmo com muita vontade e disposição para fazer um verdadeiro trabalho profissional, ao nível do que pede o nome desta instituição denominada Blumenau Esporte Clube. Com direcionamento, planejamento, visão, profissionalismo e muita persistência, mas sabendo onde ir e como ir…

É isto, tudo está acabado e apenas que se reconheça que tudo está assim. Pelo bem do BEC apenas se pede uma coisa por esta vez…Acabe-se com tudo, pare-se com tudo. Por hora, para não dizer para sempre, como bom torcedor do mais querido que sempre serei. E não falo como agora como jornalista, mas como torcedor, e isto basta…

Que se mate o BEC…pelo bem do BEC.

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