A “guerra e paz” entre Rock e Setanejo

Viola versus guitarra. Todos gritam igual na dita batalha entre Rock e Sertanejo no Brasil (Render Brasil)

Viola versus guitarra. Todos gritam igual na dita batalha entre Rock e Sertanejo no Brasil (Render Brasil)

Rifs de guitarra versus repentes da viola. Vocalistas versus cantadores. Groopies versus mulherada. Nos últimos anos da música nacional, Rock e Sertanejo entraram numa inevitável batalha de gostos entre os admiradores em diversos momentos. Basta uma simples fagulha para a fogueira se acender novamente e a troca de acusações e defeitos recomeçar, as vezes violentamente. Eterna sina de antagonistas que, na morte de Cristiano Araujo, sem querer, levantou novamente o campo de contenda.

No entanto, em uma analise mais critica da eterna guerra da guitarra contra a viola, roqueiros e sertanejos tem, de certa maneira, uma relação respeitosa e de complementação entre si para o progresso de ambos na evolução musical. Em comum apenas a data de celebração. O 13 de julho, celebrado esta semana, não apenas é o Dia Mundial do Rock (comemorado apenas no Brasil), mas também o Dia do Cantor e Compositor Sertanejo.

Rita Lee entre Tonico & Tinoco. Uma campanha de moda da Rhodia que traz curiosidade. O Rock junto do Sertanejo (Reprodução)

Rita Lee entre Tonico & Tinoco. Uma campanha de moda da Rhodia que traz curiosidade. O Rock junto do Sertanejo, digamos, pela primeira vez (Reprodução)

Pode-se dizer que no Brasil dos anos 70 é que começou-se os primeiros esbarros entre Rock e Sertanejo. Uma imagem é iconica, mesmo que não signifique muito para a música em si, mas para a moda tinha muito a completar. Com o intuito de explorar o universo rural nacional, mesclando com o ritmo jovem daqueles tempos, o publicitário Livio Rangan, patrocinado pela Rhodia, uniu a então jovem e rebelde rainha do Rock, Rita Lee, com a dupla Coração do Brasil, Tonico & Tinoco, em um ensaio especial. Até hoje, uma foto que causa curiosidade, especialmente dos fãs do Rock nacional.

Foi na mesma época que, lentamente, o Sertanejo nacional começava a incorporar nas canções elementos presentes no Pop/Rock, como a guitarra, o órgão elétrico, o baixo marcante, entre outros. Um caminho inverso se comparado ao Rock americano, que foi criado com os elementos do country, a musica interiorana da Terra do Tio Sam que até hoje embala os verdes campos daquele país. Não foi o caso de Tonico & Tinoco, que preferiam muito mais a viola e voz do que outros complementos.

Moraes Sarmento e Inezita Barroso. Responsáveis por trazer o Sertanejo para a TV "de verdade" na TV Cultura (Reprodução)

Moraes Sarmento e Inezita Barroso. Responsáveis por trazer o Sertanejo para a TV efetivamente, na TV Cultura (Reprodução)

Aproximar elementos não quer dizer que a popularidade do estilo Sertanejo mudaria da noite para o dia, mas aos poucos os brasileiros descobriam o que o interior tinha a oferecer musicalmente. A TV foi muito decisiva, especialmente com o Viola Minha Viola da TV Cultura, onde Moraes Sarmento e Inezita Barroso, legítimos PhD no estilo, traziam para diante das câmeras para os adeptos do estilo os maiores expoentes. Com o passar dos anos, os dois estilos começaram a andar quase juntos na preferencia nacional da música, junto do Samba e da MPB.

No mesmo tempo que o Sertanejo era descoberto pela TV, o Rock nacional vivia um dos momentos mais prósperos da existência, que vinha desde o pioneirismo dos irmãos Campello (Tony e Celly) e de Cauby Peixoto nos anos 50. Eram os anos que a evolução começada no início dos anos 70, com o Rock Progressivo nacional, chegava ao auge, mantendo a contestação e chamando a juventude para si.

Queen no Rock 'n Rio em 1985. Era o ponto culminante do Rock nacional, onde as bandas caseiras badalavam e as estrangeiras nos descobriam (Queen Photos)

Queen no Rock ‘n Rio em 1985. Era o ponto culminante do Rock nacional, onde as bandas caseiras badalavam e as estrangeiras nos descobriam (Queen Photos)

 

Os acordes de guitarra viravam maioria nas rádios. Tempos do Circo Voador, do Rock ‘n Rio 1985, de Cazuza, Legião e Barão Vermelho. De Raulzito e Rita Lee no auge ao Pop/Rock de Lulu Santos e Blitz. Das bandas mais contestadoras como Zero, Plebe Rude e tantos outros…Uma nova era de ouro do Rock nacional que teve que, aos poucos, dividir espaço com outros estilos, especialmente o sertanejo, que estava entrando em uma fase ascendente.

A dita guerra de ambos virou batalha mesmo nos últimos tempos. Apesar de alguns momentos salutares de combinação, o mercantilismo que cercou os jovens cantores fez que o sentido real do sertanejo se tornasse algo cada vez mais distante do original, mais para as baladas recheadas de champanhes, mulheres e riquezas. Letras feitas com qualquer termo grudento relacionadas a situações qualquer, o que enfureceu quem convivia com a guitarra e as letras um tanto pensadas e contestadoras do Rock.

Nenhum dos dois estilos pode se dizer melhor que o outro, o que é uma verdade em vista de tantos erros e acertos vindos de ambos. Um complementou o outro nesta trajetória de anos de convivência e ambos coexistem entre tapas e beijos movimentando a música nacional entre os adeptos. Cada um com a forma própria que cativar os admiradores durante noites de festa e no dia a dia nos fones de ouvido da vida.

Quando dizem que a música reúne pessoas não é mentira. Afinal, certamente você, amante do sertanejo, já bradou alto ouvindo alguma canção dos Mamonas Assassinas….e o roqueiro que se preza já se perdeu nos embalos de Milionário & José Rico, numa tal Estrada da Vida.

E que continue assim, ao menos nos momentos de paz entre os rifs e repentes. Como neste interessante vídeo do Render Brasil! Olha só:

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