Jules: O descansar de um inocente talento…

Um sorridente Bianchi dentro do Marussia, no qual descobria o circo da F1. Este jovem sorridente não está mais entre nós (AFP)

Um sorridente Bianchi dentro do Marussia, no qual descobria o circo da F1. Este jovem sorridente não está mais entre nós (AFP)

Há 22 anos (sem mentira, desde meus três anos de idade…), sou acompanhante assíduo da F1 e, como brasileiro que sou, sei muitíssimo bem o que é perder um piloto em pista. Afinal, quando ainda tinha meus três aninhos, presenciei ao vivo pela TV a trágica morte da Ayrton Senna, um tricampeão realizado, mito, lenda viva, na tão simples e negra Tamburello, em Imola. Não deixei-me abater e, ainda hoje, sou fã confesso e apreciador deste circo. No entanto, sempre acreditara que piloto nenhum morreria mais na categoria depois daquilo…

Que bobo fui. Hoje, passou mais um para a lista dos heróis tombados. Tinha a minha idade, 25 anos. Jovem francês, talento descoberto pela mítica Ferrari e que tinha no currículo a proeza de ter levado um carro caquético como era o Marussia que pilotava a pontos, e ainda nas estreitas ruas de Mônaco. Parecia insignificante aos olhos rasos de quem via, mas era um jovem de futuro promissor, que encontrou a morte no país onde tudo parece quase perfeito e eficiente, o Japão. Era Jules Bianchi, talvez um possível continuador do legado da bleu-blanc-rouge na F1, e que foi arrebatado na madrugada francesa (noite no Brasil) depois de nove meses em um coma melancólico em um hospital em Nice.

Leiam mais sobre a morte de Bianchi no Farol Blumenau, Aqui!

Sabem… todo piloto sonha, quando chega a F1, em ser mais um cara de ponta. Vencer, ser campeão, ser respeitado, entrar para uma galeria seleta de mitos. Ou simplesmente, ser um nome que passou pela F1 e fez alguma coisa marcante. Se Bianchi não o fez na curta carreira que teve, ao menos nos faz lembrar que o esporte a motor, por mais seguro que seja, ainda é cercado pela sombra da morte e pela ignorância da Federação, que ainda o pune pela própria fatalidade.

Nas ruas de Mônaco, o feito: Jules leva a nanica Marussia ao nono lugar e aos primeiros pontos. Sinais de um talento promissor (Speedsport Magazine)

Nas ruas de Mônaco, o feito: Jules leva a nanica Marussia ao nono lugar e aos primeiros pontos. Sinais de um talento promissor (Speedsport Magazine)

Sim, o puniu duramente. A FIA, bem como quem administra o Autódromo de Suzuka, ignorou o fato da corrida continuar com uma pista inguiável, no escuro e com um guindaste entrando de forma irregular para dizer que o responsável pelo acidente foi… o francês, que acelerou demais onde não devia. Atitude irresponsável, especialmente por parte da Federação, que tropeça depois de 21 anos a procura de um esporte seguro a 100%.

Kubica bate feio no Canadá, em 2007. Com um acidente assim imaginava-se que nenhum piloto mais morreria...pois é, imaginava-se (Divulgação)

Kubica bate feio no Canadá, em 2007. Com um acidente assim imaginava-se que nenhum piloto mais morreria…pois é, imaginava-se (Divulgação)

Essa segurança já deu mostras no passado. Nos assustamos com Fernando Alonso, no GP do Brasil de 2003, e com Robert Kubica, no GP do Canadá de 2007. No entanto, sustos não fazem mudanças, e novamente a bruxa da F1 voltará a atacar este lado muito mais importante do que a emoção e as ultrapassagens de um GP.

Tarde demais, FIA. Voltamos a lamentar a morte de um piloto, de um jovem piloto. Bianchi, de certa forma, nos lembra a Roland Ratzenberger de leve. Ele também era um jovem, um austríaco de carreira sofrida que queria mostrar algo um um carro que também era caquético. No caso, a Simtek. A morte dele foi antes a do sempre lembrado Senna e na mesma Imola, mas não menos importante e traumática.

O também jovem Roland Ratzenberger. Em busca de alguma coisa na categoria, arriscou tudo. Perdeu a vida na mesma Imola que vitimaria Senna, um dia antes (Divulgação)

O também jovem Roland Ratzenberger. Em busca de alguma coisa na categoria, arriscou tudo. Perdeu a vida na mesma Imola que vitimaria Senna, um dia antes (Divulgação)

Bianchi era um talento a ser observado. Teve uma carreira vencedora nas categorias de base, foi o primeiro fruto do promissor programa de desenvolvimento de pilotos da Ferrari e, mesmo com a arcaica Marussia, assombrou o circo ao fazer a proeza de levar aquele carro tão complicado ao nono lugar. Pode não significar nada, mas para o time preto-e-laranja, diz muita coisa diante das dificuldades de se fazer uma equipe sendo um simples garagista pobre diante de potencias de fábrica e nomes tradicionais.

Infelizmente, a fatalidade veio cedo demais para este talendo. Tudo por conta da irresponsabilidade de quem faz o espetáculo, e de quem vem esquecendo-o por conta de entraves políticos e burocráticos. E eu pensando que, com meus 25 anos de vida e 22 acompanhando a F1, que nunca mais veria isso depois de Senna. Me enganei, e agora voltamos a busca por segurança, como se isso trouxesse o francês de volta.

Ah, a França, terra de lendas e da persistência no circo concorrido da F1. De seres fabulosos ao volante como Beltoise, Lafitte, Depailler, Pironi. Berço da Renault, uma das maiores forças da categoria de todos os tempos. Terra de Ligier, Matra, AGS, Magny-Cours, Paul Ricard. Lar do professor Alain Prost, que nunca vira a morte de perto nas pelejas que disputara no passado e, hoje, lamenta a perda de um piloto patrício. Não que Bianchi seria como ele, mas talvez traria alguma alegria aos combalidos franceses, tão distantes do circo e dos tempos de ouro.

Talvez a F1 não era para você, Jules…mas, ao seu lado direito agora, Deus. Ao seu esquerdo, Senna. E, longe de você, a culpa que lhe colocaram naquele fim de semana negro em Suzuka.

Dieu vous bénisse, Jules (1989-2015)!

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