Simpatia, auto-estima…em falta no Brasil

É...o país alegre anda meio "preto-e-branco" (Reprodução)

É…o país alegre e colorido anda meio “preto-e-branco” (Reprodução)

Eterno dilema quando, no nosso momento de consumidor, entramos numa loja e, muitas vezes, ficamos pedindo em pensamento para o atendente não vir em nossa direção. No entanto, se ele acaso vem ou a gente precisa dele, espera um sorriso sincero, receptivo e alegre de alguém que está pronto a te ajudar.

Simpatia, gentileza e disposição. Três palavrinhas que fazem uma diferença enorme na hora da venda, e que logo no Brasil, o país de riso fácil e descontração, estão em baixa. Você não está lendo errado, este dado é muito bem endossado pelas estatísticas de uma pesquisa internacional (cuja fonte estou tentando descobrir até agora…) que aponta o Brasil como o penúltimo no quesito simpatia no atendimento, só a frente do recatado Japão.

Expressão desanimada do vendedor no comércio: Não é só o dia a dia, tem mais motivo por trás (G1)

Expressão desanimada do vendedor no comércio: Não é só o dia a dia, tem mais motivo por trás (G1)

Pode parecer muito saber que 79% dos vendedores lhe recebem bem e sorridentes, mas não é. A Irlanda tem um surpreendente nível de simpatia que chegou na primeira posição dos dados, com 97%. E não é mentira nenhuma dizer que 79% é exagero. Basta entrar em alguma loja e reparar. Salvo as boas exceções que temos no dia a dia, os profissionais cara-de-limão se multiplicam. As vezes, o ato de comprar também inclui uma espécie de experiência vivida pelo consumidor que sabe que é bem acolhido.

E não é só o fato de ser segunda-feira ou porque é sexta-feira e o relógio passa lentamente, Se alegrar com o atual status do comércio e indústria brasileiros é quase uma tarefa impossível. Para vender, se torna mais difícil e penoso a caça de clientes. Os preços estão altos, a procura está baixa pela falta de grana do fim do mais (ainda pior) ou pelo desemprego.

Recessão preocupa setor industrial, desempregos seguem sendo ameaça em todos os segmentos. Clima tenebroso empurra a tensão e o estresse do brasileiro para o alto, sem perspectiva de melhora real (Reprodução / Exame)

Recessão preocupa setor industrial, desempregos seguem sendo ameaça em todos os segmentos. Clima tenebroso empurra a tensão e o estresse do brasileiro para o alto, sem perspectiva de melhora concreta (Reprodução / Exame)

Quer endossar ainda mais o panorama negativo? Nesta sexta-feira (28/08), o IBGE confirmou que a economia nacional está em recessão técnica depois do pífio PIB de abril a junho, fechado em contração de 1,9%. Brasileiros perdem o emprego por conta da baixa demanda e da contenção de gastos. Nenhum segmento de trabalho está a salvo. Nem mesmo a comunicação, onde trabalho. É uma ciranda praticamente sem fim, e que não deixa de afetar a auto-estima do brasileiro, sempre tão positivo diante das mais horrendas situações.

Saindo das lojas, das faces carrancudas dos vendedores mal-humorados, vamos as ruas, onde o clima de desânimo e desgaste é muito mais sentido. As vezes, até costumo achar que o brasileiro anda estressado demais, e com razão. Impostos cada vez mais altos a se pagar, numa conta muito mal regulada para o bolso do trabalhador. Profissionais e operários andam com o temor do desemprego como um eterno pesadelo na mente, sem saber se amanhã pode ser o seu último dia. O panorama não é bom.

Nos tempos de Senna, o esporte era a fuga dos problemas que assolavam a economia brasileira. Hoje, nem o esporte ajuda mais, e o choque de realidade foi violento, mas necessário (Sutton)

Nos tempos de Senna, o esporte era a fuga dos problemas que assolavam a economia brasileira. Hoje, nem o esporte ajuda mais, e o choque de realidade foi violento, mas necessário (Sutton)

Exemplo de depressão numa crise econômica não nos faltar. O maior deles, sem dúvida, foi os anos 80, princípio dos 90. No entanto, vale ressaltar que, naqueles tempos obscuros das trocas de moedas e planos, o Brasil tinha um motivo ao menos para sorrir. Nem era o futebol, nesta hora que entrava a figura montada como herói de Ayrton Senna.

Não se questione aqui o talento dele para pilotar e deslumbrar nas pistas pelo mundo. Foi quase uma questão de casualidade, ele apareceu como a imagem do país que vence, e o brasileiro se viu preso ao aerofólio do McLaren na esperança de aguentar firme as lambadas da inflação, congelamentos, falências e confisco de poupança.

Não é anormal, no Brasil, se agarrar a um esporte ou outra coisa parecida para manter a auto-estima no alto. Mas voltando ao nossos tempos, nenhum esporte parece estar contribuindo para o sorriso nacional. Na F1, Felipe Massa anda discreto e o xará, Felipe Nasr, está apenas começando. O futebol ainda agarra-se a mística para se reaver e só tem fracassado desde o 7 a 1. No MMA, o maior nome – Anderson Silva – está suspenso por dopping. E as Olimpíadas? Ninguém lembra de atletas agora, especialmente quando as obras consomem verbas públicas aos borbotões.

Lembra? Se você tem o seu adesivo guardado, coloque-o por perto. CPMF, apesar de burburinho, pode voltar (Reprodução)

Lembra? Se você tem o seu adesivo guardado, coloque-o por perto. CPMF, apesar de burburinho, pode voltar (Reprodução)

Sem nada para se agarrar, o brasileiro parece ter tomado o tremendo, mas preciso, choque de realidade, e dele não consegue mais se desvencilhar tão cedo. Com o desempenho pífio do governo e os seguidos esquemas de corrupção cada vez mais escancarados fica difícil vislumbrar dias melhores, mesmo que eles possam até vir. E, para completar o naipe de bombardeios mentais, o governo prepara a volta da CPMF para controlar as contas, sem nem mesmo olhar para dentro da própria casa e cortar cargos, ministérios e outros supérfluos, numa verdadeira falta de senso e planejamento.

Se os vendedores estão de cara amarrada, saiba que não são só eles. O estado emocional do Brasil não vai passar tão rápido quanto se pensa, infelizmente. O jeito é trabalhar e contar piadas para buscar algum sorriso no dia a dia pesado que nos aguarda a cada sair de porta de casa e embarcar de ônibus. No país do riso fácil, da festa e da descontração, a simpatia, auto-estima e o sorriso estão em falta.

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