À Blumenau de ontem, de hoje e de sempre

"Advinhe que país é este". A charada instigava o distraido leitor da Seleções, em 1968. Era Blumenau descortinando-se pelas primeiras vezes para o Brasil (Antigamente em Blumenau / Adalberto Day)

“Advinhe que país é este”. A charada instigava o distraido leitor da Seleções, em 1968. Era Blumenau descortinando-se pelas primeiras vezes para o Brasil (Antigamente em Blumenau / Adalberto Day)

Certa feita, no distante setembro de 1968, uma peça publicitária era estampada nas páginas da famosa revista Seleções, da Reader’s Digest. Nela, uma charada
para instigar o brasileiro curioso pelo sul do país que vivia: Advinhe que país é
este

Era o convite carinhosamente feito ao leitor para, sem sair das cercanias
brasileiras, conhecer um pedaço da Europa incrustado no sul do país. A
simpática Blumenau, efetivamente pela primeira vez, descortinava-se para a nação
que estava. Encantadora, de esquinas com toques de canção, com aroma de
flores no ar e dona de um charme visto apenas nas pequenas cidades germânicas,
de quem herdara a beleza.

Juventude blumenauense em dia quente, pulando da antiga Ponte Preta (Progresso) para um mergulho no Ribeirão Garcia. Tempos ingênuos e de descobertas (Antigamente em Blumenau)

Juventude blumenauense em dia quente, pulando da antiga Ponte Preta (Progresso) para um mergulho no Ribeirão Garcia. Tempos ingênuos e de descobertas (Antigamente em Blumenau)

Eram outros tempos, mais românticos, talvez mais familiares e mais inocentes,
onde as moças da cidades, ostentando na grande maioria madeixas louras, riam
discretamente nas ruas ao passar de rapazes alinhados, alguns ainda de terno e chapéu ou camisa social, rumo ao trabalho ou estudo.

Naturalmente, naqueles idos, os novos ares da juventude trazidos pelos embalos de outros sons diferentes dos trompetes germânicos já se emaranhavam pela cabeça daqueles ainda adolescentes que descobriam o mundo. Tudo uma bela fase de descobertas com uma pitada de rigidez paterna, normalíssimo.

Até dupla de Jovem Guarda tínhamos. Você já ouviu falar de Doris & Marlene? Baixe, ouça e conheça. Só clicar!

As famílias, nos domingos, saiam pelo centro para uma caminhada agradável por
entre as ruas e as vitrinas cerradas das lojas, donde repousavam as ofertas da
semana seguinte. Até o cinema se fazia presente em exibições na rua mesmo,
onde os populares desatentos fixavam atenção na película ali exibida. Crianças
corriam atrás de cachorros velozes e peraltas, sempre na vigilância tranquila dos
pais, que relembravam o tempo de namorados.

Durante a semana, já havia quem reclamava, naquele 1968, do trânsito que
emperrava na XV de Novembro ou nas duas mãos da Rua 7 de Setembro. A
Beira-Rio era ainda um caminho de barro sendo levantado lentamente na encosta
direita do companheiro Itajaí-Açu. Ora companheiro, ora destruidor. Não haviam
barragens, as enchentes chegavam sem aviso prévio, mas nada que o calejado
blumenauense resolvesse com sagacidade e persistência. Lutar contra a água
fazia muito mais parte da rotina do que hoje, convenhamos.

Nos tempos anteriores a badalada Oktoberfest, a diversão do blumenauense residia-se em bailies inocentes e animados nos Caça-e-Tiro, no embalo de grupos como Erinho & sua Orquestra, na foto (Antigamente em Blumenau)

Nos tempos anteriores a badalada Oktoberfest, a diversão do blumenauense residia-se em bailies inocentes e animados nos Caça-e-Tiro, no embalo de grupos como Erinho & sua Orquestra, na foto (Antigamente em Blumenau)

Tudo era suave, respirava-se poesia, teatro, melodias germânicas que, nos fins de
semana, lotavam avidamente os Clubes de Caça-e-Tiro citadinos em bailes que seguiam até o raiar do dia. Vivia-se ainda o tempo pré-Oktoberfest, talvez até mais inocente e colorido, sem menosprezar jamais nosso grande cartaz para as Américas, claro. Era a hora do congraçamento da comunidade, fatigada pela labuta da semana, que se levava pela canção, pelo chopp e pelos sorrisos. Como se os sorrisos não se fizessem presentes no dia a dia. Nas lojas, lanchonetes, bairros, casas, indústrias.

Alias, indústrias que viviam um tempo áureo, especialmente as têxteis. Onde
geração após geração se revezava no chão de fábrica, despontando nos olhos o
orgulho por defender o brasão que tanto orgulhava. Hering, Garcia, Artex, TekaKarsten, AltenburgSulfabril, Cremer, Altona, Saturno, Jensen/Frigor e tantas outras.

Na antiga reta da Rua Amazonas, o passear dos moradores do Garcia diante da antiga Empresa Industrial Garcia, a primeira indústria têxtil da cidade, de 1868. Tempos em que defender o brasão da fábrica era motivo de orgulho (Adalberto Day)

Na antiga reta da Rua Amazonas, o passear dos moradores do Garcia diante da antiga Empresa Industrial Garcia, a primeira indústria têxtil da cidade, de 1868, e que deu nome ao bairro. Tempos em que defender o brasão da fábrica era motivo de orgulho (Adalberto Day)

Fazer o rancho? Talvez na Cobal (Supermercado Blumenau), tão minúscula na Rua Cap. Euclides de Castro, ou quem sabe do Pfutzenreuter ou talvez ainda no Carlos Koffke. Comprava-se roupas e utilidades em nomes como Buerger, Lojas Hering, Casas Jaraguá, Willy Sievert, Hermes Macedo, Casas Coelho, Flamingo, sempre com aquela recepção cortês e conhecida pelos clientes, que costumeiramente eram chamados de fregueses.

Recordações de tempos dourados, que fazem qualquer um mais de idade escorrer
alguma lágrima. Mas, com tudo isso, estou querendo dizer que Blumenau se
perdeu no horizonte?

Não é mentira, os tempos ficaram, talvez, mais frios e duros. Nem sempre vimos
flores nas esquinas, andamos acuados com algum medo dos delinquentes,
continuamos desesperados no trânsito lento ou nos coletivos lotados nas horas de
pico. Aquela menina loura de 1968, que pedia para o Brasil vê-la mais de perto,
aparentemente parecia ter fechado seu sorriso, ficado mais fria, dura, infeliz.

Ainda encantadora no dia a dia, mesmo com a frieza e as revoltas da vida atual, Blumenau não deixou de ser a menina loura que carrega um certo encanto por entre as curvas do Vale e que tanto fascina quem a visita ou a adota como morada (Inova Blumenau)

Ainda encantadora no dia a dia, mesmo com a frieza e as revoltas da vida atual, Blumenau não deixou de ser a menina loura que carrega um certo encanto por entre as curvas do Vale e que tanto fascina quem a visita ou a adota como morada (Inova Blumenau)

Pode lhe parecer isso, mas arrisco ser teimoso e dizer NÃO. Tenho apenas 25
anos , três como jornalista, e, apesar da pouca idade, me deleito pelas histórias que contei acima, fruto da curiosidade pela história de nossa cidade vinda da boca de avós, pais, tios e amigos. Viro esquinas pelas ruas quase todos os dias e, embora algo possa ter mudado, ainda sinto levemente que Blumenau continua sendo Blumenau de
alguma forma.

O Brasil veio mesmo conhece-la, de tantos rincões. Alguns vieram e aqui ficaram,
aqui adotaram como casa e, assim como nós, da gema, contribuem para construir
na menina loura do Vale o sorriso que, pela dureza do dia ou da natureza, é
perdido. Há a frieza dos dias? Talvez há, mas só para quem acredita que
Blumenau é apenas um emaranhado de prédios, ruas e carros. Ela é mais, e quem
duvida, que procure conhecer mais deste cantinho germânico de Santa Catarina
que ainda muitos conhecem tampouco.

Moradores enfrentando de canoa as turvas águas do Itajaí-Açu em 1983. Teimosia e persistência diante das catastrofes vem de tempos remotos da cidade (Antigamente em Blumenau)

Moradores enfrentando de canoa as turvas águas do Itajaí-Açu em 1983. Teimosia e persistência diante das catástrofes vem de tempos remotos da cidade (Antigamente em Blumenau)

E no 2 de setembro é dia de reverenciar esta menina uma vez mais. Saber que há
165 anos atrás levantou-se aqui uma colônia de sonhadores alemães, tendo a
frente um farmacêutico prussiano com tino de desbravador (esqueçam-se aqui as
controvérsias, por favor) e teimosia para ver a pequena freguesia virar município.
Os mesmos teimosos que empunharam vassouras e rodos em 1983, 1984, 2008 e
tantas outras vezes contra a natureza, as vezes impiedosa e feroz, e
reconstruíram tudo outra vez mais, como no passado.

E, mais do que tudo, saber que, por mais que a frieza, a descrença e a revolta nos
derrube, ainda há em que acreditar e lutar. Nós somos os continuadores desta
história que nossos antepassados escreveram, os que continuarão construindo
paginas e páginas de história nesta cidade. E quem é blumenauense, de origem
ou adoção, que nos siga.

Ergam-se as bandeirinhas no desfile, brindem-se os copos, cante-se a melodia escrita idilicamente pelo amigo e poeta Marcio Volkmann (acima), festejemos uma vez mais. Um viva a Blumenau!…de ontem, de hoje e de sempre!

2 comentários sobre “À Blumenau de ontem, de hoje e de sempre

  1. André, bela postagem do ontem e hoje em Blumenau.
    Aquela foto da Rua Ângelo Dias, se voc~e notar eles publicaram na revista ao contrário. Na época ao ser questionado a revista disse que era para dar um fundo mais legal … que nada! Erraram o lado do negativo. São detalhes que já observei em outras postagens desta época quando o negativo era de plastico.
    Blumenau 165 anos de História? ou de colonização alemã a mais bem sucedida da América do sul. Na realidade devemos sempre observar que já viviam indígenas por aqui 8 mil anos atrás, que os cara pálidas já estavam por aqui pelo menos em 1830, e que só os Peter Wagner tinham 23 filhos co m duas esposas e fora os filhos dos filhos. Dr. Blumenau chegou em 1848 , estabeleceu a colônia após concessão junto ao Dom Pedro e fixou como data de fundação 28 de agosto de 1852, faleceu em 1899 sem saber que em 1900 foi mudada a data para 02 de setembro, data em que teriam chegado os primeiros 17 colonizadores, como que se os outros não existissem. Mas nem nessa data eles chegaram em Blumenau, foi posterior, a data de 02 de setembro os imigrantes chegaram em Desterro atual Florianópolis ….era isso.
    Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em Blumenau

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