“Das encrenca”: O choque do escândalo da Volkswagen nos EUA e no mundo

Um choque para o mundo automotivo e um arranhão que demorará para ser reparado nos lados da tradicional Volkswagen (UOL)

Um choque para o mundo automotivo e um arranhão que demorará para ser reparado nos lados da tradicional Volkswagen (UOL)

O maior choque da industria automobilística mundial, quem sabe, da história. Nesta terça-feira última (22/09), um escândalo de proporções inimagináveis atingiu em cheio a maior e mais tradicional montadora do mundo. A Volkswagen admitiu que um dispositivo que altera resultados acerca da emissão de poluentes foi instalado em cerca de 11 milhões de veículos a diesel da marca alemã, especialmente no mercado americano, onde foi descoberto o esquema.

A denuncia partiu de um executivo do alto escalão da própria Volks alemã, que confirmou o que a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) já haviam descoberto na última quinta-feira (17/09). Segundo as investigações, um software era responsável por burlar os dados de lançamento de gases que o carro produzia especificamente nos testes de emissão.

O Beetle americano, um dos carros envolvidos no escandalo de adulteração dos resultados de emissão (Carplace)

O Beetle americano (Fusca no Brasil), um dos carros envolvidos no escandalo de adulteração dos resultados de emissão (Carplace)

Desta forma, os veículos da Volks estavam sempre atendendo os níveis exigidos de eliminação de gases em território americano, quando podiam emitir até 40 vezes mais na atmosfera. O foco das investigações americanas está em carros com motor de quatro cilindros produzidos entre 2009 e 2015, como Jetta, Beetle (Fusca), Golf, Passat e o Audi A3.

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Evolução dos logos da Volkswagen, de 1937 aos dias atuais. (Reprodução)

Evolução dos logos da Volkswagen, de 1937 aos dias atuais. (Reprodução)

Isto pode ser dito como um verdadeiro arranhão épico na imagem de uma montadora que, há mais de 70 anos, tem como sinônimo a qualidade dos produtos, a rigidez dos processos produtivos e a tradição de confiança que já virara até slogan (Você conhece, você confia). Para quem acompanha o mundo automotivo, o escândalo das adulterações da Volkswagen nos testes de emissão soa como uma pedra atirada num espelho. Espelho este que reflete o BlueMotion da vida, onde acreditávamos que emitir gases poderia ser parte da história tão brevemente.

Nunca haverá de se entender o porquê de simplesmente adulterar algo que, por tudo que o mundo passa na questão ambiental de nossos dias, deveria ser via de regra no livro de práticas dos alemães. E a encrenca foi ser descoberta, outra vezes, com a mão americana. A mesma mão que, no início deste semestre, desmantelou (e continua desmantelando) os esquemas de corrupção no futebol. A desgraça da VW é grande, afeta mercado e a confiança de clientes incautos e pode trazer muitos prejuízos ainda em 2015 e para mais adiante.

Bill Bernbach, gênio da publicidade responsável por emplacar o Fusca nos EUA: Tempos em que fazer o "carro de Hitler" ser confiável entre os americanos era o maior dos problemas (Reprodução)

Bill Bernbach, gênio da publicidade responsável por emplacar o Fusca nos EUA: Tempos em que fazer o “carro de Hitler” ser confiável entre os americanos era o maior dos problemas (Reprodução)

A vida da Volks na terra do tio Sam já não era a melhor que podia haver. A montadora está para passar por uma recuperação para melhorar vendas e voltar a figurar entre as grandes dos EUA. Quanto a isto, podia ser algo que a VW tiraria de letra por la. Afinal, não foi tarefa fácil convencer um americano, amante dos carros grandes e de motores absurdamente gastadores, a comprar o modestíssimo Fusca. Desta vez, com este escândalo eclodido, a coisa é bem mais difícil do que foi para Bill Bernbach nos idos dos anos 50.

No entanto, a Volks não explicou direito ainda até aonde este estrago se estende. Se é só nos EUA ou se espalha por outros países, como a própria Alemanha. Lá, o choque foi maior ainda e já deu até atrito entre o governo e o Partido Verde dos teutos. As autoridades de transportes alemãs afirmaram não saber desta tecnologia, pretexto para se perguntar como isto passou pelo crivo dos responsáveis desta fiscalização e exigir esclarecimentos e investigação. Países europeus e asiáticos já pressionam a Volks por testes e investigações e as ações da empresa seguem ladeira abaixo em várias bolsas de valores de todo o mundo. A coisa é bem mais séria.

Martin Winterkorn: Apesar das desculpas, renunciou (Reuters)

Martin Winterkorn: Apesar das desculpas, a renúncia (Reuters)

Certo que cabeças vão rolar em Wolfsburg e na fábrica americana, como já rolou voluntariamente a de Martin Winterkorn, presidente-executivo mundial da montadora. Certo que será também um período de reflexões e recuperação a Volks. Mas muito mais certo do que tudo isto só apenas o fato de que a confiança do consumidor, aquela do velho slogan, está arranhada, e consertar este erro demanda muito mais que números e projetos.

Das encrenca, esta!

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