Alemanha 25: Passado e presente da reunificação

A bandeira da Alemanha unida sobe o mastro em frente ao Reichstag, o parlamento alemão em Berlim. Diante de uma multidão alegre e eufórica, celebrando a reunificação do país (Reprodução)

A bandeira da Alemanha unida sobe o mastro em frente ao Reichstag, o parlamento alemão em Berlim. Diante de uma multidão alegre e eufórica, celebrando a reunificação do país (Reprodução)

O mundo inteiro não podia dormir na noite do dia 9 de novembro de 1989 sem sabe que estava tombando, na história cidade de Berlim, o muro que dividia uma cidade, um país e, por conseguinte, o mundo entre capitalismo e socialismo. Era o último ato da história duma Alemanha dividida desde o fim da Segunda Guerra, culminando na outrora improvável ruptura da muralha berlinense, que reuniu amigos e famílias para junto de si depois de tanto tempo.

Mas longe de todo sentimento de unidade e reencontro, fervorosos no coração
germânico, começava lentamente um processo histórico que tornaria a Alemanha
uma só. A queda do muro era apenas uma pequena parte, as mudanças
começavam nas ruas do lado oriental e terminariam de mãos dadas em outubro de
1990, com a reunificação definitiva, que neste ano completou 25 anos de um
trabalho que, na visão de muitos que já passaram pela terra teuta, ainda não
terminou e esta longe de terminar.

Do muro ao papel: Como foi a reunificação?

O líder socialista da RDA, Erich Hoenecker: Intransigências e equivocos na política levaram a ruína do país e apressaram a queda do muro de Berlim e a reunificação da Alemanha com a demissão do governo (Reprodução)

O líder socialista da RDA, Erich Hoenecker: Intransigências e equivocos na política levaram a ruína do país, a demissão do governo e apressaram a queda do muro de Berlim e a reunificação da Alemanha (Reprodução)

Era um sonho velado de ambos os lados, ainda mais velado no lado comunista. A
Alemanha Oriental era uma das economias mais fortes da cortina de ferro, mas
combalida por planos econômicos equivocados e prioridades trocadas. A tensão
pré-queda do muro apressou a literal demissão completa do politburo, incluindo a
do líder Erich Hoenecker, o único teimoso no meio de todo este turbilhão. A
responsabilidade de por fim as tensões caiu nas mãos do já bombardeado Egon
Krenz, que acabou comprando a briga e até hoje diz que saíra do processo como uma espécie de martir, evitando um possível banho de sangue nas cercanias da fronteira citadina.

Leia mais sobre a queda do Muro de Berlim

A queda do muro representou muito mais do que o abrir de uma fronteira. Foi
também o momento oportuno para os alemães-orientais clamaram pela liberdade
dentro do próprio cercado. Um dos momentos mais representativos deste pedido foi
a invasão ao prédio da Stasi, em janeiro de 1990. O órgão principal de vigilância e
repressão do governo comunista era tomado por centenas de pessoas preocupadas
com o destino dos arquivos que diziam muito sobre elas. Páginas e páginas de
relatórios de espionagem que, cinco anos mais tarde, foram revelados e
recuperados, mantidos hoje ao acesso de quem estiver interessado.

Helmut Kohl, chanceler da Alemanha Ocidental, um dos maiores responsáveis pela reunificação (DPA)

Helmut Kohl, chanceler da Alemanha Ocidental, um dos maiores responsáveis pela reunificação (DPA)

Era só a ponta do iceberg. Em março de 1990, os alemães-orientais votavam para a
escolha do novo chefe de governo pela primeira e última vez na breve história de 41
anos. O eleito, Lothar de Maizière, já tinha na ponta da língua o discurso da
reunificação, que já vinha sendo tratada pouco depois do pleito. O primeiro tratado foi estabelecido em agosto, mas o mais esperado era o que envolvia, nas tratativas, os dois países juntamente com as quatro potências da ocupação – Estados Unidos, França, Reino Unido e União Soviética – no chamado Tratado Dois-Mais-Quatro, celebrado em setembro.

Nele, os pontos principais determinavam a renuncia dos direitos das quatro
potências sob a Alemanha, devolvendo assim a plena soberania a nação.
Estipulavam também a limitação das forças armadas alemãs ao número de 370 mil
homens, a ratificação do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares e a
confirmação da fronteira com a Polônia. Foi a cereja do bolo que restava para, em
termos gerais, solucionar as questões relacionadas ao fim da Segunda Guerra e o
caminho aberto para a reunificação do país.

Representantes das duas Alemanhas e dos países aliados da Segunda Guerra (EUA, Reino Unido, França e União Soviética) na assinatura do Tratado Dois-Mais-Quatro, em setembro de 1990. Caminho livre para a união alemã (Imgur)

Representantes das duas Alemanhas e dos países aliados da Segunda Guerra (EUA, Reino Unido, França e União Soviética) na assinatura do Tratado Dois-Mais-Quatro, em setembro de 1990. Caminho livre para a união alemã (Imgur)

Unida no fisico, separada na mente

E assim foi em 3 de outubro de 1990. Alemães de todos os cantos celebraram a
sonhada união nacional passando pelo Portão de Brandemburgo. Fora a euforia e a
alegria pelo fim do tempo negro, a Alemanha começava uma contenda interminável
para equiparar o lado oriental ao padrão de vida, infra-estrutura e prosperidade de
anos-luz dos ocidentais a frente. Não foi nada barato, nem um pouco. A
reunificação teve um preço que espanta ao primeiro olhar: Cerca de 1,6 trilhão de euros.

Mas reunificar o país, aparentemente, é fácil e depende apenas de saber investir e,
certamente, saber apagar o passado cruel, como os alemães parecem ter feito. Mas passados 25 anos, o lado oriental ainda não tem a noção que eles também fazem parte da nova Alemanha. Queixas sobre sentimento de inferioridade, uma pouca participação da vida econômica do país, apenas alguns dos traumas psicológicos que acometem quem vive no lado oriental. Algo que 25 anos não corrigem tão facilmente. Um processo bem mais complicado.

Panorâmica da cidade de Leipzig, antiga capital administrativa da Alemanha Oriental. Desenvolvimento do leste alemão foi acelerado e caro, mas ainda não suplantou as dúvidas e sentimentos de inferioridade dos alemães-orientais (Reprodução)

Panorâmica da cidade de Leipzig, antiga capital administrativa da Alemanha Oriental. Desenvolvimento do leste alemão foi acelerado e caro, mas ainda não suplantou as dúvidas e sentimentos de inferioridade dos alemães-orientais (Reprodução)

Berlim renasce dia a dia, em constante renovação proporcionada pela economia
sólida dos teutos. No entanto, o psicológico é algo que não demanda investimentos, mas tempo e reflexões. Entrementes, uma onda nostálgica natural faz parte da realidade de muitos que tem raízes do lado oriental. Alguns pequenos elementos que os faziam ser identificados como outra Alemanha e que, por vezes, é uma fuga da
divisão mental que ainda vive-se.

Voltinha ao passado no centro de Berlim

Uma viagem ao tempo da "cortina de ferro". Localizado em área simpática do lado "oriental" de Berlim, o Museu DDR é muito apreciado por turistas e pelos próprios alemães, que poder dar um passeio pelos tempos da RDA em todos os aspectos (Divulgação)

Uma viagem ao tempo da “cortina de ferro”. Localizado em área simpática do lado “oriental” de Berlim, o Museu DDR é muito apreciado por turistas e pelos próprios alemães, que poder dar um passeio pelos tempos da RDA em todos os aspectos (Divulgação)

Mas para quem acha que a mania alemã de passar a borracha no passado apagou
o comunismo da história, engana-se. Em um canto simpático no centro de Berlim, curiosamente no lado oriental da cidade, um museu bem equipado conta para os jovens e os velhos saudosos como era viver por trás do muro. Este é o Museu DDR.

Dê um tour em vídeo pelo Museu DDR

De tudo há exemplos, os modestos automóveis Trabant, as celas e cabines de interrogatório da Stasi, literatura e vida social da época e muitos fatos marcantes em áudio, foto e vídeo. Uma verdadeira volta ao passado no tempo da cortina de ferro e do tal paraíso de Erich Hoenecker.

Confesso ainda não ter tido a oportunidade de visitar este espaço na capital alemã, mas assim que estiver em Berlim, não ter vergonha de voltar rapidamente no tempo comunista. História é história e merece, para todo curioso, ser recordada.

Um comentário sobre “Alemanha 25: Passado e presente da reunificação

  1. André, na derruba do muro da vergonha entre as duas Alemanhas, se deve quase que exclusivamente ao esforço do líder soviético Mikhail Sergeyevich Gorbachev, o último presidente da extinta União Soviética.
    A construção do muro foi um marco vergonhoso para toda Europa e mundo. São sempre os problemas das discórdias politicas, de ideologia e principalmente do poder econômico que proporcionam guerras, intrigas entre os povos. Sem falar dos radicais, extremistas pelo mundo a fora.
    O comunismo também tem grande parcela desses conflitos. Ideologias ultrapassadas que nunca deram certo e se deu , foi para o bolso de uns poucos falsos moralistas ditos comunistas.
    Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em Blumenau.

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