Foie Gras: Crueldade fora do menu de Blumenau

Um prato com foie gras. Iguaria popular na França tem dias contados em Blumenau, Câmara vota lei de proibição nesta quinta-feira (G1/New York Times)

Um prato com foie gras. Iguaria popular na França tem dias contados em Blumenau, Câmara vota lei de proibição nesta quinta-feira (G1/New York Times)

E o debate chegou no cardápio de Blumenau. Uma das discussões mais tensas da culinária atual bate a porta e pede uma reflexão que nem sempre para nas mesas dos bistrôs e restaurantes sofisticados. Será votado nesta quinta-feira (29/10), na Câmara de Vereadores, a proibição da produção e venda do foie gras na cidade. Promete ser uma sessão agitada, especialmente com a presença de ativistas e representantes dos órgãos de proteção animal da cidade, na torcida e acompanhamento da discussão da lei.

O projeto a ser votado em Blumenau é de autoria da suplente de vereador Evelin Huscher, também ativista da Associação de Proteção Animal de Blumenau (Aprablu). O texto proíbe, nos dispositivos, a fabricação e/ou comercialização do produto, seja ele de origem nacional ou importada, seja vindo de pato, ganso ou marreco. Não podemos mais aceitar o uso de tortura e/ou sofrimento animal para alimentação, lazer e diversão humana. A discussão sobre os direitos dos animais hoje é universal e devemos combater toda e qualquer prática de abuso contra as espécies, afirmou Evelin em depoimento a jornalista e ativista dos direitos dos animais, Irene Huscher.

Ao redor do mundo, a batalha não é de hoje, mas no Brasil o assunto é recente e coloca no campo de guerra protetores dos animais contra chefes de cozinha renomados e produtores da iguaria. Se aprovada, Blumenau será a terceira cidade brasileira a proibir o foie gras nas cercanias citadinas, seguindo o exemplo de Sorocaba e São Paulo, que já aprovaram leis e proibições do alimento.

Alguns detalhes

Para quem ainda está perdido neste buffet de argumentações, o foie gras (figado gordo em francês) é uma iguaria muito presente na cozinha francesa e é obtido através da alimentação, na maioria das vezes forçada, de patos, marrecos ou gansos. Apesar de parecer apetitoso ao olhar simples do consumidor, o produto envolve um desumano e cruel processo de produção em granjas e criadouros especializados, indo desde o confinamento e privação do sono até o mais latente, que é a alimentação forçada com rações gordurosas ministradas com uma espécie de cano introduzido diretamente no esôfago dos animais.

Uma peça inteira de foie gras (Wikipédia)

Uma peça inteira de foie gras (Wikipédia)

A origem do foie gras é bem mais remota do que muitos podem pensar. Os primeiros registros do alimento datam do Egito e da Roma antiga, onde os produtores alimentavam as aves com figos durante seis meses. O crescimento do fígado pode chegar a até 12 vezes maior que o tamanho original, sendo 65% do peso correspondente a gordura e pesar 0,5 Kg no pato e até 2 Kg no ganso.

Na França, o alimento encontra o maior mercado consumidor e produtor, cerca de 80% da produção mundial 98% do processamento saem de lá. As regiões de Périgord (Dordogne), Midi-Pyrénées (sudoeste) e na Alsácia (leste) concentram alguns dos criadores de aves para o foie gras. Na província de Quebec, no Canadá, também há grande produção do alimento.

Registros em baixo relevo antigos da alimentação de patos e gansos para o foie gras (Wikipédia)

Registros em baixo relevo antigos da alimentação de patos e gansos para o foie gras (Wikipédia)

A batalha pelo mundo (e pelo Brasil)

Passados os anos, a inocência em simplesmente ver os maus tratos aos animais acontecerem com naturalidade desapareceu e, com os recentes debates sobre os direitos dos animais, o fim da produção do foie gras tornou-se uma das bandeiras mais defendidas pelos defensores dos animais em todo o mundo. Na Europa, 15 países, como Alemanha, Itália, e Grã-Bretanha, proíbem a produção e comércio do produto dentro do território. Nem mesmo a França, a maior produtora, escapou dos embates.

A guerra de argumentações entre criadores e ativistas é forte no velho continente e o grande dilema é a alimentação forçada ou gavage. A prática já foi proibida por uma coalizão francesa formada por grupos protetores dos direitos dos animais em 2003, baseada nas leis de proteção animal da União Europeia. No entanto, a margem de interpretação que a lei deixa permite inúmeras brechas e não funciona na totalidade.

O processo de gavarge, que consiste na alimentação forçada de patos e gansos com ração gordurosa ministrada com um cano ligado ao esôfago. (Wikipedia)

O processo de gavage, que consiste na alimentação forçada de patos e gansos com ração gordurosa ministrada com um cano ligado ao esôfago. (Wikipedia)

Nos Estados Unidos, os dois principais estados produtores do alimento – Nova York e Califórnia – estavam em vias de aprovar regras que proibiam a venda e produção do foie gras oriundo da gavage, permitindo apenas as que não fossem feitas com métodos cruéis as aves. No entanto, não houve ainda um avanço consistente nestes regulamentos.

Ja no Brasil, apenas Sorocaba e São Paulo (SP) tem legislação específica a respeito da produção/venda do foie gras, ambas aprovadas neste ano. No interior, a Câmara de Vereadores sorocabana foi dura na queda e, na atual lei em vigor, não permite de forma alguma a fabricação e comércio desde agosto. Quem descumpre a regra pode ser multado em R$ 5 mil, sendo o dobro em caso de reincidência.

No entanto, a capital paulista teve de suspender, por decisão judicial, a lei aprovada sobre o assunto que havia entrado em vigor no mesmo mês de agosto. O pedido de liminar que suspendia a determinação partiu da Associação Nacional de Restaurantes.

Visão de A BOINA

O foie gras, por mais exótico que possa parecer ao paladar que pode gastar quantias para aprecia-lo, não tem nenhuma justificativa para a chacina constante feita em patos e gansos em nome de uma “sofisticação”.

A luta das entidades protetoras dos animais é legitima e encontra embasamentos que não podem ser contestados de nenhuma forma, a começar pela alimentação forçada, que mesmo não praticada na visão dos produtores, é uma prática cruel, não importando de que forma é feita. Somar os maus tratos, como privação do sono em alguns casos, só endossa ainda mais a lista de atrocidades.

Para Blumenau, a discussão e a possível aprovação de uma lei contra o produto em nossos limites coloca o município em uma posição de vanguarda dentro de Santa Catarina e do país, mostrando também a maturidade dos organismos de proteção animal da cidade, incansáveis na busca da justiça para com eles.

Seja como for, nem a melhor mão de chef de cozinha que há pode tirar do foie gras o gosto de crueza e morte que cada exemplar deste produto traz.

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