Gramming & Marbles: Rosberg, o “señor” do colorido fim de semana no México

"Señor" Rosberg, reencontrando-se com a vitória depois de oito provas (Getty Images)

Señor Rosberg, reencontrando-se com a vitória depois de oito provas (Getty Images)

F1 de volta a terra de Checo

Como é bom voltar a terra dos tacos, dos mariachis e da tequila. Apesar da  burocracia da vitória de Nico Rosberg, o regresso da F1 ao solo mexicano foi uma explosão de alegria, cores e vivas da torcida de la tri apaixonada pela velocidade que há muito tempo esperava a volta da categoria ao mais clássico dos autódromos do país, o de Hermanos Rodriguez.

Os "hermanos" Pedro (capacete prata) e Ricardo Rodriguez. Lendas mexicanas que dão nome a mítica pista (Reprodução)

Os “hermanos” Pedro (capacete prata) e Ricardo Rodriguez. Lendas mexicanas que dão nome a mítica pista (Reprodução)

Falando nos Rodriguez, eram justo eles os dois irmãos que primeiro trouxeram multidões a pista da capital mexicana nos apaixonantes tempos da F1 (anos 60 e 70). No domingo, Ricardo e Pedro Rodriguez assistiram orgulhosos a volta da multidão ao palco onde cedem o sobrenome famoso, hoje renovado e modernizado.

Mesmo com a perda da famigerada Peraltada, curva-marca registrada do autódromo, a pista ainda é uma das mais rápidas e exigentes para os freios nas fortes reduções de velocidade. Hermanos ainda é O Autódromo, e ainda está sendo redescoberto pela nova geração da categoria.

O colorido e a alegria do mexicano: O grande destaque do regresso da F1 a Hermanos Rodriguez (Mercedes)

O colorido e a alegria do mexicano: O grande destaque do regresso da F1 a Hermanos Rodriguez (Mercedes)

Mas o mexicano amigo, munido da Corona fiel nas mãos e do sombrero na cabeça teve algo mais para celebrar. Não apenas a volta de um circuito fabuloso, mas de um representante patrício a boa casa. Sergio Perez foi o grande propagandista da corrida, e isso não tem como negar. Assediado durante todo o fim de semana da prova, ele chamou a torcida e fez a parte dele como ninguém. Vide a galera fazendo a festa, especialmente na parte do estádio, setor que bem sucedeu a Peraltada.

Não prometeu ilusões, como vencer ou chegar ao pódio, e nem podia com a atual Force India, mas esteve presente. Apareceu na prova e voltou a trazer esperança aos apaixonados mexicanos que sonham em ver um patrício no alto do pódio. Tal como já fizera Pedro Rodriguez em 1970, o último a correr na tierra-madre. Se isso acontecer um dia, pode crer, esta alegria mexicana que animou a combalida F1 neste ano pode ser ainda maior.

Sergio Perez, o dono da casa, saúda a torcida no estádio em Hermanos. Corrida foi modesta e sem promessas mirabolantes, mas valeu para a esperançosa torcida (Getty Images)

Sergio Perez, o dono da casa, saúda a torcida no estádio em Hermanos. Corrida foi modesta e sem promessas mirabolantes, mas valeu para a esperançosa torcida (Getty Images)

Rosberg: Fim da novela mexicana “Longe de Vitória”

Enfim, depois de oito corridas jejuando e levando toda a sorte de criticas na cabeça, Nico Rosberg resolveu fazer as pazes com a amada vitória, a qual esteve longe desde a Áustria, em junho. Tipico de novela mexicana, a reconciliação de Rosberguinho com o primeiro lugar foi demorada, teve lances melosos mas não acabou como um dramalhão típico da Televisa, com emoção e clímax. Foi mais na burocracia mesmo, e com a ovação dos torcedores diante do novo señor de Hermanos.

Prova de Nico foi medida, soube controlar a diferença para Hamilton e evitar problemas com pneus e freios (Getty Images)

Prova de Nico foi medida, soube controlar a diferença para Hamilton e evitar problemas com pneus e freios (Getty Images)

Mas, justiça seja feita, mesmo devendo atuação há muito tempo diante do companheiro tricampeão, Lewis Hamilton, Rosberg fez bonito no México. Dominou com autoridade os treinos e soube administrar melhor o carro do que Lewis na prova. Foi uma vitória tática, já que Nico teve de se preocupar principalmente com os freios e os pneus, duras vitimas do traçado exigente e do asfalto ainda novo e liso.

Noves fora, Nico está novamente junto de vitória, a amada companheira que deixara em Zeltweg e, determinado, a encontrou sob o sol da capital mexicana, para não mais abandona-la… Pelo menos, até a próxima prova, no Brasil.

 
Apesar dos velhos tropeços, um pódio para a Williams

O alegre Bottas festeja o terceiro posto. Podia ter sido mais fácil sem os erros e inconstância das estratégias da Williams (Getty Images)

O alegre Bottas festeja o terceiro posto. Podia ter sido mais fácil sem os erros e inconstância das estratégias da Williams (Getty Images)

Chega a ser ofensivo falar do time de Grove desta forma sendo que Valtteri Bottas subiu ao pódio nesta corrida. O jovem finlandês quebrou o jejum que já perdurava desde o Canadá e ainda endossado por uma espécie de vingança a lá lucha libre contra o compatriota Kimi Raikkonen, em um novo acidente entre os dois onde, desta vez, o iceman foi o nocauteado. No entanto, o final poderia ter sido bem diferente e tranquilo, outra vez pela falta de ação e estratégia da equipe.

Massa: Apagado sexto lugar, com problemas nos pneus e falta de combatividade (Williams F1)

Massa: Apagado sexto lugar, com problemas nos pneus e falta de combatividade (Williams F1)

A demora em trocar pneus quase fez o nórdico ficar de fora de mais um pódio na temporada, isto sem falar no desentendimento de Felipe Massa com os compostos macios na pista. O brasileiro reclamou, especialmente, da performance da borracha nas partes mais travadas, onde chegou a ser superado inapelavelmente por Daniel Riccardo. Alias, bem dizendo, para Massa faltou mesmo é um pouco de pimenta na corrida inteira. Mesmo largando bem, resumiu-se a uma prova apagada e contida pelo pneu, outra vez alvo de reclamações do representante tupiniquim.

O golpe de Bottas em Raikkonen, Feita a vingança com o Iceman, que estava no débito desde a Rússia (TV)

O golpe de Bottas em Raikkonen, Feita a vingança com o Iceman, que estava no débito desde a Rússia (TV)

Fora isto, Bottas ainda teve o golpe de sorte de se aproximar de Daniil Kvyat, o terceiro antes do safety-car da batida de Sebastian Vettel, e ultrapassar o russo logo depois da bandeira verde, contando ainda com a força do Mercedes V6. No resumo da ópera, ou melhor, da serenata, o finlandês saiu sorrindo e sem sombreiro com um terceiro lugar no bolso.

 
Vettel revive Senna 85 e acha o muro

Para a Ferrari foi um fim de semana atípico, literalmente. Sem ter um grid muito favorável, restaria a Sebastian Vettel brigar pelo terceiro posto, como era o esperado. No entanto, o time de Maranello acabou saindo da Cidade do México com dois carros avariados e sem nenhum ponto na contagem final. Nem mesmo Seb escapou dos infortúnios e encontrou uma parede no caminho.

Vettel no soft wall. Corrida alucinante depois dos problemas na largada terminou como um trabalho de merda, segundo o piloto (Twitter)

Vettel no soft wall. Corrida alucinante depois dos problemas na largada terminou como um trabalho de merda, segundo o piloto (Twitter)

Depois de se topar com Riccardo na largada, forçando a uma parada prematura para a troca de um pneu, Vettel voltou alucinado a pista, brigando com todos, travando, espalhando e até rodando no carrossel mexicano. Curiosamente, no mesmo lugar onde rodou, o alemão encontrou o muro na volta 52. Na verdade, o confortável soft wall, a barreira inteligente de absorção de impacto, usada com tanto êxito na Indy e em outras categorias americanas.

No fim, Vettel mesmo teve a definição perfeita da corrida mexicana – trabalho de merda – e a Ferrari amargou o primeiro abandono duplo em nove anos, o que é uma interessante marca.

MIUDAS

– Novamente, a Rede Globo preteriu a transmissão da F1 em beneficio do futebol (o
Corinthians está prestes a ser campeão brasileiro, claro), causando estranheza até em Galvão Bueno, que não se acreditou vendo a prova em casa. Fora a ausência na TV aberta, destaca-se novamente o trabalho de Sérgio Maurício (embora a trocação de nomes foi homérica) e os erros constantes de Reginaldo Leme nos comentários. Um tanto displicentes e relaxados para um profissional do gabarito dele.

Petrobrás continua patrocinando a Williams. Já a Globo, nada de cotas para 2016 (Xavier Bonilla / Grande Premio)

Petrobrás continua patrocinando a Williams. Já a Globo, nada de cotas para 2016 (Xavier Bonilla / Grande Premio)

– Falando em Globo, a Venus Platinada sofreu um golpe nesta última semana no que diz respeito aos patrocinadores das transmissões. Envolta na lama da Operação Lava-Jato, a Petrobrás cancelou a cota de patrocínio da F1 para 2016 na emissora. São R$ 80 milhões a menos. No entanto, ela continua firme na Williams, onde pretende manter firme o contrato de patrocínio para a equipe de Grove na próxima temporada.

– Depois de um bom GP dos EUA, onde até ponto brotou do solo estéril, a McLaren voltou a rotineira melancolia do fundo da corrida. Fora as passagens dos outros pilotos pelo lento carro de Jenson Button, Fernando Alonso disse adiós em bom espanhol antes mesmo da primeira volta, com problemas na pipoqueira da Honda. No final, é melhor mesmo esquecer e juntar-se aos mariachis em uma canção ao fim da tarde, no bom espanhol, como sempre.

Alonso não resistiu nem uma volta. Motor do McLaren pipocou outra vez (Charles Coates / LAT Photographic)

Alonso não resistiu nem uma volta. Motor do McLaren pipocou outra vez (Charles Coates / LAT Photographic)

Nico Hulkenberg talvez tenha ofuscado um pouco Sergio Perez na própria casa neste domingo. Depois de abandonos e acidentes, o alemão fez bonito em Hermanos e somou alguns pontinhos em favor do time indiano. Terminou em sétimo, imediatamente a frente de Checo. Mas, para reaver-se do pau que vem tomando do mexicano, é muito ainda para remar.

Hulkenberg no trecho do estádio, antiga Peraltada. Alemão voltou a somar pontos depois de muito tempo, terminando imediatamente a frente de Perez (Motor Racing)

Hulkenberg no trecho do estádio, antiga Peraltada. Alemão voltou a somar pontos depois de muito tempo, terminando imediatamente a frente de Perez (Motor Racing)

– A Haas continua mostrando as armas para a estréia na categoria, na próxima temporada. Já tinha confirmado Romain Grosjean meses atrás e, agora, chama para o batalhão o jovem mexicano Esteban Gutierrez, que regressará a F1 depois de uma desastrosa temporada na Sauber, no ano passado. Espera-se ansiosamente como será esta equipe Haas, e pede-se de joelhos, mesmo sem grandes pretensões, que não seja uma nova Manor.

Bernie Ecclestone bateu o pé e deu com o regulamento nas fuças de Ron Dennis nesta última. O motivo? As pretenções da Red Bull de contar com os propulsores da Honda para 2016, o que está enfurecendo a alta cúpula da McLaren, em prospecções de grandes mudanças para o próximo ano. Bem, uma coisa pode ser certa, se o engenho for tão ruim como o deste ano, veremos a equipe do touro paraguaio fazendo companhia ao time de Working nas últimas fileiras do grid.

E falando na Red Bull…

MENINO DE MUZAMBINHO: Daniil Kvyat (Red Bull)

Daniil Kvyat: Só faltou um motor mais forte. Fora isso, uma prova combativa, andando entre as cobras mais bem equipadas e a frente de Riccardo (Getty Images)

Daniil Kvyat: Só faltou um motor mais forte. Fora isso, uma prova combativa, andando entre as cobras mais bem equipadas e a frente de Riccardo (Getty Images)

Foi o quarto, é verdade, mas o russo da Red Bull está evoluindo de prova a prova, mesmo diante de um panorama tão desfavorável como o do time austríaco. Largou bem no México, soube lutar com Massa nas primeiras curvas e andou grande parte da prova, e com autoridade, em terceiro, imediatamente a frente do companheiro Daniel Riccardo, sempre o mais lembrado como o futuro campeão da nova era.

Kvyat começou o ano perdido, ainda tentando achar o rumo diante de um time que foi sendo desmantelado aos poucos graças aos problemas crônicos do V6 da Renault e a procura por uma nova fornecedora de engenhos. Fora este ponto, ainda tinha o fator Riccardo dentro de casa para lutar contra e mostrar o valor que tinha. Foi o que foi fazendo de GP em GP. Na Hungria, chegou em segundo, no melhor resultado de um russo na F1, e no México, faltou apenas um motor mais forte para duelar com Bottas pelo pódio.

No entanto, valeu a prova do russo. Fez bonito com pouco equipamento, terminou na frente do companheiro e andou no meio das cobras. O jovem garoto russo mostra que tem tanto cacife quanto o companheiro da terra dos cangurus.

FORMULA COMIC (por Douglas Sardo)“ay, ay, ay, canta y no llores…”

El Mariachi Tragico McLaren de Working... Apresentando Don Ron, señor Nandito e señor Jensito (Douglas Sardo)

El Mariachi Tragico McLaren de Working… Apresentando Don Ron, señor Nandito e señor Jensito (Douglas Sardo)

RETRO: Pedro, el último caballero

71 pontos em 54 GPs, duas vitórias e sete pódios. Números de um promissor piloto, assim como era Pedro Rodriguez (Sutton)

71 pontos em 54 GPs, duas vitórias e sete pódios. Números de um promissor piloto, assim como era Pedro Rodriguez (Sutton)

Sem dúvida, se a F1 tem um espírito tricolor que ainda perambula as páginas da história do circo, este alguém atende pelo nome do último antes de Perez a carregar la tri no macacão. Trata-se de Pedro Rodriguez, talvez um dos grandes nomes da F1 em fins dos anos 60 e começo dos 70. Na breve carreira na F1 foram apenas 54 GPs, mas bem marcados com 71 pontos, sete pódios e duas vitórias (Africa do Sul, 1967 Bélgica, 1970).

Nascido em 1940, era o mais velho dos dois irmãos que, anos mais tarde, emprestariam o sobrenome ao autódromo da capital. Logo no começo da carreira no automobilismo, teve de passar pela dor maior de perder o irmão mais novo, Ricardo, em um gravíssimo acidente nos treinos do GP caseiro de F1, em 1962. Corrida que ainda não contava pontos para o mundial. Ricardo Rodriguez é, até hoje, o piloto mais jovem (20 anos) a morrer em uma corrida da categoria.

Pedro não se deixou abater, mesmo quase abandonado a categoria bateu o pé e enfrentou o trauma, vencendo as 24 Horas de Daytona meses depois e estreando no fim daquele mesmo 1962 na F1, com uma Lotus, nas provas nos EUA. Teve passagens pela Ferrari e pela Cooper, nesta última conseguindo a primeira vitória na carreira, em Kyalami, Africa do Sul, em 1967, tirando o doce do primeiro lugar do surpreendente rodesiano John Love. O tento de Rodriguez foi um assombro para a época.

Rodriguez acelera o BRM na subida da lendária Eau Rouge, em 1970. Seria a segunda e última vitória dele na F1 (Reprodução)

Rodriguez acelera o BRM na subida da lendária Eau Rouge, em 1970. Seria a segunda e última vitória dele na F1 (Reprodução)

Mas a equipe onde se destacaria na F1 seria mesmo a BRM, para onde se mudaria em 1968 e continuaria a assombrar o circo como um jovem talento a ser notado. Foi naquele ano que conseguiu o melhor resultado em um GP mexicano, quarto lugar na prova vencida por Graham Hill, que seria campeão naquele ano justo naquele mesmo GP. Venceria mais uma vez em 1970, numa surpreendente performance no antigo Spa-Francorchamps, na Bélgica. Rodriguez também teve parte na primeira vitória de Emerson Fittipaldi, em Watkins Glen. Foi ele que quase venceu a prova naquele dia, mas acabou cedendo a ponta ao brasileiro por conta de uma parada nos boxes para reabastecimento.

No entanto, como de costume de muitos profissionais do volante da época, Rodriguez dividia o tempo da F1 com os protótipos, conseguindo inúmeros sucessos em diversas provas, como as 24 Horas de Le Mans de 1968. Grande parte destes feitos foram conquistados pela Porsche e pela Ford, com o mítico GT40. Foi uma destas corridas, em Norisring, Alemanha, que perderia a vida aos 31 anos, em um trágico acidente com a Ferrari 512M que pilotava. A morte foi justo em 1971, ano em que vinha muito bem com a BRM na temporada de F1.

A Ferrari 512M de Pedro na prova Intersérie de Norisring. Ele morreria num acidente voltas depois (Grande Premio)

A Ferrari 512M de Pedro na prova Intersérie de Norisring. Ele morreria num acidente voltas depois (Grande Premio)

Foi-se o talento, ficou a lenda, imortalizada junto do irmão no nome do principal palco do esforçado e colorido automobilismo mexicano.

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