Chuvas: Os boatos que não somem com a água

A chuva cai em Blumenau. Em alguns tempos, é sinal de alerta. Momento dos boateiros aparecerem com as invenções de sempre (Jaime Batista)

A chuva cai em Blumenau. Em alguns tempos, é sinal de alerta. Momento dos boateiros aparecerem com as invenções de sempre (Jaime Batista)

Basta aparecer uma condição favorável para qualquer tipo de tragédia e eles aparecem como urubus na carniça. Hoje,  beneficiados com as facilidades da internet e dos meios mobile de comunicação imediata, os fabricantes do terror por encomenda seguem a risca o que os antecessores já faziam desde os idos de 1983, e com ainda mais intensidade: Promover a histeria desnecessária numa cidade que já tem traumas demais para se preocupar com boatos.

Na última cheia, há algumas semanas atrás, foi necessário até a Prefeitura de Taió vir a público para desmentir os boateiros de plantão, que espalhavam aos quatro ventos que a barragem da cidade estava ou rompendo ou vertendo um grande volume de água, muito superior ao que estava passando por sobre a estrutura. Não é a primeira vez, como bem falei. Conversando com os antigos, eles mesmos comprovam que boatos sobre a barragem de Taió não são coisa de hoje.

O verter da barragem de Taió na cheia do último dia 22/10. Para os boateiros, a estrutura, em funcionamento desde 1976, rompeu-se pela enésima vez desde 1983 (Felipe Ferrari)

O verter controlado da barragem de Taió na cheia do último dia 22/10. Para os boateiros, a estrutura, em funcionamento desde 1976, rompeu-se pela enésima vez desde 1983 (Felipe Ferrari)

Mas vamos voltar a nossa situação. Mesmo depois da última grande cheia, e com o El Niño de hóspede há alguns meses, as informações sem fundamento e erradas continuam pipocando. Os boateiros falam em previsões vindas dos EUA, uma enchente que vai arrasar Santa Catarina e outras tantas sandices mais, até mesmo errando dados históricos – em um dos áudios fala-se que a enchente será maior que a de 1993. Há quem ainda acredite e queira provar para você e para a imprensa que o cerca que está errado e que alguém está escondendo a verdade.

E o pior, os boateiros de plantão acabam tirando, muitas vezes, a credibilidade de quem procura ajudar de forma verdadeira, com informações de fontes oficiais e indicadores dos órgãos especializados. A BOINA esteve na cobertura das chuvas e ainda o está meio que em forma de vigilância. Não vou duvidar, como editor-chefe deste espaço, que também fui vitima de desconfiança, embora mantendo-me sempre antenado as informações relatadas pela prefeitura e pelos órgãos de medição e resgate. Isto é fazer um jornalismo sério, comprometido com o fato verídico e com a prestação de serviço a comunidade que nos prestigia nos momentos de calma e tranquilidade.

Vapor Blumenau II ancorado na entrada da Beira-Rio na cheia de 1984. Boataria e agitadores do "terror por encomenda" já provocam alarmas desde os anos 80 (Arquivo Histórico)

Restaurante Flutuante Blumenau II ancorado na entrada da Beira-Rio na cheia de 1984. Boataria e agitadores do “terror por encomenda” já provocam alarmas desde os anos 80 (Arquivo Histórico)

Então, vamos raciocinar. Desde a enchente de 1983 os mecanismos de alerta no Vale do Itajaí tem se aperfeiçoado de forma contínua e cada vez mais perfeita. É possivel prever hoje, com quase 10 horas de antecedencia, o tempo, as condições de chuva e se teremos cheia ou não. E vale lembrar que a palavra previsão, que vem do verbo prever, não significa muitas vezes uma certeza. Errar também faz parte do jogo, ainda mais se for para a tranquilidade.

Após 2008, a preocupação mudou de olhares. O rio está sob controle no que diz respeito a possíveis cheias futuras. Os olhos se voltam agora para as encostas, onde a terra encharcada e a falta de sol podem ocasionar escorregamentos. É um novo processo de aperfeiçoamento de trabalhos que os órgãos competentes, como a Defesa Civil, iniciaram e seguem melhorando.

Não é em tudo que se pode desconfiar das autoridades, como muitos pregam nos boatos. Basta observar o trabalho tanto da Defesa Civil quanto de órgãos como o Alertablu (Sistema de Monitoramento e Alerta de Eventos Extremos de Blumenau) e o Ceops (Centro de Operação do Sistema de Alerta), que tem desempenhado com extremo rigor e eficiência as previsões e monitoramentos, seja do rio, seja das encostas.

Coutinho: Apesar das previsões "que assustam", um senhor profissional na Climaterra (Facebook)

Coutinho: Apesar das previsões “que assustam”, um senhor profissional na Climaterra (Facebook)

Os meteorologistas também são peça-chave nas previsões, embora algumas declarações soem como profecias de Nostradamus aos ouvidos mais aflitos. Ronaldo Coutinho, velho amigo dos tempos de RICTV Record, sempre é um dos mais ouvidos e procurados nos tempos de chuvas. As previsões soam proféticas em vezes, como a última em que o agrônomo da Climaterra e patrimônio de São Joaquim soltou. Foi no dia 25 de outubro passado, quando afirmara que as chuvas poderiam causar até uma ou duas enchentes mais no Vale.

Assusta? A qualquer um de Blumenau e do Vale assusta muito. Mas vale frisar que são previsões e que as previsões podem se concretizar como também podem furar. Coutinho é um senhor profissional além de um cara do mais fino trato e estima, assim como tantos meteorologistas que tem a função importante de nos antever o tempo e o que isto pode ocasionar. Ele mesmo alertou que a previsão para tantos dias pode ser imprecisa, e se ele mesmo falara de um risco alto em dez dias, sendo a matéria publicada pelo Farol Blumenau data de 25/10, estamos respirando mais tranquilos, pelo menos por hora.

Alertablu, uma das melhores combinações de monitoramento e informação do estado. Resultado do aperfeiçoamento constante da cidade na prevenção e vigilância de rios e chuvas desde 1983 (Twitter)

Alertablu, uma das melhores combinações de monitoramento e informação do estado. Resultado do aperfeiçoamento constante da cidade na prevenção e vigilância de rios e chuvas desde 1983 (Twitter)

As chuvas ainda continuam a nos preocupar, e vão continuar sempre que elas voltarem em grande intensidade e nesta situação em especial, com o Itajaí-Açu ainda ligeiramente alto. No entanto, vale muito o conselho quase obrigatório de sempre se procurar as fontes oficiais de informações. Defesa Civil do município, sites como o Alertablu ou Ceops

Naturalmente, vale acompanhar também as últimas informações da sempre pronta imprensa do Vale. Ela que já tem na bagagem a experiência de ter lidado com tantas e tantas tragédias climáticas em nosso cantinho de Santa Catarina. Claro, verificando-se a procedência da informação em algum portal de notícia que você não conheça bem ainda, pode estar por detrás dele algum irresponsável sem noção da notícia certa.

Mas amigo, conselho, infelizmente só segue quem quiser. Quem me ouviu não vai hesitar em ir na onda dos boatos. A quem não me ouviu, vai continuar se assustando e se alarmando com o terror que lhe foi encomendado. E a quem faz boato, o que é uma coisa que infelizmente não vai acabar tão cedo, vai continuar a procura de vítimas para acreditar nas histórias fantasiosas que passa, além de sorrir a cada curtida manchada de medo que recebe no Facebook.

E tenho dito.

Um comentário sobre “Chuvas: Os boatos que não somem com a água

  1. André, bela postagem sobre os boatos infundados sobre as barragens.
    Observação, apesar do povo chamar de Vapor Blumenau II, não é o correto. O correto é Barco Blumenau II, longe de ser Vapor. Vapor é o qu esta´na prainha.
    Adalberto Day cienstista social e pesquisado da história em Blumenau.

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