Gramming & Marbles: Rosberg confirma o vice em corrida morna no Brasil

Luto pela França: Apesar de separada pelo oceano, a F1 deixou o recado de conforto aos vitimados pelos bárbaros atentados. Mas o esporte vence, assim como vencerá sempre na terra da bleu-blanc-roube (Rodrigo Berton / Grande Prêmio)

Luto pela França: Apesar de separada pelo oceano, a F1 deixou o recado de conforto aos vitimados pelos bárbaros atentados. Mas o esporte vence, assim como vencerá sempre na terra da bleu-blanc-roube (Rodrigo Berton / Grande Prêmio)

Interlagos cheio, lembranças da França e nada de emoção

Se os pilotos tinham motivo para sorrir neste fim de temporada é que uma das pistas favoritas de 7 em cada 10 pilotos e ex-pilotos da F1 ainda não havia chegado. E ela chegou, o desafiador, seletivo, complicado, prazeroso e, por que não, tradicional traçado de Interlagos. Foi a 42ª edição válida da prova (exclui-se a corrida de 1972, extracampeonato) que, diferentemente de alguns anos, foi extremamente morna e sem emoções, salvo alguns momentos mais marcantes durante o fim de semana paulistano.

Um destes momentos, sem dúvida, deixou pilotos, organizadores, membros das equipes e todos que estavam presentes um tanto mais sentidos. Enquanto a categoria repousava em São Paulo, tiros e bombas colocavam Paris, novamente, no clima do medo que já havia tomado a cidade-luz em janeiro último. Não tinha como se parecer inerente ao que acontecera na França, o baque foi em escala mundial e a F1, como esporte (e o esporte como propagador da união e da paz), não teve como deixar passar.

Pilotos levaram a hashtag #prayforparis, Romain Grosjean, que mora perto de um dos cafés atingidos pelos ataques em Paris, apresentou um semblante entristecido e correu a prova com uma braçadeira de luto com a bandeira francesa. Alias, a bleu-blanc-rouge foi a companheira deste fim de semana, tanto na parada dos pilotos quanto no pódio, junto da tarja preta que expressa o sentimento do mundo inteiro perante ao barbarismo de loucos insanos que levou vidas e escureceu a mais bela das capitais do planeta, pelo menos neste domingo.

Mas o esporte vence sempre. O esporte não se deixa abater diante do terror e do medo. Vence barreiras, traz o sorriso, a emoção e propaga ao mundo que estar juntos, unidos e sorrindo é a melhor fórmula contra a tristeza, os loucos e os tiranos sanguinários. E sendo assim, vamos falar de esporte e de velocidade, já que a F1 segue o curso e falta ainda uma parada para o adormecer de 2015.

Nico carimba vice e tira o doce de Hamilton

Rosberg celebra a segunda seguida neste fim de ano na F1. Domingo em Interlagos teve, além de Nico, festa da torcida, lembranças da França mas faltou emoção (Getty Images)

Rosberg celebra a segunda seguida neste fim de ano na F1. Domingo em Interlagos teve, além de Nico, festa da torcida, lembranças da França mas faltou emoção (Getty Images)

O fim de temporada tem sido muito positivo para a moral de Nico Rosberg. Depois da conquista regada a tequila no México, o alemão da Mercedes chegou ao Brasil pronto para carimbar o que parecia ser seu por direito, o vice-campeonato de 2015. Apesar do fracasso na briga direta com Lewis Hamilton e da avalanche de criticas (este espaço também não escapou de alfinetar Rosberguinho), Nico centrou os pensamentos, fez uma prova consistente e garantiu o segundo posto na tabela com méritos.

Alias, o fim de semana da Mercedes soou um tanto maluco, se for olhar bem o cerne da coisa. O time das flechas de prata só pode contar com Hamilton na quinta-feira, ainda inspirando algum cuidado de saúde. O inglês bateu o carro num rolê em Mônaco e ainda teve febre antes de viajar para o Brasil. Se atrasou, tomou voltas rápidas de Rosberg e pouco ameaçou o companheiro na prova. Soou como inofensivo, faltou um pouco de pimenta de Lewis, se ele realmente queria honrar o ídolo, Ayrton Senna, e vencer na casa dele.

Hamilton teve uma semana louca. Acidente em Mônaco, febre e saraivadas de Rosberg na pista (Getty Images)

Hamilton teve uma semana louca. Acidente em Mônaco, febre e saraivadas de Rosberg na pista (Getty Images)

No resumo da ópera, diz-se muito que as vitórias que Rosberg tem conquistado podem ajudar o próprio psicológico no que diz respeito a se preparar para a briga no ano que vem. Superar os erros pode até ter vindo tarde demais, mas parece estar ajudando o alemão, que ainda sonha em ser campeão como o pai. E que seja mesmo, ninguém com potencial para louros gostaria de ser tri-vice, como Nigel Mansell.

McLaren brinca e se diverte

Se, na pista, o desempenho da pipoqueira da Honda tem tornado o 2015 da McLaren uma sucessão de melancolias, fora dela os pilotos já tratam o fim de ano como motivo para festar e descontrair, talvez buscando um relaxo depois de tantos problemas. Ao menos, foi este o espírito de Fernando Alonso durante os treinos, no sábado, provando que além de bom piloto é um verdadeiro showman.

Alonso no sol: Não são apenas as folhas que merecem uma fotossíntese (TV)

Alonso no sol: Não são apenas as folhas que merecem uma fotossíntese (TV)

Na saída dos boxes, mal fez três curvas antes do motor do carro quebrar. Sem pestanejos, encontrou uma cadeira do lado de fora da pista e por ali ficou, fazendo uma espécie de fotossíntese e assistindo o treino de camarote. Amante do calor e do sol, Alonso ainda brincou. Na próxima vez, preciso estar mais preparado. Vou ter de levar protetor solar ou algo assim, estava muito quente, disse.

Zoeira never ends: Alonso e Button foram os cômicos do fim de semana. Festando saudosamente no pódio de Interlagos (Twitter/McLaren)

Zoeira never ends: Alonso e Button foram os cômicos do fim de semana. Festando saudosamente no pódio de Interlagos (Twitter/McLaren)

Não dando-se por satisfeito, encontrou-se com o companheiro e também boa praça, Jenson Button, e seguiram juntos ao pódio vazio, festando e tirando fotos. Eu e Jenson passamos ao lado do pódio e dissemos que não íamos estar lá tão cedo. Resolvemos, então, que era uma boa ideia tirar uma foto, explicou o asturiano. A McLaren não perdeu a chance de emendar uma mensagem motivacional. Nós iremos voltar aqui um dia em breve. Disse, em postagem no Twitter da equipe.

Perde-se o carro, a FIA olha brava… Mas a piada, a McLaren não perde, mesmo com a melancolia de 2015.

Torcida lota, mas brasileiros tem pesadelo de verão em Sampa

Nasr terminou o primeiro GP do Brasil da carreira no circo em 13º. O melhor que o fraco Sauber pode fazer (Rodrigo Berton / Grande Prêmio)

Nasr terminou o primeiro GP do Brasil da carreira no circo em 13º. O melhor que o fraco Sauber pode fazer (Rodrigo Berton / Grande Prêmio)

É, já tivemos tempos de melhor sorte nas pistas, isto não é nenhuma dúvida. Hoje foi só mais uma prova destes azares constantes que vamos sofrendo já há algum tempo, e os Felipes tiveram outro fim de semana atribulado na F1. A começar pelos treinos, onde um atrapalhou o outro e sobrou para o mais novo, Nasr, que chegou a ser punido pela inconsequência. Na corrida, até poderia ter pontuado, mas o Sauber não é carro de brigar muito e se pedir demais, e o 13º lugar no fim do primeiro GP do Brasil da carreira no circo foi até consolador.

Para Massa, no entanto, foi ainda mais dolorido o ambiente acolhedor de São Paulo. Desde os primeiros treinos, o brasileiro não se entendeu com o Williams, sendo ainda seguidamente superado por um jovem e alucinado Valtteri Bottas, que em boa corrida bisou o quinto lugar. Felipe sênior permaneceu a maior parte da prova brigando contra o carro sem passar do oitavo lugar, onde terminou. No entanto, por uma irregularidade nos pneus traseiros, a FIA o excluiu da classificação geral.

Problemas de acerto, corrida apagada e desclassificação. O que faltou mais para der errado à Massa em Interlagos? (Getty Images)

Problemas de acerto, corrida apagada e desclassificação. O que faltou mais para der errado à Massa em Interlagos? (Getty Images)

Pode-se dizer que esta punição de Massa foi a “cereja do bolo” neste dia de azares? Talvez sim. Mas não se pode levantar a voz ao torcedor tupiniquim, que mesmo com tantos revezes, lotou o autódromo, fazendo lembrar dia de futebol. Teve quem veio torcer por algo, mas muitos vieram no embalo da festa, com o sorriso na cara e o clássico boné do Banco Nacional na cabeça, como eterna lembrança de Ayrton Senna, aquele que motivava, e motiva até hoje, esta leva de brasileiros a ir a Interlagos a cada passagem do circo por aqui.

Um trauma que virou lembrança, mas que ainda é confundido como trauma e medo por outros tantos. Assim caminha o Brasil na F1 de hoje.

Torcida brasileira e os bonés do falido Banco Nacional: Lembranças de Senna e festa digna de domingo de futebol (Rodrigo Berton / Grande Prêmio)

Torcida brasileira e os bonés do falido Banco Nacional: Lembranças de Senna e festa digna de domingo de futebol (Rodrigo Berton / Grande Prêmio)

MIUDAS

– A Globo voltou a transmitir a F1 de forma integral, somando treinos oficiais (também, se não o fizesse no Brasil…). No entanto, Galvão Bueno, longe das corridas há algum tempo, andou meio sem forma. Isto ainda sem contar a perdição da dupla de repórteres no grid que, ora interrompia o veterano narrador na cabine, ora deslizava na importunação aos pilotos. Destaque para o vácuo homérico que Marcelo Courrege tomou de Bernie Ecclestone. O velho chefão da categoria não é lá muito de imprensa na cara, deve-se alertar.

Verstappen, por fora, dobra a Perez numa linda manobra no S do Senna. Um holandês de talento provando isto novamente (Getty Images)

Verstappen, por fora, dobra a Perez numa linda manobra no S do Senna. Um holandês de talento provando isto novamente (Getty Images)

Max Verstappen mostrou, outra vez, que é um talento a ser observado com todos os olhos possíveis na F1 atual. Apesar do nono lugar, fez outra prova combativa e andou bem, sendo protagonista de uma belissima ultrapassagem sobre Sergio Perez, usando praticamente toda a extensão do S do Senna na manobra. Digno de nota é a frase de Galvão Bueno, salientando que o garoto fez muito mais este ano do que o pai dele em tanto tempo de F1. Mentira nenhuma, se comparar Max a Jos.

Mas… Não foi de Verstappen o prêmio de hoje…

MENINO DE MUZAMBINHO: Nico Rosberg (Mercedes)

Determinado, renovando a moral e o psicológico e dizendo que está vivo. Se Rosberg "morreu" para 2015, pode renascer em 2016, ainda mais com as boas atuações do fim de ano (Getty Images)

Determinado, renovando a moral e o psicológico e dizendo que está vivo. Se Rosberg “morreu” para 2015, pode renascer em 2016, ainda mais com as boas atuações do fim de ano (Getty Images)

Não há como negar tal galardão do G&M ao jovem alemão da Mercedes. Apesar da avalanche de criticas pela perda do título de 2015 de forma tão fragorosa, Nico parece ter se reencontrado com a velha combatividade que o fez ser ameaça para Hamilton nas primeiras provas da temporada. Venceu duas provas seguidas desde o derrape nos EUA com autoridade, garantiu o vice sem moleza e parte para renovar-se a tempo de entrar em campo novamente em 2016, atrás do sonhado título.

As manobras de Rosberg já tem provocado uma certa chateação de Hamilton, visivelmente anulado pelo companheiro aqui e na corrida anterior, no México. Em Interlagos, por mais perto que pudesse estar, o tricampeão não encaixava um bom bote, sem falar no desgaste dos pneus que acontecia.

Hamilton bem que tentava, mas esbarrava num determinado Rosberg, no melhor da briga de ambos na prova (Rodrigo Berton / Grande Prêmio)

Hamilton bem que tentava, mas esbarrava num determinado Rosberg, no melhor da briga de ambos na prova (Rodrigo Berton / Grande Prêmio)

Nas estratégias, Rosberg não deixou a peteca cair, e soube usa-las bem a favor próprio para conquistar o feito e, de quebra, tirar do companheiro por mais um ano o sonho de vencer na terra do ídolo de infância, como dissemos acima.

Se Rosberg está mesmo renovando-se para o próximo ano, para chegar com respeito e moral elevada, não se sabe ao certo ainda. Certeza mesmo é que o alemão não pretende dar mole em Abu Dhabi. Ao menos, pretende.

FÓRMULA COMIC (Douglas Sardo):  F1 emocionante… Soooooooó piada boa!

Formula Um está na pior, até mais do que a atual Praça É Nossa. Em audiência perdeu para a Hora do Faro (quem é Faro?)... No banco, Alonso troca uma com nosso amigo, Calzalbé! (Douglas Sardo)

Formula Um está na pior, até mais do que a atual Praça É Nossa. Em audiência perdeu para a Hora do Faro (quem é Faro?)… No banco, Alonso troca uma com nosso amigo, Calzalbé! (Douglas Sardo)

RETRO: Recordações do patrono Pace

Jeito de aviador com galã de novela, mas um exímio acertador de carros e piloto versátil. Este era José Carlos Pace, um campeão sem titulo, cujo o destino não esperou um troféu de melhor do mundo (Reprodução)

Jeito de aviador com galã de novela, mas um exímio acertador de carros e piloto versátil. Este era José Carlos Pace, um campeão sem titulo, cujo o destino não esperou um troféu de melhor do mundo (Reprodução)

Quem entra pelas porteiras de Interlagos para contemplar o circo da F1 ano após ano, invariavelmente pergunta, se desinformado é, quem foi José Carlos Pace. Este paulista de cabelos cheios, óculos escuros e jeito de galã de novela da Globo, pode não ter tido a sorte necessária para ser um campeão da categoria, mas é recordado como um ícone entre os grandes dos anos 70, além de um exímio acertador de carros. Um talento que, infelizmente, partiu cedo demais deste mundo.

E justo em época de GP do Brasil, lembrar de Pace sempre traz algumas coisas mais na bagagem, sobretudo neste ano, quando celebra-se os 40 anos da primeira e única vitória do Moco na categoria. Marcado também por correr com a Ferrari em protótipos e uma lenda nas pistas brasileiras, Pace estreou na F1 em 1972, com um March da equipe do ainda jovem Frank Williams.

O March de Frank Williams nas mãos de Pace, em 1972. Ano de estreia foi complicado, assim como na Surtees, em 1973. Mas o talento de Moco o permitia aprontar, vez em quando (Reprodução)

O March de Frank Williams nas mãos de Pace, em 1972. Ano de estreia foi complicado, assim como foi na “cadeira elétrica” Surtees (abaixo), em 1973. Mas o talento de Moco o permitia aprontar, vez em quando (Reprodução)

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Em 1973, seguiu para a Surtees, onde passou tempos complicados com um carro inferior, mas soube aprontar quando devia. Como quebrar por três vezes o recorde do inferno verde de Nurburgring e terminar em terceiro no GP da Áustria. Estava na Brabham desde a metade de 1974, e naquele mesmo ano chegaria em segundo em Watkins Glen, prova que marcou o bicampeonato de Emerson Fittipaldi. Seria no time de Bernie Ecclestone que Moco escreveria a história em Interlagos, em 1975.

Foi uma corrida medida, bem dosada, mas ofensiva, contando também com a sorte num erro de Jean-Pierre Jarier, com a Shadow, que liderava a prova, para vencer pela primeira e única vez no autódromo. Ao lado de Emerson Fittipaldi, fez no mesmo dia a primeira dobradinha do Brasil na categoria. E, como cereja no bolo, Wilson Fittipaldi completou a primeira corrida da Copersucar na história. Que fim de semana quente foi aquele!

Pace, o Brabham e Interlagos em 1975. Uma combinação vencedora numa prova memorável ao automobilismo brasileiro. Abaixo, no pódio, Moco levanda a bandeira do Brasil, junto da mulher, Elda (de azul), Emerson (esquerda) e Jochen Mass (direita, derramando champagne) (Reprodução)

Pace, o Brabham e Interlagos em 1975. Uma combinação vencedora numa prova memorável ao automobilismo brasileiro. Abaixo, no pódio, Moco levanda a bandeira do Brasil, junto da mulher, Elda (de azul), Emerson (esquerda) e Jochen Mass (direita, derramando champagne) (Reprodução)

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Nem tudo era fácil, a Brabham mudava de equipamento em 1976, trocando o motor Ford pelo Alfa Romeo. Mas em base de muita paciência e técnica, Moco começou a refazer o projeto e acerta-lo redondamente, terminando a temporada como uma possível ameaça a Niki Lauda na briga pelo título em 1977. Mas um acidente de avião na Serra da Cantareira, em Mairiporã (SP), tirou-lhe a vida e o futuro promissor.

Em 1977, Moco tinha um Brabham redondo, depois de um ano de acertos ao motor Alfa Romeo, como foi em 1976. Mas a morte veio antes de um futuro brilhante (Reprodução)

Em 1977, Moco tinha um Brabham redondo, depois de um ano de acertos ao motor Alfa Romeo, como foi em 1976. Mas a morte veio antes de um futuro brilhante (Reprodução)

No entanto, não apagou dos fãs do automobilismo a lembrança do determinado e combativo Moco, que dez anos depois da fabulosa vitória no GP brasileiro, emprestaria o nome ao Autódromo de Interlagos. Ficou a lembrança de um talento ímpar da F1, que foi-se cedo demais para ser campeão, mas que soube marcar o nome na história do circo e do automobilismo mundial.

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