Adiós, Playboy… (e ola, novamente, Playboy!)

Entenda o que quiser, este logo e este coelho estão mudando. Símbolos da sempre ousada e sofisticada Playboy, que está em metamorfose nos EUA e de despedida no Brasil (não esqueçam a surpresa que mencionei) (Reprodução)

Entenda o que quiser, este logo e este coelho estão mudando. Símbolos da sempre ousada e sofisticada Playboy, que está em metamorfose nos EUA e de despedida no Brasil (não esqueçam a surpresa que mencionei) (Reprodução)

(original escrita na manhã de segunda-feira, 07/12. Tem uma “surpresa” no fim da matéria. Vá lendo, hehehe)

Ela foi o motor da imaginação (e do onanismo, por que não?) de uma juventude que, hoje, são avôs, tios, empresários e outras tantas coisas. Nela, circularam as mais desejadas mulheres do Brasil, em ensaios deliciosamente belos, sem contar as entrevistas impactantes com personalidades da politica, da TV e de outros setores. Era a pura diversão masculina em tempos onde o computador não mandava tanto. Mas, a partir deste mês, ela será apenas uma nota de um passado que já se vai e que pede mudanças constantes. No 12º mês de 2015, depois de 40 anos no imaginário e na boca dos bons camaradas, a Playboy diz adiós aos brasileiros.

Era um fim esperado, talvez possa ser dito isto. A principal roda-motriz da publicação sempre foram os ensaios sensuais de modelos, atrizes, cantoras e tantas-outras-sei-la-o-que desejadas pela chimangada (como diria Adoniran Barbosa), que esperava em vezes ansiosa a revista parar em bancas e jornaleiros. Mas a competição com o conteúdo pornográfico na internet, a queda de publico e circulação e os custos proibitivos dos royalties da marca americana fizeram a Editora Abril bater o martelo e decidir pela morte do periódico, juntamente com as revistas Men’s Health e Women’s Health. Saudade dos fãs, isto sem duvida deixará, mas é vida que segue, mundo que se moderniza como tudo e o passado se escreve em mais uma página dourada.

Um protestante, um animal e um desejo

Eis Hugh Hefner, fundador da Playboy, com o inconfundível terno-robe vermelho bordô. Ex-soldado, filho de família protestante conservadora, foi até editor de revistinha infantil antes de se personificar como o legitimo playboy americano, ou o "pica das galaxias" daqueles tempos (Reprodução)

Eis Hugh Hefner, fundador da Playboy, com o inconfundível terno-robe vermelho bordô. Ex-soldado, filho de família protestante conservadora, foi até editor de revistinha infantil antes de se personificar como o legitimo playboy americano, ou o “pica das galaxias” daqueles tempos (Reprodução)

Originalmente, a Playboy surgiu nos recatados, mas já rebeldes, anos 50. Mais precisamente aparecendo pela primeira vez nas bancas dem dezembro de 1953. O estalo para a criação da revista partiu da cuca enluarada de Hugh Hefner, veterano do exercito americano, oriundo de uma família protestante conservadora e um cartunista de visão. Hefner esteve presente em um sem-numero de publicações, trabalhando como editor e cartunista, até mesmo em uma modesta revistinha infantil.

A primeira capa, em dezembro de 1953. Hefner precisou de empréstimos e empenhos para conseguir realizar o desejo, especialmente o de colocar Marilyn Monroe nua como primeira a enveredar pela publicação (Reprodução)

A primeira capa, em dezembro de 1953. Hefner precisou de empréstimos e empenhos para conseguir realizar o desejo, especialmente o de colocar Marilyn Monroe nua como primeira a enveredar pela publicação (Reprodução)

Mas naquele dourado 1953, Hefner bateu o pé e resolveu seguir o próprio nariz, lançando uma revista de entretenimento sofisticada para o público masculino. Em um dezembro de frio e natal, a fogosa e inesquecível Marilyn Monroe emprestava as curvas e o indefectível sorriso para a primeira capa da revista na história. Um projeto que Hefner conseguiu a duras pernas, com empréstimos e empenhos incontáveis, mas que daria muito certo.

A Playboy Enterprizes rasgou o livro do conservadorismo e virou o cartaz dos homens sofisticados e em busca de leituras inteligentes, mesmo que o grande chamariz eram os ensaios sensuais que escandalizavam conservadores e mexiam com o imaginário dos jovens. Hugh Hefner virou a verdadeira personificação do legitimo playboy, não menos sendo clicado em fotos com o inconfundível terno-robe bordô, quepe e cercado de belas e fabulosas coelhinhas na mansão que possui, em Holmby Hills, na cosmopolita Los AngelesCalifórnia. Alias, vale frisar que o coelho, simbolo universal da Playboy foi escolha do próprio Hefner, que dizia ser o mimoso animal o playboy da floresta, dando a pinta de sofisticação.

Hefner e suas coelhinhas na porta da mansão do fundador da revista, na Califórnia. Uma imagem corriqueira e icônica do playboy americano, diga-se de passagem (Reprodução)

Hefner (de vermelho) e suas coelhinhas na porta da mansão do fundador da revista, na Califórnia. Uma imagem corriqueira e icônica do playboy americano, diga-se de passagem (Reprodução)

No Brasil: Dribles na ditadura e vitrine das desejadas

A primeira Playboy, ainda sob o nome de A Revista do Homem, em agosto de 1975. Nome alterado e ensaios maquiados eram as armas de Victor Civita para driblar a censura do regime militar (Mercado Livre)

A primeira Playboy, ainda sob o nome de A Revista do Homem, em agosto de 1975. Nome alterado e ensaios maquiados eram as armas de Victor Civita para driblar a censura do regime militar (Mercado Livre)

A Playboy já era um sucesso inegável nos EUA dos anos 70 quando a Editora Abril, de olho em um novo tipo de entretenimento aos leitores, resolveu trazer a novidade para dentro de nosso cercado. A justificativa para lançar o periódico no país, segundo o presidente da editora Victor Civita, era simples: É uma revista para ajudá-lo a tornar-se completo. Para atualizá-lo em todas as áreas de seu interesse inteligente: esporte, aventuras, arte, cinema, moda, literatura. E naturalmente, nas doses certas, um outro assunto de grande interesse: a mulher. Precisa mais?

No entanto, lançar uma publicação com nus femininos como carro-chefe num Brasil fechado pelo regime militar podia soar como impossível para aqueles tempos, onde o país ainda era outro, bem mais recatado e ainda aprendendo a lidar com as ideias dos jovens cabeludos que pediam liberdade. Mas Civita e os editores pioneiros da revista não pestanejaram, fizeram dribles homéricos e conseguiram trazer a publicação ao país em agosto de 1975, sob o nome de A Revista do Homem.

Haja cabeleira

Haja cabeleira!  A modelo Debra Jo Fondren estampa a capa da primeira edição da Playboy como Playboy no Brasil em julho de 1978. Temor dos puritanos, alegria dos camaradas (Reprodução)

O nome era outro, mas o conteúdo era quase que religiosamente o mesmo da revista americana. Este foi apenas um dos tantos dribles que Civita o fez diante do regime, onde conseguiu dobrar ao então ministro da justiça Armando Falcão, que já bradava alto que não autorizaria nenhuma publicação com o nome PLAYBOY no país, independente do conteúdo. Além disso, fotos eram cortadas ou retocadas, ensaios com garotas de camisa molhada eram destaque, sendo formas de evitar a nudez explicita. Tempos duros, mas valorosos.

Em 1977, o regime foi abrandado com o início do processo de abertura iniciado pelo general Ernesto Geisel. Sendo assim, em julho de 1978, a Abril resolveu tirar a Playboy do armário definitivamente (sem besteiras, por favor), expondo ao país o nome tão temido pelos conservadores e tão esperado pelos marmanjos e engravatados. Para a primeira capa da Playboy brasileira, um ensaio importado dos States, o da modelo Debra Jo Fondren, conhecida, não apenas pelo corpo escultural, mas pela vasta cabeleira loura que ostentava.

Nas primeiras edições, os ensaios importados ainda eram maioria e destaque, mas aos poucos, a revista começava a desbravar de vez a mulher brasileira como o chamariz maior. Beldades daqueles idos como Lucélia Santos, Betty Faria, Vera Fischer e tantas outras começaram a tirar a publicação do canto das revistarias para ocupar o lugar de honra, tornando-se a mais vendida entre as publicações nacionais na época, com uma média de 400 mil exemplares vendidos.

Com esta saudável mania de trazer na capa as mais belas mulheres do país, a Playboy começou a virar vitrine das mais desejadas da nação a cada nova revista. Ensaios eram ofertados a cifras astronômicas, sendo alguns fragorosamente recusados pelas convidadas. Não importava a profissão que a bela seguia, fosse atriz, cantora, atleta, modelo, sei-la-o-que-mais, a repercussão, as vezes, ultrapassava a média.

O "hipnotizante" ensaio de Joana Prado, a Feiticeira, em dezembro de 1999. A mais vendida da Playboy no Brasil até então (Reprodução / Folha)

O “hipnotizante” ensaio de Joana Prado, a Feiticeira, em dezembro de 1999. A mais vendida da Playboy no Brasil até então (Reprodução / Folha)

Tamanhas foram estas ultrapassadas de média que, em dezembro de 1999, os homens ganharam um senhor presente de natal: Era o ensaio de Joana Prado, a Feiticeira do então programa H, apresentado por Luciano Huck na Bandeirantes, nos tempos de juventude do hoje senhor de Angélica. A publicação daquele mês ultrapassou com facilidade a marca de um milhão de revistas vendidas, sendo o recorde de vendagem da Playboy no país até hoje. Próxima dela, com a coroa de vice-campeã, estava outra coleguinha do H: Suzana Alves, a Tiazinha, que também bateu esta marca.

No entanto, soa pejorativo e piegas falar que a Playboy era apenas um mostruário de corpos femininos desnudos, embora isto fosse o carro-chefe de vendas e o rótulo maior para os puritanos. Durante estes 40 anos, a revista trouxe um conteúdo inteligente, com matérias sobre diversos assuntos do universo masculino e do entretenimento em geral, dicas e conversas apimentadas tratando sobre sexo, contos eróticos assinados por grandes escritores nacionais e entrevistas com nomes de grande monta das atualidades pelas quais a revista passou, mutas delas bombásticas, reveladoras e incisivas.

As entrevistas da revista quase sempre ficaram em segundo plano por conta dos ensaios sensuais, mas merecem destaque pela incisividade e conteúdo. Aqui, a entrevista com o ex-beatle Paul McCartney e a então esposa, Linda Eastman (Reprodução)

As entrevistas da revista quase sempre ficaram em segundo plano por conta dos ensaios sensuais, mas merecem destaque pela incisividade e conteúdo. Aqui, a entrevista com o ex-beatle Paul McCartney e a então esposa, Linda Eastman (Reprodução)

Personalidades como Fidel Castro, Ayrton Senna, Oscar Niemeyer, Fernando Henrique Cardoso, Angelina Jolie, Yasser Arafat e um sem-numero de artistas, esportistas, políticos, cantores e intelectuais já foram interrogados pelo coelho.

Leia aqui a entrevista com Ayrton Senna, em agosto de 1990.

Hora de desligar as câmeras

Foram 40 anos de Brasil, são 62 nos EUA e outros tantos idos pelo mundo, e as coisas foram mudando fora das páginas do periódico. O carro-chefe da revista – os ensaios sensuais – não mais atraiam como outrora. Mesmo depois de ter o império desafiado por publicações como Hustler e Penthouse (e Sexy, no Brasil), a Playboy parecia imbatível no erotismo que trazia, até pisarmos nos século XXI, onde a pornografia na internet se tornou um dos mais pesquisados itens do Google.

Fora isto, a Playboy Enterprizes também começou a jogar o jogo das concorrentes, com uma pitada a mais de profissionalismo. Conteúdo digital exclusivo para assinantes, canal de TV fechado com 24 horas de belas mulheres e sensualidade foram as jogadas feitas pela empresa americana e pela filial brasileira para se manter no jogo. No entanto, a revista foi ficando, perdendo circulação e tornando-se apenas uma nota de passado, não mais de presente.

A exuberância da salva-vidas mais bela da TV. Aos 48 anos de idade, Pamela Anderson será o último nu publicado pela Playboy nos EUA (Reprodução)

A exuberância da salva-vidas mais bela da TV. Aos 48 anos de idade, Pamela Anderson será o último nu publicado pela Playboy nos EUA (Reprodução)

Neste ano, a Playboy americana anunciou o fim dos ensaios sensuais nas publicações da revista, encerrando-os oficialmente neste mesmo dezembro de 2015. Para a honra de última a posar diante dos fotógrafos da revista (uma feliz profissão, deva-se bem dizer), a comitiva de Hugh Hefner não tinha outro nome em mente senão a mais famosa salva-vidas do seriado televisivo SOS Malibu, a deliciosa loura Pamela Anderson, que já foi capa da revista em 1989 (pela primeira vez) e em outras vezes mais.

Recebi uma ligação do advogado (de Hugh Hefner) que disse: ‘Não queremos mais ninguém. Não tem mais ninguém. Você pode fazer a última capa da ‘Playboy’?’. Fiquei tipo ‘Quê? É sério?’. Mas depois pensei que seria provavelmente uma coisa boa, disse a atriz e modelo. A edição com Pamela na capa, a última com um ensaio nu, chega as bandas yankees na sexta-feira (11/12).

No entanto, enquanto procura-se investir em entrevistas e conteúdo nos EUA, o Brasil assiste o despedir da revista dos quadros da Abril neste mês. Não se sabe ainda se a marca voltará a ser publicada sob a chancela de outra editora, mas por hora a despedida é a mais certa. Para a última capa, a publicação brasileira chamou a modelo gaúcha Luh Ferreira, conhecida como a paparazzo misteriosa . A responsabilidade é grande. Sempre fui fã da Tiazinha, Feiticeira, tenho as duas como referência. Sempre sonhei em fazer Playboy, mas nunca imaginei que seria como uma personagem e sendo a ultima capa, afirmou Luh.

Oculta por uma singela renda negra nos olhos, a fotografa Luh Ferreira - a paparazzo misteriosa - é a última capa da Playboy no Brasil pela Editora Abril (Reprodução)

Oculta por uma singela renda negra nos olhos, a fotografa Luh Ferreira – a paparazzo misteriosa – é a última capa da Playboy no Brasil pela Editora Abril (Reprodução)

Sendo (ou não) uma despedida definitiva, não tem como não negar que a Playboy cumpriu o papel de disseminar entretenimento e instigar a fantasia de adolescentes na flor da idade com louvor. Surgida no país na sombra da ditadura, soube se moldar, cativou e fantasiou gerações de homens deste Brasil afora e ainda hoje é sinônimo de belas mulheres e nus inesquecíveis, muito embora ela não deva ser lembrada só pelos nus.

Como tudo no mundo nesta roda da evolução, a Playboy é apenas mais uma nota das tantas mudanças que a vida e os meios em que estamos se modificam e se modernizam, e com este tipo de entretenimento não podia ser diferente. Se há alguma frustração nos corredores da revista, talvez seja a dos ensaios que nunca conseguira fazer, aqueles que o cachê era notícia de primeira página em jornais e páginas de fofoca, e que ficaram apenas no imaginário da macharia.

Respeitosamente, como admirador dos profissionais e espectador das belas mulheres (as quais não quero referenciar jamais como gostosas ou com outros adjetivos pejorativos do gênero), um reverenciável adiós. La se vai a Playboy para as páginas da história das revistas brasileiras. Uma página personal e merecida, deva-se salientar sempre.

Adendo: E eis que… a Playboy não morreu!

O fotógrafo André Sanseverino, o empresário Marcos de Abreu e Edson Oliveira. O trio que comandará os rumos da Playboy em 2016 (Reprodução / Folha)

O fotógrafo André Sanseverino, o empresário Marcos de Abreu e Edson Oliveira. O trio que comandará os rumos da Playboy em 2016 (Reprodução / Folha)

Sim, nós do jornalismo, quando somos surpreendidos com uma noticia, não importa a hora do dia, nos somos pegos por algumas sensações. Algumas de frustração (poxa, vou ter que corrigir o texto), outras de surpresa (cacetada, como isso?) e tantas outras que só quem trabalha com comunicação parece senti-las de forma especial.

Esta foi uma delas, por volta das 7h da manhã desta terça (08/12), enquanto terminava a postagem sobre o adeus da Playboy, eis que uma notícia chegou quase que fresca a meu conhecimento. É que a tradicional revista do coelinho, a qual fiz um ode aqui acima, não morrerá no Brasil. Isto mesmo, a Playboy apenas passará de mãos, partindo da Editora Abril para as mãos da empresa agora chamada Playboy Brasil Entertainement (PBB), controlada por três sócios: O fotógrafo de moda André Sanseverino, Edson Oliveira e o empresário Marcos de Abreu. A notícia foi confirmada nesta segunda última (07/12) pela Folha de São Paulo.

É, Luh... Não serás a última, infelizmente... (Reprodução)

É, Luh… Não serás a última, infelizmente… (Reprodução)

E ainda mais. A grande pergunta sobre a continuação da nudez na revista já foi respondida na primeira indagação, e com um sonoro sim. Segundo o próprio fotografo André Sanseverino, depois de questionado pela redação da Folha de São Paulo sobre se a revista seguiria ou não o rumo da homônima americana. Até pela sensualidade latina, a nudez tem tudo a ver com a gente, afirmou. Além disto, a nova empresa tem grandes planos, numa espécie de “resgate” da velha gloria da revista no país.

Sendo assim, que seja celebrada a permanência da publicação mais cultuada pelos camaradas de plantão em nossas bancas, jornaleiros e revistarias. E para não dizer que mudei o texto, segue ele originalmente acima, apenas acrescentando este adendo de última hora.

Obrigado pela compreensão e bom dia!

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