O sucesso: Reflexão sobre os 85 anos do “homem-sorriso” Silvio Santos

Eis Senor Abravanel... Ou melhor, eis Silvio Santos, sorrindo diante das colegas de trabalho. Personagem mítico da TV nacional e do mundo dos negócios completou 85 anos no último dia 12, apenas ficando mais velho, mas sem perder a malícia que lhe é caracteristica (Reprodução / SBT)

Eis Senor Abravanel… Ou melhor, eis Silvio Santos, sorrindo diante das colegas de trabalho. Personagem mítico da TV nacional e do mundo dos negócios completou 85 anos no último dia 12, apenas ficando mais velho, mas sem perder a malícia que lhe é característica (Reprodução / SBT)

Domingo após domingo, gravação após gravação, a rotina sempre foi a mesma e
continua assim sendo. Engravatado, com um topete preparado meticulosamente e
recheado de pilas nos bolsos do paletó, o velho carioca da Lapa adentra o estúdio, velho confidente de tantas empreitadas, onde as colegas de trabalho o aguardam para mais um divertido expediente, que para elas nem precisava terminar no apagar dos holofotes e câmeras.

O show deste comunicador é uma eterna caixa de surpresas, tudo pode acontecer além do previsível e roteirizado. Uma sucessão de bons sustos que tem até se tornado bem frequente, atraindo telespectadores atrás de um novo assunto a circular pelas redes. Sendo surpreendente ou não, a presença deste homem na TV brasileira dominicalmente ou durante a semana é religiosa, uma página de uma história de 55 anos que, neste último dia 12, completou 85 anos de vida, empreendedorismo nato, inventividade e sorrisos que parecem não envelhecer.

Afinal, depois de 85 primaveras, qual o segredo da longevidade e da esperteza de Silvio Santos?

Este jornalista não esconde do amigo leitor que passeia os olhos nesta crônica a admiração por este mítico comunicador, e não tem mesmo como esconder. Silvio Santos, o eterno jovem Senor, filho do grego de Salônica Alberto Abravanel e da turca Rebecca Caro (Abravanel), era apenas um simples garoto da Lapa, membro de uma irmandade de seis irmãos (além dele, as jovens Beatriz, Perla e Sara e os jovens Leon e Henrique) que na infância queria se divertir saindo da modesta Travessa Bentevi para curtir uma boa matinê nos cinemas de rua populares da época. Algo absolutamente comum numa criancice repleta de inocência, curiosidades e longe da frieza atual.

Camelôs nos idos da década de 40 na 25 de março, em SP. Silvio começou da mesma forma pelas ruas cariocas, lucrando fenomenalmente e demonstrando os dotes de comunicação que tinha (Reprodução)

Camelôs nos idos da década de 40 na 25 de março, em SP. Silvio começou da mesma forma pelas ruas cariocas, lucrando fenomenalmente e demonstrando os dotes de comunicação que tinha (Reprodução)

Mas, para toda a família simples e modesta que precisa se livrar das dívidas do mês, as crianças vão a luta cedo, e o jovem Senor partiu daquele canto escondido da Lapa para buscar o tostão para os pais e irmãos. Aos 14 anos já era um fabuloso camelô, um entre tantos arroz-de-festa no movimentado centro do Rio. Tudo começou observando um dos tantos profissionais das calçadas na tarefa de vender capinhas para título de eleitor. De tanto filosofar, comprou uma capa daquele sujeito e resolveu aprontar uma das suas, a primeira desta vida de negócios.

O oficial Abravanel, da infantaria dos paraquedistas do Exercito. Coragem nas alturas ajudou a dar a cara-tapa nas batalhas diárias pelos sonhos que tinha (Reprodução)

O oficial Abravanel, da infantaria dos paraquedistas do Exercito. Coragem nas alturas ajudou a dar a cara-tapa nas batalhas diárias pelos sonhos que tinha (Reprodução)

Empregou uma forma diferente de vender usando o dote de bom falador e articulador das palavras. Chamou clientes com uma lábia poucas vezes vistas nos colegas de profissão das ruas. O resultado foi claro, uma venda com mais de 150% de lucro, cobrando mais do que o vendedor anterior mas agregando algo além do que a capinha oferecia. Alias, negociar é dom de bom judeu-grego, vem do sangue helênico que corria nas veias de Senor, aliado a coragem da cara-tapa de um ex-paraquedista do Exército brasileiro.

Das capinhas para as bugigangas, e sempre duelando contra as investidas dos rapa, os policiais que patrulhavam a redondeza a cata dos camelôs. As vezes se deu mal, mas numa destas vitórias da lei,  Senor saiu das ruas para parar em um estúdio de rádio – o da antiga Rádio Guanabara, atual filial da Radio Bandeirantes carioca. O empreendedor de talento entrou em contato primeiro com aquilo que seria o seu futebol de fim de semana, seja no rádio ou na TV, onde está desde o distante Vamos Brincar de Forca?, nos idos de 1961, na TV Paulista (atual Rede Globo).

Senor virou Silvio, Silvio Santos. Santos pois, segundo ele mesmo, os santos ajudam. Enquanto tornava-se um sucesso como homem-sorriso, estendia a mão ao amigo calvo, comunicador fantástico e (infelizmente) empreendedor frustrado Manoel de Nóbrega, que tinha se afundado junto de um alemão na aventura de dar as crianças um dito baú de brinquedos mais parecido com um caixão de defunto.

Silvio e Manoel de Nóbrega, uma lenda da comunicação brasileira. Negócio malsucedido de Nóbrega foi o embrião da marca forte que foi o Baú da Felicidade por tantos anos, fora a parceria para a conquista da TVS, em 1976 (Reprodução)

Silvio e Manoel de Nóbrega, uma lenda da comunicação brasileira. Negócio malsucedido de Nóbrega foi o embrião da marca forte que foi o Baú da Felicidade por tantos anos, fora a parceria para a conquista da TVS, em 1976 (Reprodução)

Não dá pra prever outro resultado para um judeu-grego se não outra bola certeira na caçapa. Do tenebroso caixãozinho de defunto um verdadeiro conglomerado nasceu, e de brinquedos, o baú passou a ser da felicidade. Que energia para um cidadão que se aquartelava nos domingos na Globo preparando programa, chamando atração e sorrindo como se nada acontecesse do lado de fora da correria diária.

É difícil falar de Silvio sem tocar nos dois lados de sua vida, o do empreendedor e do animador. De um lado, o modelo maior de um empresário com um olhar raro e com pedras bem movidas no tabuleiro de xadrez da economia e do empresariado. Do outro lado, o apresentador de TV com caminhões e caminhões de fãs ao encalço e que, depois de tanto tempo sendo propriedade de uma emissora, partiu a luta com amigos e contatos para ser proprietário de uma emissora, hoje conhecida entre os slogans que já produziu como a TV mais feliz do Brasil.

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O dístico do SBT na entrada do Complexo Anhanguera, em São Paulo. Na luta para ser dono do próprio nariz, Silvio deixou de “ser” de uma emissora para ser “a” emissora, tornando-se a cara da “TV mais feliz do Brasil”. (Reprodução)

Certo que o SBT – Sistema Brasileiro de Televisão, a antiga TV Studios (TVS) – já teve dias de gloria, o que aos poucos vem reconquistando depois de mudanças e mudanças e mudanças na programação diária. Mas, de tanto que já marcou e aprontou na história da televisão nacional, não da para simplesmente ignorar a emissora nas zapeadas cotidianas e, principalmente,  pelos nomes que lá estiveram e estão, pelos programas que lá passaram e passam e, claro, pela eterna vaidade de Silvio, que já falara no passado até em parar de apresentar os programas que tanto gostava, o que, de fato, nunca aconteceu.

Nestes idos todos, apenas o ritmo do expediente mudou. O Baú sumiu, virou uma modesta (mas poderosa) perfumaria com o exótico nome de Jequiti, o programa dá mais shows e momentos divertidos do que prêmios, e os globos da Tele Sena continuam rodando como outrora.

Fora de todo este turbilhão, a vida pessoal é uma caixinha bem guardada e tampouco mostrada. Senor nunca foi figura fácil, embora gostasse, em alguns momentos, de alvoroçar a imprensa da fofoca (para não dizer imprensa marrom) com declarações assustadoras e acontecimentos assustadores. Tipico de homem de assustar e mexer com os que batem cabeça atrás, simplesmente, de inutilidades e notícias sem o mínimo conteúdo. Ademais, é uma espécie de uma clausura saudável, que constrói o mito do apresentador misterioso sozinho. Mas, quanto a vida pessoal, eu paro por aqui, não quero eu ir a fundo. Deixe que as Contigo e Ti-ti-ti da vida continuem na odisseia desvairada atrás deste nicho. Comigo, apenas a história da TV e a reverencia.

Silvio e Iris, a segunda esposa. Todo bom homem tem direito de amar. Mas, quanto a vida pessoal, eu paro por aqui. (Reprodução)

Silvio e Iris, a segunda esposa. Todo bom homem tem direito de amar. Mas, quanto a vida pessoal, eu paro por aqui. (Reprodução)

De volta ao corredor do estúdio, dentre tantos do gigantesco Complexo Anhanguera, somam-se os números: 85 anos; 54 de TV; mais de 60 na comunicação e nos negócios; quase batendo em 40 de dono de televisão; duas candidaturas para cargos eletivos – presidente e prefeito – fracassadas (ainda bem); inúmeros amigos feitos e outros que já partiram para outro plano, deixando gigantes saudades; e uma vida que, mesmo mais envelhecida, parece nunca ter findadas as aventuras. Tudo isso somado a cada passo em direção ao estúdio, cruzando com funcionários e matutando consigo mesmo talvez alguma coisa que faria ao chegar em casa.

E então, qual a fórmula mágica? Talvez, o segredo de todo este sucesso e pensamento esperto para os negócios não seja apenas o trabalho com prazer. Entre os atos existe uma paixão evidente e a vontade de fazer o melhor, mesmo se a pele enruga, as costas arqueiam e a voz caduca e arrasta. Silvio Santos não é só um personagem da TV e do mundo empresarial, é uma inspiração para qualquer um que procura um espelho para motivar a busca dos sonhos e vitórias reservadas na vida. É, pura e simplesmente, 10% de inspiração e 90% de transpiração, como ele mesmo teorizou em 1988.

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Chega-se ao sucesso com 10% de inspiração e 90% de transpiração. Teoria do “velho jovem” Silvio não podia ser mais exata para quem precisa de inspiração diante das crises de hoje. (Reprodução)

As portas se aproximam, junto delas o barulho das colegas de trabalho com a canção de abertura e com os gritos. Dado o start inicial, lá se vai outra vez o jovem Silvio. Nunca um velho idoso simples, sempre um jovem experiente moldado pela vida, com o sorriso que não muda e a malícia que não se perde. Pensar jovem, tendo paixão pelo que se faz. Anote estas dicas que são as melhores que o patrão lhe dá, indiretamente, a cada domingo.

E, depois de algumas horas alegres, encerra-se o show. Até a próxima semana, até o próximo sorriso, senhor Abravanel.

E eis o campo de todo o domingo. O "futebol de fim de semana" de Silvio é jogado aqui, há mais de 50 anos (Reprodução/SBT)

E eis o campo de batalha de todo o domingo. O “futebol de fim de semana” de Silvio é jogado aqui, há mais de 50 anos (Reprodução/SBT)

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