Amigo Secreto: Brincadeira saudável ou chateação de fim de ano?

Vem o natal, e por tabela as ideias para festas de encerramento também. No pacote, uma sugestão que nunca pode faltar... O Amigo Secreto, que, estranhamente, tem se tornado o "vilão" das rodas de amigos. Por que? (Reprodução)

Vem o natal, e por tabela as ideias para festas de encerramento também. No pacote, uma sugestão que nunca pode faltar… O Amigo Secreto, que, estranhamente, tem se tornado o “vilão” das rodas de amigos. Por que? (Reprodução)

A cena é clássica em cada final de ano em tantas empresas no Brasil. Enquanto todos trabalham ou estão no momento do almoço, falam animados sobre a contagem regressiva para as férias coletivas. Junto delas, vem a tão aguardada festa de encerramento, aquele momento de celebrar o ano, rir com os amigos, tomar uma breja sem culpa entre os colegas de trabalho (sem exageros, claro), mas, acima de tudo, comemorar resultados e soterrar tristezas de mais um período que se vai.

No meio dos planejamentos rolam toda a sorte em ideias para o tal encerramento. Pizzaria, restaurante, reunião na casa de algum dos colegas, petiscos, churrasco, tudo é válido. O clima é pacífico e dificilmente há brigas sobre ideias contrárias, o que é normal em tempos natalinos. Isto até alguém levantar a mão e sugerir aquela brincadeira clássica tão famosa quanto o Papai Noel nesta época do ano: Ei, e que tal brincarmos de Amigo Secreto?

O que parecia uma ideia agradável e alegre em tempos passados, de anos para cá, virou motivo de discórdia e execração no meio de um grupo. De todas as formas, aqueles que estão no meio da roda de ideias festivas demonstram toda a sorte em justificativas, seja para participar da famosa brincadeira ou não.

Os que querem não hesitam em mostrar a empolgação, mas outros já buscam todas as saídas possíveis para se negar a sentar e jogar o jogo conforme as regras. Algumas alegam não poder gastar muito ou nem gastar nada, outros não vem a ideia com bons olhos ou, de forma mais radical, outros afirmam que não gostam ou não tem afinidade com todos da roda.

Não sei eu se é reflexo dos tempos mais frigidos da tecnologia ou, pura e simplesmente, o fato de que a brincadeira tem passado para o status de arroz-de-festa inconveniente nas confraternizações de amigos e famílias. O porquê desta repelência quase unanime nos últimos tempos é o que mais estou procurando o significado, embora, gosto é algo pessoal e o livre arbítrio é latente e necessário. Não quero falar que quem não gosta está errado, o que quero entender é a repelência crescente ano a ano por esta brincadeira. Coisas de jornalista querendo ser filósofo.

Antes que eu continue me aprofundado, é bom que eu ressalte outra coisa ainda: Não só a questão do livre arbítrio, mas também para não confundir as leitoras que aqui batem ponto com o título deste texto, Não estou aqui falando sobre a bem pensada e inteligente campanha #MeuAmigoSecreto, que preza pela integridade feminina (a qual sou pleno defensor) e procura denunciar o comportamento indiretamente machista ou preconceituoso de pessoas do dia a dia. Apenas para deixar claro e não ter confusões. Ok?

Donde surgiu essa confraternização?

Bom, voltamos a brincadeira. Vasculhando pelos anais da história do mundo, descobri que o jogo do Amigo Secreto – também conhecido como Amigo Oculto, Amigo Invisível, Amigo X e tantas outras denominações – tem uma origem ainda mais remota. Alguns relatos dão conta que os gregos e povos nórdicos foram os primeiros a praticar o que, naquela época, era um ritual considerado de povos pagãos (sem julgamentos religiosos, por favor!).

A Wall Street no dia do crack da bolsa de Nova York, em 1929. Crise e a Grande Depressão ajudaram a popularizar o Amigo Secreto pelo mundo. Uma forma de presentear e não sair sem presente (Reprodução)

A Wall Street no dia do crack da bolsa de Nova York, em 1929. Crise e a Grande Depressão ajudaram a popularizar o Amigo Secreto pelo mundo. Uma forma de presentear e não sair sem presente (Reprodução)

Outras histórias dão conta que a brincadeira surgiu no século XVIII, mas a história mais determinante para a popularização da brincadeira foi em 1929, nos EUA que começavam a viver os efeitos do crack da Bolsa de Nova York e da grande crise. Sem dinheiro para comprar presentes para todos da família ou do circulo de amigos, o Amigo Secreto foi a saída que muitos destes círculos encontraram para que pudessem presentear alguém e, ao mesmo tempo, não ficar sem presente. Simples, compra-se apenas um único presente e sai da roda com um presente. Puramente econômico e sincero diante da situação econômica dos yankees e do mundo naqueles idos.

Regras e variações

O tempo passou, e a brincadeira foi se espalhando pelo mundo e tornando-se, principalmente, a mais clássica do fim de ano em qualquer parte do globo. O regulamento é o mesmo, sem alterações desde os antigos: Cada um tira um papelzinho com o nome de outro participante da brincadeira e deverá, portanto, manter em segredo quem você pegou.

Na data marcada para a revelação, por meio de dicas, os outros participantes tentam adivinhar quem será a pessoa que você tirou. Quando consegue-se acertar o indicado, a pessoa presenteada dá prosseguimento a brincadeira até que todos estejam presenteados. A retirada dos nomes pode ser feita antes do dia da revelação quanto no mesmo dia do encontro, o que torna ainda mais divertida e imprevisível a brincadeira.

A regra começa sempre com a retirada do papelzinho com o nome da "vitima". O segredo só é quebrado no dia da revelação, mas o Amigo Secreto também tem outras variações, seja nas regras, no tipo do presente ou na forma de descobrir quem será o seu indicado (Reprodução)

A regra começa sempre com a retirada do papelzinho com o nome da vitima. O segredo só é quebrado no dia da revelação, mas o Amigo Secreto também tem outras variações, seja nas regras, no tipo do presente ou na forma de descobrir quem será o seu indicado (Reprodução)

Além de se espalhar pelo mundo, o Amigo Secreto também ganhou curiosas variações, todas elas com uma característica diferente e mais divertida que a outra, seja na forma de trocar presentes, seja no tipo de presentes ou seja na forma de denotar o amigo. A tecnologia também marcou presença nesta revolução. Foi através de sites especiais de organização da brincadeira que evitou-se em grande parte problemas como esquecer quem você tirou ou – o mais cruel – a revelação antecipada do nome da sua vítima. Afinal, modernizar tem sido a lei, até mesmo par a brincadeiras corriqueiras.

E hoje? Estamos mais frios para tradições e brincadeiras? 

Mas, nem tudo são flores. De alguns anos para cá, o Amigo Secreto tem passado, como disse acima, do status de alegre diversão a uma brincadeira chata, complicada (quando se há atritos no grupo) e inconveniente, especialmente pelo fato fazer-nos desembolsar valores por presentes que nem sabemos se a pessoa que vai ganha-lo vai realmente gostar, o que não deveria ser uma preocupação latente. A verdade é, amigo leitor, que muito do encanto desta época natalina parece se perder no esfriamento promovido pela tecnologia e pela correria diária. Muito do que era visto com olhos agradáveis, hoje toma dimensões de superflo, de exagerado e de massante.

E não é só o Amigo Secreto uma das vitimas. As vezes, o fato de simplesmente enfeitar a casa para o natal (dependendo se você segue a tradição ou não, lembrando sempre do livre arbítrio) tem se perdido entre a frieza dos dias. As relações talvez se esfriaram, a crise de nosso país desanimou a muitos e, então, pequenas e singelas coisas de épocas como esta perdem o jogo para estas pequenas aflições diárias. É certo que vivemos tempos mais frios e distantes entre nós mesmos e os pequenos atos que fazem o mundo um pouco mais colorido. Mas, será preciso tanto desânimo e distanciamento para expressar nosso humor, mesmo em uma época como esta?

Os momentos gostosos da surpresa tem se tornado, diante da frieza dos dias, uma especie de atividade massante e chata. Será que estamos perdendo tradições que nos façam sentir-se melhor conosco e com nossos amigos ao longo dos tempos? (Reprodução)

Os momentos gostosos da surpresa tem se tornado, diante da frieza dos dias, uma especie de atividade massante e chata. Será que estamos perdendo tradições que nos façam sentir-se melhor conosco e com nossos amigos ao longo dos tempos? (Reprodução)

Eu sou um jornalista um tanto sentimental, admito. E apesar dos desatinos dos tempos de crise, apesar de estarmos cercados pelas praticidades das redes sociais – que gelam amizades com a distância em vezes – Penso que há muito estamos perdendo nossa capacidade de fazer épocas como o natal mais coloridas e propicias para abraçar amigos e parentes e demonstrar nossa estima para com eles. É nesta época mesmo que toda a brincadeira e expressão de alegria é muito bem vinda, talvez para explicitar em nós também que, apesar das dificuldades impostas pela vida, estamos firmes e fortes, sem esquecer dos amigos que nos rodeiam e do sorriso que deve ser presença constante em nossos rostos.

Tradições como o Amigo Secreto, que Deus queira que não morram nunca. Apesar dos contras, ainda há um lado de alegria e sinceridade diante da troca de presentes e dos risos. E olha que precisamos tanto de momentos de confraternização assim diante, como já disse, do gelo de nossas relações. Se você quer brincar e tem grupo para isso, o faça e seja feliz.

Aos que não o querem, tudo bem, é democrático e a regra também pede que não se force que não quer brincar… Mas, mesmo assim, sintam-se abraçados nesta época, mesmo que você nunca saiba quem mandou-lhe este abraço sincero.

É Amigo Secreto, não posso contar quem mandou-lhe este carinho, ok?

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