A “perigosa” popularidade de Donald Trump

Desfrutando de uma certa popularidade entre "conservadores", Donald Trump dispara declarações temerárias e ácidas e dá o que falar nas eleições americanas. Mas, ao mesmo tempo da popularidade, vem o temor de um retrocesso (Reprodução)

Desfrutando de uma certa popularidade entre “conservadores”, Donald Trump dispara declarações temerárias e ácidas e dá o que falar nas eleições americanas. Mas, ao mesmo tempo da popularidade, vem o temor de um retrocesso (Reprodução)

Passado algum tempo, sempre me perguntava onde ele andava depois que o tal O Aprendiz sumiu da TV. Virou franquias como hoje são os programas a lá Masterchef nos anos 2000, mas com o cair da audiência, desapareceu das grades de programação. O primeiro responsável por dizer está demitido! voltou as empresas de sucesso no entretenimento que comanda, até que resolveu arregaçar as mangas e brigar para ser presidente da nação em que vive. Ora, de quem falo? Donald Trump.

Ele não me é figura estranha. Tem um jeito caricato de chefe de negócios americanos que sabe bem o que faz, e é bom nisto de verdade. Magnata com um sem-número de hotéis e propriedades sob seu comando rígido, Trump é o tipico empresário americano, tal como foi o pai, Fred Trump, fundador da The Trump Organization, em 1923, e que mesmo passando em um momento de crise extrema, vive prosperamente nos dias atuais. Dos hoteis e do entretenimento, virou figura televisiva no primeiro O Aprendiz (The Apprentice), lançado pela tradicional TV americana NBC em 2007 e que virou febre pelo mundo, parando até aqui no Brasil, tendo Roberto Justus a frente dos trabalhos.

Na cadeira de The Apprentice (O Aprendiz), demitindo e sendo o juiz maior. Foi aqui que o empresário da hotelaria e de outros empreendimentos veio ao mundo (Reprodução / NBC)

Na cadeira de The Apprentice (O Aprendiz), demitindo e sendo o juiz maior. Foi aqui que o empresário da hotelaria e de outros empreendimentos veio ao mundo (Reprodução / NBC)

Depois de algum tempo sumido, eis que Trump reaparece, agora para o mundo todo ver e temer (por que não?). Um dos mais cotados e populares entre os republicanos que disputam o caminho para a corrida presidencial, o velho magnata de cara amarrada é o sonho dos americanos que, nostalgicamente, sonham voltar as origens perdidas nos tempos que questões problemáticas da Terra do Tio Sam eram resolvidas no tapa. Uma espécie de regresso aos temerários tempos dos EUA que se sobrepunham ao mundo livre pela força.

Trump é o típico empresário americano, vivente do lifestyle americano, navegando pelo sonho americano, talvez amante da junk food americana e do bom e velho carro grandalhão americano, gastador de rios de dólares em petróleo e poluidor nato. É um tipo caricato americano que há muito tempo não mais tinha se visto com frequência, haja visto que esta imagem do país ia se perdendo com as palavras sonantes ternas e doces de Barack Obama diante dos problemas e dilemas do país. Alias, esta visão mais hedonista dos EUA é típica dos republicanos. Bush pai e filho que o digam.

Mas Donald é temido até mesmo pelos próprios colegas de legenda. Jeb Bush, outro dos tantos parentes do clã de George e George W. Bush, o rotulou de candidato do caos, e não dá pra fugir desta rotulação. Trump não tem medo de falar o que muito americano conservador gosta de ouvir. Impedir muçulmanos e mexicanos de entrarem nos States sob rígidos controles migratórios como uma das propostas soa extremamente xenófobo, isto sem contar os disparos contra imigrantes latinos, contra um jornalista deficiente e até mesmo criticando a postura fracote do senador John McCain quando soldado do Vietnã. Trump não tem papas na língua e esta acidez talvez seja o que tenha arrancado tantos sorrisos dos admiradores, até mesmo no Brasil.

Imigração, sobretudo a ilegal, de latinos; insultos a qualquer um; resolução de problemas pela via enérgica: Caminhos das estratégias de Trump (Reprodução)

Imigração, sobretudo a ilegal, de latinos; insultos a qualquer um; resolução de problemas pela via enérgica: Caminhos das estratégias de Trump (Reprodução)

E outro detalhe. Trump não é político por profissão. Como disse acima, ele é empresário bem-sucedido no que faz (e muito bem), está bancando a própria campanha, não tem lobistas pelas costas e é uma personalidade televisiva com muita popularidade, espontâneo como é pois não é preso a maneirismos ou discursos bonitinhos que outros políticos podem pregar.

É arriscado? Obviamente que sim, pois pelo mundo, a imagem do magnata já está bem arranhada antes mesmo das eleições começarem. Imagine você o que será dos EUA pós-Obama sendo comandado por alguém totalmente o oposto das ideologias de Obama? Não que Barack seja santo, apenas o utilizando como parâmetro deste momento dos States.

Hillary Clinton: Apesar de ser outra dos "alvos" favoritos de Trump, talvez a ameaça mais forte contra o magnata no caminho para a Casa Branca. E uma das poucas esperanças de evitar uma espécie de "retrocesso" (Win McNamee / Getty Images)

Hillary Clinton: Apesar de ser outra dos “alvos” favoritos de Trump, talvez a ameaça mais forte contra o magnata no caminho para a Casa Branca. E uma das poucas esperanças de evitar uma espécie de “retrocesso” (Win McNamee / Getty Images)

Ao amigo que pensou algo, Não, não tenho um pingo de simpatia por Donald. Guardo respeito pelo empresário hábil que é e até pela personalidade de TV que se transfigurou com o indefectível You’re fired!. No entanto, as jogadas políticas de Trump num universo como este deixam margem para um temor sobre o que será os EUA se o magnata estiver despachando ordens da Casa Branca. Sendo este o pensamento de Trump, rebelde, debochado e violento, talvez poderemos ver velhas feridas americanas se abrindo violentamente, de uma maneira que não víamos desde os tempos da Guerra Fria, sem nenhum exagero.

Mas não vamos profetizar o pior. Do outro lado da corda ainda tem os democratas, e se Trump quer ver-se imortalizado no número 1600 da Avenida Pensilvânia terá de convencer os delegados estaduais para que lhe coloquem lá, com suas ideias malucas e perigosas.

Por enquanto, resta observar (e torcer de leve para que o pior não aconteça).

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