Estação da Luz e Blumenau: A “sorte” salva a história (mas não se brinca com ela)

O incêndio no Museu da Língua Portuguesa, na Estação da Luz. Uma facada no coração dos apreciadores e batalhadores pela preservação histórica. Se voltará a velha majestade? Só o governo paulista sabe (Globo)

O incêndio no Museu da Língua Portuguesa, na Estação da Luz. Uma facada no coração dos apreciadores e batalhadores pela preservação histórica. Se voltará a velha majestade? Só o governo paulista sabe (Globo)

Tem momentos que, diante de uma catástrofe ou tragédia, espanta-se como detalhes são salvos por puras, vamos falar no bom português, cagadas. E quando falo em história, ai que a coisa se torna mais impressionante ainda. Afinal, falamos de elementos que jamais poderão ser replicados da forma como foram feitos. O passado é passado, mas ajuda a formar o presente e pensar o futuro, como sempre digo.

Exemplo maior de uma destas cagadas homéricas foi, sem dúvida, o salvar-se do acervo documental do Museu da Língua Portuguesa, localizado na icônica Estação da Luz, em São Paulo. A perda do prédio para as chamas é dolorida demais, causa tristeza e revolta pela falta de elementos retardantes para as chamas e é uma facada para os amantes das construções históricas da terra da garoa. Douglas Nascimento, do site São Paulo Antiga, que o diga.

Uma porta corta-fogo como esta. Responsável por salvar toda uma história no acervo digital do Museu da Língua Portuguesa (Reprodução)

Uma porta corta-fogo como esta. Responsável por salvar toda uma história no acervo digital do Museu da Língua Portuguesa (Reprodução)

Mas, apesar dos danos materiais na estrutura, que tem de ser urgentemente reformada, o acervo documental do Museu foi salvo do sinistro graças a eficaz porta corta-fogo que separa o espaço de visitação da poderosa sala de armazenagem digital dos arquivos. Uma simples porta, combinada a moderna técnica de digitalização, foram capazes por si só de salvarem séculos de história da língua sem uma única nasca de cinzas. Se pode-se tirar algum suspiro aliviado de toda a tragédia, saber que a história está preservada é um verdadeiro ufa.

Como falei acima, preservar a história para as futuras gerações é a forma mais prática para se rever o passado, refletir o presente e projetar o futuro. E pensando nisto, somado ao acontecido na Luz, que me volto a Blumenau. Felizmente, mesmo depois de tantas enchentes violentas e um incêndio nos arquivos em 1958, temos um bem cuidado Arquivo Histórico, mantido a mão firme pelo time comandado pela professora Sueli Petry. Isto sem contar os arquivos particulares de fotos e relíquias da cidade, como os do amigo e mentor Adalberto Day e de tantos outros colegas de preservação e pesquisadores.

Estive no Arquivo Histórico há algumas semanas e pude observar algumas modificações no espaço. Anteriormente, entrava-se a bel prazer e não se tinha pudor em ir até a área mais restrita e manusear os documentos como bem entendesse. Não que não havia controle, mas tantas mãos ao mesmo tempo são impossíveis de controlar em dias de muita procura. E bota procura nisto. Pesquisadores de todos os cantos param no prédio, seja procurando registros de origem da família ou, simplesmente, arquivos fotográficos. Hoje, uma divisória ajuda e muito neste controle. Somente pessoal autorizado passa por ela rumo ao arquivo principal, sem contar o sem-número de fotos que já foram digitalizadas pela equipe.

Prédio do Arquivo Histórico, junto da Biblioteca. Um acervo cuidado com mão firme e competência, mas que está precisando de uma nova e mais bem preparada casa (Prefeitura de Blumenau)

Prédio do Arquivo Histórico, junto da Biblioteca. Um acervo cuidado com mão firme e competência, mas que está precisando de uma nova e mais bem preparada casa (Prefeitura de Blumenau)

Mas nem tudo são flores. O prédio atual, construído em 1986 e onde também está a Biblioteca Fritz Muller, já mostra sinais de desgaste na estrutura e pede ou uma melhoria profunda ou um novo espaço para a manutenção do acervo. Além do mais, o local está situado em área alagável na Rua das Palmeiras. Não que um dia a água chegue ao espaço do Arquivo (e se isso acontecer, Blumenau vira Atlântida), mas de tempos em tempos de enchentes, a estrutura também sofre com as águas na base, sem falar outros problemas menores, mais pontuais. Quanto a digitalização de fotografias e documentos, o trabalho segue, mesmo que lento. Mas já temos a disposição um rico acervo de fotos digitalizadas que podem ser consultadas pelos blumenauenses, especialmente os fanáticos pela história da cidade, como eu.

Isto que não falei do Museu da Família Colonial, bem ao lado do Arquivo Histórico. Situado em um casarão de 1858, o local é uma verdadeira volta ao tempo da colônia, com móveis, utensílios e equipamentos de trabalho da época bem expostos e mantidos. No entanto, como falei de área alagável, o local do Museu sempre se bota em prontidão quando as águas atingem níveis próximos de 13 metros. Móveis são levados a locais mais altos, objetos encaixotados e, passado o susto, tudo volta ao lugar. É um sacrifício a cada enchente mais intensa e aqui não fica o pedido para o espaço mudar de lugar (e nem deve), que fique bem claro.

O majestoso Museu da Família Colonial, ao lado do Arquivo Histórico. Uma volta ao tempo, mas situado numa complicada área alagável com cotas altas. Mudar de lugar? Talvez não seja para tanto (Eduardo Gaspar)

O majestoso Museu da Família Colonial, ao lado do Arquivo Histórico. Uma volta ao tempo, mas situado numa complicada área alagável com cotas altas. Mudar de lugar? Talvez não seja para tanto (Eduardo Gaspar)

E olhe que não falei nada sobre os casarões históricos da cidade, alguns de vida nova, mas muitos ainda em estado de abandono ou largados as traças, necessitando de maiores cuidados. Repetir o velho sermão sobre o casarão ao lado da Câmara de Vereadores já está passado, uma vez que entra mês e sai mês e a situação da estrutura segue a mesma, sem prospecção de dias melhores. Outros já desapareceram por conta da nefasta especulação imobiliária, outros mais ainda se mantem a duras pernas em pé.

Não cabe falar de cada um agora. A BOINA estará de olho em todos os pontos da preservação histórica de Blumenau (e da região, por que não?). A sorte ajuda a salvar, mas não se deve brincar com ela.

Boa notícia: Castelinho da Rua Apa será (enfim) restaurado

Depois de anos de esquecimento, lendas, assombrações e imbróglios, o Castelinho da Rua Apa será restaurado pelo governo estadual paulista (Douglas Nascimento / São Paulo Antiga)

Depois de anos de esquecimento, lendas, assombrações e imbróglios, o Castelinho da Rua Apa será restaurado pelo governo estadual paulista (Douglas Nascimento / São Paulo Antiga)

E falando em monumento histórico de Sampa, tal como o Museu da Língua Portuguesa/Estação da Luz, o amigo Douglas Nascimento, do São Paulo Antiga, traz uma grande notícia para a preservação arquitetônica da capital paulista. O tenebroso e misterioso Castelinho da Rua Apa, no bairro de Santa Cecilia, será restaurado. Uma obra prometida por anos na terra da garoa e que, enfim, parece estar começando a sair do papel e do status de lenda.

Marcado por um crime misterioso em 1937, cercado de lendas e assombrações e comprometido pela construção do Elevado Costa e Silva (Minhocão) e processos judiciais, o Castelinho foi esquecido durante anos, permanecendo mesmo deteriorado como uma atração turística daquele bairro paulistano. Apesar dos sinais de degradação muito avançados, o majestoso casarão sobreviveu firme e forte por quase 100 anos. Agora, a construção ganhará uma merecida recuperação, que será acompanhada por Nascimento e seu excepcional site.

O Castelinho nos áureos tempos. O crime e a morte dos irmãos Armando e Antônio marcaram para sempre a história deste casarão (São Paulo Antiga)

O Castelinho nos áureos tempos. O crime e a morte dos irmãos Armando e Antônio marcaram para sempre a história deste casarão (São Paulo Antiga)

Mais detalhes sobre a história do Castelinho e o processo de restauração estão em destaque no São Paulo Antiga. E fica o exemplo para Blumenau e Santa Catarina, que podem muito bem contribuir na preservação de inúmeros casarões históricos que esperam dias melhores.

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