Transporte emergencial de Blumenau: Impressões, tropeços e expectativas

Um ônibus da Piracicabana cruza o Progresso no domingo a tarde: Depois do fim necessário do complicado SIGA, os coletivos voltam as ruas, ainda sob tropeços, problemas e exaltações (André Bonomini)

Um ônibus da Piracicabana cruza o Progresso no domingo a tarde: Depois do fim necessário do complicado SIGA, os coletivos voltam as ruas, ainda sob tropeços, problemas e exaltações (André Bonomini)

Desde 1995 não se vivia em Blumenau um momento tão importante na história do transporte coletivo. Falo isso por questão história, já que naquele ano a cidade convivia com o primeiro tumulto ao tentar compreender como o recém-implantado sistema integrado funcionava ao chegar nos terminais da cidade. 11 anos depois, e outra vez, a população sentiu-se confusa e um tanto temerária no primeiro dia do sistema emergencial, de responsabilidade da Viação Piracicabana, de São Paulo, desde o último domingo (01/02).

É claro que, de primeira, nada é perfeito e que a desconfiança dos usuários é gigante, tendo em vista que viemos de um modelo anterior malfadado, de administração pífia e que não mais atendia o que o blumenauense esperava de um bom transporte coletivo. Os problemas pipocaram nos primeiros dias, seja de horários, frota ou dos próprios veículos, e A BOINA foi as ruas atrás de impressões sobre o funcionamento deste sistema que, por sí só, já está, como dito, nos livros de história da cidade.

28 de abril de 1995: Há 20 anos nascia o Sistema Integrado de Transporte Coletivo de Blumenau - SIB. Primeiro dia foi de tumulto por conta do desconhecimento do sistema estreante Reprodução / Santa)

28 de abril de 1995: Há 20 anos nascia o Sistema Integrado de Transporte Coletivo de Blumenau – SIB. Primeiro dia foi de tumulto por conta do desconhecimento do sistema estreante Reprodução / Santa)

Os primeiros dias

Lotação: Segunda-feira de 57 ônibus foi um exercício de paciência, superlotação e reclamações (Patrick Rodrigues / RBS)

Lotação: Segunda-feira de 57 ônibus foi um exercício de paciência, superlotação e reclamações. Lembranças de 1995 (abaixo) (Patrick Rodrigues / RBS | Gilmar de Souza / Santa)

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A cidade voltou a ver os ônibus nas ruas no domingo, quando os 57 coletivos começaram a circular em caráter de teste. A primeira vista de quem os tomava para seus passeios naquele dia era de novidade, até porque todos eles são pintados de branco, tendo apenas a bandeira da cidade e o número de identificação como adornos. Na segunda-feira, apenas 80 coletivos estavam atendendo a cidade, o que num dia útil é quase como a fórmula para o desastre, mesmo com a catraca livre desde o dia anterior.

De pronto, A BOINA esteve no Troncal 10 – o famoso Garcia-Aterro, a maior linha de transporte de passageiros da cidade – na parte da manhã. Ela seguia de regresso ao Garcia e, pelo horário que tendia estar mais vazia, por conta da quantidade de ônibus, eram muitos os que estavam no coletivo naquele momento. Durante o dia, a escassez de veículos foi a tônica, com carros saindo lotados dos pontos e muitas reclamações e desconfianças aparecendo, o que é, olhando rasamente, absolutamente normal nestas condições.

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Troncal 10 de volta em traje alvo. Busscar-Mercedes mostrou-se mais envelhecido do que os seis anos de idade que tinha. Consequências de se rodar em rotas tão exigentes na baixada santista, em SP (André Bonomini)

A noite, a situação era mais complicada no primeiro dia. Poucos horários e as linhas encerrando atividades por volta das 22h45 fizeram muitos optarem pelo bom e velho táxi para o regresso ao lar. A cada chegada dos coletivos uma movimentação diferente, todos indo para a frente do ponto para verificar a linha que chegava. Até aquele dia, os luminosos dos itinerários não funcionavam nos coletivos, o que tornava um desafio às vistas fracas identificar a linha nas papeletas coladas nos vidros dianteiros.

Os dias passaram, 95 coletivos rodaram na terça-feira (, ainda com complicações, que aos poucos diminuíram no decorrer da semana. Ao chegar nesta quinta-feira, são 120 os ônibus a rodar pela cidade, sendo que a grande expectativa de hoje era o retorno da cobrança da tarifa, já no preço novo de R$ 3,65, o que não se concretizou por conta de ajustes que ainda precisam ser feitos na bilhetagem, mas que está de volta valendo nesta sexta-feira (05/02), dia que 150 coletivos devem estar rodando. Os cartões do antigo SIGA poderão ser usados.

Os veículos: Alguns veteranos na turma

Busscar Urbanuss Pluss-Mercedes. Eles, junto com os Marcopolo Viale de duas portas, são os mais "batidos" da frota. Alguns mais bem arrumados apareceram pela quinta-feira André Bonomini)

Um Busscar Urbanuss Pluss-Mercedes. Eles, junto com os Marcopolo Viale de duas portas, são os mais usados da frota. Alguns mais bem arrumados apareceram pela quinta-feira (André Bonomini)

Nesta última quarta-feira (03/02), A BOINA voltou as impressões no sistema, concentrando-se nos ônibus em si. Neste dia, 110 estavam nas ruas, um número ainda pequeno, mas que também se deve aos processos de contratação dos motoristas e cobradores das três empresas anteriores, que ainda segue na velocidade mais rápida possível. O atraso nas demissões, especialmente da Glória, foi o complicador maior na situação.

Mas voltamos aos carros. O número dos que chegavam ao pré-embarque da Rua 7 (Estação Catedral), agora aberta para os usuários, já era um pouco maior que na segunda, o que me permitiu o luxo de escolher voltar com o segundo Troncal 10 que lá parou. O veículo era um Busscar-Mercedes, modelo Urbanuss Pluss, aparentando bem mais do que os seis anos que a frota, em média, tinha.

Rodou bem e, por sorte, não quebrou, mas a idade e o lugar de onde veio (placa de São Vicente, cidade da baixada santista, em SP), não mente que o trabalho aqui para ele era quase como de tempo pós-aposentadoria. Alias, quebras tornaram-se  uma constante, o que obrigou a Piracicabana, por conta dos pedidos dos usuários, a organizar uma força-tarefa para a manutenção dos veículos neste fim de semana (06/02). Uma boa notícia até por conta da velocidade da decisão tomada por parte da empresa.

Refletores no teto. Luzes a mais no Terminal Garcia André Bonomini)

Refletores no teto. Luzes a mais no Terminal Garcia (André Bonomini)

Ao chegar no terminal, uma novidade. Agora com a manutenção sob a responsabilidade do município, o Terminal Garcia (em especial) recebeu uma terceira fila de iluminação no centro do teto, o que deixou as coisas bem mais claras no local. Circulando pelo espaço, pude observar melhor alguns dos coletivos que aqui trabalham, para ter uma noção melhor de como eram e estavam de conservação.

Além dos Busscar Urbanuss Pluss e Marcopolo Viale-Mercedes que operam as linhas troncais, a grande maioria dos ônibus usados são os clássicos Marcopolo Torino-Mercedes de motor dianteiro, estes sim aparentando ter os seis anos de idade que fora anunciado. O estado melhor de conservação aparentava até ser bem mais novo do que os adquiridos pela Gloria oriundos da Viação Leblon, de Mauá (SP), no ano passado. No entanto, neste modelo de ônibus em especial, isto pode muito bem variar de veículo para veículo.

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Os clássicos Marcopolo Torino-Mercedes eram os mais bem cuidados e conservados dos primeiros dias. Alguns variam entre três e duas portas (abaixo). Nada anormal já que no sistema anterior os carros de duas portas também faziam parte da frota da Glória (André Bonomini)

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Alguns possuem três portas, como o modelo padrão estabelecido pelo Seterb ainda no fim dos anos 80, outros, curiosamente, possuíam duas portas apenas, o que não é anormal tendo em vista que no sistema anterior algumas linhas da cidade utilizavam veículos de duas portas (Marcopolo Senior Midi-Mercedes) para linhas como a 510 (Oscar Buerger), 505 (Itapuí), 406 (Leopoldo Heringer) e 408 (André Nicoletti). Outra curiosidade é a ausência de bancos de cobrador em alguns dos coletivos que tinham este equipamento, o que faz os profissionais sentarem no primeiro banco após a catraca.

Na quinta-feira, com 120 na rodagem, algumas outras impressões foram vistas. Duas delas me chamaram muito a atenção, e vindas justo dos que, nos tempos passados eram os mais prejudicados na ciranda profissional mal gerida pelo falecido consórcio: Os trabalhadores. Trajados de camisas azul-marinho e ainda se acostumando a nova empresa e com pendencias empregatícias a ver, os motoristas e cobradores procuram, nas brechas entre viagens, procurar se organizar da forma melhor e compreensível das escalas. Não é anormal ver coletivos sendo reposicionados e trajetos sendo definidos na conversa direta logo ao chegar no terminal, coisas do improviso dos primeiros momentos.

No entanto, uma frase chamou-me atenção durante o almoço deste último dia 04, partindo justo de um dos profissionais do sistema. Questionado por uma senhora na mesa ao lado, ele respondeu sem pestanejos: Depois de tudo, prefiro estar nesta empresa nova do que a outra. Precisa contra-argumentar?

Reações, protestos e esperanças

Chuva de reclamações nos primeiros dias: Carros sujos, defeitos, quebras, lotação... Reflexos dos primeiros dias, onde a Piracicabana ainda procura se estabelecer da melhor forma. Mas impaciencia é tolerável, trauma deixado pelo SIGA Patrick Rodrigues / RBS)

Chuva de reclamações nos primeiros dias: Carros sujos, defeitos, quebras, lotação… Reflexos dos primeiros dias, onde a Piracicabana ainda procura se estabelecer e trabalhar da melhor forma. Mas impaciência e reclamações são toleráveis, prova dos traumas deixados pelo SIGA (Patrick Rodrigues / RBS)

No entanto, apesar do esforço hercúleo para colocar em rodagem os coletivos nas ruas blumenauenses, não puderam faltar reclamações e protestos por parte dos usuários que, até certo ponto, esperavam que os coletivos eram, na verdade, veículos novos. Uma certa falta de procura de informação ou desconhecimento sobre alguns detalhes técnicos dos carros ou por, simplesmente, terem na mente o temor de estarmos vivendo tempos piores do que no finado SIGA, o que é plenamente entendível.

Mas, apesar dos pesares, alguma coisa tem funcionado nestes primeiros dias da Piracicabana em Blumenau. É claro que os horários são poucos e superlotados, alguns coletivos, já veteranos de combate, acabam entregando as rédeas e que circunstâncias trabalhistas impedem que motoristas e cobradores assumam os postos faltantes na frota que, lentamente, vem crescendo. Mesmo com tudo isso, a palavra de ordem do momento é paciência, pois alguma coisa está acontecendo mesmo com os tropeços, e outra bem maior está por acontecer em algum tempo, indiferente da época que ela pode ocorrer.

Coletivo Blumenau: Trocas de experiências e opiniões neste novo momento do transporte coletivo é mais que saudável. Pluraridade é a tônica RBS? Facebook)

Coletivo Blumenau: Trocas de experiências e opiniões neste novo momento do transporte coletivo é mais que saudável. Pluralidade é a tônica (RBS / Facebook)

Ate para um acompanhamento de todos este processo está circulando pelo sempre público Facebook uma página especial que relata experiências dos usuários do transporte coletivo emergencial, nas mais variadas correntes de opinião, sejam elas criticas, reclamações, compartilhamento de experiências ou dúvidas. A fanpage é iniciativa de três jornalistas: Os ex-editores-chefe do Jornal de Santa Catarina Evandro de Assis e Edgar Gonçalves Júnior; e o colunista do periódico e professor da FURB Clóvis Reis.

Mesmo com toda esta apreensão, um pensamento que permeia a muitos que correm o transporte emergencial nestes dias é de esperança. A típica frase a gente espera que melhore sai involuntariamente dentre os lábios até mesmo dos que externam o descontentamento em fotos revoltadas nas redes sociais (algumas, meramente, caçadoras de curtidas). Isto sem contar a pressa as vezes incontida de grandes veículos, movidos por esta coletiva ansiedade, que não deixou ainda que a Piracicabana, envolta ainda nos problemas iniciais de operação, colocar os pés direito no terreno. A manutenção, por exemplo, é solicitada e muito bem pelos usuários. E pelas impressões vistas na quinta, vai sendo feita aos poucos, o que deve aumentar no fim de semana com a força-tarefa.

Apesar da revolta e impaciência (repito, absolutamente normais), o surpreendente sentimento é de que se vive uma primeira revolução que caminha um passo por vez, e onde se espera a sensibilidade e inteligência da administração municipal no momento de lançar a frente a tão esperada licitação. Apesar, claro, de toda a sorte de transtornos que se cerca neste primeiro momento.

Que as esperanças se cumpram bem. Enquanto isso, os branquinhos rodam, seja de bengala ou ainda em plena forma, no vai-e-vem blumenauense de cada dia.

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