Mein Kampf nas bancas: Perigo eminente X compreensão histórica

A nova edição de Mein Kampf, de volta as livrarias. Sem uma capa chamativa e com mais de 3 mil notas histórias sobre as ideias de Adolf Hitler (Reprodução)

A nova edição de Mein Kampf, de volta as livrarias. Sem uma capa chamativa e com mais de 3 mil notas histórias sobre as ideias de Adolf Hitler (Reprodução)

Em tempos de terrorismo quase gratuito – promovido pelas insanidades religiosas distorcidas dos loucos varridos do tal Estado Islâmico – qualquer forma de subversão ideológica, ideal distorcido ou antissemitismo soa como um perigo real e imediato se cair em mãos loucas e insanas, como a turminha do Isis que acabei de falar. No entanto, a compreensão de certos fenômenos da história mundial passa também pelo estudo deste tipo de ideia radical e distorcida, que motiva ditadores a matar e terroristas a atacar.

E é justamente neste turbilhão de temores e radicalismo que as livrarias no mundo todo assistiram a volta do livro mais perturbado dos últimos anos de nossa história. Temido e tratado como vômito pelos judeus mais um importante elemento para entender-se a tragédia do holocausto na Segunda Guerra, Mein Kampf (Minha Luta), escrito pelo ainda jovem louco líder nazista Adolf Hitler entre 1924 e 1926, retornou as prateleiras, despertando toda a gama de sentimentos que vão de temor e repulsa a satisfação por ter em mãos para estudos uma peça-chave para entender a mente perversa de um dos tiranos mais temidos da história.

A capa original de Mein Kampf nos tempos de Hitler. Livro era obrigatório nas casas das famílias nazistas, além de ser dado pelo governo nazi como presente de casamento (Reprodução)

A capa original de Mein Kampf nos tempos de Hitler. Livro era obrigatório nas casas das famílias nazistas, além de ser dado pelo governo nazi como presente de casamento (Reprodução)

Best-seller, obrigatório, folhado a ouro e perigoso

Foi na flor dos 25 anos de idade que Hitler começou a escrever o manifesto antissemita na prisão especial em que estava detido depois de ter sido condenado por alta traição pelo governo alemão após o chamado Putsch (golpe) da Cervejaria de Munique, uma tentativa dos nazistas, ainda um partido pequeno, de tomar o poder do governo do estado da Baviera, em 1923, fracassado e reprimido violentamente pela polícia alemã.

No entanto, os tempos passaram e as ideias de Hitler, em tempos difíceis para os alemães, tornaram-se uma espécie de porto seguro para muitos desacreditados nos rumos da nação. Em pouco tempo e, especialmente, depois da ascensão de Adolf ao poder (1933), a publicação passou de um monte de páginas sem nexo e com ideias tortas  para um autêntico best-seller na Alemanha daqueles idos.

Tropas nazistas (a direita) na praça central de Munique, durante o fracassado Putsch da Cervejaria, tentativa de golpe de Hitler para tomar o poder do estado da Baviera, em 1923. Foi depois de ser preso por alta traição que Hitler deu início a escrita de Mein Kampf (Reprodução)

Tropas nazistas (a direita) na praça central de Munique, durante o fracassado Putsch da Cervejaria, tentativa de golpe de Hitler para tomar o poder do estado da Baviera, em 1923. Foi depois de ser preso por alta traição que Hitler deu início a escrita de Mein Kampf (Reprodução)

Os direitos de publicação tornaram Hitler extremamente rico e, no período do governo nazista, era dado a jovens casais que recém contraiam o matrimônio, como presente do governo. Além disso, ter a publicação em casa tornou-se obrigatória, sendo punidas as famílias que não a tivessem, isto ainda que altos funcionários do governo exibiam orgulhosos edições do livro foleadas a ouro.

Ao todo, foram vendidas à época 12 milhões de cópias do manifesto, que era também a base para os planos de extermínio dos judeus, o holocausto, como ficou conhecido o massacre de judeus, excepcionais, homossexuais, presos políticos e todos que não se encaixavam no padrão da raça ariana (cujo Hitler também não se encaixava, segundo estudos). Ao fim da Segunda Guerra, em 1945, o exército americano assumiu o controle da editora responsável pela publicação do livro e os direitos autorais ficaram sob a responsabilidade do estado da Baviera.

A volta: Importância história, prós e contras

Foram 70 longos anos enquanto o estado da Baviera fez marcação cerrada proibindo a circulação do livro e a republicação. Os motivos eram óbvios, a publicação incita o antissemitismo, o racismo e o nacionalismo xenófobo (ódio a pessoas de outros países). Alguns países, como o Egito, ainda o publicavam, mas pelo mundo, Mein Kampf era peça rara restrita a bibliotecas altamente gabaritadas e com acesso controlado. Até mesmo na internet, em versões traduzidas, o livro é dificilmente encontrado.

Ronald Lauder, (Reprodução)

Ronald Lauder, do Congresso Judaico Mundial: Não é apenas os sobreviventes do holocausto que se sentem ofendidos ao ver a publicação de volta as bancas (Reprodução)

No entanto, segundo as leis europeias, os direitos autorais de literatura e musica são válidos durante a vida do autor e caducam após 70 anos da morte do mesmo (Hitler morreu em 30 de abril de 1945, cometendo suicídio). Sendo assim, os direitos de Mein Kampf oficialmente expiraram em 1º de janeiro deste ano, o que foi o que faltava para que o livro retornasse as prateleiras das livrarias, despertando o temor em muita gente, sobretudo os judeus.

E é dos descendentes de Davi a maior resistência a obra, e com justa razão, já que eram eles o maior justificador do ódio e da carnificina gratuita promovida pelos nazistas durante o Terceiro Reich. A principal crítica é apenas pela volta da publicação ao mercado, uma vez que soa como ofensa para a comunidade judaica esta situação. Não só os sobreviventes do holocausto ficariam ofendidos com a venda deste trabalho antissemita em livrarias novamente, afirma Ronald Lauder, presidente do Congresso Judaico Mundial em entrevista a agência AFP.

Richard Verber, (Reprodução)

Richard Verber,  do Conselho de Representantes dos Judeus Britânicos: É preciso entender a questão contextual histórica e a compreensão das ideias tortas de Hitler, não como promoção, mas como contextualização (Reprodução)

No entanto, observando pelo lado acadêmico da questão, revisitar Mein Kampf na nova edição é, na visão da história, compreender toda a ideologia que Adolf Hitler expôs sobre o antissemitismo e o que permitiu que todo o desenrolar do Terceiro Reich – e, consequentemente, a guerra –  foram acontecer. E o que não falta são detalhes, já que a nova edição vendida na Europa tem 2 mil páginas e acrescente 3500 notas históricas de especialistas no assunto acerca da ideologia da publicação, preparadas pelo Instituto de História Contemporânea de Munique (IFZ, em alemão).

Segundo o presidente do Conselho de Representantes dos Judeus Britânicos, Richard Verber, em entrevista a BBC, a importância de ver o livro novamente a tona é simplesmente pela inserção de quem estuda-lo no contexto histórico, justamente para compreender o período e entender como Hitler pode acontecer daquela forma. Eu ficaria nervoso sobre qualquer coisa que possa glorificar o Holocausto ou promover Hitler. Mas eu acredito que não vai ser isso. Vai ser uma versão acadêmica anotada, disponível para estudantes, acadêmicos não para promover as visões de Hitler mas para colocá-las em contexto histórico.

Na Europa, Mein Kampf é vendido a um valor de (R$ 257). No Brasil, apesar de três editoras terem entrado com a ideia de publica-lo, não há posição, seja delas ou das redes de livrarias (Reprodução)

Na Europa, Mein Kampf é vendido a um valor de (R$ 257). No Brasil, apesar de três editoras terem entrado com a ideia de publica-lo, não há posição, seja delas ou das redes de livrarias (Reprodução)

Apesar disso, Verber é contrário a ideia de disponibilizar o livro para alunos em sala de aula ou versões impressas sem as anotações ou (pior) a publicação sem as anotações contextuais. No entanto, ao contrário de muitos judeus, Verber tem otimismo sobre o que rever Mein Kampf pode trazer. Espero que essa edição sirva como alerta sobre o que extremismo pode alcançar, e claro, se olhamos para a Europa como um todo, a extrema-direta parece estar ganhando espaço.

Na Alemanha, Mein Kampf está a venda por 59 euros, cerca de R$ 257. No Brasil, três editoras –  Edipro, Geração Editorial e Centauro, esta última já havia publicado, há alguns anos, uma versão da obra – tinham a intenção de colocar a publicação a venda das livrarias nacionais. No entanto, as próprias redes de livrarias não tinham ainda posição sobre colocar ou não o livro a venda.

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