Para sempre Caio Fernando Abreu

Provocador, melancólico, imprimindo a solidão, o sexto e a morte em suas obras... Mas um intenso perseguidor da vida. Faz 20 anos que a literatura brasileira sente falta de Caio Fernando Abreu (Reprodução)

Provocador, melancólico, imprimindo a solidão, o sexo e a morte em suas obras… Mas um intenso perseguidor da vida. Faz 20 anos que a literatura brasileira sente falta de Caio Fernando Abreu (Reprodução)

(Nane Pereira / Nane Pereira Comunicação & Arte)

Sensível, apaixonado, intenso e único. Ele foi ator, dramaturgo, jornalista e escritor. Inclusive, um dos maiores representantes da literatura de sua geração. Enquanto vivo, não vendeu tantos livros e nem era tão conhecido como hoje. As suas frases e pensamentos profundos caíram no gosto de jovens e adultos, que nas redes sociais compartilham incansavelmente trechos da sua obra. Somente em uma conta do Twitter são mais de 930 mil seguidores e em uma única página do Facebook são mais de 680 mil. Hoje, alguns de seus livros foram traduzidos para as línguas alemã, espanhola, francesa, inglesa, italiana e holandesa.

Nesta quinta-feira (25/02), faz 20 anos que Caio Fernando Loureiro de Abreu morreu, por conta do vírus HIV, mas ele nunca esteve tão presente e em todos os lugares como nos tempos atuais. O escritor gaúcho, que nasceu no dia 12 de setembro de 1948, em Santiago do Boqueirão (hoje apenas Santiago), interior do Rio Grande do Sul, e que morreu em Porto Alegre, em 1996, permanece vivo através da sua obra.

O anuncio da morte, em 25 de fevereiro de 1996, na Folha de São Paulo (Reprodução)

O anuncio da morte, em 25 de fevereiro de 1996, na Folha de São Paulo (Reprodução)

Pouco antes de morrer, semanas antes, o Caio quis passar uns dias em Florianópolis. Tomou banho de mar e foi um dos (ou o) último lugar que visitou quando vivo. Há um outro conto que ele escreveu a partir de uma experiência pessoal em Garopaba, em Santa Catarina, o “Garopaba mon amour“, que está no livro “Pedras de Calcutá“. Ele era da tribo dos escritores que vivia para poder escrever, ele disse isso em várias entrevistas e os estudiosos e amigos apontam isso, comenta a jornalista catarinense Vanessa Souza, mestre em psicanálise com linha de pesquisa em literatura, com dissertação de mestrado concluída com foco na obra do autor.

A produção literária de Caio Fernando Abreu é uma reunião de textos que consegue expressar, como poucos, o retrato de uma geração, entre as décadas de 60 e 90. As narrativas do escritor mergulham abissalmente na dureza do homem contemporâneo: a solidão e a clausura dos tempos modernos e as fantasias e os sonhos que vão sendo dilacerados, pouco a pouco, nas histórias de personagens marginais: homossexuais, prostitutas, mochileiros, presidiários e pessoas comuns, que vivem no limiar tênue de um cotidiano razoavelmente sadio e com a loucura à espreita. Sobretudo, esse olhar (do escritor, dos personagens) de retinas fatigadas que buscava apenas uma coisa: amor. ‘A gente, quando tenta analisar qualquer problema, sempre vai aprofundando, até que chega nesse fundo que é amor sempre’ (Abreu), explica Vanessa.

Jornalista Vanessa (Reprodução)

Jornalista Vanessa Souza. Uma apaixonada pela obra de Caio, dá a visão do autor neste texto. Escritor exaustivamente – e prazerosamente – estudado por ela (Reprodução)

A jornalista acrescenta que Caio Fernando Abreu foi um crítico que vislumbrou a vivencia de sua geração e também um autor que a soube retratar com propriedade, pois o fez retratando muito de si mesmo. O reflexo dessa geração, na escrita de Caio, trazia a desesperança e o horror que a população brasileira viveu durante e depois dos anos de chumbo, da ditadura militar. Sua obra é para ser lida por qualquer pessoa de qualquer época. Muito embora o desencontro pungente nos livros de Caio seja o grande estigma de uma geração de sonhos esfacelados e frustrações pontiagudas, reflete.

Morangos Mofados, de 1982. O grande sucesso de Caio (Reprodução)

Morangos Mofados, de 1982. O grande sucesso de Caio (Reprodução)

A temática na obra caioferdiana, segundo Vanessa, é muito voltada para o social, pela perspectiva interna, além de mostrar a visão de uma geração que enfrentou uma das épocas de maior tensão e conflito político no Brasil. Onde os personagens do autor são fotografias desse contexto, como seres profundamente marcados pelo vazio, carências, insanidade e por várias nuances de isolamento e marginalidade.

Mas que no entanto há sempre a busca de sua identidade e do amor. Há alguns anos eu entrevistei a maior autora contemporânea brasileira: Adriana Lisboa. Guardem esse nome, tudo o que ela publicou é belo e pungente. Ela me disse que boa literatura não se faz com céu de brigadeiro. Eu poderia responder que Caio fazia isso. Ele tinha o admirável dom de capturar o tempo através da interioridade de seus personagens e de referências musicais, literárias, cinematográficas, etc., através das quais o leitor, além de se situar historicamente, vê-se envolvido por uma atmosfera inebriante que o transporta para aquele momento, fazendo-se participante. O escritor era um grande criador de climas, e fazia isso com maestria através de sua linguagem fortemente imagética e minimalista, acrescenta a jornalista.

Em uma das entrevistas para a tese de doutorado sobre Caio Fernando Abreu, Vanessa conversou com o ator Marcos Breda, que desabafou: Doze anos foi o tempo que a ‘Senhora Dona Vida’ (como ele costumava chamá-la) me concedeu o privilégio de conviver com Caio Fernando Abreu. ‘Um ciclo completo de Júpiter’, diria ele que, além de escritor, era também astrólogo. Júpiter é o planeta que simboliza a expansão, o crescimento e a fé. Caio foi para mim uma espécie de arauto dessa divindade. Mas um arauto travesso, capaz de misturar sua profunda sabedoria com doses generosas de inteligência, erudição e, sobretudo, malícia e bom humor. Caio era / é um dos maiores escritores que o Brasil já teve. E também um das maiores amizades que já cultivei nesta vida. Lembrar dele me faz lembrar também de uma das inúmeras pequenas epifanias que ele escreveu: ‘eu tenho amigos tão preciosos; ninguém sabe, mas eu sou uma pessoa muito rica’.

Marcos Breda lendo com Abreu "O Homem e a Mancha" (Reprodução)

Marcos Breda lendo com Abreu “O Homem e a Mancha” (Reprodução)

Entre as obras mais significativas de Caio Fernando Abreu está o livro Morangos Mofados (1982), o mesmo que Vanessa encontrou há muitos anos na Biblioteca Universitária da Universidade Regional de Blumenau (FURB). Obra que a fez leitora assídua e pesquisadora dos escritos de Caio Fernando.

Como ficar indiferente a uma pessoa que escreveu textos como: ‘Ficou um silêncio cheio de becos.’ Ou: ‘(…) como é triste lembrar do bonito quando algo ou alguém foi quando esse bonito começa a se deteriorar irremediavelmente.’ E ainda: ‘O que eu não sabia nem poderia saber – em parte porque aos 20 anos a gente pouco sabe além da própria fome, em parte porque não podia, nem posso ou podemos, prever o futuro – é que embora parecesse tarde, era ainda cedo.’ Não é de dilacerar a alma? Sim. Todos os sins para a produção literária do Caio: contos, romance, novelas, crônicas, roteiros de teatro, cartas e bilhetes, conclui Vanessa.

 

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