Fabricio Wolff em A BOINA: Idolatria, Fraqueza Social

(Fabrício Wolff)

(Reprodução)

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Venerar ídolos é uma cultura muito, mas muito antiga. Na mitologia grega havia os deuses e semi-deuses. Há 2.016 anos, o cristianismo criou os santos. Alguns adoram Deus, outros Alá. Alguns chegam ao fanatismo nessas adorações. Talvez por isso, não seja tão difícil compreender a veneração de pessoas, também. A sociedade, desde sempre, criou seus ídolos, seus heróis, uma forma de buscar parâmetros de comportamento. Mais ou menos a ideia de que se todos agissem assim, a sociedade seria melhor. Porém, as pessoas que compõem a sociedade, em sua maioria, procuram compensar sua fraqueza interior na adoração a figuras que elas tornam ídolos. A idolatria, então, representa a fraqueza de uma sociedade e das pessoas que a compõem.

As pessoas têm a tendência de terceirizar seus fracassos como forma de dividir o peso do não alcance de suas expectativas. Se você mirar um exemplo que torna inalcançável, como um ídolo, isto pode ajudar em muito a conviver com seus insucessos pessoais. É claro que ao idolatrar alguém, as pessoas o fazem sem a consciência da razão do ato. Geralmente acreditam ser apenas uma admiração superlativa, ou mesmo entram na onda de admiração do grupo social que convivem.

(Sutton)

Ayrton Senna (Sutton)

Ayrton Senna foi ídolo nacional. Era um vencedor no automobilismo e os brasileiros depositaram nele sua vontade de vencer. O juiz Sérgio Moro, que comanda as investigações da Operação Lava Jato, é outro em quem os brasileiros depositam aquilo que desejariam ser. Justiceiros contra a corrupção que assola este país há muito – e que ultimamente assusta a todos com números inimagináveis que somam dezenas de bilhões de reais.

Até o ex-presidente Lula, durante um momento da vida política brasileira, chegou a encarnar a esperança de um Brasil diferente, para todos, mais honesto. Era romântico ver um trabalhador braçal chegar à presidência da República, apesar da desconfiança de alguns pelo seu pouco estudo.

Juiz Sergio Moro (Reprodução)

Sergio Moro (Reprodução)

Porém as investigações em curso, o enriquecimento rápido da família e as insistentes negativas de propriedade de imóveis que soam escancaradamente como mentiras, mostram que o ídolo de alguns tem pés de barro. Mostrou que Lula não só não era um Ayrton Senna ou um Sérgio Moro, como também não pode ser comparado sequer a Robin Hood – outro ladrão imortalizado no folclore popular inglês, porque este outro roubava dos ricos para dar aos pobres e não a ele mesmo.

Sempre considerei uma pena – pena mesmo! – alguém ter que idolatrar outra pessoa, seja um ser carnal, um santo ou uma imagem. Uma fraqueza de espírito que beira à falta de amor próprio. Se bem que com as questões psicológicas, é sempre difícil lidar. Algumas pessoas argumentam que muitos precisam adorar algo conhecido ou desconhecido (ideológica ou espiritualmente) para viver melhor, mais centrado. Isto me soa como para aceitar melhor sua condição de vida.

Porém, as pessoas têm direito de fazer o que bem quiserem de suas vidas. Não posso negar, entretanto, que vejo isto como uma fuga da realidade, uma forma de o adorador (aquele que idolatra) encontrar forças nos outros para si, buscar externamente aquela força que não tem internamente (ou acredita que não tem). E pessoas internamente frágeis são sempre mais fáceis de serem dominadas.

A figura clássica de Robin Hood, em estátua localizada no Castelo de Nottingham (Reprodução)

A figura clássica de Robin Hood, em estátua localizada no Castelo de Nottingham (Reprodução)

Por isso este ressaltar quase icônico de pessoas tão diferentes como Moro e Lula, soam perigosos. Não que dê para comparar um ao outro. Todas as pessoas têm suas qualidades e seus defeitos e, até onde conhecemos, Moro é o juiz que tenta passar a limpo um passado obscuro da vida pública nacional, enquanto Lula é um ex-presidente que de esperança nacional desceu para o degrau baixo dos corruptos de plantão que usam o poder para levar vantagens indevidas.

O que vem ao caso aqui, no entanto, é que idolatrar tanto a um quanto a outro só demonstra a fraqueza da nossa sociedade. Admirar e apoiar o trabalho do juiz Sérgio Moro, do Ministério Público Federal (MPF), da Polícia Federal e de todos os organismos que enfrentam ameaças para desnudar a dura e bandida realidade da vida pública (e privada) deste país, é uma coisa. Real, consciente e necessária. Personificar este apoio na idolatria a uma pessoa, é fraqueza. Até porque se, um dia, o ídolo se vai, o processo é interrompido.

O Brasil precisa é de instituições fortes, não de ídolos. Precisa de partidos fortes – e sérios, não de políticos de estrela superior que criam seus currais ideológicos eleitorais. O Brasil precisa é de uma cultura de cidadania, que é construída pela consciência e atitude de cada um, e não de fracotes admiradores de salvadores da pátria. Ou isso ou o eterno gigante adormecido em berço esplêndido de uma nação de cordeirinhos que vivem seguindo as ordens de seus líderes (geralmente narcisistas e perniciosos).

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