Gramming & Marbles: Camarada Rosberg encaçapa a sétima seguida nas terras de Tio Putin

(André Bonomini & Douglas Sardo)

Recordações de 1994

Sanna deixa o carro após o acidente em Imola, 1994... Bem, era o que poderíamos e queríamos dizer naquele fim de semana, retratado em pintura de Oleg Konin (Oleg Konin / Reprodução)

Senna deixa o carro após o acidente em Imola, 1994… Bem, era o que poderíamos e queríamos dizer naquele fim de semana, retratado em pintura de Oleg Konin (Oleg Konin / Reprodução)

Hoje não tinha como começar de forma diferente este relato do GP da Rússia se não lembrando que, exatamente neste dia, relembramos daquele que, para muitos, foi o motivo de começar a paixão pela F1. Há 22 anos, nós, reles mortais que acompanhamos as voltas do circo domingo depois de domingo, assistíamos o passamento de Ayrton Senna, talvez um gênio do automobilismo como jamais veremos em mil anos.

Aquele fim de semana de 1994, na provinciana Imola, parecia não estar pronto para nos separar tamanha tragédia. Isto pois foram três acidentes traumáticos, resultando deles duas mortes. Fora a de Senna no domingo, assistíamos dois dias antes Rubens Barrichello destroçar a Jordan na barreira de pneus da variante baixa e quase por ali também passar-se. Um dia depois, o jovem Roland Ratzenberger não teria a mesma sorte de Rubinho, desmantelaria a frágil Simtek diante do duro muro da curva Villeneuve, a quase 320 por hora, interrompendo-se assim um sonho de um austríaco de ser, quem sabe, como foi Niki Lauda.

Roland Ratzenberger acelerando o Simtek em Imola. Seria morto no sábado, numa pancada a quase 320 por hora na Villeneuve. Talvez um jovem sonhador austríaco que queria ser como Lauda (Reprodução / Sutton)

Roland Ratzenberger acelerando o Simtek em Imola. Seria morto no sábado, numa pancada a quase 320 por hora na Villeneuve. Talvez um jovem sonhador austríaco que queria ser como Lauda (Reprodução / Sutton)

Discussões vem e vão, a segurança virou palavra de ordem e a F1 que conhecíamos pelos relatos de nossos pais e amigos mais velhinhos simplesmente virou fumaça diante de novas regras, mudanças profundas em carros e autódromos e a sombra de um trauma que, vez em quando, sem volta a assombrar a categoria-mãe, como foi com Jules Bianchi, que faz a Federação e as equipes se debruçarem em formas de proteger a cabeça dos botas. Outra discussão que começa, ou não.

Seja como for, a vida continua, mesmo de uma forma mais reflexiva para alguns neste primeiro de maio. 1º de maio de corrida, como não era desde, justamente, 1994. E, como bons acompanhantes fanáticos pela F1, sigamos o trabalho de comentar, opinar e bater papo com os amigos sobre as emoções (ou nem tantas emoções) dos dias de hoje. Vamos, então, falar da Rússia, sem esquecer de quem no passado despertou esta paixão por borracha queimada, motores e histórias da maior das categorias do automobilismo mundial.

Nico, Nico, Nico… sete vezes Nico!

Sete seguidas no bolso de Nico Rosberg. Quem segura o alemão...se nem Hamilton tem conseguido? (Getty Images)

Sete seguidas no bolso de Nico Rosberg. Quem segura o alemão…se nem Hamilton tem conseguido? (Getty Images)

Há alguém, em sã consciência na F1 atual, capaz de segurar Nico Rosberg? Há sete corridas – contando desde o México, em 2015 – não sabemos o que é outro vencedor no pódio que não fosse o filhote do tio Keke. Este domingo, diante do público razoavelmente animado de Sochi, ele fez de novo. Largou na pole, venceu com autoridade e, para somar, colocou tempo em cima de Lewis Hamilton. Sete vitórias seguidas, igual a ele nas estatísticas  Michael Schumacher e Alberto Ascari. E a frente, apenas Sebastian Vettel (9 vezes seguidas).

Nico mostra um equilíbrio mental enorme neste início de campeonato. Há quem diga que Hamilton esteja sofrendo dos azares seguidos que lhe impedem de mostrar o talento que tem, mas o inglês tropeça seguidamente e abre caminho para uma pressão interna na Mercedes que não sentia desde o tempo de McLaren. A diferença espicha ainda mais no campeonato, mesmo num calendário que permite reação (21 etapas, se foram apenas quatro). Mas a sequencia de problemas e contratempos preocupa independente do tempo que tem para recobrar a sorte. E na Rússia, foi mais um dentre tantos atropelos do início de temporada.

A largada, Rosberg parte seguro, sem contato com o salseiro das curvas seguintes, para mais uma vitória. A quarta no ano, a sétima seguida (Getty Images)

A largada, Rosberg parte seguro, sem contato com o salseiro das curvas seguintes, para mais uma vitória. A quarta no ano, a sétima seguida (Getty Images)

Bom para Rosberg, o alemão escreve a história e anda com classe de quem já é campeão mundial por várias vezes. E se lhe falta título, isso não parece problema. Afinal, o pai tem este galardão e os ensinamentos de casa também contam.

Perturbações de Vettel

Vettel no muro depois da empurrada de Kvyat. Russo não é, exatamente, o pesadelo astral do alemão da Ferrari. O inicio de temporada da esquadra de Maranello vai bem longe das expectativas de Sergio Marchione (Reprodução / TV)

Vettel no muro depois da empurrada de Kvyat. Russo não é, exatamente, o pesadelo astral do alemão da Ferrari. O inicio de temporada da esquadra de Maranello vai bem longe das expectativas de Sergio Marchione (Reprodução / TV)

Quem está repetindo decepções nesta primeira parte da temporada, sem dúvida, é Sebastian Vettel. Esperava ser ele, o alemão da Ferrari, um dos principais rivais de Rosberg no meio dos infortúnios de Hamilton. Mas bastiãozinho não anda com a sorte do lado nem com o carro em ordem. Trocou o câmbio para Sochi e já largou com cinco posições de desvantagem no treino. Na largada, o salseiro com Daniil Kvyat, num primeiro toque furando o pneu, e num segundo momento sendo limado da pista pelo dono da casa.

Sem querer culpar o russo, que anda agindo por impulsão em alguns lances, mas vá você tentar imaginar a reação de um piloto dentro do cockpit quando o carro a frente, de repente, desacelera. Kvyat deve ter levado este susto quando Vettel se batia com o pneu furado. Toque inevitável, batida inevitável e um Seb irado como poucas vezes visto. Sobrou até para Christian Horner, um pouco depois sendo visitado por Vettel no espaço da Red Bull para conversar algo do tipo “fale com seu piloto que anda maluco ultimamente”.

Mesmo que o inferno de Vettel não seja, exatamente, Kvyat, o alemão do time de Maranello ainda precisando procurar o rumo das boas atuações. Feliz foi Kimi Raikkonen, que mesmo sofrendo com o desempenho da Ferrari, arrancou um terceiro lugar, nada mal para quem estava servindo de coadjuvante.

Williams X Red Bull – Grove a frente em Sochi

Bottas em quarto, num autódromo muito mais favorável a condição atual da Williams (Getty Images)

Bottas em quarto, num autódromo muito mais favorável a condição atual da Williams (Getty Images)

Na briga pela condição de terceira força do mundial, a contenda entre Grove e Áustria segue firme, muito embora desta vez os gladiadores do touro paraguaio não terem nem aparecido pela prova. Felipe Massa e Valtteri Bottas tiveram uma boa vantagem sendo beneficiados pelas punições de Hamilton e Vettel. E não só, o carro de Grove andou bem mais consistentemente na pista do que nas provas de maior média de velocidade, sem contar que o team acertou a estrategia de pits pela primeira vez depois de tanto tempo, com Bottas.

Foi o finlandês que fez boa prova, evitando apenas se entreverar com Raikkonen, como foi no ano passado (com final que bem sabemos). Cavou um bom quarto lugar, segundo por Felipe Massa, no rotineiro quinto posto de todo domingo de corrida. No caso do brasileiro, não sei se é limitação do carro ou da própria performance. Vai lá saber…

Os 10 mais – Corrida

1 – Nico Rosberg (Mercedes)
2 – Lewis Hamilton (Mercedes)
3 – Kimi Raikkonen (Ferrari)
4 – Valtteri Bottas (Williams-Mercedes)
5 – Felipe Massa (Williams-Mercedes)
6 – Fernando Alonso (McLaren-Honda)
7 – Kevin Magnussen (Renault)
8 – Romain Grosjean (Haas-Ferrari)
9 – Sergio Perez (Force India-Mercedes)
10 – Jenson Button (McLaren-Honda)
16 – Felipe Nasr (Sauber-Ferrari)

Os 6 mais – Campeonato

1 – Nico Rosberg (100)
2 – Lewis Hamilton (57)
3 – Kimi Raikkonen (43)
4 – Daniel Riccardo (36)
5 – Sebastian Vettel (33)
6 – Felipe Massa (32)
21 – Felipe Nasr (0)

MENINO DE MUZAMBINHO: Fernando Alonso

Alonso fez milagre, extraiu leite de pedra e conseguiu um ótimo sexto lugar para a McLaren. Falta muito pro bólido de Woking. Mas, dá pra dizer que a turma está no caminho certo depois disto? (Studio Colombo / Pirelli)

Alonso fez milagre, extraiu leite de pedra e conseguiu um ótimo sexto lugar para a McLaren. Falta muito pro bólido de Woking. Mas, dá pra dizer que a turma está no caminho certo depois disto? (Studio Colombo / Pirelli)

E olha só quem está aqui no galardão máximo do G&M? Tempo que não falávamos bem do bom e velho asturiano. Foi um fim de semana de muito lucro para Fernando Alonso. Largou razoavelmente bem e soube extrair, como sempre, o néctar da pedra para levar a McLaren aos primeiros pontos de 2016. Tá certo, o carro, impulsionado pela pipoqueira da Honda, ainda está longe de ser uma ameaça. Mas a julgar pelo progresso constante não dá pra mentir que os japas estão com a mesma paciência dos tempos de Spirit e Williams, em 1983.

E, sinceramente, não só Alonso merece o galardão, embora fez uma prova para esquecer de alguma dor nas costelas. A McLaren em si, pois chegou aos pontos com os dois carros depois de muito tempo. Jenson Button duelou bonito com Carlos Sainz Jr. e fez um pontinho feliz. Apesar de todos os atravancos, sabe-se lá o que reserva o futuro para a turma de Woking? Que sejam coisas boas, pelo bem da F1.

Rapidinhas:

– Nos treinos de quinta, vimos pela primeira vez na pista o tal do aeroscreen, o para-brisa da Red Bull que apresenta-se como mais uma das tantas opções para a proteção da cabeça. Esteticamente, é menos feio que o Halo da Mercedes, mas ainda assim estranho inserido no design do carro atual. Bernie Ecclestone, no entanto, não se dá por satisfeito e diz que não é preciso proteger a cabeça… Okay, então.

Aeroscreen na pista, com Riccardo. Na estética, bem melhor do que o Halo. Mas Ecclestone não crê em proteções para a cabeça. (Reprodução)

Aeroscreen na pista, com Riccardo. Na estética, bem melhor do que o Halo. Mas Ecclestone não crê em proteções para a cabeça. (Reprodução)

– Comentávamos eu e Douglas, durante a corrida, sobre a draga da Renault, em um calvário sem fim neste 2016. Falamos demais, por Kevin Magnussen arrancou um interessante sétimo lugar… Como? Vai saber, os franceses saem da Rússia com algum lucro numa temporada caótica para os planos amarelos.

Uma boa chegada para Kevin Magnussen (a frente) com a draga da Renault, com o sétimo posto. Já Grosjean (abaixo) arrancou um oitavo, tirando a Haas do breve sumiço no meio do pelotão (Getty Images | Studio Colombo / Pirelli)

Uma boa chegada para Kevin Magnussen (a frente) com a draga da Renault, com o sétimo posto. Já Grosjean (abaixo) arrancou um oitavo, tirando a Haas do breve sumiço no meio do pelotão (Getty Images | Studio Colombo / Pirelli)

GP RUSSIA F1/2016

– Outra boa chegada foi a da Haas, que passou sumida pela China e pelos treinos em Sochi. Romain Grosjean mostrou que tem estrela outra vez e completou em oitavo, contra qualquer prognóstico negativo. Já Esteban Gutierrez seguiu o roteiro padrão de outras provas… Ser um reles número na prova.

– A fase da Sauber é triste, dolorida e quase terminal. Fora as dificuldades de Marcus Ericsson, Felipe Nasr vai queimando a própria trajetória na F1, e de uma forma prematura. Já um tanto limitado de talento por ainda ser um fresco bota no grid, ainda tem que lidar com os problemas de desempenho e financeiros da equipe de tio Peter, cada vez mais sem chance de sair da UTI.

O calvario da Sauber não tem fim. Mais uma vez, Felipe Nasr sofreu com o carro, o que mina lentamente a própria carreira, que poderia ser promissora (Studio Colombo / Pirelli)

O calvario da Sauber não tem fim. Mais uma vez, Felipe Nasr sofreu com o carro, o que mina lentamente a própria carreira, que poderia ser promissora (Studio Colombo / Pirelli)

Para sempre Ayrton…

E, terminando este G&M de domingo, 1º de maio… Apenas uma outra lembrança de Ayrton Senna, um pouco mais sentimental desta vez. Trata-se da mensagem lida por Celso Freitas no fim do Globo Repórter especial sobre o piloto no dia 6 de maio, sexta-feira seguinte. Palavras e canção pelas curvas de Interlagos, num traçado que o próprio Ayrton havia ajudado a remodelar, alguns anos antes.

Afinal, sempre vale a reflexão e a lembrança de quem, para muitos, inspirou a seguir a F1, mesmo em tempos difíceis…

Agora, que todas as palavras foram ditas, que todas as cenas de uma vida foram velozmente vividas… A alma é uma pista vazia, a espera que os motores do dia arranquem e nos tragam alguma alegria.

E a vida segue adiante. A F1 reencontra-se daqui há duas semanas, no dia 15 de maio, na casa de todas as equipes: Barcelona, para o GP da Espanha.

Até la!

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