BR-470: Suspender o que está quase parando?

Outra vez, a incerteza. DNIT sugere suspender obras de 31 rodovias, incluindo a lenta duplicação da BR-470, que volta a fase de sonho quase impossível diante do imobilismo do poder público Reprodução)

Outra vez, a incerteza. DNIT sugere suspender obras de 31 rodovias, incluindo a lenta duplicação da BR-470, que volta a fase de sonho quase impossível diante do imobilismo do poder público (Reprodução)

Não me seria novidade ouvir uma desta diante da atual situação política do Brasil. Abro o Santa na manhã nebulosa desta terça-feira para me deparar com um velho assunto do Vale em situação ainda mais nebulosa. A quase eterna obra de duplicação da BR-470, que já estava em um ritmo de execução em estudos, teve a suspensão dos trabalhos cogitada pelo Departamento Nacional de Transportes (DNIT), juntamente com outras 31 obras em rodovias pelo país, por conta do corte de verbas do Ministério dos Transportes.

Uma notícia destas não tem outra forma de soar nos ouvidos do Vale como uma nova ducha de água fria em ver o antigo sonho realizado. De governo em governo, a promessa de duplicação sempre foi a mesma, somando-se apenas o número de promessas e de vidas perdidas na cruel mistura infraestrutura+imprudência, muitas vezes mais por conta da imprudência dos condutores. Isto não vem ao caso, o que se vê, outra vez, é apenas mais uma prova concisa da ingerência do atual governo, que volta atenções agora para meios de manter-se no poder, acuado com a paranoia do tal golpe.

O então ministro dos transportes, Cesar Borges, sob o olhar de Ideli Salvatti, assina a ordem de serviço para o início das obras nos quatro lotes da rodovia. Das plumas e paetês da cerimônia em Gaspar para o imobilismo e morosidade da obra, que ameaça parar por conta do corte de verbas do próprio ministério Arquivo / RBS)

O então ministro dos transportes, Cesar Borges, sob o olhar de Ideli Salvatti, Décio Lima e Raimundo Colombo, assina a ordem de serviço para o início das obras nos quatro lotes da rodovia. Das plumas e paetês da cerimônia em Gaspar para o imobilismo e morosidade da obra, que ameaça parar por conta do corte de verbas do próprio ministério (Arquivo / RBS)

A BR-470 não tem nome científico, não homenageia ninguém. A todo e exatamente, tem 472,3 Km de extensão entre Camaquã, na cidade de São Jerônimo, no Rio Grande do Sul, e Navegantes, aqui pertinho de nós. Comparada a outras rodovias como a BR-116 e a BR-101, parece até uma estrada irrelevante, mas a importância desta artéria, enxergada muito bem por quem precisa (e muito) dela, é imensa. Especialmente quando falamos de deslocamento de mercadorias e passageiros por sua fita negra de asfalto.

Tomando bandeiras de autoridades empresariais e de transportes do Vale, o governo anunciou com todas as pompas possíveis a obra, denominando-a sarcasticamente de presente a região, em uma cerimônia no Ginásio João dos Santos, em Gaspar. Isto em julho de 2013. Lembro-me ainda da frase da então secretária de relações institucionais, Ideli Salvatti, bradando aos microfones das emissoras de TV que a ordem da presidente era, no português mais rebuscado, peremptória. Era pra começar pra já… E, na teoria, começou.

Em alguns trechos, já se vê a camada de cascalho preparando-se para o recebimento do asfalto. Mas são poucos trechos, em outros, ou é a manta especial, ou o barro ou nada mesmo Reprodução)

Em alguns trechos, já se vê a camada de cascalho preparando-se para o recebimento do asfalto. Mas são poucos trechos, em outros, ou é a manta especial, ou o barro ou nada mesmo (Reprodução)

No entanto, parafraseando o humorista Paulinho Mixaria, a obra nunca passou pro galope. Embora em alguns trechos veja-se uma estrada tecnicamente dita, em outros não há presença alguma de máquinas e o correr delas foi se tornando, aos poucos, peça rara nos trechos dos quatro lotes licitados. Entre viagens que fazia entre Blumenau e Navegantes, onde o movimento é grosso, dava pra ver algo acontecendo, como as vias da segunda pista já nascidas do barro, mas ainda assim e só assim.

Passa-se o tempo, a situação política muda, e a 470 é, novamente, vitima do imobilismo governamental de Brasilia. Isto pois ainda o Brasil é preso quase que eternamente ao velho modal das rodovias, largamente espalhadas pelo país no governo Vargas. Ferrovias, meios mais baratos, rápidos e com grande variedade de usos, são lutas quase como novela e que, cada dia que passam, restringem-se a umas poucas empresas privadas e aos livros de história, que fazem lembrar de um passado romântico e um tanto mais desimpedido sobre trilhos. Nem preciso falar da EFSC, que já falei aqui em A BOINA, mas apenas por citar um cruel exemplo.

O último acidente, no último dia 29 de abril, entre Blumenau e Indaial, um dos trechos mais movimentados e perigosos da rodovia. O atraso não afeta só o deslocar de nossa produção e passageiros, mas também ceifa vidas na perigosa mistura de péssima infraestrutura com a imprudência de muitos motoristas Patrick Rodrigues / RBS)

O último acidente por hora, no último dia 29 de abril, entre Blumenau e Indaial, um dos trechos mais movimentados e perigosos da rodovia. O atraso não afeta só o deslocar de nossa produção e passageiros, mas também ceifa vidas na perigosa mistura de péssima infraestrutura com a imprudência de muitos motoristas (Patrick Rodrigues / RBS)

Ok, o jeito é respirar fundo, pegar novamente as velhas artes gráficas das campanhas de duplicação passadas, dar uma repaginada e se preparar para um possível suspender das obras. Há possibilidades de entrega-las a iniciativa privada, submetendo-nos ao temor dos pedágios. Mas, em vista do futuro que nos está separado (pelo menos por hora), não será surpresa se as máquinas, que já eram poucas, desligarem motores e se imobilizarem nos trechos.

Para quem quer mais detalhes, o Santa traz três matérias mais explicativas sobre a situação da rodovia. É só clicar (um, dois e três)

Enquanto isso, vamos aguardando, e provavelmente, a pior notícia.

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