Leicester – Uma grata surpresa do esporte

A grande glória. Um time modesto de uma cidade britânica desconhecida do grande público, mas com um time que é um exemplo de surpresa e persistencia. Eis o Leicester, campeão inglês de 2015-16, e testemunha daqueles momentos imprevisíveis e fabulosos do esporte (Reprodução)

A grande glória. Um time modesto de uma cidade britânica desconhecida do grande público, mas com um time que é um exemplo de surpresa e persistencia. Eis o Leicester, campeão inglês de 2015-16, e testemunha daqueles momentos imprevisíveis e fabulosos do esporte (Reprodução)

Nunca fui muito de comentar futebol, admito aos amigos do blog. Embora tendo um coração cruzmaltino desde criança, o nobre esporte bretão nunca foi meu forte. Apesar de virar um negócio que move milhões e motiva escândalos, o futebol sempre nos permite se surpreender com alguma coisa fora de todas as estatísticas. E isso vindo de um lugar onde os milhões da bola correm é ainda mais chocante.

Pois, há algum tempo achando que isso jamais fosse acontecer, não podia acreditar que veria nas quatro linhas do velho continente uma surpresa tão grande quanto a que foi na terra-berço do futebol. Há alguns dias a imprensa futebolística inglesa só fala de um único clube. E se você pensa que falamos das potências de sempre – como os Manchester United e City, Arsenal e Chelsea – engana-se. A festa quem faz é uma simpática cidade do centro da ilha da Inglaterra.

É o Leicester, campeão da Premier League pela primeira vez em mais de 130 anos de história do time e que faz acreditar que, mesmo diante dos altos negócios das quatro linhas, os pequenos, atrevidos e imprevisíveis clubes podem fazer chocar.

Uma breve história

O jovem Gordon Banks, lenda viva dos gols mundiais, com o uniforme de arqueiro dos Foxes. Antes de 2015-16, os anos 60 foram os mais produtivos do time (Reprodução)

O jovem Gordon Banks, lenda viva dos gols mundiais, com o uniforme de arqueiro dos Foxes. Antes de 2015-16, os anos 60 foram os mais produtivos do time (Reprodução)

Fundado em 1884 como Leicester Fosse, os Foxes – apelido dado por conta das grandes e tradicionais caçadas de raposa nas regiões próximas a cidade – nunca tiveram gloria maior do que as Copas Inglesas conquistadas nas temporadas 1963-64, 1997-98 e 2000-01. É um clube de grande monta na segunda divisão do futebol britânico, com sete títulos e 11 acessos a Premier League. No entanto, era simplesmente um clube comum sem grandes aspirações e apenas brigando para não voltar ao lado B, o que muitas vezes aconteceu.

Os anos 60 foram o primeiro auge do clube, tendo nas balizas a estrela maior de Gordon Banks, um dos maiores goleiros do mundo. No entanto, assim como em vários clubes de outros tempos, a decadência chegou, sucedendo quedas e desempenhos razoáveis na primeirona. Vale destacar que, no plantel dos Foxes, também esteve presente o super Gary Lineker, que jogou com a camisa azul entre 1978 e 1985 e é um fanático torcedor do time.

No entanto, como em outros clube da Europa, um mecenas chegou nos lados de Leicester, com a intenção de fazer do time uma potência. o tailandês Vichai Srivaddhanaprabha (nome complicado, não?), dono do grupo asiático Asian Football Investiments, assumiu as finanças do clube. Os planos eram até modestos para um time considerado pequeno. Subir de divisão e, em até três anos, fazer a equipe chegar entre os cinco primeiros na Premier League. Algo ainda um tanto difícil para as pretensões do time.

O italiano Claudio Ranieri, de tantas passagens por outros times de grande expressão, conquistou a maior glória da carreira de técnico no modesto Leicester (Reprodução)

O italiano Claudio Ranieri, de tantas passagens por outros times de grande expressão, conquistou a maior glória da carreira de técnico no modesto Leicester (Reprodução)

Em 2013-14, a equipe subiu a primeira divisão como pedido nas intenções de Vichai. No entanto, na temporada seguinte, parecia uma tragédia para os Foxes, que se viram diante de um novo e iminente rebaixamento. Atrás de uma salvação, o Leicester iniciou uma arrancada avassaladora que salvou o time da degola, espantando até a imprensa futebolística local com tamanho desempenho.

Performance esta que voltou aos gramados na irretocável temporada de 2015-16. Tendo sob o comando o italiano Claudio Ranieri. o Leicester foi derrubando gigantes dentro do cercado e, com uma organização tática primorosa, acabou faturando um título histórico. Afinal desde 1976-77 com o Nottingham Forest que a Premier League não via um campeão inédito. E nem precisou vencer nem trabalhar tanto, já que um empate entre Chelsea e Tottenham Hotspur foi o suficiente para garantir o caneco. A festa na pequena cidade ainda não deve ter encerrado, e nem deve acabar, já que com a popularidade vem visitantes, vem prestígio e todas as coisas que uma conquista desta traz.

Um elenco jovem e de qualidade, muito bem montado e organizado em campo foi a diferença. O time que tinha intenção apenas de não ser rebaixado, lutou pelo improvável. E conseguiu (Reprodução)

Um elenco jovem e de qualidade, muito bem montado e organizado em campo foi a diferença. O time que tinha intenção apenas de não ser rebaixado, lutou pelo improvável. E conseguiu (Reprodução)

Mas, afinal, o que o Leicester tem a ver com a história?

A conquista dos Foxes soa muito mais do que uma gigantesca zebra no futebol britânico, a história de superação de um elenco quase que totalmente desconhecido faz pensar que ainda há como se surpreender num universo tão poluído por negociatas milionárias e cartas marcadas nas principais ligas do velho continente. Não se trata de menosprezar elencos de times estrelados, mas sim de sair da previsibilidade que norteia o esporte nos últimos tempos, em todas as modalidades.

Na Espanha, por exemplo, é fácil apontar o dedo para Barcelona e Real Madrid. Embora o Atlético de Madrid, ressurgido há algum tempo, começou a incomodar o poderio dos grandes caçadores de estrelas, ainda assim a Liga é previsível e só atrai olhares pelas atuações dos grandes astros, que sacramentam goleadas com belos, o que é um espetáculo mas que não permite surpresas. A mesma coisa em Portugal, onde a taça ronda as mãos ou de Benfica, ou Sporting ou Porto. Isto sem citar as potencias de sempre na Itália (Internazionale, Roma, Juventus, Milan) e Alemanha (Bayern Munique tem dominado e muito) e em outros países.

Real e Barcelona em campo. Emoções apenas entre as estrelas dos grandes, mas com a previsibilidade de sempre (Reprodução)

Real e Barcelona em campo. Emoções apenas entre as estrelas dos grandes, mas com a previsibilidade de sempre (Reprodução)

Em outros esportes, como o automobilismo, também não se tem espaço para surpresas de porte bem menor do que o padrão milionário de hoje. A F1 e a MotoGP são dois exemplos clássicos, tendo breves lampejos de imprevisibilidade em alguns dias inspirados. Mesmo assim, o poder de comprar, desenvolver ao máximo e não se permitir baixar-se a novas regras para buscar o equilíbrio de forças. O futebol ainda é o único esporte no mundo atual em que o poder de surpreender ainda pode ser visto com alguma frequência a mais.

Comentaristas especializados chegaram a tachar a conquista do Leicester como o maior feito do futebol mundial, de um elenco que estava fadado a ser rebaixado e jogado na obscuridade diante das potências para um clube que, agora, tem o bastão de comando da Premier League e que é muito mais do que uma simples pedra no sapato dos grandes clubes de la. Na próxima temporada, estará em campo na Champions League, e pode não ser mais uma simples surpresa como foi na terra britânica.

Senna no dilúvio de Mônaco, em 1984. O talento do brasileiro era inegável, mas a surpresa no principado foi a coroa maior do imprevisível, mesmo com um carro modesto como o Toleman (Reprodução)

Senna no dilúvio de Mônaco, em 1984. O talento do brasileiro era inegável, mas a surpresa no principado foi a coroa maior do imprevisível, mesmo com um carro modesto como o Toleman (Reprodução)

A lição que o Leicester deixa vai além da persistência e combatividade para buscar um sonho dito impossível, mas sobretudo deixa-se escrito que nem sempre o dinheiro pode comprar bons elencos. As vezes, as grandes estrelas não precisam de grandes times, verbas e equipamentos para fazer-se ouvir e mostrar que podem e que conseguem. Ayrton Senna nos fez questão de ensinar isso em 1984, quando desfilou por uma Monte Carlo envolta em água. Quase venceu, mas permitiu assombrar o mundo com um segundo lugar numa modestíssima Toleman.

Tomara que outras surpresas surjam. Enquanto isso, gozará Leicester do prestigio que conquistou. E, quem sabe, para nunca mais deixar de ser apenas um ponto no centro da ilha britânica. Graças, é claro, aos valentes Foxes.

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