Caça-e-Tiro Garcia-Jordão: Histórias e um dia de Festa do Rei/Rainha do Alvo

Fim da madrugada de domingo…

Rasgando os primeiros fachos de luz de uma noite chuvosa, o forte tocar de um trompete na região da Rua Santa Maria, no Progresso, denota que aquela manhã era mais uma de tradições num dos patrimônios mais valiosos do bairro. Há quem reclame o sono perdido com a alvorada, mas para muitos é sinal de um dia de competições, festas e reverencia aos tempos passados no Clube de Caça-e-Tiro Garcia-Jordão.

Fundado em 30 de maio de 1880, o Clube é o segundo mais antigo da cidade (perdendo por três anos para o Caça-e-Tiro Ribeirão Itoupava, de 1877) e o quinto mais antigo do Vale. Como toda agremiação que cultivava os costumes dos imigrantes, o Schutzenverein Garcia-Jordan (nome à época) também foi vitima de campanhas nacionalistas e períodos de guerra, tendo as atividades interrompidas por duas vezes, em 1918 (por conta da Primeira Guerra) e na década de 30 (por conta da campanha nacionalista de Getúlio Vargas). Desde 1957, quando retomou as atividades tradicionais, as festas de Rei do Alvo e do Pássaro nunca mais pararam e a confraternização fez famílias super conhecidas e registros histórias únicas.

Fundado em 30 de maio de 1880, o CSRCT Garcia-Jordão é o segundo mais antigo da cidade e o quinto no Vale. Localizava-se dentro das cercanias da atual região do Jordão, no Progresso, até mudar-se em 1957, ano da volta as atividades depois do período Vargas, para a sede atual, abaixo (Adalberto Day)

Fundado em 30 de maio de 1880, o CSRCT Garcia-Jordão é o segundo mais antigo da cidade e o quinto no Vale. Localizava-se dentro das cercanias da atual região do Jordão, no Progresso, até mudar-se em 1957, ano da volta as atividades depois do período Vargas, para a sede atual, na foto abaixo (Adalberto Day)

Caça e tiro Jordão anos 70

A marcha na manhã de domingo último (15/05) foi uma destas. Um grupamento de 150 pessoas, entre sócios e parentes de sócios, já se achavam a postos para a clássica marcha em busca do rei, a primeira atividade do dia de competições. O comando da tropa foi de Jaime Hort, ex-presidente do clube (Atualmente, a sociedade é dirigida pelo sr. Júlio Cesar Pitz). e que assumia as funções que até abril eram de Adalberto Heringer. O antigo comandante do grupo, um dos mais longevos no cargo, falecera no dia 27 do último mês, assim como a então secretária do clube, Magrit Uhlmann, falecida no início do ano. Ambos lembrados durante as solenidades.

Grupamento instruído, banda pronta, é hora de seguir a marcha. O destino não era muito longo, seguia rumo a Rua Frederico Hort, há alguns metros do clube, sentido para cima do Progresso. Lá estava a residência do rei de 2015, Adolfo Hort Neto, que tinha como companheiros de realeza o jovem Maicon Bewiahn e Rubens Schwabe (primeiro e segundo cavalheiros, respectivamente). Lá também aguardavam a chegada da comitiva a rainha do alvo de 2015, Ivanice Kohler, tendo como primeira e segunda damas Elfrida Prim e Carolina Loos.

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O comandante da tropa, Jaime Hort, dando as instruções ao animado grupamento, antes da saída rumo ao Rei. Ele substitui no posto a Adalberto Heringer, falecido em abril último. Uma marcha animada, ao som da bandinha que puxa consigo associados em mais uma manhã como nos velhos tempos (André Bonomini)

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Alias, lembram do que falei das tais familias super conhecidas? Pois bem, falar coincidentemente dos Hort nesta crônica não é mera coincidência ou erro de repetição de palavras. Os Hort são um dos maiores bichos-papões de competições de tiro no bairro, assim como outras famílias como os Bewiahn, os Zendron, os Heiden, os Boos, os Prim, os Schwabe, os Loos e tantas outras denominações. Coisas tradicionais de qualquer caça-e-tiro pela cidade, que já tem clãs armados e sempre favoritos e que, graças a esta tradição, mantém sempre viva a cultura do tiro ao alvo/pássaro mais viva do que nunca no seio blumenauense.

A recepção é sempre feita com um delicioso café da manhã, repleto de quitutes dos mais germânicos possíveis. Schimia, pão com ovo, morcela, o curioso queijo do tipo kochkäse e, claro, a boa e velha cuca, entre outros pratos. Para os mais fortinhos, até o bom e velho chopp era companhia da manhã fresquinha que era aquele dia. A bandinha toca alguns sons, os antigos contam histórias de um passado inesquecível para eles, enquanto os novos falam do dia-a-dia e de como pretendem tirar a coroa do atual rei nas competições de hoje.

A recepção as realezas de 2015 na Rua Frederico Hort. E como toda recepção, nunca pode faltar o generoso café, mais típico impossível (André Bonomini)

A recepção as realezas de 2015 na Rua Frederico Hort. E como toda recepção, nunca pode faltar o generoso café, mais típico impossível (André Bonomini)

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Por falar em histórias dos antigos, eles que guardam na cabeça momentos que nenhum compêndio é capaz de registrar (ou será se elas assim foram devidamente registradas). Nos antigamente da vida, eram nos caça-e-tiro que a vida social acontecia, e para todas as idades. Os bailes grandiosos com conjuntos como Os Montanari, Os Schiavini, Os Futuristas e tantos outros, os suarês nas tardes de domingo, com pequenos conjuntos que tocavam as mais pedidas das paradas ou o bom e velho som mecânico de equipes de sonorização das mais famosas e faladas na cidade.

O primeiro caneco do Baile do chopp, em 1968. Longe dos tiros ao alvo e ao pássaro, o Garcia-Jordão também é palco de grandes festas, bailes e outras tantas atividades abrigadas pela sede, no 645 da Rua Santa Maria (André Bonomini)

O primeiro caneco do Baile do chopp, em 1968. Longe dos tiros ao alvo e ao pássaro, o Garcia-Jordão também é palco de grandes festas, bailes e outras tantas atividades abrigadas pela sede, no 645 da Rua Santa Maria (André Bonomini)

Até as festas de casamento mais badaladas eram nos caça-e-tiro, como foi, em bom registro, as bodas de Evaldo Moritz, em 1978, reunindo quase um Garcia inteiro e altas autoridades. E acredite, estas festas ainda não sairão da rotina dos clubes, embora um pouco menos faladas mas sempre muito prestigiadas. E não se deve esquecer que, dentre tantas festas, o Baile do Chopp é uma das mais importantes, sendo uma espécie de célula do que no passado era uma Oktoberfest em escala menor e mais, digamos, humana. No Garcia-Jordão, já se vão quase 50 anos de baile, que teve a primeira edição em 1968 e que, este ano, chega a 49ª festam sempre marcada pela alegria, reencontros e os clássicos canecos de porcelana.

Hoje, o Caça-e-Tiro Garcia-Jordão pode-se dizer que foge um pouco de ser apenas e tão somente uma sociedade cuja sede só celebre tradições e seja usada para festas como casamentos, bodas e primeiras comunhões. Aos associados, o clube tem uma estrutura moderna e muito bem equipada, com piscina, serviço de bar, academia, cursos como os de dança gaúcha – sempre muito procurados – e uma quadra de futebol suíço. Alias, vale ressaltar que a cultura gaúcha em SC tem encontrado guarida além dos CTGs nas sedes dos caça-e-tiro, onde os grandes nomes da canção dos pampas promovem belos bailes.

Mais imagens:

Café tomado, a comitiva está pronta outra vez para regressar, trazendo consigo agora as realezas para a competição do dia. O tiro, que já foi de balas de verdade, hoje é de ar comprimido, com o mesmo efeito e um pouco menos de barulho. Churrasco no almoço, confraternização e, no fim do dia, um novo rei e rainha, com os respectivos cavalheiros e damas, será eleito pelo melhor tiro. E a tradição, cíclica, continua viva pela mão dos assíduos e experientes frequentadores e dos jovens, que ao contrário do que dita a norma dos dias de hoje, tem se envolvido nas tradições tal como os pais, tios ou avós.

Foi-se mais um dia de festas do alvo no Caça-e-Tiro Garcia-Jordão, todos saem com suas faixas no peito, orgulhosos pela conquista. Outros saem sem faixa mais felizes pela alegria de rever amigos, festejar as tradições, sentir-se um pouco mais blumenauense e progressiano como sempre.

De tantas faixas, sou obrigado, amigos, a fazer uma menção antes de encerrar. Em minha casa (no Progresso, claro), reside uma relíquia cuja história ainda não teve fim. Pertencente ao meu avô – Godofredo Heiden – entre tantas medalhas, está a medalha e faixa de Rei Senior, ou a chamada faixa do centenário, dada na disputa especial do tiro feita em 1980, nos 100 anos do caça-e-tiro. Ela só poderá ser dada adiante no próximo centenário do clube, em 2080. Ou seja, uma responsabilidade do tamanho do mundo para mim, se eu chegar la (e assim espero e devo chegar).

A faixa de Rei Senior e a medalha especial do centenário do Caça-e-Tiro Garcia-Jordão, conquistadas por Godofredo Heiden em 1980. Serão passadas adiante no próximo centenário, em 2080 (André Bonomini)

A faixa de Rei Senior e a medalha especial do centenário do Caça-e-Tiro Garcia-Jordão, conquistadas por Godofredo Heiden em 1980. Serão passadas adiante no próximo centenário, em 2080 (André Bonomini)

É a tal da história que nunca para, e como tudo que é bom, que ela não pare nos salões históricos do CSRCT Garcia-Jordão.

3 comentários sobre “Caça-e-Tiro Garcia-Jordão: Histórias e um dia de Festa do Rei/Rainha do Alvo

    • Bom dia…parabéns pela excelente reportagem. Tudo perfeito. Historia viva contada e ilustrada com muita sabedoria… fiquei muito feliz… razão pela qual nada é em vão ou inútil. Estou convicto que as tradições do clube aki representadas pelo seu imenso quadro de associados, desafia cada vez mais a diretoria, a não medir esforços para proporcionar ao futuro grandiosas conquistas. Grande abraço.

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