Mercado musical “não visa o longo prazo”: O exemplo de Charles Aznavour para a nova geração

Um cantor aos 92 anos tem o que aprender ainda com tantas histórias? Claro! Este é Charles Aznavour, artista do século e um exemplo para muitos sonhadores da música. Ele comentou sobre o atual mercado da música e alfineta: "Não se visa o longo prazo" (Reprodução)

Um cantor aos 92 anos tem o que aprender ainda com tantas histórias vividas na música? Claro! Este é o grande Charles Aznavour, artista do século e um exemplo para muitos sonhadores da música. Ele comentou sobre o atual mercado da música e alfineta: Não se visa o longo prazo (Reprodução)

Observando estes potenciais artistas lançando-se no mundo dos programas de talentos (vide Ídolos, The Voice e outros…), costumo pensar que o mercado musical é a verdadeira fabrica de sonhos, sejam eles frutíferos ou perdidos, e na maioria perdidos. Não é mentira, trabalhar com música não significa, simplesmente, gravar um sucesso e depois colher os louros. É quase como uma empresa, que deve ser administrada dia a dia.

Quem assiste ávido pelas novas revelações que aparecem na tela pode não imaginar, mas para viver da música não bastam rostinhos bonitos, voz mais ou menos boa, estilo e potencial para chamar fãs. A vida por trás dos microfones é um intenso trabalho, e tem que confunda isso com fama, viagens, affairs e eventos. Prova de que isso é verdade? Pergunte a este francês de origem armênia que até hoje encanta o mundo, seja pela canção ou pela juventude em plenos 92 anos: Charles Aznavour.

Capa do single de She. Um dos maiores cartazes de Aznavour na música internacional. Ao todo, foram mais de mil músicas escritas em mais de 60 anos de carreira (Reprodução)

Capa do single de She, de 1974. Um dos maiores cartazes de Aznavour na música internacional. Ao todo, foram mais de mil músicas escritas em mais de 60 anos de carreira (Reprodução)

Nascido em 1924, Aznavour era de família de imigrantes armênios e atravessou gerações com melodias únicas e inesquecíveis que encantam pessoas de várias idades. She, Que c’est triste Venise, The Old-Fashioned Way e tantas mais alcançaram o top 10 em diversas paradas e, mesmo com tanta idade no cartaz, o velho cantor não parece nem um pouco afim de parar, mesmo depois de aposentado.

A tamanha carreira de Aznavour na música foi fruto de um trabalho persistente e dedicado, seja na música, no cinema (ele também foi ator) ou como benfeitor entre tantas ações para o país de descendência, a Armênia. Ganhou diversos prêmios – entre eles, o de Artista do Século, pela CNN em 1998, desbancando Elvis Presley e Bob Dylan – e teve parceiros de palco e canção que vão de Bing Crosby e Fred Astaire a Julio Iglesias, Ray Charles, Liza Minelli e outros. É um dos últimos remanescentes de uma era de ouro da música: A dos grandes chamados crooners tradicionais.

Muito mais do que só cantar

Aznavour no Festival de Pedralbes deste ano, em Barcelona. Foi lá que a agência Efe o encontrou para a entrevista. Em plena forma, cantor segue se renovando e buscando a qualidade nos trabalhos. (Starlite)

Aznavour em Barcelona, no Festival de Pedralbes deste ano. Foi lá que a agência Efe o encontrou para a entrevista. Em plena forma, cantor segue se renovando e buscando a qualidade nos trabalhos. O amor a minha profissão me mantém ativo, diz (Starlite)

Mas aonde quero chegar falando de Charles Aznavour e da música atual? Simples. É que em entrevista a agência Efe, antes de se apresentar no Festival de Pedralbes em Barcelona, Aznavour deu sua análise simples e curta sobre o que é hoje o mercado musical. E ele foi categórico na fala: O mercado atual da música não visa o longo prazo.

Hoje há todos esses programas de televisão para encontrar novas estrelas, esses jovens são convencidos de que em poucas semanas vão viver da música, e que quando o programa termina têm que voltar a seus trabalhos de encanador ou de caixa de supermercado (…) isto é muito cruel e totalmente artificial, porque, para cada um ou dois que chegam, há centenas que veem seus sonhos se despedaçarem, disse.

Não há fórmula mágica para manter-se firme na música. É observando o panorama em volta, renovando-se e buscando novas inspirações – independente do estilo – que o cantor, cantora ou banda mantém-se como referencia e alcança a estabilidade no mundo da canção. Foi assim com Aznavour, que mesmo aposentado dos palcos, canta e está atento ao que gira em sua volta, sempre pautado na qualidade e na boa execução do processo.

Sobre os programas de talentos - como o The Voice - e a realidade cruel, um toque sobre a desilusão. Esses jovens são convencidos de que em poucas semanas vão viver da música, e que quando o programa termina têm que voltar a seus trabalhos de encanador ou de caixa de supermercado, comenta. (Reprodução)

Sobre os programas de talentos – como o The Voice – e a realidade cruel, um toque sobre a desilusão. Esses jovens são convencidos de que em poucas semanas vão viver da música, e que quando o programa termina têm que voltar a seus trabalhos de encanador ou de caixa de supermercado, comenta. (Reprodução)

“(A carreira é) uma mistura de trabalho duro, de não seguir modas efêmeras, de apostar sempre pela qualidade e, como artista, nunca subestimar ou perder contato com o público. (…) Eu fui muito sortudo por ter renovado constantemente meu público, pois músicas que compus há 40 ou 50 anos estão sendo escutadas agora pelas jovens gerações. O amor à minha profissão me mantém ativo“, afirma.

Não é pra menos, durante a entrevista o intérprete enumerava seus recordes: Mais de mil canções compostas, mais de 100 milhões de discos vendidos e 104 países visitados em mais de 60 anos de carreira. E ele não para, (continuo) sempre buscando novas melodias ou temas, às vezes incomuns, ou de diferentes ângulos, ou maneiras de escrever uma nova canção, diz.

Holofotes X Trabalho – Ninguém se consolida com uma só canção

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O apego ao trabalho meticuloso e constante para se conseguir viver da música e dela ser reconhecido não pode parar. A reinvenção, a disciplina e a humildade em aprender não devem mudar com o tempo, diferente da efemeridade dos cantores, cantoras e bandas atuais. (É) uma mistura de trabalho duro, de não seguir modas efêmeras, de apostar sempre pela qualidade e, como artista, nunca subestimar ou perder contato com o público, diz Aznavour (Reprodução)

Claro que nenhum cantor ou cantora – muito menos uma banda – deve chegar a tanto tempo de carreira, até mesmo pelas limitações da vida. No entanto, viver da música não é simplesmente um programa de talentos ou uma voz qualquer num vídeo youtubesco. Este empenho para tornar a canção seu ganha-pão passa e muito pelo ensaio, pela preparação e pela preocupação com o que faz. E isso em qualquer profissão, desde o pedreiro ao presidente.

Aznavour pode não ser o exemplo ideal para alguns estilos, mas ao menos a forma metódica e competente que gere sua carreira e suas produções deve muito ser levada como espelho. Não é qualquer cantor que chega ao máximo da idade lembrado por um grande trabalho e canções únicas. O imediatismo das coisas é que atropela tudo. A cegueira da fama, a obsessão por likes no Facebook e no Instagram (entre outros), os trabalhos fracos e chicletes sem gosto que, tão brevemente, serão apagados do cancioneiro como nuvens no céu.

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O resultado da persistência no trabalho sério é visto na carreira de Aznavour, até hoje uma referencia da música francesa e, claro, internacional, numa trajetória que atravessa o tempo sempre no auge. Eu fui muito sortudo por ter renovado constantemente meu público, pois músicas que compus há 40 ou 50 anos estão sendo escutadas agora pelas jovens gerações, conta. (Reprodução)

Para a canção durar para sempre trabalhar é preciso. Muito além dos cabelinhos, das barriguinhas e das fofocas, deve existir um profissional preocupado em levar ao seu público uma canção de qualidade, embalante mas não grudenta ou fraca em composição. Como diria a professora Cynthia Hansen, você seria capaz de somente espremer o limão, mas tem que ter a capacidade para fazer a limonada, e ser lembrado por ela.

Enquanto isso, volto a ver mentes vazias cantando qualquer coisa em troca de holofotes, sorrisos fáceis e famas efêmeras. Quanto a Aznavour e outros tantos trabalhadores apaixonados pela música, ainda os veremos muitas vezes enquanto a vida permitir, cantando e encantando plateias de várias idades.

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