Blumenau no caminho do Raid Montevideo-Rio de Janeiro (1937)

A carreteira de Norberto Jung, o pintacuda dos pampas, em Blumenau durante o Raid Rio-Montevideo em 1937. Uma quase esquecida história do automobilismo na cidade-jardim (AHJFS)

A carreteira de Norberto Jung, o pintacuda dos pampas, em Blumenau durante o Raid Rio-Montevideo em 1937. Uma quase esquecida história do automobilismo na cidade-jardim (FCBlu/AHJFS)

Há algum tempo aqui em A BOINA, rememoramos as históricas corridas citadinas nos anos 60, no tempo da brilhantina, motores envenenados artesanalmente e mitos regionais como o grande Ligue-Ligue/Ligueli (Carlos Federico Mertens), que deslizava sua Simca Chambord da briosa Escuderia Zangão majestosamente pelas curvas do Centro e do Bom Retiro com precisão milimétrica para cima de adversários astutos em busca do grande prêmio.

Foi uma grande história, notabilizada pela repercussão e lembranças dos antigos que recordaram a prova com entusiasmo (fora as palavras acerca do título exagerado da crônica). No entanto, quem tem uma mente meio rasa no pensamento pode não saber, mas estas não foram as primeiras corridas automobilísticas que tiveram Blumenau como palco de alguma maneira. Bem antes dos anos rebeldes, no distante 1937, uma prova de importância continental alcançou a cidade, trazendo com ela ases de um passado ainda mais movido a lenha. Era a passagem dos botas do Raid Montevideo-Rio de Janeiro, que movimentou a cidade naquele ano tão atribulado.

As peripécias de Carlos Federico Mertens - O Ligueli/Ligue-Ligue - nas ruas de Blumenau nos anos 60. Porém, antes dele, outros ases da velocidade pisaram na cidade, muito antes do taxista e seu Simca #92 (Adalberto Day / Felipe Mertens)

As peripécias de Carlos Federico Mertens – O Ligueli/Ligue-Ligue – nas ruas de Blumenau nos anos 60. Porém, antes dele, outros ases da velocidade pisaram na cidade, muito antes do taxista e seu Simca #92 (Adalberto Day / Felipe Mertens)

Não foi uma lembrança que veio em pesquisa, admito ao amigo leitor e a amiga leitora. Ela veio quase que por acaso, por intermédio do grande Sergio Antonello, jornalista e responsável pelas grandes recordações da seção Memória Digital, colocada nas newsletters da comunicação da prefeitura. Antonello sabia bem o que estava desenterrando, um tesouro precioso cujo relatos são guardados precisamente pelos amantes mais ferrenhos do automobilismo.

Um endurance, como tantos outros, e muito concorrido

O programa oficial do Raid Montevideo-Rio de Janeiro, uma das primeiras provas longas da América Latina (Reprodução)

O programa oficial do Raid Montevideo-Rio de Janeiro, uma das primeiras provas longas da América Latina (Reprodução)

Recordando brevemente, o Raid Rio-Montevideo (assim mesmo que escrevia-se o nome da capital uruguaia naqueles tempos) era apenas uma das primeiras grandes provas de automobilismo na história mundial, quiçá da América Latina, que ainda nem tinha descoberto nomes como Juan Manuel Fangio ou Chico Landi. Corridas de longa distância como esta não eram incomuns, visto que a primeira corrida automobilística do mundo, a Paris-Rouen de 1894, foi em longa distância ou, em termos automobilísticos, uma prova de endurance.

O Brasil já estava na história do continente por ter sediado a primeira corrida da América do Sul, em 26 de julho de 1908, num trajeto entre a cidade de São Paulo e Itapecerica da Serra, num percurso de cerca de 80 Km vencidos por Silvio Penteado, montado num Fiat de 40HP. Porém, em se tratando de Raid, a prova de 1937 seria a primeira, num evento que reuniria 32 pilotos, sendo 12 argentinos, 11 uruguaios e apenas nove brasileiros. Seriam oito etapas, sendo uma delas parando em Blumenau.

Georges Lemaître a bordo do Peugeot de 3HP, os vencedores da Paris-Rouen em 1894, o primeiro evento do automobilismo que se tem notícia (Reprodução)

Georges Lemaître a bordo do Peugeot de 3HP, os vencedores da Paris-Rouen em 1894, o primeiro evento do automobilismo que se tem notícia. (Reprodução)

Silvio Penteado acelerando o Fiat de 40HP rumo a vitória na prova São Paulo-Itapecerica, a primeira corrida automobilistica na América Latina, em 1908 (Reprodução)

Silvio Penteado acelerando o Fiat de 40HP rumo a vitória na prova São Paulo-Itapecerica, a primeira corrida automobilistica na América Latina, em 1908 (Reprodução)

O Raid chega em Blumenau

Próximidades do antigo Grupo Escolar Luiz Delfino, próximo dele, na Praça Victor Konder, o Raid fez sua parada em Blumenau Eduardo Alencar de Azambuja)

Próximidades do antigo Grupo Escolar Luiz Delfino, próximo dele, na Praça Victor Konder, o Raid fez sua parada em Blumenau Eduardo Alencar de Azambuja)

Apenas fazendo uma breve parada no tempo, 1937 não era lá um ano fácil para a cidade. Fora os primeiros problemas das campanhas nacionalistas de Getúlio Vargas, que instituiria o Estado Novo em novembro daquele ano, a cidade também perderia em virtude do golpe de estado o então prefeito, Alberto Stein, que seria sucedido por José Ferreira da Silva em janeiro de 1938. No campo cultural, a cidade ainda aguardava ansiosa a inauguração do novíssimo Teatro Frohsinn, que seria o feito em 1939 e que, por conta das leis nacionalistas, mudaria a nominação para Teatro Carlos Gomes.

A largada fora no dia 4 de abril, partindo de Montevidéu até Melo, já próximo a fronteira com o Rio Grande do Sul. Após a metade uruguaia da cidade gaúcha de Aceguá, todas as outras etapas seriam em terras brasileiras e culminariam, obviamente, no Rio de Janeiro, então capital federal, totalizando cerca de 3400 Km de disputa. Em Blumenau, a prova chegou a cidade no dia 9 de abril, uma sexta-feira. O posto de controle foi montado na praça próxima ao antigo Grupo Escolar Luiz Delfino (Praça Victor Konder), e que contava, além dos equipamentos mecânicos e suprimentos para os pilotos, com um posto telefônico da então Cia. Telefônica Catharinense, em conexão com as principais cidades do estado.

O posto de controle movimentado. Até as 13h daquele dia de abril, quatro ruas da região central ficaram fechadas até a passagem do último carro da classificação do Raid. O evento movimentou a cidade e foi coberto pelas ondas da PRC4, ainda com meros cinco anos de atividades (FCBlu/AHJFS)

O posto de controle movimentado. Até as 13h daquele dia de abril, quatro ruas da região central ficaram fechadas até a passagem do último carro da classificação do Raid. O evento movimentou a cidade e foi coberto pelas ondas da PRC4, ainda com meros cinco anos de atividades (FCBlu/AHJFS)

Foi um dia de grande furor na cidade, que parou para assistir a recepção dos carros que chegavam aos poucos na cidade. A PRC4 (Radio Clube de Blumenau), então com apenas cinco anos de atividades, fazia a cobertura do evento, informando a ordem de passagem dos bólidos que passavam pelas ruas Minas Gerais, São Paulo e XV de Novembro, fechadas até a passagem do último carro na classificação, o do italiano Carlo di Martinho, por volta das 13h.

O primeiro carro que chegara a cidade era o do gaúcho Norberto Jung, conhecido por alcunhas como senhor pilotaço e pintacuda dos pampas. Jung era uma espécie de ás da velocidade brasileira dos primórdios, responsável por ser um dos grandes incentivadores do automobilismo gaúcho e pelas míticas provas em carreteiras – carros modificados em carroceria e motor – onde tinha como rival outra lenda deste tipo de bólido, Catharino Andreatta, considerado até hoje o Rei das Carreteiras. No Raid, foi Jung o vencedor da grande prova, sendo recebido pelo também gaúcho presidente Getúlio Vargas, que também era um fã das provas automobilísticas.

O pintacuda dos pampas, o senhor pilotaço em pessoa. Norberto Jung, vencedor do Raid e o primeiro a chegar em Blumenau na sua mítica carreteira 20 (Reprodução)

O pintacuda dos pampas, o senhor pilotaço em pessoa. Norberto Jung, vencedor do Raid e o primeiro a chegar em Blumenau na sua mítica carreteira 20 (Reprodução)

Corridas em Blumenau, fora as de pequeno porte, só seriam vistas outra vez apenas nos anos 60, e ainda anos mais tarde com as provas da Fórmula 200 no entorno da Rua Antônio da Veiga e da Praça do Estudante, as quais recordaremos em uma outra oportunidade. Por hora, a lembrança de um tempo áureo das provas artesanais de longa duração, de mitos escritos com ouro em livros de história e de contos que são encontrados assim, por acaso, e que enchem os olhos de quem curte fragmentos históricos de Blumenau como este.

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