Badoo/Tinder: Fábricas de ilusões e máscaras

Reprodução das fotos do perfil fake de Chapecó. História inusitada no oeste nos levanta o raciocínio: Até que ponto se entregam sentimentos por conta de relacionamentos virtuais? Com você, os grandes propulsores disto: Badoo e Tinder Reprodução / Arquivo Pessoal)

Reprodução das fotos do perfil fake de Chapecó. História inusitada no oeste nos levanta o raciocínio: Até que ponto se entregam sentimentos por conta de relacionamentos virtuais? Com você, os grandes propulsores disto: Badoo e Tinder (Reprodução / Arquivo Pessoal)

Não costumo ser sentimental neste espaço, até porque estamos num ambiente de jornalismo sério, mas há casos em que o sentimental, a carência de afeto do ser humano protagoniza notícias curiosas. Uma delas me chamou atenção esta semana, a de que em Chapecó, oeste de Santa Catarina, um jovem de 21 anos fingia-se de mulher e começara um namoro que rendeu presentes, juras e até cartão de banco para retirada de dinheiro da conta da vítima. Ele foi preso em flagrante na última sexta-feira (08/07) naquele município.

A história chega a ser cabulosa de tão esquisita. A descoberta da falsa moça foi um tanto demorada para o namorado apaixonado que lhe cobria de presentes e juras. Ele soube da enganação quando pediu os presentes de volta, sendo que ela dizia que faria a devolução pelo seu irmão (que na verdade, era o golpista). Ainda exigira R$ 1 mil em troca dos equipamentos presenteados, mas a farsa foi descoberta e o rapaz confessou o crime na delegacia: Ele criara o perfil pura e simplesmente para faturar, e ponto.

Tinder e Badoo nesta ordem) são as mais populares entre as redes sociais de paquera. No entanto, as montagens e estéticas mascaram, muitas vezes, realidades que as redes não podem revelar Reprodução)

Tinder e Badoo nesta ordem) são as mais populares entre as redes sociais de paquera. No entanto, as montagens e estéticas mascaram, muitas vezes, realidades que as redes não podem revelar (Reprodução)

Numa história como essa, me para um pensamento um tanto nefasto nestes dias de conexões virtuais cada vez mais intensas e profundas: A multiplicação das redes de relacionamento, diferentes das redes sociais comuns, onde paquerar é o objetivo. Neste caso, duas se distinguem neste meio, Badoo e Tinder, as mais populares e onde as aparências, além de enganar muitas vezes, podem ser simplesmente ilusões de algo nada verdadeiro.

Desde os primórdios dos bate-papos, ainda nos tempos do ICQ e das surubas gratuitas dos bate-papos de Terra e UOL, relacionar-se com outras pessoas que nunca vimos na vida é uma antiga realidade no mundo virtual. Muitos de nós temos bons amigos e algumas histórias pitorescas vindas de pessoas que, muitas vezes, nunca vemos em pessoa e moram, em dados casos, a centenas de quilômetros de nós. Nada censurável, afinal bons amigos estão em todos os lugares.

No entanto, relacionamentos amorosos pela tela do computador acabam nascendo, é inevitável uma ligação mais profunda e que se mova apenas por palavras bonitas e alguns gestos que, de alguma forma, suprem a falta do contato físico e do olhar. Em alguns casos torna-se fora de qualquer parâmetro, estranho e passível de qualquer frustração maior, especialmente se, do outro lado, a pessoa que diz que lhe ama some do mapa ou não é, exatamente, o que você imagina.

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Apesar dos tais riscos, as redes de paquera multiplicaram-se, cada vez mais cheias de participantes e, com eles, histórias curiosas. No entanto, junto de toda essa onda, vem também o clássico sentimento e desejo do ser humano de ser amado, não por quem, por acaso da vida, aparecerá no caminho. Mas sim por um rosto específico, um corpo que faça o seu estilo.

Zapeando pelo Badoo e Tinder em algum momento, muitas vezes curtindo por diversão e gosto, percebe-se as tais produções das moças, escondendo-se muitas vezes em maquiagem, poses e lugares de fundo. Todos os estilos estão ali, em exibição como uma vitrine quase sem sentido, esperando curtidas e, talvez, o tipo perfeito tal como quem do outro lado da tela procura.

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Não são as únicas redes que propiciam isto, mas são as mais populares, as que reúnem maior número de seguidores, ou talvez de desiludidos em seu grande número. Se não for levada como uma simples diversão, esta procura se torna uma espécie de preenchimento de um vazio existencial, da explicitação da carência por um afeto que venha da própria personificação produzida pela nossa mente ao visualizar o que pode ser a concepção de tipo que cada um de nós temos.

Talvez nunca aquela que curtimos nos curtirá do outro lado da linha, e vice-versa. Torna-se uma ciranda de desilusões e projeções imaginárias que não levam a lugar algum a não ser mais frustrações acumuladas numa procura vazia. É o ponto culminante das relações virtuais, onde poucas são aquelas histórias que realmente acabam em final feliz. Onde os vazios existenciais são revelados a cada clique.

Em tempos do desaparecimento do afeto físico e sincero, o meio virtual parece nos estar tirando pouco a pouco o dom de amar nos olhos, de distribuir o afeto num abraço real ou de culminar as histórias românticas num trocar de alianças ou, simplesmente, num doce beijo. Divertir-se e azarar-se – como alguma sorte em achar o amor, claro – não é proibido, apenas deve-se saber o limite entre o sentimento real e as expressões ditas de amor distribuídas em tecladas diárias, que podem não ser verdadeiras como imaginamos.

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Tomara que não vejamos o clique ser o eu te amo do futuro, tomara… Enquanto isso, passam-se as fotos, a vista de rostos que imaginamos estar olhando para nós.

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