Gramming & Marbles (MotoGP): Márquez dá banho de estratégia na molhada Sachsenring

A perfeitíssima: Márquez dá show de competência e perícia na Alemanha e fatura mais uma. Para a Yamaha, sobraram as agruras de Lorenzo, em má corrida, e Rossi, desobediente ao pedido da equipe (Honda)

A perfeitíssima: Márquez dá show de competência e perícia na Alemanha e fatura mais uma. Para a Yamaha, sobraram as agruras de Lorenzo, em má corrida, e Rossi, desobediente ao pedido da equipe (Honda)

(Douglas Sardo)

Após a vitória monumental de Jack Miller na chuvosa Assen (Holanda), tudo o que os fãs da MotoGP queriam era mais uma corrida com pista molhada. Mas já era pedir demais não é?

Que nada! Não é que choveu de novo na corrida da Alemanha, no belo circuito de Sachsenring? Uma aguinha inocente para desespero de Jorge Lorenzo, e alegria das equipes privadas, que mais uma vez foram protagonistas. No fim, uma vitória consagradora de Marc Márquez colocando ainda mais vantagem na briga pelo título.

Nos treinos: Água, água, água por todos os lados, Jorge!

Uma grata surpresa. Com pista molhada, Hector Barberá alinhou a Ducati da Avintia na primeira fila, em segundo (Getty Images)

Uma grata surpresa. Com pista molhada, Hector Barberá alinhou a Ducati da Avintia na primeira fila, em segundo (Getty Images)

A MotoGP chegou na Alemanha para a nona etapa da temporada 2016, e assim como na Holanda, viveu um fim de semana molhado. A chuva esteve presente desde os treinos, o que aumentou o calvário de Jorge Lorenzo, que penou para chegar no Q2, sofrendo um tombo em sua última volta.

No treino com os cobras de verdade, o desempenho pífio de Jorge no molhado cobrou seu preço e ele conseguiu ser apenas o 11º entre os 12 melhores. Márquez garantiu a pole enquanto Valentino Rossi conseguiu o terceiro melhor tempo. Mas a sensação do grid foi Héctor Barberá, que levou sua Ducati de 2014 da Avintia ao segundo posto. Esse bom desempenho indicava que, se chovesse no domingo, as Desmosedici estariam novamente no páreo.

Na corrida: Mais água, água, água por todos os lados

Largada de macho na Alemanha. Sem safety-car, na chuva e com duelos. Barberá larga mal e Márquez pula a frente (Getty Images)

Largada de macho na Alemanha. Sem safety-car, na chuva e com duelos. Barberá larga mal e Márquez pula a frente (Getty Images)

E a chuva apareceu antes da prova, deixando a pista traiçoeiramente molhada. Com todos largando de pneus de chuva e sem Safety-Car (viu, F1?), Barberá partiu mal, e Márquez manteve a liderança, mas foram necessárias apenas duas curvas para Rossi tomar a ponta.

O Doutor ia além do próprio equipamento, haja visto o desempenho sofrível dos outros pilotos com Yamaha. A força das Desmosedici na chuva logo apareceu, e Danilo Petrucci colocou a motoca da Pramac na liderança, sendo seguido por Andrea Dovizioso, com a Ducati oficial. Petrucci estava disposto a se vingar dos azares em Assen, mas eis que ele (outra vez num momento decisivo) sofreu um tombo e viu suas chances de vitória destruídas. Agora Dovizioso era o líder, seguido por Rossi e Barberá, que se recuperou bem da má largada.

Jackass Jack Miller até mandou ver e arriscou vitória na chuva, mas demora para trocar pneus prejudicou sua prova (Getty Images)

Jack Jackass Miller até mandou ver e arriscou mais uma vitória na chuva, mas demora para trocar pneus prejudicou sua prova (Getty Images)

Com uma escolha errada de pneus, Márquez sofria para acompanhar os líderes e era ultrapassado por motos privadas como a de Jack Miller. Brigando apenas pelo quinto posto, o espanhol da Honda deu um passeio na brita mas conseguiu voltar à pista, porém, em nono lugar. Sem nada a perder, La Hormiga decidiu arriscar: A pista já tinha um belo trilho seco e ele trocou para uma moto com pneus slicks. Era uma aposta complicada, pois Andrea Iannone fizera o mesmo voltas atrás e não estava conseguindo grandes resultados.

No entanto, a tática funcionou com Márquez. O espanhol voltou em 15º com a faca entre os dentes, e em poucas voltas já passava Lorenzo, que se arrastava em 10º lugar. Mais algumas voltas e Márquez era o sexto. A essa altura, os boxes das equipes de Dovizioso, Rossi, Barberá, Miller e Scott Redding chamavam desesperadamente seus pilotos para uma troca. Contrariando a lógica, eles optaram por continuar na prova enquanto Márquez voava, descontando quase cinco segundos por volta. Um verdadeiro show!

Cal Cruthlow fez atuação brilhante e medida, levou a Honda da LCR ao segundo posto com méritos (Getty Images)

Cal Crutchlow fez atuação brilhante e medida, levou a Honda da LCR ao segundo posto com méritos (Getty Images)

Quando Márquez já se aproximava do pelotão, a turma liderada por Dovizioso finalmente decide parar com exceção de Miller. Era tarde demais, Márquez passou por Jackass de passagem e rumou à uma das maiores vitórias de sua carreira. Cal Crutchlow terminou em brilhante segundo lugar, numa atuação de gala com a Honda da LCR, enquanto um irritado Dovizioso fechou o pódio. Rossi terminou num decepcionante oitavo lugar graças a demora para ir aos boxes e ao erro da Yamaha, que colocou pneus intermediários na sua segunda moto. Isso quando a pista já pedia slicks há muito tempo. Lorenzo fechou a zona de pontuação… Em 15º! 

Márquez deu um passo decisivo para o título, Rossi perdeu uma grande chance de vitória, Dovizioso também e Lorenzo precisa de um psicólogo que lhe tire a hidrofobia. A MotoGP tira férias e só volta em meados de agosto, uma boa oportunidade para o espartano da Yamaha se reencontrar, talvez em algum divã freudiano na Espanha.

Os 10 mais – Corrida:

1 – Marc Márquez (Honda)
2 – Cal Crutchlow (LCR-Honda)
3 – Andrea Dovizioso (Ducati)
4 – Scott Redding (Pramac-Ducati)
5 – Andrea Iannone (Ducati)
6 – Dani Pedrosa (Honda)
7 – Jack Miller (Marc VDS-Honda)
8 – Valentino Rossi (Yamaha)
9 – Héctor Barberá (Ducati)
10 – Álvaro Bautista (Aprilia)

E mais pontos para a Aprilia, com o 10º de Alvaro Bautista, que desta vez não tombou. (Reprodução)

E mais pontos para a Aprilia, A melhor da marca na pista foi a de Alvaro Bautista, que terminou em 10º e que, desta vez, não tombou. (Reprodução)

Os 6 mais – Campeonato:

1 – Marc Márquez (Honda) 170
2 – Jorge Lorenzo (Yamaha) 122
3 – Valentino Rossi (Yamaha) 111
4 – Dani Pedrosa (Honda) 96
5 – Maverick Viñales (Suzuki) 83
6 – Pol Espargaró (Yamaha) 72

Na tabela do campeonato, menção honrosa para Héctor Baberá, sétimo com 65 pontos, o melhor das equipes privadas, a frente das Ducati de fábrica e da Suzuki de Aleix Espargaró.

Como foi temporada da MotoGP 2016 até aqui

Lorenzo, Dovizioso e Márques. O primeiro pódio da temporada. Prelúdio de um ano disputado (Getty Images)

Lorenzo, Dovizioso e Márques. O primeiro pódio da temporada. Prelúdio de um ano disputado (Getty Images)

A MotoGP deixou a primeira metade da temporada para trás, e agora tira suas férias de verão, retornando em 14 de Agosto na Áustria, na pista da Red Bull. Devido à essa pausa, o Gramming & Marbles achou uma boa ideia fazer um recapitula da temporada. Vejamos:

Jorge Lorenzo começou sua defesa de título com uma vitória no Catar, apenas para abandonar na Argentina e ceder a liderança do campeonato para Márquez, que venceu duas seguidas em Termas do Rio Hondo e no Circuito das Américas. Com os problemas de Lorenzo nos pampas e de Rossi na terra do tio Sam, Márquez já aparecia com uma boa vantagem na classificação.

La Hormiga mostrava ter amadurecido muito após os erros de 2015, se tornando um adversário formidável para as Yamaha, e o sinal vermelho já acendia na fábrica dos diapasões.

Placar após três provas: Márquez (66) / Lorenzo (45) / Rossi (33).

Márquez parece estar se vingando da perda cruel de 2015, com atuações sem erros e combativas (Getty Images)

Márquez parece estar se vingando da perda cruel de 2015, com atuações sem erros e combativas (Getty Images)

Em Jerez, Rossi tratou de reagir e conseguiu brilhante vitória de ponta a ponta, com Lorenzo e Márquez no pódio.  Em Sarthe, foi a vez de Lorenzo mostrar sinais de reação, vencendo sem ser incomodado por Rossi, em uma prova recheada de tombos, inclusive de Márquez, que terminou em modesto 13º lugar com uma Honda problemática.

Lorenzo já era o líder do campeonato, e muita gente deve ter pensado que ele não sairia mais da ponta após uma vitória sensacional sobre Márquez na linha de chegada em Mugello. Rossi abandonou com seu motor fumando quando estava em segundo, um duríssimo golpe em suas chances de título.

Placar após seis provas: Lorenzo (115) / Márquez (105) / Rossi (78).

Jack Miller se banha em champagne em Assen. Depois de 10 anos, uma vitória de um time particular. No caso, os azuis da Marc VDS (Getty Images)

Jack Miller se banha em champagne em Assen. Depois de 10 anos, uma vitória de um time particular. No caso, os azuis da Marc VDS (Getty Images)

No luto após a morte de Luis Salom nos treinos da Moto2, a corrida da Catalunha trouxe um Rossi ultra-agressivo, conseguindo bela vitória sobre o inspirado Márquez. Lorenzo teve problemas e ainda foi abalroado por Iannone. A liderança voltava para as mãos de Márquez, e ele tratou de aumentar sua vantagem na Holanda, fechando a prova na pista molhada de Assen em segundo, atrás do surpreendente Jack Miller. Era a primeira vitória de uma equipe satélite em dez anos.

Rossi caiu e perdeu chances até de uma vitória, enquanto Lorenzo penou na chuva para chegar em décimo. Na Alemanha, com sua terceira vitória do ano, e ainda com Rossi e Lorenzo em posições periféricas, Márquez tem uma bela vantagem para administrar na segunda metade da temporada. Aos contendores dos diapasões nipônicos, resta uma luta insana por vitórias, que pode levá-los a mais abandonos.

Placar após nove provas: Márquez (170), Lorenzo (122), Rossi (111).


Lembrança: Pour Jules

Há um ano, a F1 voltava a viver o fantasma da morte nas pistas com o falecimento de Jules Bianchi, depois de quase um ano em coma após o acidente no GP do Japão de 2014. Uma promessa ceifada cedo demais mas que jamais será esquecida (Getty Images)

Há um ano, a F1 voltava a viver o fantasma da morte nas pistas com o falecimento de Jules Bianchi, depois de quase um ano em coma após o acidente no GP do Japão de 2014. Uma promessa ceifada cedo demais mas que jamais será esquecida (Getty Images)

Nesse fim de semana não teve F1 (de volta na semana que vem na Hungria), mas não podemos deixar de lembrar que num 17 de julho de 2015 nos deixava tragicamente o piloto francês Jules Bianchi. Vítima de um terrível acidente no GP do Japão, em Suzuka, no dia 5 de Outubro de 2014, Bianchi lutou pela vida com ajuda de aparelhos por quase um ano, mas jamais saiu do coma induzido e morreu em um Hospital em sua cidade natal, Nice.

Em menos de dois anos de F1, Bianchi penou na diminuta Marussia repleta de deficiências técnicas e financeiras. No entanto, no GP de Mônaco de 2014 a estrela do jovem francês brilhou, conseguindo um excelente nono lugar, terminando à frente por exemplo da McLaren-Mercedes de Kevin Magnussen e da Ferrari de Kimi Raikkonen, e somando os únicos 2 pontos da história de sua equipe.

O acidente no Japão foi um tanto curioso, mas o suficiente para deixar o jovem piloto irremediavelmente preso no coma. Sob safety-car na 43ª volta por conta da chuva, Bianchi acabou perdendo mão do carro numa das pernas da série de esses de Suzuka, deslizando velozmente para chocar-se com a traseira de um trator que, naquele instante, recolhia a Sauber de Adrian Sutil. Jules sofreu uma gravíssima e irreversível lesão cerebral provocada pelo choque com a traseira do trator e o rompimento de toda a estrutura da tomada de ar superior (o chamado santantônio) que deveria ter protegido sua cabeça. Ele morreria quase um ano depois, ainda em coma.

O mais chocante foi a FIA, no seu relatório final sobre o acidente, ter responsabilizado unica e exclusivamente Bianchi pelo acidente, o que causou indignação por parte de pilotos e especialistas, que denotavam a falta de condições da prova bem antes da volta do incidente e a posição inadequada do trator naquele trecho da pista. Seu velório e enterro na bela cidade de Nice reuniu um sem-número de pilotos e ex-pilotos, tal qual não se via desde a morte de Ayrton Senna, em 1994.

Jules era uma grande promessa francesa na F1, e sua morte deixa um vácuo que os franceses não conseguem preencher há muito tempo e dificilmente, imersos nos mesmos problemas do nosso automobilismo, a preencherão tão cedo.

Rest in speed, Jules.

(F1 Fanatic / Marussia)

(F1 Fanatic / Marussia)

Deixe uma resposta