Videocassete – Enfim, o adeus

É o fim de verdade. Exatos 40 anos do início da primeira revolução das mídias, o videocassete é, agora, definitivo passado. A última empresa a o fabricar no mundo - a japonesa Funai - descontinuou sua produção neste mês (Reprodução)

É o fim de verdade. Quase 40 anos do início da primeira revolução das mídias, o videocassete é, agora, parte definitiva do passado. A última empresa a o fabricar no mundo – a japonesa Funai – descontinuou sua produção neste mês (Reprodução)

Durante décadas, era no bom e velho videocassete que rodava o entretenimento caseiro de todo fim de semana. Quilômetros e quilômetros de VHS foram exibidos pelo mundo com filmes, documentários, desenhos, musicais e um sem-número de outros conteúdos que, como uma grande revolução que vinha sendo tocada desde os anos 70, permitia que o mundo lhe viesse a tela sem sair da poltrona, reunindo famílias, namorados, casais, idosos, crianças e o que mais passasse diante da TV.

Os anos passaram, a vida e os meios de entretenimento mudaram e o velho videocassete resistia bravamente e minguando no mercado mundial de eletroeletrônicos. Agora, depois de quase 40 anos, eis que o momento final chegou. A Funai Eletric, empresa japonesa do ramo eletroeletrônico, anunciou na última semana que estava encerrando a fabricação de aparelhos de videocassete. Era a última que os produzia em todo o mundo e a decisão passa o velho fiel dos fins de semana a qualidade de cult, de peça histórica de um passado rodado em fitas magnéticas.

Detalhe de um aparelho de videocassete da Funai Eletronics. Fim da produção deve-se a dificuldade de produção e custos dos componentes fabricados, que tornou-se inviável com as poucas vendas do aparelho (Reprodução)

Detalhe de um aparelho de videocassete da Funai Eletronics. Fim da produção deve-se a dificuldade de produção e custos dos componentes fabricados, que tornou-se inviável com as poucas vendas do aparelho (Reprodução)

A decisão da Funai Eletric baseou-se no fato de uma fornecedora de componentes para os aparelhos, que alegou ser muito difícil economicamente continuar produzindo materiais com um nível tão baixo de vendas. No fim deste mês, a filial da China – a única que ainda produzia o eletroeletrônico – encerrará a linha de montagem.

A Funai chegou a vender cerca de 15 milhões de aparelhos VHS por ano, mas em 2015 este número não passou do patamar de 750 mil. Isto contando uma grande parte de seu mercado que estava baseado na América do Norte, sendo que alguns dos aparelhos eram vendidos com a icônica marca Sanyo, hoje pertencente a Panasonic.

A empresa também fabricava equipamentos de gravação de VHS para DVD, que não devem ser descontinuados tão cedo devido a necessidade de muitas pessoas de salvar seus preciosos registros caseiros no formato digital.

Dos rolões as fitas

O U-Matic, da Sony. Lançado em 1971, era a evolução das grandes fitas quadruplex para uso caseiro. O sucessor seria o Betamax (abaixo), lançado em 1975 (Reprodução)

O U-Matic, da Sony. Lançado em 1971, era a evolução das grandes fitas quadruplex para uso caseiro. O sucessor seria o Betamax (abaixo), lançado em 1975 (Reprodução)

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O videocassete nasceu junto do aperfeiçoamento do formato U-Matic, lançado pela Sony em 1971 e que foi o pioneiro na gravação caseira de conteúdo. O U-Matic foi por si só também uma evolução do processo de gravações nas fitas quadruplex, como as desenvolvidas Ampex, as pioneiras do videotape (VT) nas emissoras de TV no Brasil. Em 1975, a Sony foi além e lançou o primeiro Betamax, muito mais simples de usar do que os desengonçados gravadores U-Matic, além de proporcionar melhor qualidade de som e imagem.

Um ano depois, era criado pela japonesa JVC aquele que seria o formato principal de fita de video: O Vídeo Home System, ou VHS para os íntimos. Outros modelos surgiram pelo caminho, mas o VHS e o Betamax foram os que mais rodaram nas casas pelo mundo. No fim, a guerra dos formatos foi vencida pelos japoneses por vários fatores que iam de maior tempo de gravação, estratégias de publicidade e, acredite, melhor aceitação do mercado de pornografia.

O primeiro aparelho para VHS, desenvolvido pela JVC, a mesma que desenvolveu o formato concorrente do Betamax, em 1976. No fim, por fatores comerciais, o VHS tornou-se quase que o formato oficial do home video pelo mundo (Reprodução)

O primeiro aparelho para VHS, desenvolvido pela JVC, a mesma que desenvolveu o formato concorrente do Betamax, em 1976. No fim, por fatores comerciais, o VHS tornou-se quase que o formato oficial do home video pelo mundo (Reprodução)

O VHS no Brasil

No Brasil, a novidade já marcava ponto nas casas de famílias mas abastadas e aficionados pelas gravações nos anos 70, como provam inúmeras gravações em vídeo daqueles tempos que inundam o YouTube de lembranças da televisão brasileira. A dificuldade é que os aparelhos importados gravavam imagens no padrão americano de cores, o NTSC, registrando apenas em preto-e-branco, quando não com cores trocadas.

A adaptação para o PAL-M (padrão de cores nacional de origem alemã e adotado pela televisão no país em 1972) era quase artesanal e complicada nos equipamentos Betamax, o que popularizou ainda mais o VHS no país. Em 1980, a Philips já fabricava televisores já preparados para receber o sinal de videocassete com qualidade, mas apenas em 1982, sob a chancela da Sharp, que o Brasil veria o primeiro aparelho VHS fabricado aqui e adaptado ao PAL-M de fábrica. Pronto! Era o começo da revolução em solo tupiniquim.

Aparelho Sharp dos anos 80. Marca japonesa foi a primeira a fabricar o videocassete no Brasil, que antes era importado e causava alguns contratempos por gravar com padrão de cores NTSC, diferente do alemão PAL-M, adotado pelo país em 1972 (Reprodução)

Aparelho Sharp dos anos 80. Marca japonesa foi a primeira a fabricar o videocassete no Brasil, que antes era importado e causava alguns contratempos por gravar com padrão de cores NTSC, diferente do alemão PAL-M, adotado pelo país em 1972 (Reprodução)

Foi também com o VHS que se descobriu a praga da pirataria, que apenas cresceu com o passar dos anos, apesar dos constantes combates feitos a ela por organizações como a União Brasileira de Vídeo, ou UBV (Hoje, União Brasileira de Vídeo e Games, UBV&G). que criava técnicas de identificação de fitas piratas e selos especiais para autenticidade. Anúncios contra a pirataria e identificação de fitas autênticas se tornaram tão clássicos quanto as famosas color bars com som ambiente para regulagem de som e imagem.

Nas fitas da Walt Disney (Walt Disney Home Vídeo), quem lembra, vinha a corriqueira frase: Ajuste, agora, as cores e o som do seu equipamento, como esta na fita de Branca de Neve e os Sete Anões, de 1994Veja:

O fim e o status de cult

No entanto, ao mesmo passo da popularidade, a revolução seguia seu curso. Com o advento do DVD e dos primeiros aparelhos para reprodução do mesmo, o VHS e o videocassete sabiam que a estrada chegaria ao fim logo logo. E, paulatinamente o foi.

O surgimento do DVD no início dos anos 90 seguia as ideias dos primeiros videodisc do fim dos anos 70, com nova roupagem mais prática e de melhor qualidade. Era o início do fim do VHS.

O surgimento do DVD no início dos anos 90 seguia as ideias dos primeiros videodisc do fim dos anos 70, com nova roupagem mais prática e de melhor qualidade. Era o início do fim do VHS.

Em 2002, a Sony deixou de vez de produzir os aparelhos para Betamax, encerrando em 2015 apenas a fabricação das fitas. O VHS como conhecemos já havia sido descontinuado em 2008, com a última distribuidora do formato fechando a distribuição de lotes das fitas. No Brasil, a Panasonic foi a última a fabricar o equipamento, por volta de 2007.

Apesar de descontinuado, o VHS e seus aparelhos de reprodução passaram, assim como os toca-discos clássicos, a se tornar raras peças de coleção e museu. Tamanhas as histórias por trás das fitas que, em 2012, o formato virou tema de um horripilante filme estilo found footage. Tratava-se de V/H/S, que ganhou ainda duas continuações, em 2013 (V/H/S 2) e 2014 (V/H/S Viral). Histórias de terror registradas em fitas de vídeo, contando com a edição peculiar que faz lembrar os clássicos defeitos e falhas da imagem do formato.

Enfim, depois de marcar gerações, o videocassete e as amadas fitas VHS, finalmente, encontram uma espécie de repouso eterno no panteão da tecnologia. Assistem de camarote agora a nova revolução das mídias – a do streaming – que aproxima ainda mais o consumidor de produções musicais, cinematográficas e muito mais por meio da internet. Há praticamente 40 anos, esta evolução quase silenciosa do entretenimento caseiro começava, e sem o advento do home video talvez não teria-se chegado tão longe como chegou.

Nas prateleiras de casas em vários cantos do mundo, repousa lá um aparelho de videocassete que, independente da marca, modelo ou formato que rode, foi o primeiro a reunir a família em torno de uma diversão rodada em fitas magnéticas, clássicas pelos momentos únicos, os estresses com o bolor que tomava conta se mal cuidadas e as gravações de filmes e programas de TV que, hoje, recheiam o YouTube de histórias.

Deve-se muito a quem tirou os videotapes do mundo profissional das emissoras de televisão e os aproximou primeiro de quem procurava registrar ou ter para si produções de vários tipos. Seja para entretenimento solo ou com família, com a amada ou com os amigos.

(Reprodução)

(Reprodução)

Depois de tanto pelear é a hora de descansar. Apertar o Stop, o Eject e afrouxar a borracha. Descansa, VHS, que você merece…

 

Um comentário sobre “Videocassete – Enfim, o adeus

  1. André,
    Belo relato de um tempo romântico e impar de muita gente. Valeu a pena a passagem dos aparelhos de videocassete, e assim também o seu registro faz parte deste momento histórico.
    Adalberto Day cientista social e pesquisador da história.

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