Um dilêma nipônico: O imperador “proibido” de abdicar

Akihito, 82 anos e 27 de reinado no Japão. A idade tem pesado ao imperador da terra do sol nascente, e na última semana, mesmo que indiretamente, o velho monarca deixou claro que quer descansar a combalida saúde (Jun Sato/Getty Images)

Akihito, 82 anos e 27 de reinado no Japão. A idade tem pesado ao imperador da terra do sol nascente, e na última semana, mesmo que indiretamente, o velho monarca deixou claro que quer descansar a combalida saúde (Jun Sato/Getty Images)

Monarquias, atualmente, são grandes enfeites políticos mas que ainda representam uma forte ligação entre questões diplomáticas e grande parte do povo que, nos impérios ainda em pé no mundo, segue sendo um fiel grupo de súditos. Na história, os reis/rainhas só deixavam o trono com o repouso eterno (ou melhor dizendo, a morte, claro) e assim um novo monarca assumia a cadeira do pai. Funciona assim em algumas ditaduras também e que infelizmente ainda existem.

No entanto, em determinado momento da vida, o rei/rainha quer o descanso em vida ou deseja abrir mão do trono nem sempre só a favor de uma nova geração que toque o país e suas ideias adiante, alinhado entre povo e governo. Abdicar não é novidade, como vimos em 2014, quando o Rei Juan Carlo abdicou do trono em favor das ideias jovens do filho, Felipe, no trono da Espanha.

Mas, e se o imperador é, de certa forma, proibido de abdicar? É esse dilema que parece estar incomodando Akihito, o imperador japonês, que na última semana deixou o desejo de deixar o trono subentendido em pronunciamento pela TV (coisa muito rara) para milhares de nipônicos.

Veja um trecho do pronunciamento. Quem tem bom inglês, já ajuda na legenda:

125º imperador nipônico, Akihito tem um papel na história de extrema importância para o novo Japão. Foi o sucessor, em 1989, do pai e infame monarca japonês Hirohito, um dos responsáveis indiretos da Segunda Guerra Mundial nos confrontos do Pacífico. Ele tinha 55 anos quando foi guindado a condição, com uma saúde e um Japão bem diferente nas mãos. Assistiu de camarote as conquistas do país no esporte, a dois dos três títulos de Ayrton Senna em Suzuka, o tsunami e o desastre de Fukushima em 2011 e a rápida evolução tecnológica a qual o Japão já comandava desde os anos 70.

O garoto Akihito junto do pai, o então imperador Hirohito, cuja história ficou manchada pela presença na Segunda Guerra Mundial. Akihito é o 125º imperador e tem visto durante o reinado mudanças profundas entre os japoneses (Reprodução)

O garoto Akihito junto do pai, o então imperador Hirohito, cuja história ficou manchada pela presença na Segunda Guerra Mundial. Akihito é o 125º imperador e tem visto durante o reinado mudanças profundas entre os japoneses (Reprodução)

Mas o tempo passou, e o imperador jovial ficou mais lento e com a saúde mais debilitada. A presença dele e da esposa, a imperatriz Michiko, sempre é muito festejada pelos japoneses numa era onde o país não era mais tão recatado como era nos tempos antigos. Esta aproximação, vale destacar, foi uma das metas de Akihito, que desde quando assumira o trono, colocou o império mais próximo dos japoneses, sendo que muitos passam a frente da casa imperial para desejar bons presságios ao monarca.

O Japão mudou muito de 1989 para cá. A cultura pop passou a ter parte oriental e a economia mundial, embora combalida, parece ter afetado pouco a pequena ilha. A única marca negativa tem sido os altos e baixos nas relações com a vizinha de mar Coréia do Sul e as tensões com a Coréia do Norte, o que chegou a fazer o exercito a se prontificar e armar anti-misseis em parques de Tóquio, a capital, e várias outras cidades, há alguns anos atrás.

O imperador e sua imperatriz, Akihito e Michiko tem grande popularidade entre os japoneses, prova do trabalho de aproximação da família real com o povo, conduzida desde o início do reinado. Um exemplo foi a visita a desalojados por conta do tsunami na região de Sendai, em 2011  (Reprodução / NBC)

O imperador e sua imperatriz, Akihito e Michiko tem grande popularidade entre os japoneses, prova do trabalho de aproximação da família real com o povo, conduzida desde o início do reinado. Um exemplo foi a visita a desalojados por conta do tsunami na região de Sendai, em 2011 (Reprodução / NBC |AP Photo/Issei Kato, Pool)

Japan's Emperor Akihito, left, and Empress Michiko talk with an evacuee, right, at a shelter in Tokyo Wednesday, March 30, 2011. Emperor and Empress visited the shelter to encourage some 300 evacuees from the March 11 earthquake and tsunami, mostly from Fukushima Prefecture where the troubled Fukushima Dai-ichi nuclear power plant is located. (AP Photo/Issei Kato, Pool)

O imperador também não é de se pronunciar tanto, o fez apenas DUAS VEZES no seu reinado. A primeira, acredite, foi em 2011, durante os trabalhos de reconstrução após o tsunami devastador que causou estragos inimagináveis (e rapidamente recuperados). A segunda foi a da semana passada, quando a declaração sobre o frágil estado de saúde surpreendeu os japoneses, especialmente o governo de Shinzo Abe, primeiro-ministro e que prontamente respondeu ao imperador sobre seu desejo entrelinhas: Acho que devemos pensar com atenção sobre o que podemos fazer para atender suas preocupações, levando em consideração a idade do imperador e o atual fardo dos compromissos oficiais, disse.

Não foi uma manifestação direta, até porque Akihito é proibido pela constituição de fazer declarações políticas e a expressão direta deste desejo seria interpretada como tal. O discurso é uma forma de buscar a sensibilidade dos nipônicos quanto a questão, o que pode contribuir numa possível mudança na constituição que permita a abdicação. Ele vem se recuperando de problemas de saúde desde 2003, por conta de um câncer de próstata, além de uma cirurgia cardíaca em 2012. Assegurou estar se recuperando dos problemas de saúde, mas a idade avançada (82 anos) não lhe permite ilusões e o cumprimento correto dos deveres, como disse no pronunciamento.

A mensagem indireta chegou aos ouvidos do primeiro ministro Shinzo Abe, que afirmou que (AP Photo/Shizuo Kambayashi)

A mensagem indireta chegou aos ouvidos do primeiro ministro Shinzo Abe, que afirmou que acha-se importante pensar sobre como atender as preocupações de Akihito levando em consideração a idade do imperador e o atual fardo dos compromissos oficiais (AP Photo/Shizuo Kambayashi)

Tentativas para mudar esta normativa não faltaram. Em 2006 foi debatida a possibilidade de uma mulher ascender o trono, já que a linha de sucessão japonesa só permite homens como soberanos. Outra estratégia foi em 2011, quando o irmão mais novo de Akihito, Akishino, propôs que fosse discutida uma idade mínima para a aposentadoria do imperador. Nada feito, nenhuma delas evoluiu e o velho monarca segue combalido, mas sorridente, no trono de crisântemo.

Tudo depende da boa vontade de Abe e seus ministros para pensar a melhor maneira de atender o pedido de Akihito, o que seria histórico para os nipônicos. Se o imperador realmente puder ter direito ao descanso, quem assume o cargo é o príncipe-herdeiro Naruhito, que o Brasil conhece e muito bem. Ele é o primeiro na linha de sucessão dos três filhos do monarca e esteve no país em 2008, nas celebrações dos 100 anos da imigração japonesa. Figura jovial, alegre e disposto a quebrar protocolos, como tantas vezes foi visto nas festividades de 2008.

Naruhito, princípe-herdeiro, durante a visita ao Brasil nos 100 anos da Imigração Japonesa, em 2008. Ele é o primeiro na linha de sucessão (Reprodução)

Naruhito, princípe-herdeiro do Japão, durante a visita ao Brasil nos 100 anos da Imigração Japonesa, em 2008. Ele é o primeiro na linha de sucessão ao trono de crisântemo (Reprodução)

Seja como for, a representação de uma família real hoje, como vimos, vai além do simples fato de ter sangue azul. Tem a ver com os laços entre o povo, a tradição e o poder; com o acalme de ânimos depois tragédias, o aconselhamento as esferas de governo e outros tantos pormenores de uma nação. Um monarca jovem inspira mudanças jovens, não dizendo que Akihito não é mais uma jovial presença entre os soberanos. Apenas é a saúde cobrando o preço da longevidade e pedindo descanso.

Sendo assim, e mesmo com todo o nível de história que isso pode impactar, espera-se sensibilidade do governo japonês para com o próprio imperador. Akihito quer mais que ideias jovens para o país, mas um repouso ao corpo e mente, simples desejo de um imperador cansado.

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