Jovens dias de uma jovem Blumenau

Algum momento da vida, o blumenauense da gema já deve ter ouvido esta melodia acima. Trata-se da bela canção Schön ist die Jugend, cantada emocionantemente por vários intérpretes da língua alemã, aqui interpretada pela voz grave de Heino. A letra é mais que óbvia numa breve tradução literária: Bela é a juventude que não volta mais, e como não podeira deixar de ser verdade, infelizmente.

A cidade-jardim, do alto dos seus 166 anos que arredonda hoje não parece, mas é hoje uma adulta bem em pé, pujante de beleza e correria, mas que as vezes parece sentir falta do tempo de jovem município, quando tudo parecia possível de ser feito e vivido. É um século e 66 anos na conta, com incontáveis momentos registrados e gravados na mente de muitos jovens, hoje sábios senhores e senhoras que já deram sua parcela de trabalho pelo crescimento e construção de Blumenau.

O footing inocente de uma família na Rua XV nos anos 70 (Antigamente em Blumenau)

O footing inocente de uma família na Rua XV nos anos 70 (Antigamente em Blumenau)

A vemos jovem ainda hoje, mas nós, de uma geração mais nova e cegada pelo corre-corre no centro citadino, mal podemos imaginar ou materializar as histórias de nossos avós, tios e pais pelas vielas de uma cidade já potência do estado, mais longe do que é hoje. A inocência de tempos de voltas pela Rua XV, intercaladas pelos cumprimentos aos amigos que cruzavam o mesmo caminho no footing do fim de tarde nos fins de semana.

Pelos jardins da cidade, os gerânios, margaridas e outras flores desabrochavam alegremente enquanto crianças puxavam os pais afoitos rumo a Hermes Macedo para mostrar o Ferrorama da Estrela funcionando na vitrine. Nas rodas de conversa nos cafés, os fatos políticos da cidade. Quem vai suceder o Lazinho (Evelásio Vieira) na prefeitura? Será que é muito caro se inscrever num plano de expansão da Cotesc? E o Palmeiras vai vencer o Marcílio Dias no fim de semana?

A iluminada fachada da Hermes Macedo nos natais. Abaixo, o time do Palmeiras, em mais uma disputa do Catarinense nas antigas (Antigamente em Blumenau)

A iluminada fachada da Hermes Macedo nos natais. Abaixo, o time do Palmeiras, em mais uma disputa do Catarinense nas antigas (Antigamente em Blumenau)

Do centro aos bairros, era na macieza dos bancos dos monobloco da Glória, que viviam tempos de uma administração familiar sem vícios. Assim como a Ouro e Prata ou os da Cidade Jardim, carregando dentro deles em bancos almofadados estudantes, chefes de família ao trabalho, senhoras ao centro para compras ou jovens em busca das paqueras em um cantinho diante do Carlos Gomes ou as escondidas no Biergarten. Entre as mulheres conversadeiras nos salões de senhoras, o papo era o último capítulo de Pecado Capital, passado na noite passada na Coligadas, fora os comentários sobre o penteado de Ingrid Budag no Miss Brasil.

Na parada da Rua Amazonas, entrando no Progresso-Badenfurt, linha da Glória, nos anos 70. Abaixo, a bela Ingrid Budag e a coroa de Miss 1975 (Egonbus | Antigamente em Blumenau)

Na parada da Rua Amazonas, entrando no Progresso-Badenfurt, linha da Glória, nos anos 70. Abaixo, a bela Ingrid Budag e a coroa de Miss 1975 (Egonbus | Antigamente em Blumenau)

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Nos fins de semana, diversão a todos os gostos era o que não faltava. Os mais chegados a dança e tradições lotavam os salões dos Caça-e-Tiro da cidade para uma noite de muita alegria ao som dos Futuristas ou dos Montanari, vigorosamente tocando canções dos bons tempos e limpando bancos a cada melodia.

Já a juventude de cabelos longos e ideias curtas encontrava-se em casas como o Stone Apple Club ou em algum suaré numa garagem alheia para curtir o último disco de melhores da Discoteca Papagaio, rodando num Philips 557 e agitando casais, trocando olhares e selando paqueras com um doce e inocente beijo… E pensar que tudo isso rolava sem Oktoberfest! Como puderam viver assim? você deve pensar…

O badalo na Stone Apple Clube depois Casanova), uma de tantas casas de reunião da juventude blumenauense (Antigamente em Blumenau)

O badalo na Stone Apple Club (depois Casanova), uma de tantas casas de reunião da juventude blumenauense (Antigamente em Blumenau)

Rodolfo Sestrem Airton Gonçalves Ribeiro)

Rodolfo Sestrem (Aírton Gonçalves Ribeiro)

Chovia? O rio enchia e só tinha uma barragem para apartar toda a água. Lá se ia um dia perdido de trabalho para recomeçar da lama que se formava nas ruas. Na baixa da XV com a Floriano Peixoto, dependendo do volume de água, se passava com ela no pescoço ou só de bateira. As rádios da época ficavam ligadas por horas a fio, especialmente na voz de Rodolfo Sestrem, dando as últimas medições do Itajaí-Açu e as informações mais precisas sobre a atual situação da cidade naquele momento difícil em particular.

E então? Dia 2 de setembro, dia de desfile. A cidade inteira se perfilava na XV para assistir o passar de todo um município diante dos próprios olhos. As fanfarras batiam firme o pé no chão com uniformes simples e toques musicais vigorosos. Deslumbrava-se o passar das bandas do Celso Ramos e do Pedro II, disputando popularidade nas calçadas. Câmeras da Coligadas apostas sem perder um detalhe, palmas do prefeito na bancada de autoridades, era mais um ano de Blumenau que fechava diante dos olhos.

A poderosa banda da EEB Pedro II rasga o centro. Tempos românticos dos desfiles e das fanfarras da cidade (Antigamente em Blumenau)

A poderosa banda da EEB Pedro II rasga o centro. Tempos românticos dos desfiles e das fanfarras da cidade (Antigamente em Blumenau)

Falando em olhos, deixem-me abri-los agora, desligar a mente que foi de recorte em recorte do passado nesta passagem e voltar a realidade… Não é nada igual a este tempo de nossos avós e pais? Não, não o é, mas por que deveria me lamentar? Atrás de mim e de minha geração, uma doce e magnífica história de superações, sorrisos, trabalho e festas foi escrita para chegarmos onde estamos hoje. Blumenau é sempre jovem e nem parece aparentar ter vivido tanto em 166 primaveras. E será que o Dr. Hermann pensava, ao ver os primeiros estragos da primeira enchente que pegou na colônia, que chegaríamos tão longe?

Reprodução)

Reprodução)

Definitivamente, Hermann, aquela coloniazinha encravada no Itajaí-Açu a tantos anos atrás virou cidade grande, próspera, ainda imperfeita mas sempre jovial e feliz. Basta olhar na cara de cada um dos que aqui vivem, seja ele da gema ou filhos adotivos com orgulho, jovens e velhos que dividem histórias do passado e do presente pelas esquinas, mesmo em meio a correria que a cidade grande impôs.

É, a juventude de tantos não volta mais, infelizmente. O tempo não nos permite voltar para sentir tantas coisas assim. Mas precisa? A história sempre estará viva e Blumenau não deixa nunca de perder a jovialidade. E se não reparou ainda esta juventude de nossa loura cidade, preste atenção num dia de céu de brigadeiro, por-de-sol sob a ponte e as luzes da noite chegando. Você me entenderá muito bem depois disso…

André Bonomini)

André Bonomini)

Felicidades sempre, jovem Blumenau!

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Um comentário sobre “Jovens dias de uma jovem Blumenau

  1. Parabéns Blumenau e todos seus cidadãos pela passagem de seu 166º anos de fundação.
    Uma bela cidade, belas histórias, cidade que eu AMo!
    Mas temos que saber que temos uma pré história anterior a chegada de dr. Blumenau e ou os 17 primeiros imigrantes. Mas estes são outras histórias, que não devem ser ignoradas.
    Adalberto Day cientista social e pesquisador da história.

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