Morte de Domingos Montagner: Quando a vida chega ao fim antes da ficção

Choque na produção de Velho Chico: Na última semana, a morte de Domingos Montanger causou comoção entre fãs das novelas e da TV, mais um da parte de uma história de atores que partiram antes do fim das produções que participavam Reprodução / Globo)

Choque na produção de Velho Chico: Na última semana, a morte de Domingos Montanger causou comoção entre fãs das novelas e da TV, mais um da parte de uma história de atores que partiram antes do fim das produções que participavam (Reprodução / Globo)

A teledramaturgia brasileira enlutou-se drasticamente nesta última quinta-feira (15/09) com uma tragédia digna dos folhetins mais marcantes. Afogado pelas águas turbulentas do Rio São Francisco, o ator Domingos Montagner, 54 anos, vivia talvez um dos momentos mais protuberantes da carreira curta e destacada. Uma perda que pode afetar seriamente as produções finais de Velho Chico, atração da Rede Globo no horário das 21h.

Domingos era casado e começou a carreira artista no circo, em 1980. Era uma espécie de operário da arte, tendo ascendido dez anos depois a ocupação de palhaço no seu primeiro trabalho com teatro. A primeira vez que atuou na TV, no entanto, foi apenas em 2008, na série de TV Mothern, do canal pago GNT (de propriedade da Globo). Em novelas, a primeira participação foi em 2011, no folhetim das 18h Cordel Encantado, vivendo o Capitão Herculano Araújo.

Ator promissor, fiel amante da arte de interpretar e começando a despontar de vez na carreira televisiva, Montagner era um dos grandes destaques do folhetim das 21h, partindo precocemente ainda no início de uma jornada que tinha tudo para ser ainda mais marcante na TV (Reprodução / Globo)

Ator promissor, fiel amante da arte de interpretar e começando a despontar de vez na carreira televisiva, Montagner era um dos grandes destaques do folhetim das 21h, partindo precocemente ainda no início de uma jornada que tinha tudo para ser ainda mais marcante na TV (Reprodução / Globo)

Foram apenas quatro novelas, oito seriados, 10 filmes e seis peças teatrais. Foi indicado para sete prêmios, tendo vencido três deles: Melhores do Ano 2011 como Ator Revelação, Revelação de TV de 2011 e Melhor Ator de Série/Minissérie em 2013, ambos pela revista Contigo!. Um ator simples, de origem simples, tal como simples operário da arte que, com uma atuação impecável, acabou por ser um dos grandes destaques do folhetim das 21h da Globo, algo que para um ator em ascensão é um grande marco na carreira.

A morte repentina de Montanger causou comoção no elenco da novela, especialmente à atriz Camila Pitanga, que vivia com ele um dos pares românticos da trama e que está próximo dele no momento em que o ator era tragado pelas águas turbulentas do São Francisco. Mesmo com este revés enorme na trama, o final da novela – um dos maiores sucessos da Rede Globo no horário nos últimos tempos (e que carecia de algo assim) – está garantido graças a uma solução que inclui jogo de câmeras no ângulo da visão do próprio personagem, como já foi divulgado no Fantastico do último domingo.

No entanto, se a morte de Domingos Montagner, apesar da dor, parece estar sendo digerida da melhor forma pela emissora, sem deixar a peteca da novela cair, outras tramas em outros tempos e outros tantos casos de atores e atrizes que deixaram a vida antes do fim das tramas que participaram não acabaram bem. Novelas que foram interrompidas ou cujas continuaram combalidas sem o mesmo impacto fazem parte desta página difícil da teledramaturgia nacional.

Domingos e Camila Pitanga, par romântico da trama. Atriz de longa carreira em novelas e séries sentiu muito o abalo da morte do colega de cena, tragado pelas águas do São Francisco num simples nado após as gravações (Reprodução / Globo)

Domingos e Camila Pitanga, par romântico da trama. Atriz de longa carreira em novelas e séries sentiu muito o abalo da morte do colega de cena, tragado pelas águas do São Francisco num simples nado após as gravações (Reprodução / Globo)

A BOINA resgatou alguns casos marcantes relativos a mortes antes do fim de novelas no Brasil, e que não são poucos. A relação completa, com 52 casos, foi listada pelo jornalista Nilson Xavier, responsável também pelo portal Teledramaturgia, um dos mais completos sobre novelas do país. A lista completa com todos os nomes listados por Xavier está no blog do jornalista no portal UOL.


logo da novela Seu Único Pecado, Record 1969)

(logo da novela Seu Único Pecado, Record 1969)

Noel Marcos: Um dos mais trágicos da teledramaturgia brasileira esquecido pelo tempo e pela novela fraca produzida na Record, em 1969, Seu Único Pecado. O garoto Noel Marcos, filho do produtor e ator Dionísio Azevedo e da atriz Flora Geny, foi vitima de um atropelamento enquanto passeava de bicicleta no Sumaré, em São Paulo, onde morava.

Noel era uma das estrelas da trama e a morte do pequeno ator apressou o final da história, esquecida nas memória da emissora paulista.


Reprodução)

(Reprodução)

Sergio Cardoso: Astro de novelas como Antônio Maria, da Tupi, A Cabana do Pai Tomás, Pigmalião 70 e A Próxima Atração – todas da Globo – Cardoso estava à tão somente 28 capítulos do fim da novela O Primeiro Amor, em 1972, quando sofreu uma parada cardíaca e morreu aos 47 anos, chocando as assíduas espectadoras da atração.

No entanto, dizia-se que o ator sofria de catalepsia, condição que deixa os músculos rígidos, em um estado de morte aparente e que pode prolongar-se por hora. A lenda de que Sergio tinha sido enterrado vivo perdurou por anos, sendo veementemente negada pela família do ator.

Veja alguns momentos de Sérgio Cardoso:


Reprodução / Amiga)

Reprodução / Amiga)

Otello Zeloni: O italo-brasileiro ex-piloto da Força Aérea Italiana tinha um currículo respeitável com novelas como Os Ossos do Barão na Globo e participação na Família Trapo, na Record, quando foi escalado como protagonista para a trama O Conde Zebra, na TV Tupi em 1973.

O desempenho da novela era bom na grade da emissora dos Chateaubriand quando Otello adoeceu repentinamente por conta de um tumor cerebral, cujos sintomas haviam se manifestado 30 dias antes da interrupção da trama pelo autor, Sergio Jockyman, em 28 de dezembro. No dia seguinte, Otello faleceu e a novela não mais voltou ao ar.

Abaixo, a abertura da trama, com o próprio Otello Zeloni no destaque:


(Reprodução / Amiga)

(Reprodução / Amiga)

Jardel Filho: Talvez uma das mais sentidas mortes das tramas nacionais nos últimos tempos. Muito querido pelos colegas e pelo escritor da novela Sol de Verão, Manoel Carlos, grande amigo, o ator protagonizava Heitor, um dos protagonistas desta trama das 18h quando faleceu em decorrência de um ataque cardíaco em fevereiro de 1983.

Impossibilitado psicologicamente de continuar a trama sem um dos protagonistas e grande amigo, Manoel passou a continuação da novela para Lauro César Muniz, que precipitou o fim da trama. A explicação para o sumiço de Heitor da história foi uma simples viagem e, mesmo com o novo escritor, a continuidade da atração foi seriamente prejudicada.

Veja a homenagem feita para Jardel Filho no capitulo após a morte do ator, com texto do próprio Manoel Carlos, lido por Gianfrancesco Guarnieri:


(Reprodução)

Janete Clair: A consagrada autora de sucessos como Selva de Pedra, Duas Vidas e Pai Heroi era a primeira celebridade fora dos holofotes e comandando as máquinas de escrever a mover uma legião de admiradores. Ela morreu em novembro de 1983, enquanto escrevia o folhetim das 22h Eu Prometo, tendo escrito até o capítulo 60. A autora Gloria Perez, sob supervisão do marido de Janete e também escritor Dias Gomes, conduziu os trabalhos da trama.

A novela em si, primeira da Globo no antigo horário das 22h após cinco anos, não foi uma tentativa declarada de ressuscitar o horário. Na verdade, foi a forma que a Globo encontrara para não ter uma trama no horário nobre, o mais rentável da emissora, com uma autora trocada no meio dos trabalhos, uma vez que a emissora dos Marinho sabia da gravidade do câncer de Janete, ao qual ela lutava há quatro anos mesmo sem parar de trabalhar.

Entrevista de Leda Nagle com o casal de dramaturgos Janete e Dias, no Jornal Hoje (1981):


(Reprodução)

(Reprodução)

Lauro Corona: Apesar de triste, a morte de Lauro teve um tom de previdência, com o ator deixando a trama na reta final por motivo de doença, com a despedida de seu personagem da novela Vida Nova. A retirada de Manoel Vitor, ao qual Corona interpretava, foi icônica, despedindo-se do Brasil e voltando para a terra-natal do personagem, Portugal, numa noite de chuva ao som de um poema de Fernando Pessoa, declamado em off pelo ator.

Lauro morreria em julho de 1989, aos rasos 32 anos de idade, em decorrência de complicações causadas pelo vírus da Aids.


(Reprodução)

(Reprodução)

Daniella Perez: A história de ficção que foi tragicamente real. A jovem e encantadora atriz, filha da escritora Gloria Perez, foi brutalmente assassinada em dezembro de 1992, isto quando Daniela atuava na novela De Corpo e Alma, escrita pela mãe. O choque foi maior quando o país descobriu que o autor do assassinato era o colega de cena da atriz, o ator Guilherme de Pádua, que arquitetou o crime junto da esposa, Paula Thomaz.

Mesmo enlutada e com um elenco abalado com o fato, Gloria continuou a novela até o fim. A personagem de Daniella na trama – a jovem Yasmin – foi retirada da trama tendo como motivo uma viajem. Bira, o personagem de de Pádua, simplesmente foi limado da trama.

No mesmo dia da morte da atriz, o então presidente Fernando Collor renunciava o mandato depois que o processo do impechment passou na Câmara dos Deputados. Veja o plantão da Globo daquele dia:


Raimundo Valentim / AE)

Walter Avancini: Um dos mais prolíficos escritores da teledramaturgia da Rede Globo, Avancini tem no currículo de escritos, direções e produções sucessos como Selva de Pedra, O Semideus, Saramandaia, O Cravo e a Rosa e tantos outros.

Em 2001, começou os trabalhos para o novo folhetim das 18h da casa, o épico de época A PadroeiraNo entanto, adoentado por um câncer de próstata, Avancini não viu a obra completa, falecendo antes de terminar a novela. Os trabalhos foram concluídos por Roberto Talma.


(Reprodução)

(Reprodução)

Luiz Carlos Tourinho: Conhecido por alguns papeis cômicos, inclusive o do puxa-saco faz-tudo Ataíde em Sai de Baixo, Tourinho sofria desde 2005 as complicações causadas por um aneurisma cerebral. Durante o tratamento que conduzia contra o mal ele iniciou os trabalhos do personagem Nezinho em Desejo Proibido no horário das 18h.

Infelizmente, a doença se agravou e o ator de 43 anos de idade foi vitimado por uma parada cardiorrespiratória em decorrência do aneurisma em janeiro de 2008. Seu personagem desapareceu da novela no decorrer da trama.


(Reprodução)

(Reprodução)

Mara Manzan: Lembrada muitas vezes por atuações de personagens popularescas e da comunidade, estava com grande destaque em Caminho das Ìndias, folhetim das 20h escrito por Glória Perez em 2009. No entanto, a atriz acabou tendo de se afastar da novela por conta das complicações causadas por uma metástase (câncer ósseo) em duas vértebras.

Sem mais retornar a novela, Mara faleceu em novembro de 2009, dois meses após o fim da trama.


(Reprodução)

Umberto Magnani: Montagner não foi a primeira perda fatal de Velho Chico. O simpático Padre Romão, interpretado por Magnani, não chegou nem a ver a metade da novela. Umberto sofreu um acidente vascular encefálico hemorrágico durante um dia de gravações da novela em abril deste ano, falecendo quase que instantaneamente.

O ator Carlos Vereza foi chamado para preencher a lacuna de Magnani, interpretando outro padre na trama. Umberto tinha 75 anos.

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