Gramming & Marbles (F1): Red Bull faz 1-2 em Sepang no fim de semana atribulado da Mercedes

(esq-dir) Verstappen e Riccardo no dia de festa da Red Bull na Malásia. Dupla do touro paraguaio comandou a festa depois da desgraça de Hamilton, com o australiano a frente. (Getty Images)

(esq-dir) Verstappen e Riccardo no dia de festa da Red Bull na Malásia. Dupla do touro paraguaio comandou a festa depois da desgraça de Hamilton, com o australiano a frente. (Getty Images)

(André Bonomini & Douglas Sardo)

O touro paraguaio manda em Sepang

Ainda na corrida em meio ao fim de semana agitado das eleições, pude ouvir de atravessado a TV dizer que para a decisão do mundial de construtores não acabar na Malásia, a Red Bull precisaria vencer e bem na pista de Sepang. E pelo que rolava sobre os treinos, talvez veríamos mais uma prova da Mercedes tendo um comboio de botas atrás.

Ledo engano. A prova malaia foi uma das mais interessantes da temporada e quem acordou as 4h da matina pra ver o embate saiu satisfeito com o que viu. Lances emocionantes, belas brigas e ultrapassagens que, apesar de serem à conta-gotas, foram marcantes. E para a Red Bull, foi dia de voltar aos tempos de manda-chuva, com uma baita corrida entre seus dois pilotos, levando Christian Horner um sorriso que fazia tempo que não vinha.

Riccardo no comando. Grande atuação do australiano, escapando-se até dos ataques pontuais do companheiro e contando com a sorte (Getty Images)

Riccardo no comando. Grande atuação do australiano, escapando-se até dos ataques pontuais do companheiro e contando com a sorte (Getty Images)

O homem-sorriso Daniel Riccardo e o menino prodígio Max Verstappen tiveram uma atuação como há muito tempo a própria equipe não via, até mesmo se engalfinhando magnificamente em um dado momento da prova. É claro, não é mentira que o grande dia dos austríacos foi permitido graças a tribulação de Lewis Hamilton, que viu a vitória virar fumaça com o engenho da Mercedes indo pelos ares na metade final da prova. Um problema que levou o inglês a disparar tiros infantilmente contra a própria casa. Seria o quarto título escapando?

É difícil falar da prova em partes, pois como os roteiros de muitos filmes holywoodianos, vários deles se interligam entre si. Por isso, vou tentar ser mais linear hoje, tal como o Douglas Sardo nas pautas da MotoGP e da Indy.

O esparrama na largada do derby

Rosberg vê a turma ao contrário na largada, culpa do esbarrão de Vettel, numa manobra suicida do alemão de Maranello (Getty Images)

Rosberg vê a turma ao contrário na largada, culpa do esbarrão de Vettel, numa manobra suicida do alemão de Maranello (Getty Images)

Logo na largada (como diria o Douglas), o primeiro esparrama da prova já mudou muito o cenário da corrida, que parecia favorecer e muito a Lewis Hamilton. Numa tentativa desesperada de ganhar posições, Sebastian Vettel saiu de franco-atirador e, numa brecha, enfiou-se engatilhando o fuzil. Não esperou que alguém se metesse a frente de sua luneta e, no susto, esparramou Nico Rosberg, que tentava se refazer dos cacos da má largada diante do companheiro de casa. Resultado? Os alemães se espalharam, com Vettel levando a pior.

Ferrari, há muito tempo, caiu na real que o ano é um desastre. No entanto, Vettel ainda tem sonhos como tetracampeão que é, só esqueceu de deixa-los na fase dos sonhos e partir para a realidade. Atuações perturbadas e azares tem o seguido e, em Sepang, o alemão da casa de Maranello teve uma atitude parecida como a de Verstappen, que o tirou da linha na Bélgica. Espevitada, sem pensar e que foi punida com abandono e punição.

Vettel anda em desgraça na decepcionante Ferrari. Manobra na largada o tirou precocemente de combate e quase arruinou o campeonato de Rosberg. No frigir dos ovos, Maurizio Arrivabene ainda pode celebrar o modesto quarto lugar de Kimi Raikkonen (abaixo) (Getty Images)

Vettel dispara a bala e acerta o patrício: Tião anda em desgraça na decepcionante Ferrari e a manobra na largada o tirou precocemente de combate e quase arruinou o campeonato de Rosberg. No frigir dos ovos, Maurizio Arrivabene ainda pode celebrar o modesto quarto lugar de Kimi Raikkonen (abaixo) (TV | Getty Images)

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Alias, falando em punição, se a manobra de Vettel foi parecida com a de Verstappen na Bélgica – e que prejudicou o alemão – por que só Vettel foi laureado com punição e Verstappen não? Vá entender a FIA, se não está permitindo que o moleque holandês possa fazer suas peripécias passando incólume nas regras.

Alonso e os dias felizes em Woking

Alonso sendo Alonso outra vez. O asturiano fez prova fantástica, com largada monstro e fez do último posto no grid um bom sétimo (Studio Colombo / Pirelli)

Alonso sendo Alonso outra vez. O asturiano fez prova fantástica, com largada monstro e fez do último posto no grid um bom sétimo (Studio Colombo / Pirelli)

Em se tratando de recuperações, Nico Rosberg e Fernando Alonso foram, sem dúvida, os grandes destaques da prova malaia nas escaladas que protagonizaram. Para Nico, a sua recuperação significou muito especialmente para o campeonato. Mas dele, falaremos depois…

Já Alonso mostrou um pouco mais do velho gás do passado para fazer uma prova fantástica. O asturiano saiu da última posição para, com muita combatividade, ser o sétimo colocado no frigir dos ovos. A McLaren vai demonstrando prova a prova de que os problemas de outrora estão ficando para trás. A clara evolução do carro é visível a olho nu, permitindo-se andar as vezes a frente de Williams e Force India, o que anima o espanhol e, principalmente, o chefe Éric Boullier.

Button também fez bonito e angariou um nono lugar. Pontos desabrocham, os bons desempenhos se multiplicam. A McLaren vive dias felizes que prometem muito para 2017 (Getty Images)

Button também fez bonito e angariou um nono lugar. Pontos desabrocham, os bons desempenhos se multiplicam. A McLaren vive dias felizes que prometem muito para 2017 (Getty Images)

Como bônus, Jenson Button também pontuou, chegando em nono. Os dias em Woking estão bem mais felizes e não será surpresa ver a McLaren ter um pódio em 2017. Estou apostando alto, podem escrever.

Há um moleque preso em Hamilton

BOOOOOM! Lá se vai o engenho da Mercedes de Hamilton pelos ares. Talvez até o título de 2016 subiu junto com a fumaça do engenho (Getty Images)

BOOOOOM! Lá se vai o engenho da Mercedes de Hamilton pelos ares. Talvez até o título de 2016 subiu junto com a fumaça do engenho (Getty Images)

Reclamar de problemas no motor depois de um abandono com uma corrida muito boa é normal. Tem quem fique nervoso ou até chore como Luca Badoer (ver Nurburgring, 1999). Mas quando se trata de briga de campeonato na melhor equipe da grelha as vezes a frustração é maior e se controlar nas palavras é deveras importante para um piloto maduro.

Bem… Ao menos deveria ser assim, coisa que Lewis Hamilton parece nunca aprender. Aos 31 anos de idade, três títulos na mão e um plantel de vitórias invejável o mínimo que se pede dele é que se porte como um piloto adulto e que sabe medir criticas e problemas. Após o derradeiro canto do cisne do seu engenho – o que lhe tirou uma vitória quase certa – Lewis não mediu palavras e partiu para o tal discurso do favorecimento ao companheiro de flecha prateada, que saiu de Sepang rindo a valer com 23 pontos de frente.

A cena de desespero, somado aos gritos de tristeza no rádio, soa icônica para a F1 em 2016. No entanto, os disparos verbais inconsequentes de Hamilton depois do abandono foram desnecessários. Prova de quem ainda não controla o psicológico quando o momento não lhe é favorável (Getty Images)

A cena de desespero, somado aos gritos de tristeza no rádio, soa icônica para a F1 em 2016. No entanto, os disparos verbais inconsequentes de Hamilton depois do abandono foram desnecessários. Prova de quem ainda não controla o psicológico quando o momento não lhe é favorável (Getty Images)

Depois de tantos disparos e acertando quem visse na equipe, Hamilton – como qualquer criança mimada – voltou atrás e disse confiar 100% no time. Tarde demais, a primeira impressão para quem acompanha a categoria já estava feita. Com tamanha carreira já consolidada, Lewis deve de conver que soltar cobras e lagartos indiscriminadamente pode queimar qualquer tipo de carreira, desde o estreante juvenil até o velho campeão.

Agora, para o inglês, é hora de botar a cabeça no centro e voltar-se ao que importa de verdade: A disputa do título, que se tudo correr como corre, pode não acabar nas mãos dele.

A briga das Red Bull – Espetáculo liberado e equilíbrio controlado

Fora as Mercedes, a briga entre Verstappen e Riccardo foi a grande tônica da prova. Talvez, um dos duelos mais esperados do ano e que, de uma forma providencial, foi vencida em favor do australiano, que teve um fim de semana digno de campeão do futuro como sempre se pensa de Daniel. O homem-sorriso não deu chance aos erros e teve até faca nos dentes numa das manobras mais bonitas da prova.

Há tempos não se via a trupe austríaca tão combativa num GP, mais precisamente desde o GP do Brasil de 2013 (com Vettel e Mark Webber) que ambos os carros não subiam ao pódio juntos em dobradinha.  Mesmo com Max tendo as melhores chances de vitória no final – por ter feito troca antes, a Red Bull foi, de certo, previdente e talvez estivesse pensando em equilibrar as coisas. Na última parada, chamou ambos para a troca, coisa que fez coçar a cabeça até do próprio colega Douglas Sardo. Mas até pode ser que Horner estivesse precavendo o fato de Max poder ficar sem o melhor desempenho dos pisantes macios que calçava. Então, vá entender a estratégia.

Independente do que foi, ambos fizeram grandes corridas e poderia ser uma dobradinha da Red Bull até mesmo no Menino de Muzambinho. Mas, nesse caso, que não falte a Daniel e Max o bom e saboroso champanhe na sapatilha (argh!) para brindar um domingo perfeito.

Champanhe na sapatilha e Riccardo cria uma nova tradição. Pois bem, não se arrisque a perguntar a ele que gosto tem a bebida tomada diretamente dos calçados recém-usados. Mas vale tudo quando o assunto é extravasar a vitória (Getty Images)

Champanhe na sapatilha e Riccardo cria uma nova tradição. Pois bem, não se arrisque a perguntar a ele que gosto tem a bebida tomada diretamente dos calçados recém-usados. Mas vale tudo quando o assunto é extravasar a vitória (Getty Images)

Os 10 mais – Corrida

1 – Daniel Riccardo (Red Bull-TAG)
2 – Max Verstappen (Red Bull-TAG)
3 – Nico Rosberg (Mercedes)
4 – Kimi Raikkonen (Ferrari)
5 – Valtteri Bottas (Williams-Mercedes)
6 – Sergio Pérez (Force India-Mercedes)
7 – Fernando Alonso (McLaren-Honda)
8 – Nico Hulkenberg (Force India-Mercedes)
9 – Jenson Button (McLaren-Honda)
10 – Joylon Palmer (Renault)
13 – Felipe Massa (Williams-Mercedes)
ABN – Felipe Nasr (Sauber-Ferrari)

Os 6 mais – Campeonato

1 – Nico Rosberg (288)
2 – Lewis Hamilton (265)
3 – Daniel Riccardo (204)
4 – Kimi Raikkonen (160)
5 – Sebastian Vettel (153)
6 – Max Verstappen (147)
11 – Felipe Massa (41)
22 – Felipe Nasr (0)

MENINO DE MUZAMBINHO: Nico Rosberg (Mercedes)

Escolha dura entre eu e Douglas Sardo sobre o melhor da prova. Tem quem pense em Riccardo, Verstappen ou até Alonso. Mas a verdade é que Rosberg comportou-se como campeão, mantendo a cabeça no lugar na adversidade, sendo combativo quando preciso e até usando da malícia na melhor ultrapassagem da prova (Getty Images)

Escolha dura entre eu e Douglas Sardo sobre o melhor da prova. Tem quem pense em Riccardo, Verstappen ou até Alonso. Mas a verdade é que Rosberg comportou-se como campeão, mantendo a cabeça no lugar na adversidade, sendo combativo quando preciso e até usando da malícia na melhor ultrapassagem da prova (Getty Images)

Sem dúvidas, uma das melhores atuações do filho de Keke na F1 nos últimos tempos. Mesmo se vendo ao contrário de todos na largada depois do toque com Vettel, Rosberg teve sangue frio, calma e um pouco de malícia para recobrar posições e subir ao terceiro lugar em Sepang. Contrariando a quem achava não ter fibra de campeão, parece que a de Nico está crescendo e muito, agindo de forma comedida e mostrando que os azares do inicio do ano podem ser lidados com cabeça e calma para conseguir bons resultados.

Mais do que tudo, diante da reação explosiva de Hamilton contra a própria casa, Rosberg demonstrou que os azares de inicio de ano são fases superáveis e que perder a cabeça com a equipe de nada adiante. Uma atitude de piloto maduro e que, mesmo ainda aprendendo a ser um potencial campeão, mostra-se mais centrado que o companheiro e par mais famoso. Se tudo correr bem nas próximas quatro provas, não teremos dúvidas que Nico estará, de vez, completo.

Alias, vale destacar a manobra fulminante em Kimi Raikkonen. Suicida, arriscada, porém ousada. Digna de Galvão Bueno dizer que não se acha no tal livro Como Dirigir numa Corrida de Automóvel, nem em mandarim de traz pra frente ou japonês de cima para baixo.

Veja:

Rapidinhas:

Luiz Roberto, como sempre, fazendo mais do que já é. Burti chutando o problema de Romain Grosjean (visivelmente, o freio) e Reginaldo… bem, deixa pra la. E já falam que será de Luiz Roberto a titularidade da F1… Socorro!!!

– Dia desgraçado aos brasileiros, como de costume. Felipe Massa acostumou-se a cair na real e não foi nem além do 13º lugar lotado de problemas. Felipe Nasr nem completou e continua zerado neste ano.

Para não dizer que não falei dos Felipes: Massa teve um fim de semana normal com os problemas da Williams e completou em 13º. Nasr (abaixo) abandonou mais uma e segue zerado em 2016 (Getty Images)

Para não dizer que não falei dos Felipes: Massa teve um fim de semana normal com os problemas da Williams e completou em 13º. Nasr (abaixo) abandonou mais uma e segue zerado em 2016 (Getty Images)

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-Digno de nota: O primeiro ponto de Joylon Palmer neste ano. Um mísero 10º posto. Nada de surpreendente ao filho do Dr. Jonathan, ainda se considerar que Kevin Magnussen, companheiro de casa na Renault e que incendiou-se nos treinos (no sentido literal da palavra, o carro pegou fogo), está a frente por seis pontos apenas. Acreditar que este projeto vai dar pé em 2017 está bem difícil.

– E o safety car virtual desovou em Sepang. O que não teve a rodo em Cingapura – com maior tendência por ser pista de rua – teve aos montes e até sem necessidade na pista malaia.

Chamuscas no carro de Magnussen. Fora o primeiro ponto de Palmer no ano (que milagre!) o resto foram cinzas para a Renault, em mais um fim de semana deprimente. Quem vai acreditar no projeto do time em 2017? (Getty Images)

Chamuscas no carro de Magnussen. Fora o primeiro ponto de Palmer no ano (que milagre!) o resto foram cinzas para a Renault, em mais um fim de semana deprimente. Quem vai acreditar no projeto do time em 2017? (Getty Images)

Para Recordar (1999): Ferrari X McLaren, o inesquecível derby de Sepang 

Sepang ainda mal sabia o que era a F1 em 1999, quando o circo pisou lá pela primeira vez. Mas se os malaios não sabiam, o mundo já sabia que aquele ano estava mais atribulado e pegando fogo impossível. A prova tinha como grande ingrediente a volta de Michael Schumacher na Ferrari, encostado depois do forte acidente sofrido na Inglaterra meses antes. O alemão seria o escudeiro de luxo do postulante Eddie Irvine, que brigava pelo título no seu lugar naquele momento. Chance única que tiraria a casa rossa da fila de títulos que vinha desde Jody Scheckter, em 1979.

Punho cerrado de Irvine diante dos alucinados mecânicos da Ferrari. O primeiro vencedor em Sepang. Uma corrida memorável, com a tensão na briga pelo titulo entre o irlandês e Mika Hakkinen, volta de Schumacher e até indefinição no resultado que durou uma semana... Tempos bons aqueles (Getty Images)

Punho cerrado de Irvine diante dos alucinados mecânicos da Ferrari. O primeiro vencedor em Sepang. Uma corrida memorável, com a tensão na briga pelo titulo entre o irlandês e Mika Hakkinen, volta de Schumacher e até indefinição no resultado que durou uma semana… Tempos bons aqueles (Getty Images)

Tudo dava a indicar que Mika Hakkinen, nos anos prateados da McLaren, bateria o martelo do bicampeonato por la, mas o que se viu foi uma prova de rara emoção naqueles tempos onde tudo parecia se apagar. Recordações de quem viu a corrida ao vivo e acompanhava uma temporada alucinante, cheia de alternativas e até uma Jordan (a de Heinz-Harald Frentzen) brigando por título.

Isto fora toda a confusão pós-corrida, já que a dobradinha Irvine-Schumacher foi desclassificada por contra de um erro de cinco milímetros nas bargeboards (defletores nas laterais inferiores do carro) 10mm mais curtas. A equipe apelou da decisão nas asas em Maranello, manteve os resultados de Sepang mas tomou um baile na prova seguinte, em Suzuka (Japão), dando o título ao finlandês voador.

Destaque na prova para as trocas constantes e equivocadas de câmeras. Era a primeira vez da TV local transmitindo uma corrida de F1, para desespero de Galvão Bueno…

Veja a primeira parte abaixo e, pelo YouTube, você vai continuando a sequencia das nove partes:

Quanto a F1 2016, ela retorna já neste domingo, ainda matinando (2h da madruga), nas curvas rápidas de Suzuka, para o GP do Japão. Hamilton coloca a cabeça no lugar? Rosberg abre mais vantagem? As Red Bull voltarão a vencer? Massa voltará a pontuar (oh realidade cruel!)?

Cenas dos próximos capítulos. Até a próxima!

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