O CSU: Uma história de uma antiga ferramenta social

Foi com festas, palavras e canção que um dos espaços sociais mais nobres do Garcia voltou a ganhar vida e função na comunidade. No último dia 26 de setembro, o prédio do Centro Social Urbano (CSU) recebeu de volta à suas instalações a equipe do Centro de Referencia de Assistância Social (CRAS) responsável pela Região II da cidade, correspondente aos bairros Garcia, Progresso, Glória, Valparaíso e Ribeirão Fresco. O CRAS Garcia atendia, anteriormente, em uma residência na Rua Campos Novos e, agora, conta com um espaço bem maior e mais confortável para atender as demandas da comunidade sempre presente.

No rosto de muitos que estiveram na solenidade de inauguração não estava apenas a felicidade de um novo espaço aberto para o CRAS, mas também recordações douradas do velho Centro Social Urbano Prefeito Hercílio Deeke, inaugurado em outubro de 1978 e que era parte integrante de um audacioso projeto que pretendia levar em um único lugar serviços de saúde, educação profissional, cultura, arte e esporte a regiões mais afastadas de grandes centros. Era uma proposta audaciosa que se perdeu no tempo e, agora, encontra-se entre o abandono e as novas utilidades.

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Uma ferramenta social do regime militar

O livreto do II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), lançado em 1975, ainda no começo do governo de Ernesto Geisel. A busca pela melhora na condição social do homem brasileiro passou por ele e teve um dos pontos na política dos CSU (Reprodução)

O livreto do II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), lançado em 1975, ainda no começo do governo de Ernesto Geisel. A busca pela melhora na condição social do homem brasileiro passou por ele e teve um dos pontos na política dos CSU (Reprodução)

A raiz da história do CSU no Brasil remonta a 1975, ainda no começo do governo do então presidente Ernesto Geisel, em pleno Regime Militar. Foi a partir do decreto 75.922, de 1º de julho daquele ano que ficou regulada toda a esquemática do plano que deveria cobrir todo o Brasil com o serviço, desde os serviços que seriam disponibilizados até a forma de uso das verbas disponíveis para o programa. A iniciativa era parte do II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND), instituído por Geisel no início do mandato e que, segundo constava em propagandas da época, visava especificamente elevar o padrão social do brasileiro.

No entanto, a história dos Centros Sociais Urbanos pelo país guarda suas lacunas. Não se sabe qual foi o primeiro CSU construído no país, onde localizava-se e quando foi inaugurado. Mas sabe-se bem que a iniciativa durou exatos nove anos, até 1984, com a construção de 501 unidades das 600 planejadas para todo o território nacional. Infelizmente, a iniciativa encontrou buracos em todo seu funcionamento, desde a implantação até a consolidação de um CSU em uma determinada área.

Muitas destas unidades eram implantadas em locais de pouco crescimento demográfico ou entregues a falta de gerencia, que deveria ser feita pela própria comunidade. Além do mais, falta de recursos provenientes das esferas estaduais dificuldade o funcionamento e manutenção dos prédios. Pelo Brasil, são poucos os CSU que restaram depois de 41 anos da implantação do programa tendo ainda a função social. Grande parte deles ou foi destinada a outros usos ou está em completo abandono.

Prédio abandonado de um CSU no Piauí. Equívoco das políticas e falta de vontade comunitária fez várias das estruturas pelo país ser perdida para o abandono (Reprodução)

Prédio abandonado de um CSU no Piauí. Equívoco das políticas e falta de vontade comunitária fez várias das estruturas pelo país ser perdida para o abandono (Reprodução)

O CSU em Blumenau: Garcia e Fortaleza

O CSU Garcia, na Rua da Glória, inaugurado em 1978 e ponto referencial da assistência social da comunidade do Garcia (Adalberto Day)

O CSU Garcia, na Rua da Glória, inaugurado em 1978 e ponto referencial da assistência social da comunidade do Garcia (Adalberto Day)

Por entre estas tantas na estrada de ampliação do programa, Blumenau foi uma das cidades beneficiadas com o programa de Centros Sociais Urbanos. Seriam dois instalados na cidade entre 1978 e 1982. Primeiro, no Garcia, em outubro de 1978, segundo do CSU da Fortaleza, anos depois. Apesar de serem mecanismos de utilidade social, o maior destaque destes aparelhos era o atendimento a saúde. Não para tanto, o CSU do Garcia era o abrigo do Ambulatório Geral até 2008, quando o AG mudou-se para a estrutura da antiga cantina da Artex, na Rua Progresso. O da Fortaleza, localizado ao lado da EEB Bruno Hoeltgebaum, abrigou por muito tempo o CRAS da região até 2014.

O CSU da Fortaleza, ao lado da EEB Bruno Hogeltbaum, por muitos anos local de atendimento do CRAS, até a mudança da unidade assistencial, em 2014 (Google)

O CSU da Fortaleza, ao lado da EEB Bruno Hogeltbaum, por muitos anos local de atendimento do CRAS, até a mudança da unidade assistencial, em 2014 (Google)

Talvez o CSU do Garcia tenha sido o que por mais tempo tenha resistido como um legitimo Centro Social na cidade, pequena mostra do que deveria mesmo ser o serviço desta ferramenta em uma comunidade. Os moradores do Distrito guardam lembranças de bons serviços e momentos passados por aquelas paredes do ainda hoje majestoso prédio próximo ao Terminal Urbano. Além do ambulatório, diversos cursos, atividades esportivas e até serviços como a emissão de Carteira de Identidade eram oferecidos no local.

Inaugurado em 31 de outubro de 1978 na gestão do prefeito Renato Vianna, o CSU Prefeito Hercílio Deeke era uma construção moderna para a época, com os três andares do prédio como mezaninos e um grande jardim central ao centro. A estrutura ainda se desdobrava em um salão de festas, creche e ginásio esportivo. Ginásio este que viu até mesmo competições de Jogos Abertos de outrora sendo disputados no local.

A placa de fundação do CSU Garcia, ainda está lá para quem quiser ver de perto uma peça interessante da história do Garcia. Abaixo, a quadra do CSU, ainda sob a administração do Centro Social (Adalberto Day)

A placa de fundação do CSU Garcia, ainda está lá para quem quiser ver de perto uma peça interessante da história do Garcia. Abaixo, a quadra do CSU, ainda sob a administração do Centro Social (Adalberto Day)

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O tempo passou, e a administração do espaço passou do estado para o município no início de 2016. Desde a mudança de local do ambulatório, muitas das atividades de outros tempos foram desativadas. No local haviam cursos de toda a natureza possível, até mesmo de Dança do Ventre, depois da febre provocada pela novela O Clone (Rede Globo), em 2001. O mais popular, claro, era o curso de informática, administrado pela antiga Cetil Informática (hoje Cetelbras) que propiciou a muitos o primeiro contato com um computador. Todas as opções possíveis eram divulgadas por um mural branco, bem do lado do letreiro do CSU.

O salão social segue recebendo bailes e festividades de várias entidades diferentes. O serviço de Alcoólicos Anônimos, presente desde 1985, segue as atividades na pequena sala atrás do prédio. O CEI Frieda Zadrozny, funcionando desde o início do Centro Social, continua no mesmo espaço, assim como a base do Corpo de Bombeiros, que apenas mudou o portão de entrada e saída. E o ginásio de esportes, de tantas glórias passadas, continua na ativa também, agora sendo administrado pelos abnegados parceiros da Associação Desportiva de Pais e Amigos dos Menores Atletas, a Apama, que tem formado excepcionais profissionais do futebol (de campo ou quadra), futuros talentos do esporte.

Agora, com a volta das atividades do CRAS no velho prédio, o CSU volta a receber de volta a função que tinha quando de seu surgimento há quase 40 anos. É certo, claro, que sua função e propósito no meio social mudaram com o passar dos anos. Há locais onde o CSU é apenas uma lembrança do passado, em outros a comunidade ainda esforça-se contra o abandono de muitos governos para manter firmes e fortes as atividades desenvolvidas no local. Mas a verdade mesmo é que a ideia, embora ambiciosa e faraônica nos tempos dos presidentes militares, não se pode perder com o tempo ou, ainda, com a fome de se apagar de tudo – incluindo as boas iniciativas – vindas daqueles idos tão tenebrosos.

Atenção a todas as necessidades da formação social de uma comunidade é ponto de honra para um governo que se preze voltado a esta causa. Outros tantos mecanismos municipais aglutinaram as funções que antes eram de alçada do CSU, mas mesmo passado tanto tempo de sua proposta, a ideia de encontrar no Centro Social Urbano atividades e serviços para a comunidade ainda é presente – e muito forte – nos meios comunitários. Ou seja, o CSU, como mecanismo social, não pode ser perdido ou esquecido. Talvez, destinando-o a novas atividades sociais dentro da comunidade onde está, aproveitando o nobre papel de referencia que foi construído.

O que um CSU precisa em dias atuais? Alguma forma de ser últil como aparelho social e não cair no abandono, como esta estrutura em Ilheus, na Bahia (Reprodução)

O que um CSU precisa em dias atuais? Alguma forma de ser últil como aparelho social e não cair no abandono, como esta estrutura em Ilheus, na Bahia (Reprodução)

Felizmente, em Blumenau, o CSU parece estar tomando este rumo. Um equipamento de assistência social que não morreu com o tempo, apenas encontrou outras formas de continuar como a referencia de outrora, para o bem da comunidade sempre presente.

Um comentário sobre “O CSU: Uma história de uma antiga ferramenta social

  1. André,
    Mais uma bela postagem e que me sinto inserido.
    Quando falo inserido é porque no CSU Garcia na Rua da Glória, inaugurado em 1978, eu estava lá disputando o primeiro Torneio de Futebol de Salão promovido nessa quadra. Joguei pelo time da VILA e nos sagramos campeões. Como provar? tenho aqui comigo a medalha de campeão oferecida por Rodolfo Sestrem.
    Mas não foi só isso. Ali junto com amigos fundamos a Associação de todos os bairros do Grande Garcia, reuniões sobre todos os dados referente assuntos prioridade do Bairro. Ali formamos a comissão pro construção do AGG- Ambulatório Geral do Garcia, uma luta incansavél e o Mauricio pode te contar em detalhes pois esteve sempre junto a nós. Já o tal do JPK era contra, um cabeça dura e depois que acionei pessoas influentes e maçonaria contra ele, mudou de ideia. Mas te garanto se não fosse nossa comissão o AGG não existiria. Politicagem nojenta promovida pelo JPK. A coordenadora da época que não lemro mome e nem faço questão, também era contra e defendia o JPK.
    Mas vou parar por aqui pois o bicho pega se contar tudo que sei. Na realidade o CSU me trás belas recordações, foi durante anos nosso orgulho.
    Adalberto Day cientista social e pesquisador da história

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