ABBA: Entre encontros e reencontros, por que não voltar aos palcos (apenas mais uma vez)?

(vídeo em sueco, fico devendo)

Em um evento reservado numa casa de shows em Estocolmo, capital da simpática Suécia, quatro senhores – dois moços e duas moças – eram recepcionados com uma calorosa e emocionante chuva de aplausos. Estes quatro senhores tratavam-se de um dos maiores expoentes do Pop/Rock mundial, conhecidos por composições que, ao serem rodadas, despertam toda uma coleção de lembranças dos coloridos anos 70. A celebração em questão tratava-se dos 50 anos dos primeiros passos da banda que conquistou o mundo partindo da longínqua Escandinávia.

O encontro já tem algum tempo, foi em junho deste ano, mas a lembrança veio a tona novamente numa simples canção compartilhada nesta semana pela querida Julia Rolim, do blog Loucuras de Julia, no #72 do quadro Vamos Falar de Coisa Boa, um memorial de canções fabulosas dos anos 70/80. Quem por lá passou não ficou inerente a recordação e a reverencia. Afinal, falar do ABBA sempre traz estas sensações para qualquer um que goste de musica em qualquer canto do mundo.

O princípio e Dancing Queen

Stig Anderson, o empresário que acreditou no sucesso da união de dois compositores suecos de raro talento - Benny Anderson e Bjorn Ulvaeus - a semente do que viria a ser o ABBA Reprodução)

Stig Anderson, o empresário que acreditou no sucesso da união de dois compositores suecos de raro talento – Benny Anderson e Bjorn Ulvaeus – a semente do que viria a ser o ABBA (Reprodução)

Criado em 1972, o grupo foi resultado de experimentações musicais e fundição de projetos entre os lideres de duas bandas distintas: Benny Anderson, da banda de Pop/Rock Hep Stars; e Bjorn Ulvaeus, do grupo skiflle Hootenanny Singers. O trabalho em conjunto era incentivado por Stig Anderson, fundador da Polar Music e que, posteriormente, seria o empresário responsável pelo sucesso avassalador do ABBA.

Um dos primeiros compactos, já juntos de Agnetha e Anni-Frid, ou Frida. Ainda sem o nome oficial, em 1972 Reprodução)

Um dos primeiros compactos, já juntos de Agnetha e Anni-Frid, ou Frida. Ainda sem o nome oficial, em 1972 (Reprodução)

Aos seus lados, estariam duas promissoras cantores suecas que acrescentariam o toque feminino marcante das letras do grupo: A loura Agnetha Fältskog e a ruiva Anni-Frid Lyngstag, ou simplesmente Frida. Estava armado o escrete que, num show improvidado para as Forças de Paz da ONU instaladas no Chipre em abril de 1970, faria uma especie de estreia informal de suas atividades. Não oficialmente, já que desencontros com a produção dos primeiros anos fez o pontapé de verdade acontecer em 1972, ainda por influencia e persistência do próprio Stig.

Na mosca. O ambicioso empresário sueco sabia no que estava pisando e seus quatro comandados, engatados em relações românticas que marcariam suas canções na primeira metade da década (Bjorn e Agnetha estavam casados desde 1971) alçavam voos mais altos. O Eurovisão de 1974, disputado em Brighton, cidade litorânea da Inglaterra, foi o determinante. O grupo levaria a Suécia a primeira de suas seis conquistas no mais popular festival da canção da Europa. Waterloo fora a responsável pelo feito e, também, por levar a banda para o mundo definitivamente.

Era a chegada de uma novidade no Pop/Rock e na musica internacional como um todo. De certo modo, o mundo fora pego de assalto com o fenômeno que vinha da longingua península escandinava e que, depois de 1974, sempre esteve presente nas mais importantes paradas musicais do planeta. Não obstantes, o ABBA também foi responsável pelo difundimento do que hoje conhecemos como videoclipe, à época chamados de videos promocionais feitos especialmente para a divulgação da banda em lugares mais distantes dos cercados suecos. Todos eles produzidos com técnicas inéditas de enquadramento e temática.

E então o sucesso veio, enfim, com a vitória no Eurovisão, em 1974. Estava plantada a semente de uma revolução que foi vista pelo mundo inteiro, graças aos tais videos promocionais, que deram outra roupagem ao que conhecemos hoje como videoclipe Reprodução)

E então o sucesso veio, enfim, com a vitória no Eurovisão, em 1974. Estava plantada a semente de uma revolução que foi vista pelo mundo inteiro, graças aos tais videos promocionais, que deram outra roupagem ao que conhecemos hoje como videoclipe (Reprodução)

Em 1976, entre as faixas do LP Arrival, o quarto álbum de estúdio da banda, nascia aquela canção cujo Julia Rolim referenciava-se e, talvez, um dos símbolos máximos dos anos 70, especialmente nas pistas de dança. Dancing Queen fora gravada ainda em 1975 mas marcaria ponto mesmo no ano seguinte, especialmente pela forma como foi lançada, sendo executada diante do Rei Carlos XVI Gustavo e de sua esposa, Silvia Sommerlath, numa apresentação na Royal Swedish Opera, no mesmo 1976. Uma estreia de gala para aquela que é considera uma das canções Pop mais bem compostas e executadas de todos os tempos.

É repetitivo ouvir a música? Não importa! O vídeo, gravado na antiga discoteca Alexandra, no centro de Estocolmo, fala por si o clima da canção:

O fim e o sonho eterno de um revival

The Visitors, de 1981, o último álbum de estudio. Fim dos relacionamentos dos casais foram fator chave que contribuiu para o lento cair da produção da banda e seu fim, no ano seguinte Reprodução)

The Visitors, de 1981, o último álbum de estúdio. Fim dos relacionamentos dos casais foram fator chave que contribuiu para o lento cair da produção da banda e seu fim, no ano seguinte (Reprodução)

O tempo passou depois do estouro em 1976, mas a relação da banda não era mais a mesma depois daquele ano. A separação de Bjorn e Agnetha deu outro rumo as composições do grupo e a própria forma da banda trabalhar. Foi uma espécie de descendência constante e lenta que não tirava o grupo do topo, vista a legião de fãs que se formou em todo o mundo.

Em 1981, era a vez de Frida e Benny se separarem, isto tendo ficado apenas três anos casados. Um ano depois, já com um som mais maduro mas um clima difícil de trabalho, o ABBA deu um ponto final na história de exatos 10 anos, um fim de um sonho para muitos, tal qual fora com os Beatles, mas com um impacto menor, diga-se de passagem.

Desde 1982, sendo mais exato, os fãs do grupo no passado e até a nova geração, que cresceu ouvindo e curtindo as canções do ABBA aguardam aquilo que seria um sonho de décadas: Uma reunião do grupo para uma espécie de One Night Only, para recordar os tantos sucessos do grupo que muitos só conhecem apenas pelas gravações originais ou por versões de outros cantores e bandas. Mas o sonho nunca passou de um simples sonho até mesmo nos dias de hoje. Poucos foram os encontros dos quatro até os dias atuais, cada um deles alimentando, de certa forma, a esperança de ver o anuncio de um show de reencontro. Tudo simplesmente momentos.

A jovem e encantadora Amanda Seyfried puxa a fila de astros - incluindo Meryl Streep e Pierce Brosnan - no Mamma Mia! Musical de 2008 que fez ressurgir o interesse pelas canções do ABBA, mas não um possível show da banda Reprodução / Universal)

A jovem e encantadora Amanda Seyfried (esq) puxa a fila de astros – incluindo Meryl Streep e Pierce Brosnan – no Mamma Mia! Musical de 2008 que fez ressurgir o interesse pelas canções do ABBA, mas não um possível show da banda Reprodução / Universal)

Para se ter uma ideia da distância deste sonho para os fãs mais assíduos: Este encontro de junho último foi o primeiro desde 2008. Naquela ocasião de oito anos atrás, o grupo se reunia para o lançamento do filme-musical Mamma Mia!, um verdadeiro tributo musical tendo no elenco nomes como Meryl Streep e Pierce Brosnan. O musical fez, em parte, reacender o interesse no ABBA, um tanto morno desde a ascensão das composições da banda nos anos 90. No entanto, nada disso empolgou os quatro a voltarem a se encontrar para um revival. E a ideia parece ainda mais distante possível, a medida que cada um segue com seus projetos e vida, tal qual faz desde o fim do conjunto.

Em 2010, Bjorn chegou até a mencionar que o ABBA poderia, no futuro, se reunir para um show. Na ocasição, até brincou com a idade do quarteto mas alimentou uma certa esperança ao dizer que não sabia se as garotas ainda cantavam. Pudera, dois anos depois do fim da banda, o mesmo Bjorn dissera que o ABBA nunca mais subiria junto no palco. Simplesmente não há motivação para voltar. Dinheiro não é um fator e nós gostaríamos de ser lembrados como éramos – jovens, exuberantes, cheios de energia e ambição, dissera. Enquanto isso, entre idas e vindas, a banda tem seguido esse caminho de encontros e desencontros, mantendo viva apenas as lembranças de outros tempos que os jovens de hoje, ouvintes de ABBA, gostariam de matar curiosidade para rever.

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Dinheiro, claramente, não é a ambição do quarteto se isso fosse acontecer. Benny e Bjorn são produtores musicais, Frida é parte da realeza sueca, tendo casado com o príncipe soberano alemão Henrich Ruzzo, falecido de câncer em 1999. Agnetha vive num subúrbio calmo de Estocolmo e, ocasionalmente, ainda canta e chama a atenção a cada aparição. Ninguém faz ideia desta negativa sempre constante de um encontro para um show a mais, seria talvez o receio de uma critica da midia especializada caso algo saia fora do planejado? Seria alguma rusga que ainda existe? Ou talvez seria a simples vontade de, simplesmente, não subir mais ao palco juntos?

Nunca se saberá o motivo certo. Talvez ele nunca exista explicitamente e é isso que torna o ABBA ainda um grupo falado mesmo anos depois de sua separação. A constante esperança dos fãs de rever Agnetha, Benny, Bjorn e Frida juntos no palco para uma noite apenas de recordações nunca esteve distante, mas também não está perto. Sempre será um assunto que mais gerará boatos do que certezas e que ainda perseguirá o sonho de muitos saudosos da turma de Estocolmo e até mesmo da molecada atual, curiosa para sentir a mesma energia das canções do grupo ao vivo, a cores e com seus membros originais.

Se dinheiro não é - e nem deveria ser - a motivação para se reunirem uma vez mais, o que impede um revival do quarteto? Esperanças e boatos sempre surgem, nenhum deles que seja o fim de uma espera de longos anos. No entanto, talvez o motivo maior só eles mesmos saibam e cultivar esperanças chega a ser inútil neste estágio da vida Reprodução)

Se dinheiro não é – e nem deveria ser – a motivação para se reunirem uma vez mais, o que impede um revival do quarteto? Esperanças e boatos sempre surgem, nenhum deles que seja o fim de uma espera de longos anos. No entanto, talvez o motivo maior só eles mesmos saibam e cultivar esperanças chega a ser inútil neste estágio da vida (Reprodução)

Talvez, não alimentar esperanças seja a melhor saída. Mas a reverencia ao ABBA e sua obra imortal nos anos 70 nunca sera melhor. O quarteto está muito bem, obrigado, a vida segue e eles, onde quer que estejam e sejam lá o que pensam sobre voltar a se juntar para um show, sabem muito bem que obras de sucesso e marcantes jamais se perdem.

A prova está em cada Dancing Queen que rolar pelo ar.

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