Gramming & Marbles (MotoGP): Em Phillip Island, Crutchlow vence, Márquez cai e Rossi dá show

Cal, o mestre das imprevisibilidades. Protegido da LCR fez bonito na exuberante Phillip Island e faturou a segunda do ano em um fim de semana atribulado nas duas categorias (Getty Images)

Cal, o mestre das imprevisibilidades. Protegido da LCR fez bonito na exuberante Phillip Island e faturou a segunda do ano em um fim de semana atribulado nas duas categorias (Getty Images)

(Douglas Sardo)

Mais uma vez a MotoGP levou máquinas e pilotos para a belíssima Phillip Island na Austrália. O título de Marc Márquez já está confirmado, mas isso não impediu a categoria de apresentar seu pacote completo na ilha, com intempéries climáticas, muito drama, acidentes brutais, grandes duelos e ultrapassagens.

Quando a bandeira quadriculada tremulou, Cal Crutchlow havia vencido pela segunda vez no ano, seguido de um brilhante Valentino Rossi. É mais uma conquista deste jovem britânico que tem mostrado brilho próprio, especialmente em situações adversas (especialmente a pista molhada), além de dar prestígio a equipe de Lúcio Cecchinello e sua solitária Honda, sempre uma surpresa no grid em dias atribulados.

Clima imprevisível dos treinos e fiasco da Yamaha

Lorenzo se viu as voltas com a água na pista. Assim como Rossi, um desempenho pífio nos treinos (Getty Images)

Lorenzo se viu as voltas com a água na pista. Assim como Rossi, um desempenho pífio nos treinos (Getty Images)

O G&M segue movido a base de muito café nesse final de ano (com nosso estoque perto do fim, estamos aceitando doações). Foi mais um fim de semana de ação na madrugada com a MotoGP. Quem acompanhou os treinos classificatórios viu o caos em forma de corrida motociclística. Tudo porque o clima em Phillip Island esteva terrível, com muita chuva para dificultar a vida dos pilotos. Algumas sessões de treinos tiveram que ser interrompidas. Entre uma paralisação aqui, um guarda-chuva voando na pista ali, alguns tombos e resultados surpreendentes.

Os problemas de Valentino Rossi começaram já na única sessão livre de sexta (por causa da chuva, só uma sessão foi possível). O italiano tinha o segundo melhor tempo, mas recebeu uma punição por ter usado o jogo de pneus super-macios por mais voltas do que o permitido pela Michelin – de fato, houve uma confusão no cálculo desse número de voltas, com Rossi e a Yamaha não considerando as voltas de entrada e retorno no total – e acabou ficando em vigésimo na sessão. Somente os melhores pilotos dos treinos livres avançam diretamente para o Q2, e com tantos problemas, Rossi teve que disputar o Q1.

Márquez largaria na pole depois de atuação de gala no trajeto escorregadio da ilha (Getty Images)

Márquez largaria na pole depois de atuação de gala no trajeto escorregadio da ilha (Getty Images)

Aliás, esse foi um Q1 de luxo, já que Jorge Lorenzo – em seu típico desempenho na chuva – também teve que participar da primeira parte da classificação. Cal Crutchlow e Maverick Viñales foram outros que abrilhantaram essa disputa por duas vagas no Q2. A situação só piorou para a Yamaha quando Rossi não conseguiu ficar entre os dois primeiros. O italiano teria que largar de 15º. Crutchlow e Lorenzo (quem diria) conseguiram avançar para a segunda fase, com Vinãles batendo na trave e ficando com o 13º posto.

No Q2 Lorenzo não fez nada de muito útil, ficando com o pior desempenho entre os 12 melhores, seis segundos! mais lento que o pole Marc Márquez. O recém coroado campeão teve uma atuação de gala na classificação. Cal Crutchlow foi o piloto que mais se aproximou da Hormiga e largaria de excelente segundo lugar. O bretão era seguido pelos irmãos Espargaró, liderados por Pol. O quinto lugar do grid ficou com Jack Miller, que parecia renovado diante de sua torcida. Stefan Bradl conseguiu botar a Aprilia em excelente oitavo lugar.

Márquez fora dos pontos pela primeira vez no ano

No domingo a chuva foi embora e o tempo esteve aberto durante as provas da Moto3 e da Moto2, cenário que se repetiu para a corrida principal. Sem chuva, uma vitória de Márquez era o mais previsível, mas havia uma boa expectativa para a prova por conta do grid embaralhado.

Marc não demorou muito a recuperar a ponta do mais velho dos Espargaró, o jovem Pol. Mas, como que por milagre, seria visto no chão voltas depois (Getty Images)

Marc não demorou muito a recuperar a ponta do mais velho dos Espargaró, o jovem Pol. Mas, como que por milagre, seria visto no chão voltas depois (Getty Images)

Márquez largou mal e só conseguiu sustentar o segundo lugar após a primeira curva porque Crutchlow também partiu de forma tétrica, perdendo algumas posições no caminho. Pol Espargaró aparecia na liderança, porém não foi preciso uma volta completa para Márquez tomar a ponta, e a corrida parecia decidida.

Enquanto Marc abria sossegado na frente, Rossi fazia uma corrida espetacular, distribuindo ultrapassagens a torto e a direito. O desgaste de pneus seria crucial, por isso a maioria optou por compostos mais duros. Só que Rossi, largando em 15º, tinha que arriscar tudo e botou os pneus macios na dianteira. O Doutor aproveitou bem a vantagem de aderência na primeira parte da prova e conseguiu uma recuperação incrível até a terceira posição, atrás apenas de Márquez e de Crutchlow (que brigou bastante até chegar no segundo posto).

À essa altura Márquez parecia inalcançável, até errar na infame curva 4 de Phillip Island, que tantas vítimas fez nesse fim de semana. Pela primeira vez no ano Márquez não pontuava e não completava uma prova. Agora Rossi estava próximo de uma vitória monumental.

Não é montagem, é Márquez tombando neste ano. O campeão encontrou a desgraça na complicada curva 4, que fez incontáveis vitimas no fim de semana (Getty Images)

Não é montagem, é Márquez tombando neste ano. O campeão encontrou a desgraça na complicada curva 4, que fez incontáveis vitimas no fim de semana (Getty Images)

Um Crutchlow no caminho…

Com o campeão mundial fora da briga, Rossi agrediu ainda mais para descontar a diferença para Crutchlow. A vantagem do inglês caiu para um segundo e meio, mas aí Cal respondeu à altura, e se aproveitando de seus pneus duros em melhores condições, aumentou a vantagem. O britânico impôs um ritmo inacessível para Rossi, chegando a ter seis segundos de frente.

Nas últimas voltas, com os pneus pedindo arrego, o britânico administrou com extremo cuidado uma moto bem instável. Na curva 4 (a fatídica) o britânico literalmente se arrastava… Mas tudo valeu a pena quando veio a quadriculada. Vitória de Crutchlow, a segunda dele no ano e na carreira, e a terceira no ano de uma equipe privada.

Depois da queda de Márquez, Cruthlow tinha o dificil dever de mantar a moto estável com os pneus nas últimas. Conseguiu com louvor e levou a vitória com méritos depois de um grande fim de semana (Getty Images)

Depois da queda de Márquez, Cruthlow tinha o dificil dever de mantar a moto estável com os pneus nas últimas. Conseguiu com louvor e levou a vitória com méritos depois de um grande fim de semana (Getty Images)

Se Márquez é o campeão indiscutível, podemos dizer que Crutchlow é um fortíssimo candidato ao posto de segundo melhor piloto do ano, levando em conta os erros dos pilotos da Yamaha. Na segunda metade da temporada, Cal marcou 121 pontos, atrás apenas do campeão Márquez, com 128.

Mas apesar da vitória sensacional de Cal, talvez o piloto do dia tenha sido Rossi, com sua recuperação alucinante. Foi uma prova espetacular em que o Doutor mostrou o quanto é genial na hora de fazer ultrapassagens. Viñales também fez ótima recuperação para completar o pódio na Austrália. Andrea Dovizioso fechou em quarto, com Pol Espargaró em quinto, e o apagadíssimo Lorenzo em sexto (ainda bem que não choveu na corrida).

Rossi foi um show a parte, numa coleção de ultrapassagens. No fim, se contentou com o segundo posto diante da pilotagem cuidadosa de Crutchlow, mas saiu como um dos melhores da corrida (Getty Images)

Rossi foi um show a parte, numa coleção de ultrapassagens. No fim, se contentou com o segundo posto diante da pilotagem cuidadosa de Crutchlow, mas saiu como um dos melhores da corrida (Getty Images)

Os 10 mais – Corrida

1 – Cal Crutchlow (LCR-Honda)
2 – Valentino Rossi (Yamaha)
3 – Maverick Viñales (Suzuki)
4 – Andrea Dovizioso (Ducati)
5 – Pol Espargaró (Tech 3-Yamaha)
6 – Jorge Lorenzo (Yamaha)
7 – Scott Redding (Pramac-Ducati)
8 – Bradley Smith (Tech 3-Yamaha)
9 – Danilo Petrucci (Pramac-Ducati)
10 – Jack Miller (Marc VDS-Honda)

Crutchlow, Rossi e Maverick Viñales, num bom terceiro posto para a Suzuki. Os valentes entre os sobreviventes de Phillip Island (Getty Images)

Crutchlow, Rossi e Maverick Viñales, num bom terceiro posto para a Suzuki. Os valentes entre os sobreviventes de Phillip Island (Getty Images)

Os 6 mais – Campeonato

1 – Marc Márquez (273)
2 – Valentino Rossi (216)
3 – Jorge Lorenzo (192)
4 – Maverick Viñales (181)
5 – Dani Pedrosa (155)
6 – Cal Crutchlow (141)

Notável: Cal Crutchlow está em sexto na tabela geral, só perdendo para as Honda, as Yamaha e a Suzuki de Viñales, e isto tudo ainda a frente das Ducati. Nada mal para a turma solitária da LCR (Getty Images)

Notável: Cal Crutchlow está em sexto na tabela geral, só perdendo para as Honda, as Yamaha e a Suzuki de Viñales, e isto tudo ainda a frente das Ducati. Nada mal para a turma solitária da LCR (Getty Images)

Nicky Hayden – falta de ritmo, mas alguns truques na manga

Com Dani Pedrosa fora por causa de seu acidente em Motegi, a vaga aberta na Honda dessa vez foi preenchida por Nicky Hayden. Campeão pela marca em 2006, Kentucky Kid está atualmente na Superbike, mas aceitou fazer mais uma ponta na MotoGP (ele já havia substituído Jack Miller em Aragón).

O moço do Kentucky em aparição especial.  Nicky Hayden foi o substituto de luxo de Pedrosa na Australia. Até foi bem nos treinos, mas caiu na prova e só chegou em 17º. Em Sepang, não estará por conta dos compromissos na Superbike (Getty Images)

O moço do Kentucky em aparição especial. Nicky Hayden foi o substituto de luxo de Pedrosa na Austrália. Até foi bem nos treinos, mas caiu na prova e só chegou em 17º, razoável embora apagado. Em Sepang, não estará por conta dos compromissos na Superbike (Getty Images)

Nos chuvosos treinos de classificação, Hayden mostrou que suas habilidades estão intactas, liderando o quarto treino livre e conseguindo o sétimo lugar do grid. Na corrida o americano mostrou alguns truques, com ultrapassagens interessantes. O americano esteve sempre na briga pelo décimo lugar, mas uma disputa mais acirrada com Jack Miller o derrubou. Nicky ainda conseguiu voltar e fechar em 17º.

Foi um desempenho mais interessante que o conseguido por Hiroshi Aoyama, mas a Honda não vai poder contar com o Hayden no próximo fim de semana na Malásia, já que ele tem compromissos na Superbike. A Honda ainda não divulgou o substituto de Pedrosa para Sepang.

Moto 3 – Vitória de Binder e acidentes brutais

Entre feridos e atropelados, Brad Binder se safou e venceu mais uma para a casa KTM. Safa-se ainda da tesoura, que espreita seu cabelo nas últimas provas da Moto3 (Getty Images)

Entre feridos e atropelados, Brad Binder se safou e venceu mais uma para a casa KTM. Safa-se ainda da tesoura, que espreita seu cabelo nas últimas provas da Moto3 (Getty Images)

Se a corrida da Moto3 em Motegi foi decidida na linha de chegada, dessa vez a prova foi basicamente um monólogo de Brad Binder. O piloto da KTM prometeu cortar o cabelo se não vencer as três últimas etapas do campeonato. Por enquanto o campeão está se safando da tesoura.

Mas sem duvidas o momento mais impressionante da prova aconteceu após cinco voltas. Um acidente terrível envolvendo vários pilotos na curva 4 (sempre lá). O caos se estabeleceu quando Andrea Migno não conseguiu desviar e atropelou John McPhee. A imagem é forte, McPhee inconsciente, seu corpo rolando desgovernado para fora da pista. Temia-se o pior. Felizmente o britânico recobrou a consciência a caminho do hospital, e as notícias dão conta de que ele teve apenas uma concussão e um dedo quebrado.

No mesmo acidente, Enea Bastianini, que venceu de forma espetacular em Motegi, também foi atropelado por Jorge Navarro, sem sofrer ferimentos sérios. A prova da Moto3 se tornou um verdadeiro massacre. Após esses atropelamentos, houve bandeira vermelha e a prova só foi reiniciada meia hora depois, com a distância encurtada. Dez pilotos não relargaram, e mais quatro abandonaram na sequência da prova.

Imagens fortes, o acidente na Moto3 em Phillip Island:

Moto2 – Luthi vence Morbidelli na linha

Ainda não foi dessa vez que Franco Morbidelli – o italiano que é filho de mãe brasileira – venceu pela primeira vez na Moto2. O piloto que foi adotado pela torcida brasileira da MotoGP fez uma perseguição frenética ao suíço Thomas Luthi, conseguindo a liderança a duas voltas do final. Mas Luthi não desistiu e conseguiu a ultrapassagem decisiva na linha de chegada. Espetacular! Vale lembrar que na semana passada foi a Moto3 que teve uma chegada super apertada.

Na ponta da bota (como diria Silvio Luiz)... Vitória na linha de Thomas Luthi embola ainda mais o campeonato na Moto2 (Getty Images)

Na ponta da bota (como diria Silvio Luiz)… Vitória na linha de Thomas Luthi da mais força para o suiço na reta final do campeonato na Moto2 (Getty Images)

A prova da Moto2 também teve vários tombos. Entre as vítimas está Alex Rins, que já não havia pontuado em Motegi. Com a vitória de Luthi, Rins perdeu o segundo lugar no campeonato. Johann Zarco também teve um domingo complicado e fechou apenas em 12º. Faltando duas etapas para o final, o francês lidera com 226 pontos seguido de Luthi com 204 e Rins com 201. Zarco ainda é o favorito, mas Luthi chegou com força nessa reta final.

Meio italiano, meio brasileiro, Franco Morbidelli é o preferido da torcida tupiniquim na Moto2. Perdeu por pouco para Luthi mas não escondeu os sorrisos pelo bom segundo lugar (Getty Images)

Meio italiano, meio brasileiro, Franco Morbidelli é o preferido da torcida tupiniquim na Moto2. Perdeu por pouco para Luthi mas não escondeu os sorrisos pelo bom segundo lugar (Getty Images)

Tem mais MotoGP na próxima semana, em Sepang na Malásia. A ação começa as 2 da manhã com a Moto3, portanto prepare (mais) café e biscoitos e um forte abraço!

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