Antigamente: Aqueles dias eleitorais tão agitados de 1996

Para começar, uma imagem icônica. O advogado Acácio Bernardes, junto dos filhos Caio camisa preta) e Napoleão, votando no pleito de 1986, quando Dr. Acácio era candidato a governador. Dez anos depois, em 1996, ele morreria em um acidente automobilistico, e é neste ano de 1996 que Blumenau viveria uma das eleições municipais mais loucas de todos os tempos José Werner \ RBS)

Para começar, uma imagem icônica. O advogado Acácio Bernardes, junto dos filhos Caio (camisa preta) e Napoleão, votando no pleito de 1986, quando Dr. Acácio era candidato a governador. Dez anos depois, em 1996, ele morreria em um acidente automobilístico, e é neste ano de 1996 que Blumenau viveria uma das eleições municipais mais loucas de todos os tempos (José Werner \ RBS)

Por vezes nestes dias eleitorais que vivemos, recordava a virada impressionante de Napoleão Bernardes (PSDB) em 2012, que contra os prognósticos fez de um terceiro lugar em tabelas do IBOPE a vitória quase impossível que o conduziu para os primeiros quatro anos de mandato a frente da cidade-jardim. Para mim, foi tempo de pesquisas na boca-de-urna, de ir para frente de de zonas eleitorais com uma equipe de loucos (vamos dizer assim) da Radio Clube de Blumenau fazer aquela pergunta tão execrada em um dia de eleição e na frente de uma zona eleitoral: Você pode me dizer para quem você votou?

Incrédulo, recordo do bom neto de Lazinho, Evelásio Vieira Neto, tabulando os números para o primeiro turno daquele ano dentro do seu carro no pátio de estacionamento da Paróquia Santa Cruz, ao lado da EEB Hercílio Deeke, o maior colégio eleitoral de Blumenau, no bairro da Velha. Era um pleito equilibrado, monopolizado entre Napoleão, Jean Kuhlmann (PSD) e Ana Paula Lima (PT). As expressões do Neto, minha e do bom amigo e também jornalista Rafael Weber diziam tudo: Era uma virada sem precedentes que colocava o filho de Acácio Bernardes em primeiro lugar, contra qualquer pesquisa. E conhecida por ser a pesquisa mais fiel no pós-eleição da cidade, a boca-de-urna da Clube tinha nas mãos uma bomba que tomaria os eleitores da cidade de surpresa.

Me formando e fazendo as vezes de mestre de cerimônia na formatura do pré-escolar da EEB Padre José Maurício, em 1996. O ano que descobri o que era uma eleição, e da forma mais maluca Arquivo Pessoal)

Me formando e fazendo as vezes de mestre de cerimônia na formatura do pré-escolar da EEB Padre José Maurício, em 1996. O ano que descobri o que era uma eleição, e da forma mais maluca (Arquivo Pessoal)

Bom, o fim da história todo mundo sabe bem, Napoleão vencera, virara a eleição e a cidade assim viveu com o jovem e colega de imprensa deste jornalista por estes quatro anos. Mas entre viradas e viradas neste mundo de eleições que enfrentamos a cada dois anos (inclua-se na conta as eleições para presidente/governador) Blumenau parece instigar estas surpresas algumas vezes. Entre eleições apertadas e disputas marcantes, viradas sempre são a tônica da história do voto na cidade. Uma delas até hoje me chama atenção, ainda por ser a primeira eleição que vivi de verdade na cidade: A de 1996, cuja história assombra-me até hoje pela forma como o pleito se desenrolou e o final mais imprevisto na política catarinense até hoje.

Eu era um moleque de reles seis anos de idade, ainda descobrindo o mundo e tentando entender as preferencias eleitorais dentro da minha própria casa. Naqueles tempos, Blumenau vivia ainda uma monopolização das disputas pela prefeitura, entre os lados do duo PMDB/PSDB e a dupla PPB/PFL. Renato Vianna era o prefeito desde 1992, exercendo o segundo mandato a frente da grande casa da Beira-Rio (ele já assumira a prefeitura entre 1977 e 1981). Aproximavam-se as eleições, e os contornos definiam os candidatos para aquele ano. Do lado governista, ainda um senhor de cabelos pretos e bigode a lá Senhor Barriga, o hoje senador tucano Dalírio Beber. Do outro lado da cerca, o atual supervisor de ouvidoria do Tribunal de Contas do Estado (TCE), Wilson Wan-Dall, na oposição.

No entanto, pelos meandros da disputa, surgia uma terceira opção totalmente sem cogitação entre qualquer prognóstico. Era o nome de Décio Nery de Lima, vereador na legislação passada, natural de Itajaí e um completo desconhecido entre muita gente. Isto ainda se tratando do fato de Décio vir de um partido sem nenhuma tradição até mesmo dentro do estado, o PT, ainda em tempos, vamos dizer por aqui, mais saudáveis. O cenário estava montado, outra peleja eleitoral iria começar na cidade.

Os contendores:

Eu, inocente, ouvia meus pais e padrinhos discutindo em quem votar, e sobravam bordoadas e brincadeiras de um lado e do outros. Seu Mário e dona Anelore divergiam entre si, sendo a minha mãe simpática a Wan-Dall e meu pai, reacionário de primeira mão, simpático com as ideias de Décio Lima, ou talvez chateado com outra monopolização entre Tucanos e Manda-Brasas contra outro aventureiro, ou ainda de saco cheio dos embates nos programas eleitorais. No outro lado da cerca, meus tios-padrinhos Harry e Maria Julia Boos, manda-brasas de longa data, estavam com Darílio na cabeça e nada os mudavam de ideia.

Viver tempos eleitorais pela primeira vez na vida eram certeza de viver uma coisa nova: A tal briga eleitoral e troca de ideias entre candidatos. Bom, ao menos era para ser desta forma que as coisas correriam em 1996, quando via os primeiros santinhos e adesivos para carros se espalharem por ai. Nunca me esqueço que havia garrado trauma de santinhos por muito tempo, graças a uma brincadeira de mal gosto de minha tia com um santinho do advogado Nelson Wedekin, à época concorrendo ao senado. Ela tinha desenhado um ratinho usando como modelo a cara do candidato. Foram algumas noites sonhando com aquela imagem. Traumas de infância, como sempre.

Um santinho para vereador daqueles idos. Neste do hoje vereador Jens Mantau, em um dos seus primeiros pleitos. Como estes, de tantos outros candidatos, seriam vistos pelas ruas da cidade no dia da eleição Fernando Jader / Arquivo Pessoal)

Um santinho para vereador daqueles idos. Neste do hoje vereador Jens Mantau, em um dos seus primeiros pleitos. Como estes, de tantos outros candidatos, seriam vistos pelas ruas da cidade no dia da eleição (Fernando Jader / Arquivo Pessoal)

Pois bem, o período de campanha começara e o que parecia outra briga situação X oposição calculada debandou para um conflito de artilharia sem precedentes entre dois candidatos. Os números eram todos favoráveis a Wan-Dall, o que forçava o lado governista puxar todo o arsenal que havia contra a eleição do pepebista. Naqueles tempos ainda tão rudimentares em matéria de eleição no Brasil, quase toda a forma de ataque era permitida, dede guerra de santinhos a farpas aos montes na TV. Wan-Dall e Beber eram a atração mais aguardada por muitos nos horários eleitorais, sempre no aguardo da resposta e do novo ataque de ambos.

Como dissera (e volto a dizer) estava eu inocente e totalmente inerente ao cerne da campanha. Claro, eu era um garoto de reles seis anos e descobrindo um admirável mundo novo com aquilo tudo. Nas propagandas para vereadores vinha de tudo, velhos conhecidos, aventureiros e os cômicos. Um dos nomes até hoje me ficou na cabeça: Era o de Osni Kortelt, o popular Osni Baleia, até hoje morador da Rua Frederico Riemer, no Garcia. Tia Isabel Heiden era eleitora declarada dele e até na minha pequena motoca bandeirante cheguei a colar adesivo dele. Mera brincadeira de criança. Baleia concorreu a alguns pleitos sob a legenda do PDT, sem muito sucesso.

De volta ao ataque, recordo-me de meu pai, à época meio puxado para o PT como alguns dos irmãos, começar a bradar que votaria em Décio Lima, mesmo que todos os números apontassem que o petista nem passaria perto da prefeitura. Para se ter uma ideia da disparidade de Décio com Wan-Dall e Beber, enquanto os dois líderes tinham programas políticos para a TV bem montados com recursos modernos à época, Lima ainda tinha uma simples imagem em fita VHS, com GCs até bem ajeitados, mas tudo num esquema extremamente amador para aqueles tempos.

Urna de lona, usada nos tempos da votação na cédula. A eleição de 1996 foi a última para prefeito em que o blumenauense utilizou-se deste tipo de votação Reprodução / TSE)

Urna de lona, usada nos tempos da votação na cédula. A eleição de 1996 foi a última para prefeito em que o blumenauense utilizou-se deste tipo de votação (Reprodução / TSE)

O tempo passava, os debates caseiros aumentavam e tudo ia resvalando para o dia decisivo: 3 de outubro de 1996. Os bombardeios seguiam-se pesados entre o tucano e o pepebista e Décio, conhecido por discursos em tom calmo e sem grandes exaltações e por ser manco, assistia algo que nem mesmo os mais pessimistas da estrela vermelha esperavam: Seus números cresciam rápido a poucos dias da eleição. Uma mudança de cenário se desenhava, ainda mais com a adesão de eleitores que votariam branco/nulo e indecisos. Seria verdade que o terceiro colocado, o mais fraco entre ambos e num partido sem a mínima tradição política no estado seria o prefeito de Blumenau? Aquele terceiro dia do décimo mês do ano iria passar a régua em tudo.

Meus pais se dividiam entre debater noticias da TV sobre as pesquisas e os candidatos, que clima estranho no ar (e divertido, por sinal). Inocentemente, fui pro lado do pai, quase de brincadeira, apenas para provocar minha mãe dizendo que queria que o Décio ganhasse. Ouvia risos, mas achava tudo um barato. Ao chegar o dia da eleição, ainda por cédula e totalmente manual, a clássica (e porca) chuva de santinhos pela rua, aumentando a cada passo mais próximo da zona eleitoral. Aquela tarde de domingo clássica em que, sentados na varanda de casa, víamos todos os conhecidos que não encontrávamos um ano inteiro passarem diante de nossa janela. E certo que iria acordar na segunda-feira ouvindo pelas ondas da Radio Nereu Ramos, que minha mãe sempre ouvia nas manhãs, quem era o vencedor.

A foto de Décio Lima, que hoje está na galeria dos ex-prefeitos no salão nobre da prefeitura. O único deles que sorri. Vitória do petista ficou nos anais como uma das maiores viradas eleitorais do estado. PMB)

A foto de Décio Lima, que hoje está na galeria dos ex-prefeitos no salão nobre da prefeitura. O único deles que sorri. Vitória do petista ficou nos anais como uma das maiores viradas eleitorais do estado. (Arquivo PMB)

A contagem de votos foi longe, adentrou a madrugada e acabou perto do outro dia. Era turno único e daquele dia nada mais passaria, nem mesmo susto. Bom, o susto passou de qualquer forma e do jeito mais chocante. Ainda com os olhos remelentos da noite de sono, pude ouvir os primeiros sons da Nereu e o resultado impressionante: Décio Nery de Lima, o quase desconhecido peixeiro da câmara, carta fora do baralho eleitoral e zebra era o prefeito eleito de Blumenau. Comemorei. Como disse, estava junto de meu pai apenas curtindo o momento, e para mim, parecia final de um campeonato importante. Meu pai ainda dormia naquela manhã, já que ele trabalhava no terceiro turno na antiga JC (hoje Luli Malhas), e minha mãe, incrédula, batia um papo ainda mais incrédulo com meus padrinhos sobre o resultado das urnas.

Reprodução)

(Reprodução)

Naquele mesmo dia, Décio e seu vice, Inácio Mafra, promoveram uma carreata de arromba -se é que isso existe – pelas ruas da cidade. Uma memória vívida como a minha jamais pode esquecer o que assistia diante dos olhos: Um monte de gente com carros adesivados seguindo um trio elétrico com os dois eleitos, que nos cumprimentaram na passagem. Estava na porteira da casa de minha madrinha, comendo um picolé Frutilly (Kibon) daqueles de chocolate com confeitos e cujo palito era de plástico e encaixável com outros palitos do mesmo modelo. Inocente, abanava feito doido… Tinha chegado ao fim a diversão.

Hoje, passados 20 anos depois daquela peleja maluca de 1996 vejo que de alguma coisa aqueles dias eleitorais tão agitados valeram muito alguma coisa. Eramos uma cidade diferente, talvez mais inocente e  sonhadora que hoje, mas ainda assim um lugar que permite, de vez em quando, algumas loucuras e situações curiosas. Cada um dos três personagens daqueles idos seguiu um caminho diferente, mas de alguma forma recordam até com algumas risadas dos embates e situações que se meteram na briga pela sala do gabinete na grande casa da Beira-Rio.

Onde estão os personagens de 1996:

Como diria Victor Espadinha, recordar é viver, até mesmo as memórias hoje históricas de uma das coisas que mais gera história entre qualquer povo: A política.

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