Gramming & Marbles (F1): Show de emoções em Interlagos, com vitória de Hamilton e agradecimentos à Massa

A última vez no cercado de casa. Muito além da vitória de Hamilton - a primeira no Brasil e a 52ª na carreira, superando Prost - a F1 e o Brasil assistiu o último correr do filho mais ilustre nos últimos anos. Felipe Massa disse adeus em um acidente, mas nem isso o impediu de ser ovacionado por quem o visse, reconhecido pela história dura e feliz na maior categoria do automobilismo mundial (Getty Images)

A última vez no cercado de casa. Muito além da vitória de Hamilton – a primeira no Brasil e a 52ª na carreira, superando Prost – a F1 e o Brasil assistiu o último correr do filho mais ilustre nos últimos anos. Felipe Massa disse adeus em um acidente, mas nem isso o impediu de ser ovacionado por quem o visse, reconhecido pela história dura e feliz na maior categoria do automobilismo mundial (Getty Images)

(André Bonomini & Douglas Sardo)

São Paulo da garoa, São Paulo, que terra boa!

Já dizia a velha frase da canção imortal de Alvarenga & Ranchinho ao se referir ao coração do Brasil, cidade de histórias inigualáveis, problemas urbanos como todas as outras e de memória única. No coração daquela cidade, ladeando a Represa de Guarapiranga, os conjuntos habitacionais modelo Cingapura e a caixa d’água
modernística da Sabesp está a velha casa da F1 no Brasil: O Autódromo José
Carlos Pace, nosso querido Interlagos.

E domingo último (13/11) foi dia de peleja internacional nas míticas curvas do traçado
paulista. Contando a prova extracampeonato de 1972 já estamos há 44 anos vendo a
categoria maior do automobilismo mundial em nossas terras. Destas 44 vezes, 34 estiveram sendo disputadas em São Paulo, sempre reservando emoções e histórias únicas, como a deste domingo último, rodeado de emoções, imprevisibilidades,
sentimento, adrenalina e… chuva. Aquela água teimosa que marca a capital paulista e que, quando cai no terreiro de Interlagos torna tudo tão especial.

Apesar de um péssimo 2015, onde até mesmo os fãs da F1 colocaram a pista
brasileira sob ameaça de ser chutada do calendário, este ano reservou lances que
há tempos não víamos numa prova da categoria. Lewis Hamilton vibrou por demais na primeira vitória em solo tupiniqum, superando Alain Prost nas estatísticas de vitória. Nico Rosberg teve mais sorte do que juízo para manter a vantagem e tranquilidade para poder ser campeão em Abu Dhabi, Max Verstappen deu show como sempre, pilotos rodopiando e se debatendo com a água e, o ponto mais emocionante, a despedida de um brasileiro de sua casa na F1: Felipe Massa, que ilustra a abertura deste G&M.

O caminhão no desfile dos pilotos em Interlagos. Só Reginaldo Leme, no alto do seu pensamento "refinado" acha isso uma breguice., mas é aquele momento de proximidade único entre a categoria e o brasileiro, amante incondicional da velocidade em sua maioria (Getty Images)

O caminhão no desfile dos pilotos em Interlagos. Só Reginaldo Leme, no alto do seu pensamento refinado acha isso uma breguice, mas é um daqueles momentos de proximidade únicos entre a categoria e o brasileiro, amante incondicional da velocidade em sua maioria (Getty Images)

Só Interlagos permite uma mistura de emoções como esta. Não existe algo semelhante a isto, independente se a corrida é boa ou não. A prova deste ano talvez não tenha sido uma das melhores da história, mas é uma daquelas que provam esta tradição. Muito distante do luxo de Mônaco e Abu Dhabi ou do fanatismo de Monza, Interlagos tem um legado, propriedade para estar no calendário quantos anos forem necessários, ao menos para trazer a fria F1 um pouco de proximidade com um tipo de gente que talvez não haja em número suficiente pelo mundo: O fã brasileiro, que mesmo imerso nas dificuldades do país no automobilismo, ainda tem muita gasolina no sangue.

Se Bernie Ecclestone ainda insiste em meter um asterisco em nosso GP no
calendário oficial, se Tamas Rohonyi diz que não saímos da F1 até 2020… Não
importam agora os jogos políticos. Vamos falar do que vimos neste GP do Brasil
2016, que se não foi todo alucinante, ao menos deu pra trazer aos olhos um pouco
de emoção, navegando entre adrenalina e gratidão.

Chove, chuva… Chove sem parar

Grosjean joga o fim de semana fora chumbando o carro no muro da curva do café ainda na volta de reconhecimento. O trecho da pista fazia sua primeira vitima (TV)

Grosjean joga o fim de semana fora chumbando o carro no muro da curva do café ainda na volta de reconhecimento. O trecho da pista fazia sua primeira vitima (TV)

Depois de alguns dias de bom tempo em Interlagos, a chuva apareceu para dar o
tom do espetáculo no domingo. Não uma chuva qualquer, aquela para dar uma
pequena enchente superficial na pista, clássica como sempre em São Paulo. A
situação assustava, especialmente na volta de reconhecimento, onde o drama era
mais que sentido, mesmo com os pneus de chuva extrema.

Romain Grosjean foi a primeira vítima, e ainda regressando ao box na volta de
reconhecimento, chumbando a Haas no muro da curva do café. Desespero para o
francês que tinha tudo para fazer um bom GP depois de um bom desempenho nos
treinos. Largar com a água que havia na pista era um risco sem precedentes para
qualquer um, e nesta ciranda, o soberano da prova Charlie Whiting decidiu pela
largada sob safety-car. Nada surpreendente vindo dele.

Tio Bernd Maylander, veterano do DTM alemão, tira o Mercedão da garagem para a largada. Ele faria isso algumas vezes mais durante o GP (Getty Images)

Tio Bernd Maylander, veterano dos áureos tempos do DTM alemão, tira o Mercedão da garagem para a largada. Ele faria isso algumas vezes mais durante o GP. E para sentir o drama, imagine o que Hamilton enxergava atrás do carro-madrinha (abaixo)… (Getty Images)

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A coisa começou mesmo sob a bandeira verde, com o chispar tradicional das
Mercedes de Hamilton e Rosberg a frente, deixando Kimi Raikkonen aos ataques de
Verstappen. O garoto holandês não deu muito tempo de vida ao Iceman e foi embora rapidamente imediatamente na largada pra valer, no S do Senna, pulando para o terceiro posto.

Ao mesmo tempo, logo ainda nas primeiras voltas, quem queria arriscar um caminho
diferente numa possível melhora da pista foi para os boxes, apostando em um pneu
intermediário. Na roda, também estava Felipe Massa, pensando no pulo do gato. Neste meio-tempo, Sebastian Vettel perdia mão do carro no café e rodava, colocando em dúvida se a pista estava realmente em condições. Algumas voltas depois, foi a vez do safety-car man, Marcus Ericsson, ao perder o Sauber no mesmo ponto e achar o muro, forçando nova entrada do carro-madrinha.

Imagine o drama de quem não vê nada: Marcus Ericsson sente falta de Maylander e chama o safety-car depois de perder mão do Sauber na... Curva do café (Getty Images)

O drama do Café: Marcus Ericsson sente falta de Maylander e chama o safety-car depois de perder mão do Sauber na… Curva do café (Getty Images)

Outra procissão atrás do safety-car e, passando algumas voltas, largada liberada
sem problemas… Ou melhor, quase. Era a vez da outra Ferrari, a de Raikkonen,
aquaplanar na reta de largada, chumbando a macchina rossa no muro bem em frente
a casa de Maurizio Arrivabene. O finlandês se escapou por pouco de não ser acertado por alguém na reta de largada, muito mais sorte do que juízo. Nico Hulkenberg levou de lembrança os restos do bico da Ferrari, e Esteban Ocon deve ter rezado algum Pai-Nosso no volante, ao passar por um cabelo da carro vermelho rodado na reta.

Foi o que precisava para Charlie puxar do bolso a bandeira vermelha e parar tudo, contando com uma melhoria das condições da pista, se é que chovia tudo o que a TV dizia. Informações com alguns colegas do mundo da F1 dão conta que a chuva não era aquilo tudo, alternando momentos de maior pegada e um molha-bobo, e que, provavelmente, eram as borrachas da Pirelli que não davam conta da água… Será? Se for, imagine o mico. Tome interrupção na veia, sob vaias da torcida que esperava agoniada a volta da corrida.

Raikkonen ao contrario, rodando na relargada depois de um aquaplane dramático, assistindo de frente quem passasse por um fio do próprio carro (Getty Images / TV)

Raikkonen ao contrario, rodando na relargada depois de um aquaplane dramático, assistindo de frente quem passasse por um fio do próprio carro (Getty Images / TV)

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Deixa chover… Deixa a chuva molhar: De volta a ação com vaia e show

Depois de algum tempo, e algumas vaias, a corrida retorna diante os olhos dos
torcedores. Todos de pneus de chuva extrema por segurança e alguns sinais da cruz para dar sorte. Ainda nas voltas com o safety-car, outra da série de patacoadas de Joylon Palmer, o tal que vai levar dinheiro pra Renault em 2016 (porque bons resultados vai ser difícil). Sem ver nada e enfiando o pé sem noção, ele acertou Daniil Kvyat, forçando outra bandeira vermelha e outra sessão de vaias da torcida brasileira, que não perdoa… quer CORRIDA!

Para enervar qualquer torcedor em sã consciência: Duas bandeiras vermelhas na prova paulista (Getty Images)

Para enervar qualquer torcedor em sã consciência: Duas bandeiras vermelhas na prova paulista (Getty Images)

Muito bem, depois de outra bandeira vermelha… Outro safety-car… Outra série de
vaias… Enfim, corrida! E na volta a ação, Verstappen colocou a adaga nos dentes e
foi a forra contra Rosberg. Conseguiu uma linda ultrapassagem sob a névoa de água
e sem ter medo. O holandês estava num show a parte e fazendo a alegria da
torcida, especialmente quando perdeu mão do Red Bull no café, numa linda
manobra de recuperação.

A curva do café estava mesmo a fim de fazer vitimas na prova. Talvez vivendo seu
fim de semana de Eau Rouge. Não tinha quem passava ali e fechava os olhos
temendo o pior. Fernando Alonso foi um deles, vivendo um fim de semana alucinante embaixo d’água. Até Nico Rosberg deu uma entortada das boas, salvando bem no braço e continuando.

Vettel, ainda nas primeiras voltas, Alonso (abaixo) e Rosberg foram algumas das vitimas na Curva do Café, no seu dia de Eau Rouge (Getty Images / TV)

Vettel (ainda nas primeiras voltas) Alonso (abaixo), Verstappen e Rosberg foram algumas das vitimas que tomaram susto na Curva do Café, que viveu no domingo o seu dia de Eau Rouge (Getty Images / TV)

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No entanto, o fim de semana era mesmo de Verstappen. Depois de uma parada arriscando com o intermediário – o que provavelmente o matou na prova – ele partiu para a guerra, passando quem via pela frente. Um show fabuloso, contando ainda com duas belíssimas ultrapassagens sobre Vettel e Sérgio Perez. Desta vez, nada tirava o pódio dele, nada mesmo. Foi o fim de festa merecido para uma prova única como há tempos não víamos no Brasil. Todo mundo molhado, feliz, emocionado, satisfeito.

Os 10 mais – Corrida

1 – Lewis Hamilton (Mercedes)
2 – Nico Rosberg (Mercedes)
3 – Max Verstappen (Red Bull-TAG)
4 – Sérgio Perez (Force India-Mercedes)
5 – Sebastian Vettel (Ferrari)
6 – Carlos Sainz Jr. (Toro Rosso-Ferrari)
7 – Nico Hulkenberg (Force India-Mercedes)
8 – Daniel Riccardo (Red Bull-TAG)
9 – Felipe Nasr (Sauber-Ferrari)
10 – Fernando Alonso (McLaren-Honda)
ABN – Felipe Massa (Williams-Mercedes)

Foi a primeira vitória de Hamilton no Brasil, que festejou muito o antigo sonho de vencer na terra de Senna. Ele adia para a última prova do ano a decisão, que está cada vez mais na mão de Rosberg (Getty Images

Foi a primeira vitória de Hamilton no Brasil, que festejou muito o antigo sonho de vencer na terra de Senna. Ele adia para a última prova do ano a decisão, que está cada vez mais na mão de Rosberg (Getty Images)

Os 6 mais – Campeonato

1 – Nico Rosberg (367)
2 – Lewis Hamilton (355)
3 – Daniel Riccardo (246)
4 – Sebastian Vettel (197)
5 – Max Verstappen (192)
6 – Kimi Raikkonen (178)
11 – Felipe Massa (51)
17 – Felipe Nasr (2)

MENINO DE MUZAMBINHO: Max Verstappen (Red Bull)

Ele é o dono do show: Max Verstappen encantou a torcida com uma batalha molhada cheia de ultrapassagens, atravessadas na pista e firmeza na tocada. Resultado: Um terceiro lugar mais que merecido (Getty Images)

Ele é o dono do show: Max Verstappen encantou a torcida com uma batalha molhada cheia de ultrapassagens, atravessadas na pista e firmeza na tocada. Resultado: Um terceiro lugar mais que merecido (Getty Images)

Desta vez, não há como fugir dele. Ele merece todas as ovações possíveis, seja da
torcida no autódromo, da equipe encantada, dos críticos, até mesmo do seu
bichinho de estimação que está do seu lado enquanto você lê este post. Max
Verstappen é jovem, aprende rápido, é abusado, arrojado, ousado… Esgotem-se
os dicionários para ele, afinal a F1 nunca mais tinha visto alguém como ele nestes
últimos tempos. Morda a língua e torça o nariz, mas é a pura verdade.

Nas águas do mar da vida de Interlagos, o filho de Jos fez miséria dobrando a
barata e fazendo ultrapassagens literalmente desafiando a física em tempo molhado e se refazendo da tática equivocada da própria equipe. Provou ser um pato na chuva e, mesmo tendo a corrida prejudicada por uma estratégia equivocada de pneus, foi a forra e fez um show a parte. Se os brasileiros sentirem falta de quem torcerem em 2017, podem jogar as fichas no talento do holandês para esperarmos mais surpresas, conquistas e prodígios do garoto da terra laranja.

O resto? Bem, é inveja branca.

Max não teve só a chuva como adversária: Ele também lutou contra a tática da Red Bull, que se não fosse errada no retorno da prova poderia ter o colocado na briga pela vitória. No fim, desempenho brilhante e superior ao de Riccardo (Getty Images)

Max não teve só a chuva como adversária: Ele também lutou contra a tática da Red Bull, que se não fosse errada no retorno da prova poderia ter o colocado na briga pela vitória. No fim, desempenho brilhante e superior ao de Riccardo (Getty Images)

Nasr: Enfim, os primeiros pontos no Trem Azul

Uma pitada de valentia e Felipe Nasr operou um milagre. Um nono lugar, os primeiros pontos da Sauber e uma atuação até mais vibrante do que a do ilusório quinto lugar na estreia, em 2015 (Getty Images)

Uma pitada de valentia e Felipe Nasr operou um milagre. Um nono lugar, os primeiros pontos da Sauber e uma atuação até mais vibrante do que a do ilusório quinto lugar na estreia, em 2015 (Getty Images)

Enfim, depois de fins de semana terríveis, erros, problemas e até sendo vítima da boca ferina da imprensa, Felipe Nasr foi a luta e encaixou da melhor forma as estratégias no aguaceiro de Interlagos para, finalmente, somar os primeiros pontos dele e da caquética Sauber em 2016. O brasiliense teve um fim de semana que há tempos não tinha, ousando na tática de pits e chegando a andar em sexto no melhor da prova. Terminou em nono lugar, tendo no comboio Fernando Alonso e, ainda, recebendo o fraternal abraço do xará de Williams, numa especie de vai la, que é a tua vez.

Mesmo com aquela forçação de barra típica da Globo (Marcelo Courrege que o diga
naquela história de duvidar do talento), Nasr está em situação crítica na categoria. Depois de todas as portas possíveis serem fechadas, o brasileiro pode se ver até fora da Sauber, o que penso ser pouco provável. Ele ainda segue sendo mais útil que Ericsson e, graças ao que fez em Interlagos, colocou o time a frente da Manor (ao menos) na tabela, credenciando o time de Tio Peter Sauber a receber a ajuda de custos da FIA para 2017.

Dois pontos festejados, afinal dão a equipe vantagem contra a Manor e garantem a ajuda financeira da FIA para o próximo ano. No entanto, nada que ainda garanta Nasr no time helvético (Getty Images)

Dois pontos festejados, afinal dão a equipe vantagem contra a Manor e garantem a ajuda financeira da FIA para o próximo ano. No entanto, nada que ainda garanta Nasr no time helvético (Getty Images)

No entanto, Nasr ainda tem muito a demonstrar na categoria, especialmente se tiver
uma máquina a altura, ou pelo menos mediana, para se ver algum potencial. Foi um
ano bem abaixo para o brasiliense e, se seguir no trem azul suíço para 2017,
teremos um ano de vacas extremamente magras na F1. Ao menos, não ficaremos
sem um dos nossos no próximo ano. Algo que pelo menos vem se mantendo, com
todos os improvisos possíveis, desde 1970.

Globo: Prepare o seu coração, pras coisas que eu vou contar…

O trio da Globo de volta em Interlagos: Galvão, Burti e Reginaldo, com palavras bonitinhas, frases de esperança mas... Nenhuma critica ou cobrança pela atual situação do nosso automobilismo. É a clássica passividade da Rede Globo como sempre fora (TV)

O trio da Globo de volta em Interlagos: Galvão, Burti e Reginaldo, com palavras bonitinhas, frases de esperança mas… Nenhuma critica ou cobrança pela atual situação do nosso automobilismo. É a clássica passividade da Rede Globo como sempre fora (TV)

De volta aos microfones da Venus Platinada para a transmissão do GP caseiro (até que enfim, pois Sérgio e seus Maurícios estavam já dando no saco com tantas patacoadas…) Galvão Bueno fez o clássico que esperávamos dele. Outra vez dando sua pitada especial na narrativa, emocionando-se no despedir de Massa, trocando histórias com Reginaldo Leme (hoje, sem dar bola fora) e Luciano Burti (que ainda não me é exemplo de comentarista com gabarito). Enfim, o típico como sempre, sem contar os devaneios ufanísticos em dados momentos.

No fim da transmissão, eis que o velho narrador dá suas pitaqueadas sobre a ameaça do GP do Brasil ficar fora da F1 e do país não ter pilotos no grid em 2017. Apelou para a paixão do brasileiro pela categoria, para a história, para a mãe e o pai, para o que viesse. Bonito? Bem intencionado? Talvez, mas não é isso que salva a F1 no país, e o automobilismo como um todo. E a Globo sabe muito bem disso, só não quer admitir que, nestes anos todos em que caímos de produção, a emissora dos Marinho esteve literalmente omissa.

Matheus Iorio, o campeão da F3 Brasil deste ano. Categoria está defasada, com grid vazio e na espera de maior atenção da Vicar, sua promotora. Há espelho melhor do nosso automobilismo de base sucateado do que esta? (Reprodução)

Matheus Iorio, o campeão da F3 Brasil deste ano. Categoria está defasada, com grid vazio e na espera de maior atenção da Vicar, sua promotora. Há espelho melhor do nosso automobilismo de base sucateado do que esta? (Reprodução)

Poucos aventureiros estão hoje tocando na ferida da incompetência com a qual o automobilismo é gerido em nossas cercanias. Sem categorias de monopostos competitivas e acessíveis para novos talentos, com certames distantes do povo e pedindo apenas ricaços que mais papeiam entre goles de champanhe do que assistir os pegas na pista, assistindo autódromos nacionais sendo detonados, mortos ou salvos no fio da navalha da especulação imobiliária ou da cega ambição de corruptos. São poucos mesmo, quase se contam nos dedos. Enquanto isso, para a Globo, tudo segue sendo a emoção de sempre, como se estivéssemos aguardando a volta de Senna.

Não será agora que a Globo, depois de tanto tempo fechando os olhos às mazelas de nosso automobilismo, vai consertar as coisas com belas frases. O problema do nosso esporte a motor deve ser atacado no lugar certo, cobrando das autoridades da CBA (Confederação Brasileira de Automobilismo) atitudes concretas para reconstruir a história que temos e voltarmos a ser celeiro como éramos, atrair a torcida do espectador pelo esporte acima do vencer e tantas coisas mais. Este é o caminho que tem que ser atacado pela imprensa para vermos, novamente, um campeão mundial. Se é que ainda veremos.

Temos o palco, temos história… Falta pilotos, faltam atitudes e… faltam os que mandam na imprensa deste esporte. Globo, aguardamos suas atitudes de verdade. Caso contrario, larguem a F1 de lado e virem-se para o bom e velho futebol. Os fãs agradecem.

Massa: O adeus a Saudosa Maloca

A bandeira na mão em 2006... Dez anos depois, a bandeira na mão outra vez, mas agora para dizer adeus. A despedida de Felipe Massa de Interlagos é talvez o grande momento da temporada. O reconhecimento justo a quem, mesmo sem ser campeão, conseguira colocar o país por algum tempo no turbilhão das vitórias e brigas de título na categoria (Reprodução / Getty Images)

A bandeira na mão na vitória em 2006… Dez anos depois, a bandeira na mão outra vez, mas agora para dizer adeus. A despedida de Felipe Massa de Interlagos é talvez o grande momento da temporada. O reconhecimento justo a quem, mesmo sem ser campeão, conseguira colocar o país por algum tempo no turbilhão das vitórias e brigas de título na categoria (Reprodução / Getty Images)

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Talvez me chamaria de omisso se escrevesse tão pouco sobre o grande momento do fim de semana. E isso não é ser ufanista nem nada, só mesmo Felipe Massa pode entender o que se passou nestes dias em que, aos poucos, despedia-se do quintal de casa. Ele não voltará a maloca no ano que vem para dividir curva com os companheiros de grid, pois o mundo da F1 não lhe cabe mais no dia a dia. O moço baixinho, de madeixas longas e plotagens inesquecíveis, dono dos últimos bons momentos que o Brasil viveu na categoria (e que rezamos de pé junto que não sejam os últimos definitivamente).

Neste tempo todo que escrevo sobre F1, nos tempos do Farol Blumenau e aqui n’A BOINA, nunca tive a chance de narrar uma história de uma vitória brasileira, muito menos uma de Massa. Quando venceu sua última corrida – no quintal de casa, na dolorida derrota de 2008 – eu ainda tinha reles 18 anos, ainda não sabia o que querer do mundo e lamentava ver a perda de um título mundial. Mas o que dizer? Tempos que o Brasil não assistia algo como aquilo, um brasileiro nas cabeças e ainda disputando o galardão em casa, diante da galera.

Uma batida na volta 48, sendo outra das vítimas da Curva do Café, foi o último ato de Massa na F1 em Interlagos. Não precisava mesmo terminar a prova. Na volta para os pits, as palmas de todos. Da torcida, das equipes (como a poderosa Mercedes), da Williams... De uma F1 que diz, sibilando, que sentirá falta do brasileiro nas grelhas de 2017 (Getty Images)

Uma batida na volta 48, sendo outra das vítimas da Curva do Café, foi o último ato de Massa na F1 em Interlagos. Não precisava mesmo terminar a prova. Na volta para os pits, as palmas de todos. Da torcida, das equipes (como a poderosa Mercedes), da Williams… De uma F1 que diz, sibilando, que sentirá falta do brasileiro nas grelhas de 2017 (Getty Images / TV / Getty Images)

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Não foi a despedida esperada, mas nem precisou de tanto requinte mesmo assim. Massa saiu do carro destruído na pancada que sofrera na curva do café na volta 48, seguiu aos boxes com o pavilhão nacional as costas sob aplausos e rostos emocionados que estavam o vendo pela última vez na pista paulista em ação. Ele correu no limite, sem se importar que pneu dava mais certo ou em que ponto tinha mais água. No entrar no pit-lane, quis o destino que a Mercedes (a melhor dos últimos três anos) e a Ferrari (a velha casa de Felipe) estivessem no caminho para aplaudi-lo respeitosamente. O pit inteiro o faria se o box da Williams fosse o último.

Bem… e assim se vai Massa, para a derradeira prova em Abu Dhabi. O primeiro piloto brasileiro a anunciar aposentadoria da F1 em todos os tempos segue para seu último espetáculo. Sem chances de pódio, sem carro para brigar por vitória… Mas de que importa isto tudo? Felipe já fez sua parte na categoria, e espera-se, com todo o respeito do brasileiro que tem o mínimo de sanidade mental, que se fale de Felipe Massa não pelo que ele não fez, mas pelo que ele nos fez sentir nas manhãs de domingo…

(Getty Images)

(Getty Images)

Valeu, Felipe… Demais! E nos vemos – Felipe e todos nós – no dia 27/11, para o capítulo derradeiro da F1 em 2016, no suntuoso crepusculo de Abu Dhabi. Rosberg será o campeão? Hamilton vira o jogo? Nasr fica na F1? Vamos chorar outra vez?

Aguardemos duas semanas. Um abraço e estamos juntos!

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