Uber em Blumenau: Abrir as portas ao novo ou barrar o progresso?

Uma bomba bateu no chão dos taxistas blumenauenses nas últimas semanas: A possível vinda do aplicativo Uber para Blumenau, que já estaria recrutando motoristas para o serviço. O aplicativo divide opiniões, mas pode significar um estimulo a mudança de filosofia dos profissionais da placa vermelha Reprodução)

Uma bomba bateu no chão dos taxistas blumenauenses nas últimas semanas: A possível vinda do aplicativo Uber para Blumenau, que já estaria recrutando motoristas para o serviço. O aplicativo divide opiniões em vários cantos do mundo, mas pode significar um estimulo a mudança de filosofia dos profissionais da placa vermelha (Reprodução)

Ele já é motivo de amor e ódio nas grandes cidades onde está atuando, embora quem o odeie já atentou verbal e violentamente contra seus trabalhadores. É visto como o futuro do transporte urbano em automóveis e ainda enfrenta incompreensões mundo afora. Agora, uma das paradas é em Blumenau, e o recado contra a chegada do aplicativo já foi lançado, embora frear o progresso possa não ser a melhor saída.

Nos últimos dias, começou a se falar nos jornais da cidade e nas rodas informais de conversa sobre a possível chegada do aplicativo de caronas Uber na cidade-jardim. Bem-vinda por representar uma quebra de paradigmas no serviço de transporte urbano em automóveis – coisa há anos de responsabilidade dos tradicionais táxis – o serviço já criou as primeiras reações incisivas e revoltadas dos profissionais da placa vermelha e iniciou um debate que, cedo ou tarde, pode estar chegando na mesa do prefeito Napoleão Bernardes.

O que é o Uber (para quem ainda não sabe)?

Garrett Camp e Travis Kalanick, os responsáveis pela criação do Uber, e pelo temor de taxistas do mundo todo diante da sua presença nas grandes cidades REprodução)

Garrett Camp e Travis Kalanick, os responsáveis pela criação do Uber, e pelo temor de taxistas do mundo todo diante da sua presença nas grandes cidades (Reprodução)

Criado em 2009 por Garrett Camp e Travis Kalanick, o Uber é uma das grandes sacudidelas naquele ato tão banal de se pegar um táxi nos dias de hoje. Trata-se de um serviço de caronas remuneradas, onde os motoristas cadastrados são acionados pelo aplicativo a buscar seus passageiros e desloca-los no trajeto solicitado. Até ai, muito semelhante ao bom e velho Radio-Táxi.

As diferenças começam, especialmente, na forma como o serviço é oferecido aos seus solicitantes. Os clientes tem um cadastro no próprio aplicativo e, ao enviarem a solicitação, também enviam ao piloto designado uma espécie de ficha com nome, foto, matrícula, automóvel usado e os comentários despachados. A quem chama por um dos carros do Uber é possível rastrear em tempo real a localização do veículo até chegar ao destino.

Outras diferenças também são a forma de tratamento dos trabalhadores do Uber para com seus passageiros. O aplicativo exige que tenha disponível no veículo do aplicativo água para o carona, variando para outras guloseimas e bebidas dependendo do serviço pedido. O preço por serviço e por trajeto percorrido também é outra grande diferença para o tradicional taxi: Ele é bem mais baixo comparado as atuais bandeiradas e o trabalhador do Uber é pago semanalmente, dependendo de quanto ele dirigiu no período.

O aplicativo não fica apenas na facilidade de chamar o serviço, mas também no diferencial do atendimento, que prega a cortesia, conforto e respeito acima de qualquer corrida Andrew Caballero-Reynolds / AFP)

O aplicativo não fica apenas na facilidade de chamar o serviço, mas também no diferencial do atendimento, que prega a cortesia, conforto e respeito acima de qualquer corrida (Andrew Caballero-Reynolds / AFP)

Entre aplausos e pauladas

Graças aos seus elementos plus nas viagens, relatos positivos de bom atendimento dos motoristas e pelas facilidades para também ser um motorista do Uber é que o aplicativo vem crescendo pelo mundo e rapidamente. Partindo inicialmente da cidade de São Francisco, na Califórnia (EUA), o serviço trouxe uma nova visão de transporte urbano por veículos, e uma tremenda competição e desavenças com os clássicos taxis em grandes ou médias metrópoles.

No Brasil, o Uber pousou em 2014, atendendo primeiramente (e como de costume) Rio de Janeiro e São Paulo. No entanto, junto com as bossas do serviço vieram também os protestos dos taxistas em ambas as metrópoles. Acusações de serviço ilegal e concorrência desleal multiplicaram-se, assim como protestos e até atos violentos de repressão contra funcionários do aplicativo. Regulamentações aconteceram, mas ainda assim causando desconforto entre ambos os serviços.

Pelo Brasil afora - especialmente no Rio e em São Paulo - o Uber tem sido alvo de represálias dos taxistas, até mesmo com atos violentos. Prefeituras tem se debruçado numa forma de regular o serviço sem desagradar os taxistas, que esgotam adjetivos negativos contra os motoristas do aplicativo Reprodução / Facebook)

Pelo Brasil afora – especialmente no Rio e em São Paulo – o Uber tem sido alvo de represálias dos taxistas, até mesmo com atos violentos. Prefeituras tem se debruçado numa forma de regular o serviço sem desagradar os taxistas, que esgotam adjetivos negativos contra os motoristas do aplicativo (Reprodução / Facebook)

Em Blumenau, sabendo da possibilidade do aplicativo chegar a cidade, o presidente da Coopertaxi, Claudio Klock, foi enfático ao ser questionado sobre o serviço pelo Jornal de Santa Catarina no dia 08/11. Se não é regulamentado é contra a lei. Então, vamos para cima do poder público, afirmou. Com a proximidade da discussão sobre o aplicativo na cidade, taxistas e profissionais de mídias digitais já preparam seus argumentos. Afinal, o Uber é um vilão ou uma nova e revolucionária forma de transportar pessoas pelo meio urbano?

E onde o táxi está errando na roda do progresso? 

Analisando cruamente, o taxista está certo… e errado. Isto se permitir um olhar imparcial sobre o serviço que é prestado dia a dia. Sou neto e sobrinho de taxistas do passado, tempos onde cortesia e educação eram marcas de honra de um bom profissional do volante. Nas minhas raras viagens de taxi por Blumenau fiz bons amigos, compartilhei histórias e soltamos alguma risada. No entanto, muitas destas vezes foi por pura e simplesmente puxada de papo de mim mesmo, não do motorista.

Ponto de Táxi de Blumenau nos anos 50, ao lado do antigo Cine Blumenau atual Magazineluiza). Outros tempos do taxi na cidade André Bonomini)

Ponto de Táxi de Blumenau nos anos 50, ao lado do antigo Cine Blumenau atual Magazineluiza). Outros tempos do táxi na cidade A(ndré Bonomini)

Não é simplesmente levar de um lado para o outro. O modelo de transporte por táxis estacionou no tempo e reclamações aparecem, especialmente no que diz respeito a educação, atendimento e custo da corrida. Não são todos que escorregam, mas é sinal de que o modelo tem que se modernizar mais humanamente? Patrick Rodrigues / RBS)

Não é simplesmente levar de um lado para o outro. O modelo de transporte por táxis estacionou no tempo e reclamações aparecem, especialmente no que diz respeito a educação, atendimento e custo da corrida. Não são todos que escorregam, mas é sinal de que o modelo tem que se modernizar mais humanamente? (Patrick Rodrigues / RBS)

E como fazer com um passageiro mais tímido, mais retraído? É claro que não é todo mundo que gosta de conversa, ainda mais quando há um celular entre o taxista e a mão do passageiro, mas é ponto de honra de qualquer profissional da placa vermelha ter cordialidade e bom papo, como é a característica natural de um taxista. Uma coisa que tem sido de reclamação de muitos usuários dos táxis na cidade e outros cantos do país.

Mas não é só isso, conversando com amigos durante a semana sobre os pontos positivos e negativos do táxi, uma das principais reclamações recai, especialmente, sobre o preço das corridas, algo que não é difícil de reparar em qualquer viagem olhando preocupado para o taxímetro a contar. Isto que viemos de tempos que o Brasil enfrentara, ainda no início dos anos 90, a horda de táxis irregulares (chamados de bandalhas), sobretudo nos grandes centros, em especial no Rio de Janeiro. Coisa que aumenta muito no tempo de festas como o carnaval.

Não é a toa, em muitos casos, que andar de táxi virou item de luxo graças a este ponto, e isto sem contar alguns profissionais que estendem o caminho para girar ainda mais o valor de saída. Uma prova de que honestidade e confiança tem que andar juntos também no banco do carro, pra começo de conversa. Podem haver ainda outros tantos pontos negativos, coisa de qualquer serviço no mercado cuja concorrência contra outro modelo inexiste e permite-se aos seus profissionais desleixarem-se no âmbito do serviço prestado.

O Uber nada mais é do que a evolução de um serviço, e que também pode ser entendido como uma forma de estimular o avanço de uma classe em busca de novos clientes. Uma roda que roda sempre de tempos em tempos Reprodução)

O Uber nada mais é do que a evolução de um serviço, e que também pode ser entendido como uma forma de estimular o avanço de uma classe em busca de novos clientes. Uma roda que roda sempre de tempos em tempos (Reprodução)

Não quero aqui fazer um manifesto de repúdio ao maus taxistas (ou a todos, como alguns podem entender, até porque tomar partido tiraria a isenção desta crônica. O Uber também tem lá seus contratempos com maus profissionais, mas observados bem de perto pelos responsáveis pelo aplicativo. O Uber talvez seja o que era preciso para quebrar os paradigmas deste serviço e, possivelmente, provocar uma mudança de filosofia entre os profissionais da placa vermelha, ou ao menos em quem está disposto a se reciclar diante os novos tempos.

O aplicativo não deve nunca ser entendido como um vilão. É evidente que será preciso também entrar numa espécie de regulagem por lei ou algo que também não o faça funcionar indiscriminadamente. No entanto, enxerga-lo como usurpador de trabalho é uma pura visão míope de quem está acomodado ou seguindo as ideias distorcidas contra-progresso de um sindicato. É evolução, como tudo evolui e modifica-se, e o táxi, cedo ou tarde, iria ter algo para motivar a mudança.

E como toda e qualquer cidade grande, o Uber uma hora iria pousar aqui. Motoristas já começaram a ser procurados pelo aplicativo na cidade, taxistas estão apreensivos, mas não tem como negar. É o progresso, a roda da evolução que também rola pelas ruas das grandes cidades, até mesmo em Blumenau.

Reprodução)

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Para encerrar, um pequeno texto de Artur Mendes, que explica bem este momento:

No século XVIII, Thomas Edison irritou os acendedores de lampião.
Em 1900, Henry Ford irritou os cocheiros.
Em 1920, Marconi irritou as gravadoras.
Nos anos 30, a TV irritou o rádio.
Hoje, o Uber irrita os taxistas.
Whatsapp irrita teles (telefonia).
E a Tesla irrita os petroleiros.
Enfim, o progresso é a esperança dos povos e o desespero dos acomodados.

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