Fabrício Wolff em A BOINA: Não me engana que eu não gosto

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(Fabrício Wolff)

A educação brasileira é um problema muito além do olhar governamental, público. Se o país não consegue dar um ritmo prioritário àquilo que, todos sabemos, pode salvar o futuro da nação, seja por falta de dinheiro, capacidade ou visão, a realidade que se desnuda diante dos olhos daqueles que militam na educação é que o embuste ultrapassa as barreiras do poder público e se instala, como negócio, na área privada.

A maior prova disto é exatamente o tratamento que as instituições privadas de ensino superior (as chamadas faculdades ou universidades particulares) impõem a seus clientes – também conhecidos como acadêmicos ou alunos. Não vou nem versar sobre a economia no investimento em material humano (número de pessoas, mesmo) e equipamentos (geralmente sucateados e em número insuficiente). Até mesmo na limpeza se economiza. Por vezes buscando cumprir metas impostas pelo Ministério da Educação, em outras realizando enxugamento de suas despesas para manter o lucro, professores que possuem prática de mercado são substituídos pelos que detém títulos acadêmicos. Substituição pura e simples, sem análise caso a caso das potencialidades de cada um.

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Não que os títulos acadêmicos não sejam importantes, muito pelo contrário. A imersão na teoria das coisas é sempre bem vinda, porquanto pode aprofundar o debate em sala de aula e no universo acadêmico. Pode ajudar o estudante a ampliar seus horizontes. Pode. Nem sempre o faz. Muitas vezes não acontece. Isto depende imensamente da capacidade e da vontade do professor. E este ampliar de horizontes jamais estará completo se este professor titulado não for um profissional do mercado, não tiver real experiência prática daquilo que está ministrando para seus seguidores. Teoria e prática precisam andar lado a lado.

Hoje o que se vê no mercado são instituições buscando títulos e titulados em detrimento da experiência de mercado, mesmo que em seus anúncios publicitários encham a boca dizendo que são melhores porque seus professores possuem esta experiência. Em sala de aula, no entanto, se vê jornalista dando aula de atendimento publicitário sem jamais ter trabalhado na função. É possível encontrar publicitário dando aula de mídia digital sem jamais ter vivido esta experiência como profissional de mercado. Vê-se todo o tipo de distorção para colocar um mestre ou doutor a dar aula em lugar de um especialista que vive diariamente a realidade da aula que poderia ministrar com domínio real da matéria.

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Em contrapartida, as instituições privadas de ensino superior não dão qualquer contrapartida para que o professor possa fazer novas pós-graduações. Aliás, em verdade, a realidade de mercado diz que só pode efetuar um mestrado ou doutorado quem não trabalha no mercado profissional da área em que leciona. O professor para conseguir cursar um mestrado ou doutorado precisa ter tempo disponível em dias de semana e finais de semana… Muito tempo disponível.

Ao mesmo tempo, paga caro pela pós-graduação em instituições privadas. Logo, não pode trabalhar e não trabalhando, não tem como pagar a pós-graduação. Já um mestrado ou doutorado em instituição federal pode não ter mensalidades pagas, mas precisa de dedicação full time. Logo, títulos são para professores que vivem somente a academia – e não a experiência do mercado de trabalho.

Conheci o hoje saudoso professor Sálvio Muller e tive o privilégio de algumas horas de conversa com ele ao longo de três anos em que trabalhamos em uma mesma instituição. Com graduações, especializações e mestrado e um doutorado interrompido, costumava justificar o abandono ao título com a frase Está cheio de doutor anta por aí. Era até hilário vê-lo dizer isso, porque era um sábio ao utilizar as palavras, os argumentos e verbalizar o conhecimento, sempre mais profundo do que nossa vã filosofia. Definitivamente mestrados e doutorados cursados em instituições pagas deveriam estar em constante observação qualitativa.

Você vê cada um com o título na mão, gente que sequer consegue escrever ou falar corretamente a língua portuguesa, que fica em dúvida se o velho “pagou-passou” não é mesmo uma realidade… Você pode imaginar um doutor falando “pra mim fazer”? Ou será que nosso ensino que forma mestres e doutores está com nível tão baixo que permite a quem mal sabe escrever e falar receber títulos de mestres e doutores?

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Claro que não é a regra. Existem ótimos doutores e mestres. Mas também não é a exceção. Sou capaz de apostar que mais da metade de muitos titulados entra na vala comum de não passar em uma prova de graduação em língua portuguesa, por exemplo. Ou de conhecimentos gerais. Culpa deles? Não, não. Às vezes são apenas cúmplices, mesmo sem saber. Fazem parte do jogo do mercado.

A culpa é das instituições de ensino e do sistema que fazem da educação um negócio e do ensino superior uma mercadoria. Todos querem mais lucro, independente da qualidade que efetivamente repassam aos seus clientes. Tirando uma notinha legal na avaliação do MEC, é razão suficiente para dar prosseguimento à publicidade para captação de novos alunos.

São as mazelas da realidade privada no ensino superior. Grandes corporações da educação buscando o lucro e fazendo o necessário para alcançar as metas. Financeiras. Mas não venham me dizer que levam a sério a experiência de mercado de seus professores. Por mais incrível que possa parecer, esta propalada experiência na área de atuação anda na contramão da possibilidade de conquista de títulos acadêmicos.

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