Momento do rádio brasileiro: Migração, preferencias, o ontem e o hoje

O tempo passa, e por mais frenética fica a informação o rádio continua sendo o veículo nº 1 na transmissão de notícias, na formação de opinião e na companhia do dia a dia. No Brasil, somos cobertos pelas ondas sonoras desde 1922 e a roda da evolução continua, especialmente na migração das emissoras AM para FM, que vem sendo feita de forma lenta) desde 2013 Reprodução)

O tempo passa, e por mais frenética fica a informação no nosso dia a dia o rádio continua sendo o veículo nº 1 na transmissão de notícias, na formação de opinião e na companhia do dia a dia. No Brasil, somos cobertos pelas ondas sonoras desde 1922 e a roda da evolução continua, especialmente na migração das emissoras AM para FM, que vem sendo feita (de forma lenta) desde 2013 (Reprodução)

É mais do que notado que o rádio é o primeiro a dar as últimas desde os tempos do saudoso Repórter Esso. Ao primeiro clarão da manhã é ele o primeiro a ser ligado, em automóveis, locais de trabalho e residências, para se ter contato com as notícias da noite anterior e as primeiras notas do dia que virá. Há algum tempo afastado dos microfones (ansiando um dia voltar a eles), não podia eu deixar de falar aqui em A BOINA, em algum momento, sobre este meio de comunicação tão antigo e tão moderno ao mesmo tempo. A oportunidade chegou, e junto dela algumas observações que vão além das vistas nos bancos de faculdade.

No último dia 7 de novembro, o presidente Michel Temer assinou em um evento no Palácio do Planalto um termo aditivo que autoriza a migração de 240 emissoras AM para a frequência FM. Uma antiga necessidade dos empresários do ramo da radiodifusão e que, aos poucos, vem sendo colocada em prática no país. as vantagens da migração vão muito além da qualidade de sinal e do alcance ampliado para a internet, mas também em questão de custos do equipamento e manutenção dos aparatos. É o rumo das emissoras da velha amplitude modulada, que deixa para trás histórias de outros tempos, mas que se faz necessária diante os novos rumos das comunicações.

Desde os primeiros intentos de Padre Landell de Moura e Gugliermo Marconi, desde a primeira transmissão no Brasil no centenário da independência (7 de setembro de 1922) e os idos da era de ouro, o rádio é um veículo que constantemente sofre metamorfoses e, da mesma forma, sofre com as profecias sobre o seu fim. Foi assim com o advento da TV e da internet. Mas, nos últimos tempos, o rádio tornou-se tão ou ainda mais necessário como em outros tempos. Impossível dizer que você não ouve rádio, em qualquer momento do dia ele está la e você, várias vezes, agradece por isto em alguma noticia da hora ou uma canção tocante a alma.

Pesquisa: Rádio de manhã, no carro, entre notícias e música

Recentemente, organizando um trabalho de plano de negócio para meu curso de Técnico em Marketing no Senac Blumenau, voltei a tocar no assunto rádio na sua forma analítica, observando as preferencias e necessidades de ouvintes no dia a dia. Para conhecer o público com a qual iria trabalhar, sabidamente, fiz uma breve pesquisa para saber de detalhes e afinidades com relação a radiodifusão. Os resultados em si surpreenderam, alguns um tanto óbvios como as explicações de banco de faculdade, outros até interessantes.

Foi um número curto, apenas 22 pessoas participaram, mas deu para sentir e muito bem como funciona o ouvinte de rádio, ao menos aqui em Blumenau. Quem ouve rádio na cidade-jardim o faz todo dia (42%) pela manhã (62%), enfrentando o trânsito dentro do carro (50%) e alternando suas preferencias entre o entretenimento (45%) e as notícias (40%). Analisando outros dados, são ouvintes de boa renda salarial e muito exigentes com o conteúdo do que ouvem, especialmente no que diz respeito a variedade de estilos musicais, coisa que há muito carece nas emissoras, e a programação noticiosa com viés mais jovial e simples.

E de manhã e dentro do carro que mais se ouve rádio em Blumenau. E a audição de notícias e entretenimento com qualidade e jovialidade é a maior exigência dos ouvintes da cidade-jardim e região Reprodução)

E de manhã e dentro do carro que mais se ouve rádio em Blumenau. E a audição de notícias e entretenimento com qualidade e jovialidade é a maior exigência dos ouvintes da cidade-jardim e região (Reprodução)

Não impressiona muito se observarmos a crueza dos números ou, até mesmo, as certezas encontradas com o que se ouvia em bancos de faculdade. No entanto, entre as rádios mais ouvidas estão as emissoras de notícias, como Nereu Ramos e CBN, algo que espanta e mostra mais claramente o refinamento do ouvinte quanto a necessidade de se informar. Uma antiga qualidade do rádio que há anos continua imortal: Apesar de imediatista, a notícia transmitida é a mais rápida, perdendo talvez para os meios digitais atualmente. E quem não quer estar por dentro do assunto primeiro e de forma mais completa?

FM X Digital – Modernidade ainda longe do Brasil

Em janeiro de 2017, a Noruega será o primeiro país do mundo a desativar a transmissão de rádio analógica e passar a funcionar 100 em frequência digital. No Brasil, o custo dos equipamentos e a falta de um padrão que atenda as necessidades da comunicação radiofônica no país são os empecilhos para a chegada efetiva da radio digital Reprodução)

Em janeiro de 2017, a Noruega será o primeiro país do mundo a desativar a transmissão de rádio analógica e passar a funcionar 100% em frequência digital. No Brasil, o custo dos equipamentos e a falta de um padrão que atenda as necessidades da comunicação radiofônica no país são os empecilhos para a chegada efetiva da radio digital (Reprodução)

Voltando um pouco a migração de AM para FM, um dos assuntos que se observa também é a ausência quase total no país de alguma iniciativa de rádios digitais. Em janeiro de 2017, a Noruega anunciou que desligará todo o sistema analógico de rádios, sendo o primeiro país no mundo a operar radiodifusão apenas em modo digital. Nada de espantoso se observar o avanço sempre latente dos países nórdicos, mas algo que mostra o relativo atraso do Brasil com relação a esta tecnologia.

Basicamente, analógico e digital transmitem por ondas, mas a diferença está na forma de transmissão destas ondas. Enquanto no analógico temos as simples ondas radiofônicas – que no FM tem qualidade mas são sujeitas a interferências – no digital as transmissões são codificadas em código binário, carregando consigo uma base de dados que proporciona qualidade superior e um número bem menor de interferências. É semelhante ao som de CD, para melhor dizer.

A migração para o sinal FM é lenta por conta de, em muitas regiões, o espectro da frequência estar esgotado. A Anatel deve liberar os sinais dos canais 5 e 6 da TV, que serão desocupados na transição da TV para o sinal digital

A migração para o sinal FM é lenta por conta de, em muitas regiões, o espectro da frequência estar esgotado. A Anatel deve liberar os sinais dos canais 5 e 6 da TV, que serão desocupados na transição da TV para o sinal digital (Reprodução / EBC)

No entanto, o panorama no país com relação a esta tecnologia ainda é inexplorado. Talvez pelo menor custo da migração para o FM em comparação ao modelo analógico (as rádios tem de custear esta migração) e pelo fato das rádios online estarem cada vez mais presentes no Brasil. E não é este apenas o único emperrante para o deslanchar do radio digital no país, entre as quatro tecnologias disponíveis para radiodifusão digital – duas americanas, uma européia e uma japonesa – nenhuma delas consegue atender as necessidades do mercado brasileiro. Ou seja, ainda não há uma saída clara para se fazer rádio digital no país.

O caminho pelo FM já vem sendo traçado aos poucos no país desde o decreto n° 8139, de 7 de novembro de 2013. Das 1781 emissoras AM do país, 1386 já aderiram a migração, sendo 77% das estações operantes nesta frequência no Brasil. Além de todos os trâmites como apresentação de projeto e pedido de autorização de uso junto a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), as emissoras também tem de aguardar aos poucos a ampliação do espectro FM em cidades onde ele encontra-se cheio. Isto será possível no decorrer da digitalização da TV no país, com a destinação dos sinais dos canais 5 e 6 analógicos para o sinal FM.

A Rádio Progresso, emissora de Juazeiro do Norte, no Ceará, foi a primeira no país a fazer a migração para o FM desde a publicação do decreto de migrações em 2013. Ganho de qualidade e audiência é visível e em Blumenau, a CBN Vale do Itajaí é um feliz exemplo disso. Reprodução)

A Rádio Progresso, emissora de Juazeiro do Norte, no Ceará, foi a primeira no país a fazer a migração para o FM desde a publicação do decreto de migrações em 2013. Ganho de qualidade e audiência é visível e em Blumenau, a CBN Vale do Itajaí é um feliz exemplo disso (Reprodução)

No Brasil, a primeira rádio a fazer a migração foi a Rádio Progresso, emissora de Juazeiro do Norte (CE) em março deste ano. No entanto, aqui em Blumenau, uma prova de que a mudança traz qualidade e mais ouvintes é a filial do Vale do Itajaí da CBN, que na cidade é emitida na emissora da Rede Fronteira de Comunicação (RFC) também responsável pelas emissões da Radio Globo no AM. Há três anos a RFC fez a migração da frequência da emissora, do 820 KHz para os 95.9 MHz, anteriormente usados pela filial da Band FM na cidade, que também era retransmitida pela Rede Fronteira.

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A migração da CBN Vale do Itajaí, emitida pela Rede Fronteira de Comunicação (RFC), do AM para o FM demonstrou muito mais do que a qualidade, mas também uma redescoberta de uma audiência carente por notícias de qualidade Reprodução)

De alguns anos para cá, a CBN Vale do Itajaí tem sido descoberta por um número maior de ouvintes, que a adotaram como parada obrigatória no dial dos receptores no dia a dia. Isto que diz-se muito que as AM, pela audiência cativa e programação mais próxima da comunidade, podem conquistar mais ouvintes que as atuais FM depois da migração. Mas apesar dos bons exemplos, só o futuro dirá exatamente se esta tendência é verdadeira.

Independente dos rumos que o rádio está tomando no Brasil, que apontam para a migração lenta e contínua para o FM, o velho veículo que atravessa gerações não deixa de ter consigo os ouvintes fieis e de conquistar novos ouvintes ávidos por notícia imediata, base para a formação de opinião e, claro, entretenimento e musica de qualidade. Há 94 anos, o brasileiro soube dividir seus dias tendo ao lado a parceria do velho radio, não importando em que lugar está, o que está fazendo ou como está ouvindo.

O rádio é um eterno companheiro, que apesar de muito já ter sido dado como morto, transfigura-se diante das revoluções por minuto das comunicações pelo mundo, e é o que está acontecendo hoje, lenta ou rapidamente. É a roda do futuro, e o rádio amigo está rodando com ela.

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