Chapecoense: Um índio de luto

(Reprodução)

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Em terra de índio, milagre de papa não supera pajelança…

Repetia esta frase a semana inteira para os amigos, ao menos os mais chegados ao esporte, como forma de recordar um feito tamanho para o futebol ainda criança de Santa Catarina. E era um feito mesmo, um time de jovens moleques do oeste do estado, inspiração para tantas outras agremiações, conseguia a proeza de destronar a equipe de coração do Papa Francisco sem precisar, para isto, de gols. O futebol do estado nunca foi tão verde como agora, que tinha a briosa Chapecoense como finalista da Copa Sul-Americana.

Uma equipe de jovens dentro de um time relativamente jovem. A história de uma agremiação de apenas 43 anos já recheados de conquistas e que vivia seu sonho de ícaro, rumando até a Colômbia para, quem sabe, começar bem a caminhada rumo a conquista de melhor entre os melhores da América. Era noite, uma delegação animada partiu de Guarulhos, juntamente com jornalistas de canetas afiadas, rumo ao local da peleja, na tão distante – e ao mesmo tempo tão próxima – Medellin, história pelas batalhas e lances que transformaram a antiga nação granadina num caldeirão cultural e histórico.

Chapecoense, 1976: Primeiro título catarinense (Reprodução)

Chapecoense, 1976: Primeiro título catarinense (Reprodução)

Chapecoense 2016: Que buscava a glória das Américas (Reprodução)

Chapecoense 2016: Que buscava a glória das Américas (Reprodução)

Este era o admirável universo novo que o time de jovens da Chapecoense iria descobrir. Cada um de uma origem diferente, mas compenetrados no bem comum. Vestiam o mesmo uniforme há algum tempo, alguns mais outros menos, e dividiam entre si os tropeços, apertos e glorias ainda recentes entre certames. Alguns viveram o sufocante momento eminente de um rebaixamento, a alegria de um título estadual e, agora, a eminencia de uma conquista maior do que muita coisa que tinham vivido.

Pela madrugada, nos radares do Aeroporto José Maria Córdova, tudo calmo, ou aparentemente calmo por conta do mal tempo. Bastou um mínimo segundo para a preocupação reinar naquele ambiente. Onde estaria a aeronave que saíra há algum tempo da Bolívia levando consigo os jovens jogadores e seus acompanhantes? Momentos sufocantes que pararam de ser contados quando a notícia trágica veio: O avião caiu em uma localidade bem próxima ao aeroporto, espatifou-se junto de sonhos e esperanças, que agora estavam misturados a escombros e restos de aeronave na vegetação densa de Cerro Gordo.

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A manhã, assim como a avalanche de notícias, iria chegar logo ao Brasil ainda despreparado com a tragédia. Jornalistas se batiam entre informações ainda mal confirmadas, dividindo-se entre o choque do fato e o dever da notícia. Fui acordado com estes atordoados, quando os colegas de jornalismo do Vale, alvoroçados, ainda pisavam em ovos diante das informações que vinham. Tinham mortos? Como foi? Caiu mesmo? Logo tudo virou números, perguntas, assombro: 76 mortos, a grande parte do time perdida, o presidente da Federação Catarinense de Futebol também morto no acidente, consternação, famílias chocadas, a Colômbia sem saber o que fazer primeiro diante do quadro. Que madrugada amarga!

Talvez por certo alento, diante do fato tão violento, a manhã e o resto do dia passaram pesados mas com manifestações positivas que sobrepujavam por momento as tantas perguntas e porquês sobre as causas do acidente. Da Colômbia, o Atlético Nacional, do alto das glórias e conquistas dentro e fora do país, abria mão do galardão sul-americano em pedido a Conmebol, estava literalmente imbuído em alguma forma de confortar as famílias, demonstrar da forma mais nobre que muito mais que perder uma partida tinham perdido irmãos em futebol, como a nota oficial do clube mesmo definiu. E não seria só isso.

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A tarde, misturadas até as manifestações de clubes de futebol e esportistas pelo mundo, a grande manifestação vinda das agremiações brasileiras, talvez demonstrando ao mesmo tempo um amadurecimento jamais visto depois de tempos de malandragem, trapaças, brigas judiciais e conflitos intermináveis. Na nota oficial, 12 clubes apenas (é verdade, mas que devem motivar outros), mas duas medidas simples e nobres: Ceder jogadores de graça e sugerir o não-rebaixamento da Chapecoense por três temporadas caso ele acontecesse. Quem conhece o futebol brasileiro pode se perguntar se tudo isso é verdade… Mas é, e não é um pesadelo sem fim, todos estão de olhos abertos.

A noite chega, e com ela quem sabe um pouco de paz aos que não verão mais os jovens jogadores sorridentes, felizes pelo que faziam nas quatro linhas com a tal da galhardia que tanto se falava no meio do nobre esporte bretão. Sobre o Índio Condá de tantos gols e gritos, repousa um silêncio ensurdecedor que só o futuro poderá tirar a mordaça com um pouco de alegria. O momento na bela Chapecó, cidade da indústria frigorífica, do Desbravador ao lado da Matriz, do mate amargo e dos tcho nas rodas de conversa, hoje está resignada, apenas orando, refletindo e pedindo um alívio diante todo este turbilhão diante do meio de campo do palco máximo de suas conquistas.

(Reprodução / Arquivo A BOINA)

(Reprodução / Arquivo A BOINA)

No meu computador, inocentemente, divertia-me com o PES 2015, jogando partidas de futebol em forma de liga justamente com o verde da Chapecoense e ainda tendo Bruno Rangel como artilheiro da competição. Ainda estou pensando se continuo ou não jogando e vendo rostos tão promissores correndo e marcando gols. Talvez em algum lugar que não este ou em outro onde a grama é mais verde que os uniformes que ostentavam, e onde a peleja não cansa para sempre.

Se há alguma forma de digerir e confortar uma avalanche de choque? Talvez nem pajelança resolva por agora. Apenas um abraço confortante e um grito de gol simples e saudoso que quebre o silêncio da arena verde e faça recordar as proezas dos jovens jogadores do oeste catarinense.

#ForçaChape

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Um comentário sobre “Chapecoense: Um índio de luto

  1. André,
    Triste, mais importante (de somar) postagem falando sobre este fatídico acidente com o avião que transportava jogadores da Associação Chapecoense, dirigentes e desportistas. Que se esclareça os motivos, pois os rumores são fortes de falta de gasolina, preferencia a outro avião colombiano, e pior a quantidade de combustível sem reservas? bom são assuntos para pericias e nunca se saberá a verdade sempre “camuflada”. E acreditar que foi destino? não concordo. Destino é o imprevisto e não o previsto. Mas isso também é outro assunto. Aqui nos remete a uma reflexão, segurança, solidariedade e é justamente nesta hora que todos se unem, na tragédia. Porque não antes? Antes se matam, xingam, brigam dentro de estádios, e nas ruas, e depois estes mesmos se unem? Hipocrisia! Mais uma vez decepcionante falar certas coisas nesta hora …. me resta agora comentar aquilo que queria falar no início: sentimentos a Chapecoense, seus familiares, toda torcida, e na realidade ao futebol mundial.
    Avante #Chape o mundo anda e sua imagem, sua vitoria, volte CAMPEÃO! e com muito mais força, já que chegaram ao topo da América embora com dor no coração, na alma.
    Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em Blumenau

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