Dia do Samba: As favoritas dos amigos de A BOINA nos 100 anos do “nosso ritmo”

É dia de gingado, mexer-se, poetizar e rir na roda de amigos. Dia 2/12 é Dia do Samba, e este ano o ritmo 100 brasileiro está fechando 100 anos de conquistas, mitos, histórias e festa. Em momento triste, sambar faz parte da vida para seguir adiante REprodução)

É dia de gingado, mexer-se, poetizar e rir na roda de amigos. Dia 2/12 é Dia do Samba, e este ano o ritmo 100 brasileiro está fechando 100 anos de conquistas, mitos, histórias e festa. Em momento triste como o nosso, sambar faz parte da vida para seguir adiante e respirar esperança (Reprodução)

Tá certo, todo mundo pode dizer que celebrar com música não é o melhor esta semana, já que viemos de um baque tão grande como foi o arrebatamento dos jogadores da Chapecoense, jornalistas e tripulação… Mas, por um breve momento, numa forma de despertar esperança, bons pensamentos e reverencia é que deve-se colocar um som de fundo, nem que seja baixinho, apenas para refletir e sacudir maus pensamentos e desilusões da vida…

E que maneira mais coincidente e feliz do que fazer este ritual de sacolejar-se e buscar um sorriso, ainda que tímido, se não com a mais genuína das músicas brasileiras. Dia 2 de dezembro é lembrado no Brasil como o Dia do Samba. Amado por muitos, ignorado por alguns, desconhecido para outros, o gingado e a perfeita harmonia de pandeiros, tambores, cavaquinhos, violões, repiques e cuícas dão o tom certo do embalo, combinado com letras que falam de amor, da vida, das boas e más coisas, de contos engraçados e de uma cultura que completa 100 anos de batalha, bambas e histórias inigualáveis.

Donga, o autor do primeiro Samba gravado - Pelo Telefone - em 1916. Um dia de trabalho e prosa com amigos, músicos e jornalista no terreiro da Tia Ciata, na Praça Onze. Pronto! O Samba virou moda e ganhou o país Reprodução)

Donga, o autor do primeiro Samba gravado – Pelo Telefone – em 1916. Um dia de trabalho e prosa com amigos, músicos e jornalista no terreiro da Tia Ciata, na Praça Onze. Pronto! O Samba virou moda e ganhou o país (Reprodução)

Das rodas que celebravam raízes africanas, dos batuques do morro, das notas baianas, do classicismo paulista e da mistura de batidas e ritmos, tudo isso e mais um pouco fez nascer um embalo que tem etiqueta 100% nacional e uma fila de interpretes que, se comparados a astros estrangeiros, competem pau a pau em popularidade ontem e hoje. Sucessos em disco, fita, CD e mp3 que devem e muito a ousadia de um grupo de músicos, compositores e até jornalista que, inspirados, escrevinharam uma letra icônica para qualquer sambista em um terreiro de candomblé na Praça Onze, no Rio de Janeiro. Era o nascimento da letra divertida de Pelo Telefone.

A frente dos trabalhos, Ernesto dos Santos – o Donga – deu juntos dos amigos de roda no quintal da afamada Tia Ciata (Hilária Batista de Almeira), uma das mais populares mães-de-santo daqueles idos na então capital do país. O dia desta proeza era 27 de novembro de 1916 (sendo o registro em disco, feito por Bahiano em 1917 para a Casa Edison) e dali por diante uma história riquíssima e sem preço foi escrita. Um sem-número de canções e expoentes surgiram em todos os cantos. Dos morros, dos bares, das rodas de umbanda, dos cantos dos grandes centros, e de onde mais pode se ter.

A gravação de 1917 está ai embaixo pra ouvir. Simples e modesta, anunciada com pompa pelo próprio intérprete, como era costume naqueles primeiros tempos de gravações: Pelo Telefone. Samba carnavalesco gravado pelo Baiano e Coro de Corda (sic). Para a Casa Edson, Rio de Janeiro!

Ouve ai:

Carmem Miranda, quase como uma embaixatriz do Samba nos EUA. Até hoje, nenhum ator ou atriz igualou sua popularidade fora do Brasil Reprodução)

Carmem Miranda, quase como uma embaixatriz do Samba nos EUA. Até hoje, nenhum ator ou atriz igualou sua popularidade fora do Brasil (Reprodução)

Daquele humilde acetato para os salões, rodas em vários pontos de centros do Rio. Em São Paulo, o samba era a expressão que ia além do romance, contando dos causos e histórias que batiam fundo no coração da terra da garoa. Na Bahia, a vida de quem pesca, louvações aos orixás, dos sonhos ao por do sol das praias. Em vários estados, cantos do país, o samba virou jeito de viver, opção musical das mais fortes e identidade do país perante o universo que há de sons pelo mundo. Carmem Miranda e suas frutas na cabeça foi o primeiro expoente do samba exportado. Foi aos EUA mostrar o que se cantava aqui e deixou seu ícone na mente dos americanos e do mundo inteiro.

Dos salões, o samba foi para as ruas colorindo cidades, em especial (e sempre) Rio e São Paulo. As escolas de samba e o carnaval viraram a grande vitrine e celebração do samba. Dia e noite de canções, temáticas, gingados, moças, jovens, velhos e crianças, todos embalados pela mesma batida e na mesma mensagem. Uma canção que desperta danças mas tem também quem a critique e passe longe, mas balança os ombros com respeito… Ou até com certo embalo sem resistir ao ritmo.

Na apoteose de todo Fevereiro, como na boa e velha Sapucaí foto) e em São Paulo, o carnaval é a expressão máxima da beleza, batida e união em torno do Samba. O dia 2/12 é meramente uma formalidade que sempre é bem lembrada Reprodução)

Na apoteose de todo Fevereiro, como na boa e velha Sapucaí foto) e em São Paulo, o carnaval é a expressão máxima da beleza, batida e união em torno do Samba. O dia 2/12 é meramente uma formalidade que sempre é bem lembrada (Reprodução)

E, gozado… (como diria Adoniran Barbosa), o Dia do Samba em nada tem a ver com grandes festas carnavalescas ou megashows pelo país. A data tem a ver mesmo é com o criador da canção-identidade do país pelo mundo: Ary Barroso. O compositor de Aquarela do Brasil era um nome celebrado aos borbotões pelo país, tendo grande carinho na Bahia. Tendo gravado Na Baixa do Sapateiro, outro grande sucesso de seu cancioneiro, Ary exaltava com vigor a boa terra sem nunca ter botado os pés por la. O dia 2 de dezembro de 1940 marcou a primeira visita do compositor ao estado que tanto exclamava na canção, a data foi assinalada e a celebração, que a princípio era só em Salvador, foi registrada no calendário de todo o país.

Alias, Aquarela do Brasil virou tamanho cartão de identidade nacional que, em 1942, foi tema e inspiração para Walt Disney, sobretudo na criação de Zé Carioca e na coloração em animações do país ao qual os EUA queriam boa vizinhança… Olha ai:

Aos que apreciam (e são muitos, acredite!), A BOINA fez a tal da convocação geral dos amigos para dar as sugestões de samba para o dia… Tá certo, o momento não é o melhor, canções ainda não passam o nosso sentimento de pesar com o que se passa no oeste da Santa (e bela) Catarina… Mas, façamos desse breve momento apenas um escapismo do peso e um momento de relaxo a alma na marcação do surdão. Sem esquecer, é claro, daquele lado verde de nosso coração.

Vamos a lista e boa audição!


1 – Zeca Pagodinho – Deixa a Vida me Levar 

Sempre popular, pra abrir a lista com os pedidos do sempre primeirão Ramon Marcelo Geiser e do bravo jornalista Giovani Vitória:


2 – Bezerra da Silva – Malandro é Malandro, Mané é Mané

O grande primo Henrique Bonomini, de Cianorte (PR),  mandou esta pérola de um grande malandro:


3 – Chico Buarque – Apesar de Você

A querida e futura jornalista Daniele Cristina de Souza voltou aos tempos da abertura política para trazer o som do velho Chico:


4 – Demônios da Garoa – Trem das Onze

Desafiada, a periodista do oeste Josiane Caitano (que na próxima semana estreia em A BOINA) trouxe um clássico paulistano dos Demônios:


5 – Jorge Ben – Take it Easy My Brother Charlie 

O moço do Gramming & Marbles, Douglas Sardo, foi aos sons de Ben Jor para nos presentear com uma boa sugestão:


6 – Elis Regina e Adoniran Barbosa – Tiro ao Álvaro

Da mente da querida Franciele Meyer, um encontro de tremer as bases da música nacional: Pimentinha e Adoniran juntos:


7 – Fabiana Cozza – Tristeza Pé no Chão

Em sua primeira parada aqui em A BOINA, a enluarada Cassia Travesso, da CBN, busca num tributo uma recordação da saudosa Clara Nunes:


8 – Clara Nunes – O Mar Serenou

E no pedido do grande amigo de voz Omar Muhad, a voz da baiana em destaque:


9 – Beth Carvalho – Coisinha do Pai 

Qualquer uma da Beth para a querida Juliana Cardozo, e está ai:


10 – Paulinho da Viola – Sinal Fechado 

Sempre de gosto refinado e sofisticado, o homem do Informe Alexandre Gonçalves, nos premia com uma poesia dedilhada em viola:


11 – Trio Esperança – Arrasta a Sandalia

O trio de caçulas da família José Maria em samba é a pedida do sempre locutor do Midnight Express, Arnaldo Zimmermann:


12 – Toquinho e Vinicius – Regra Três

Embalada na poesia, a grande Miriam Mesquita manda sua nota no samba:


13 – Marisa Monte e Paulinho da Viola – Um Samba Sobre o Infinito

Também de gosto sofisticado no que ouvir durante o dia, o super Francisco Fresard – o Pancho – soltou este duo de Marisa e Paulinho falando sobre o que não tem fim…


14 – Elza Soares – A Mulher do Fim do Mundo

Amarrado na série televisiva 3%, dom Diego Becker nos manda a nota da sempre prima-dama de Garrincha. Vamos ouvir esta mulher:


15 – Martinho da Vila – Canta Canta, Minha Gente

Embalado na batucada alegre do grande Martinho, eis Luiz Phillip Santos Soares, musico e pensador da música, nos dando a sua nota:


16 – Beth Carvalho – Camarão que Dorme a Onda Leva

Conselho sábio da Beth que o galo João Paulo de Souza traz pra gente:


17 – Demônios da Garoa – Samba do Arnesto

O jovem Lucas Prudencio conta o causo do velho Arnesto que não tava em casa. Clássico do Demônios nas palavras de Adoniran:


18 – Cartola – Tive Sim

Sentimental e poético, o coração de Nane Pereira é gigante e sensível. Permite uma poesia vinda do gênio de óculos escuros dos morros do Rio:


19 – Chico Buarque – Homenagem ao Malandro

O irmão em música Romulo de Souza traz a lista mais um bom som do velho Chico. Olha ai:


20 – Noel Rosa – Com que Roupa eu Vou 

Outro desafiado, e bem cumprido no desafio. Luiz Fernando nos chama a ouvir o queixadinha e um de seus clássicos:


21 – Aracy de Almeida – Rapaz Folgado

Primeira de A BOINA para nossa lista, já que falamos de Noel, por que não sua maior intérprete? Então, vamos ouvir a Dama do Encantado em ação:


22 – Originais do Samba – Samba contra a Burocracia

E para encerrar, no embalo e na crítica política irreverente, A BOINA recorre a Mussum e seus comandados dos Originais do Samba para fechar a lista com estilo e agito:

Faltou alguma? Deixa nos comentários! Agora, sai da cadeira, sambe você também e vem pra vida! Até a próxima!

Um comentário sobre “Dia do Samba: As favoritas dos amigos de A BOINA nos 100 anos do “nosso ritmo”

  1. André,
    Simplesmente espetacular esta postagem sobre o nosso samba.
    Um momento maravilhoso e até essa raridade com o Pato Donald (de Pato nada, era marreco).
    Parabéns
    Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em Blumenau.

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