Gramming & Marbles (F1): Cinco dias depois do título, Rosberg anuncia a aposentadoria

Cinco dias campeão e... ponto final na F1. Aos 31 anos de idade e com números para um digno piloto da F1, Nico Rosberg encerra a trajetória na F1 depois de exatos 10 anos. Uma notícia que surpreendeu o mundo do esporte a motor (Getty Images)

Cinco dias campeão e… ponto final na F1. Aos 31 anos de idade e com números para um digno piloto da F1, Nico Rosberg encerra a trajetória na F1 depois de exatos 10 anos. Uma notícia que surpreendeu o mundo do esporte a motor (Getty Images)

(André Bonomini & Douglas Sardo)

Se no todo, a semana passada foi de tristeza pelo ocorrido na Colômbia, no mundo do automobilismo outra notícia chocante pegaria qualquer jornalista e fã do automobilismo de calças curtas. Apenas cinco dias após faturar o cobiçado e sonhado título da F1 em 2016, Nico Rosberg surpreende aos fotógrafos e até aos amigos que o ladeavam na cerimônia de premiação da FIA em Viena, na Áustria, ao anunciar que estava se aposentando da categoria. Quem fez desta uma aposta solitária em uma casa de apostas de Londres provavelmente está rindo a toa, assim como o grid da F1 inteiro e as demais equipes, exceto a Mercedes.

Nico Erik Rosberg, 31 anos, 206 GPs disputados, 23 vitórias, 57 pódios, 30 poles, 20 voltas mais rápidas e tudo isso resumido em um título em seis temporadas de F1. Pode-se dizer, seguramente, que são números de um bom piloto, daqueles que merecem estar nas estatísticas sem serem, verdadeiramente, lendas da categoria. Uma carreira sólida, sem exageros e talvez ainda devendo algo a quem esperava que Nico, uma jovem promessa nos tempos de Michael Schumacher que derrapou, bateu cabeça, mas se concentrou e venceu. Agora, o momento é de aproveitar a família e outros prazeres da vida de pai, marido e piloto por diversão. Talvez os motivos para esta parada repentina.

O campeão de 1958, Mike Hawthorn, mal pode aproveitar o repouso das pistas, falecendo um ano depois em um acidente automobilístico na Inglaterra (Reprodução)

O campeão de 1958, Mike Hawthorn, e sua Ferrari. Ele mal pode aproveitar o repouso das pistas logo depois do título e aos jovens 29 anos, falecendo um ano depois em um acidente automobilístico na Inglaterra (Reprodução)

Alain Prost teve uma nave em mãos em 1993. Depois de carimbar seu quarto título, o Professor anunciou que se retirava da categoria (Reprodução)

Alain Prost teve uma nave em mãos em 1993. Depois de carimbar seu quarto título, o Professor anunciou que se retirava da categoria (Reprodução)

É só a terceira vez em 66 anos de história da F1 que o campeão vigente pendura o capacete e as luvas. Em 1958, no alto da carreira e defendendo a Ferrari, o britânico Mike Hawthorn faturou o título da temporada daquele ano um ponto a frente da lenda Sir Striling Moss, a qual usou de um cavalheirismo absurdo ao interceder pelo jovem piloto depois de uma desclassificação no GP de Portugal naquele ano. Mike tinha tão reles 29 anos e nem pôde curtir muito tempo os louros do retiro. Ele faleceu um ano depois em uma acidente automobilístico em Guildford, Inglaterra.

O segundo a se retirar depois de um título mundial é um dos mais celebrados até hoje pela categoria. Do alto dos seus 38 anos de idade e 13 de F1, Alain Prost pediu pra sair ao fim de 1993, quando conquistara seu quarto título na carreira, o primeiro e único a bordo da fabulosa Williams daqueles idos. Ele já havia dado uma pausa sabática na carreira ao fim de 1991, quando saiu quase chutado da Ferrari depois de falar demais do carro e do time. Chegou a dar umas voltas na Ligier de 1992 e, no ano seguinte, teve apenas Ayrton Senna como calo para bisar o quarto campeonato. Quem bem o conhece sabe que o francês, até hoje, é um entusiasta do automobilismo, seja pela prática dele na França ou pelo filho, Nicolas Prost, se aventurando na F-E.

Passar mais tempo com a esposa Vivian (foto) e o filho, um dos argumentos mais fortes para Nico retirar-se das pistas. E está certo ele (Getty Images)

Passar mais tempo com a esposa Vivian (foto) e o filho, um dos argumentos mais fortes para Nico retirar-se das pistas. E está certo ele (Getty Images)

Do moleque perdido ao campeão maduro

Vindo com relativo sucesso nas categorias inferiores (sendo até campeão da GP2 em 2005), Nico Rosberg surgiu para a F1 em 2006, ao volante do então raquítico Williams daquele ano. Três anos antes, Nico já havia entrado para a história da categoria como um dos mais jovens a pilotar um monoposto do circo. Tinha só 17 anos quando pilotou o Williams-BMW em Jerez de la Fronteira, em um dia de testes onde teve a companhia de outro filho de peixe: Nelsinho Piquet, à época a caminho da GP2. E pensar que Rosberg queria mesmo era ser engenheiro aerodinâmico na F1, uma espécie de Adrian Newey alemão, mas os desempenhos na pista falaram mais alto.

Em 2003, ainda moleque, o pai coruja e campeão mundial Keke Rosberg arruma um teste para o filho, que aos 16 anos, é o mais jovem a pilotar um F1. No mesmo dia, a companhia de outra dupla de pai e filho famosa: Nelson e Nelsinho Piquet Reprodução)

Em 2003, ainda moleque, o pai coruja e campeão mundial Keke Rosberg arruma um teste para o filho, que aos 17 anos, é o mais jovem a pilotar um F1. No mesmo dia, a companhia de outra dupla de pai e filho famosa: Nelson e Nelsinho Piquet (Reprodução)

Na estreia na F1, em 2006. As complicações de estar numa Williams decadente e sem recursos com um fraco motor Cosworth. Apenas quatro pontos, acidentes e talento em questão Reprodução)

Na estreia na F1, em 2006. As complicações de estar numa Williams decadente e sem recursos com um fraco motor Cosworth. Apenas quatro pontos, acidentes e talento em questão (Reprodução)

Os três primeiros anos de Nico na F1 foram uma penúria, em parte mais se devendo pelo momento decadente da Williams na categoria. Sem os propulsores da BMW desde 2005, o time de Grove se arrastava com projetos equivocados, conservadorismo e o namoro com a rabeira do grid. No ano de estreia, 2006, a equipe contava com motores Cosworth, já em fim de carreira na categoria. Nico não registrou muito além de quatro pontos, alguns acidentes e reputação arranhada.

Os outros dois anos também não foram lá muito produtivos. No período de Williams foram dois pódios, ambos em 2008 nos GPs da Austrália e em Cingapura. Em 2009, a Mercedes estava revivendo a equipe de fábrica fora da F1 desde 1955 a partir da base da vencedora Brawn. A dupla de pilotos naquele ano teria Nico Rosberg e, ninguém menos que Michael Schumacher, ídolo de infância de Nico e que regressava a categoria depois de aposentar-se em 2006 na Ferrari, realizando o antigo sonho de defender a casa de Stuttgart na F1, pelo qual havia disputado provas de Esporte-Protótipos nos anos 90.

Festa no primeiro pódio com o eterno companheiro de categorias de base, Lewis Hamilton, na Australia em 2008. Dois anos depois, estaria dividindo cockpit na reconstruída Mercedes, ao lado do vovô Michael Schumacher Reprodução)

Festa no primeiro pódio com o eterno companheiro de categorias de base, Lewis Hamilton, na Austrália em 2008. Dois anos depois, estaria dividindo cockpit na reconstruída Mercedes, ao lado do vovô Michael Schumacher (Reprodução)

Motorsports / Formula 1: World Championship 2010, GP of Bahrain, 03 Michael Schumacher (GER, Mercedes GP Petronas),   04 Nico Rosberg (GER, Mercedes GP Petronas),  *** Local Caption *** +++ www.hoch-zwei.net +++ copyright: HOCH ZWEI +++

Quem achava que Nico iria tomar flechada do tio Michael deve ter dobrado a língua nos resultados que se seguiram. Enfrentando problemas de desgaste nos pneus, Rosberg teve de suar e saber cuidar do Mercedes nos primeiros anos para fazer bons resultados. Até 2012 foram cinco pódios e uma vitória, com corridas e resultados bem superiores aos de Schumacher, algo impensável para qualquer crítico. O compatriota heptacampeão deixou a categoria em fins daquele ano, sendo sucedido por Lewis Hamilton, numa das contratações mais surpreendentes daqueles tempos.

Nico dividiu a base com Lewis, o primeiro pódio de Nico foi ladeado com Lewis, Nico compartilhou as agruras e triunfos com Lewis e travou seu duelo derradeiro pelo título também com Lewis. A vida Rosberg na F1 esteve quase que todo tempo atrelada a trajetória de Hamilton, o que faz deles uma dupla tão parecida quanto Berger e Alesi, Lauda e Hunt, Mansell e Piquet, Senna e Prost, entre outros, salvando-se em exceções as estatísticas.

Nos tempos do kart...

Nos tempos do kart…

...no primeiro pódio...

…no primeiro pódio…

... e nas vacas gordas. Lewis e Nico andaram juntos praticamente o tempo todo. Da base a consagração, seja de um ou de outro, em trocas de indiretas, brincadeiras, brigas de corrida e dobradinhas Reprodução / Motorsport / Getty Images)

… e nas vacas gordas. Lewis e Nico andaram juntos praticamente o tempo todo. Da base a consagração, seja de um ou de outro, em trocas de indiretas, brincadeiras, brigas de corrida e dobradinhas (Reprodução / Motorsport / Getty Images)

O inglês, no entanto, nem faz muita questão da aposentadoria do agora ex-companheiro, deu de ombros e já avisou que o próximo peão a dividir assento na flecha de prata vai ter que aguentar o tirão. Pudera, contrastando com a vida noturna agitada de Hamilton, Rosberg era um gentleman, um bom pai de família que preferia em vezes reservar-se das luzes do show business para focar-se no que realmente estava em busca. Agora, Nico reserva-se de vez da carreira, curtirá um retiro merecido e estará, sem dúvida, presente entre os nomes inesquecíveis da categoria. Não como lenda, mas como um reconhecido bom piloto que foi.

Button, Massa e Rosberg. Agora, são três aposentados em 2016 Reprodução)

Button, Massa e Rosberg. Agora, são três na fila do INSS em 2016 (Reprodução)

Vaga na Mercedes: Será mesmo um presentão de Natal?

Na onda da notícia, as brincadeiras também pipocaram. As envolvendo o Alonso foram as mais populares Reprodução / Facebook)

Na onda da notícia, as brincadeiras também pipocaram. As envolvendo o Alonso foram as mais populares (Reprodução / Facebook)

E agora, de calmo como estava, os bastidores da F1 voltam a ferver em busca do que será a mais concorrida vaga no grid para 2017. O que não faltou foram as tradicionais chacotas pós-anúncio e as redes sociais foram tomadas por elas durante a última semana. Max Verstappen e Fernando Alonso estiveram no algo das anedotas, muito embora a Mercedes tenha admitido que considera o asturiano como um dos indicados, como sugeriu o próprio Toto Wolff. No entanto, Alonso está bem atrelado a McLaren, e Woking rechaça ao máximo qualquer possibilidade de arrancar o espanhol do seu convívio.

Nessas alturas, vem tudo quanto nome que se possa imaginar. Brincou-se com Felipe Massa, retirado da categoria, brincou-se com tantos outros possíveis contratados, até mesmo Valentino Rossi continuou as brincadeiras de Wolff se oferecendo como substituto no time prateado. Mas o mais cotado por hora é Pascal Wehrlein, o pequeno polegar reserva da casa de Brackley-Stuttgart. Em temporada modesta pela Manor neste ano – que utiliza propulsores Mercedes – Wehrlein pouco pode aprontar na F1, embora saiu com um pontinho na temporada, com o 10º lugar na Áustria, o primeiro ponto da equipe desde o tento do saudoso Jules Bianchi, em Mônaco, 2014.

Wehrlein: Seria ele o possível sucessor de Rosberg? O alemão-mauriciano se diz pronto pro trabalho, mas o perfil que deve agradar a Mercedes é um tipo quase como Felipe Massa, experiente e que colabore no desenvolvimento do carro Reprodução)

Wehrlein, o reserva: Seria ele o possível sucessor de Rosberg? O alemão-mauriciano se diz pronto pro trabalho, mas o perfil que deve agradar a Mercedes é um tipo quase como Felipe Massa, experiente e que colabore no desenvolvimento do carro (Reprodução)

Entrementes, Toto sugere que deva ser um piloto no mesmo perfil de Massa que deveria assumir o carro do team para o ano que vem. Alguém com experiência e que possa contribuir com a equipe no desenvolvimento do carro, que ano que vem também passará no limbo das mudanças de regulamento. No entanto, o que parece um presente de Natal sem tamanho pode ser uma bomba dependendo de como a trupe teuto-inglesa possa se adaptar as novas regras. Isto fora a pressão de ser um piloto do hoje melhor carro do grid, tendo ainda um companheiro complicado de lidar como o badalado Lewis Hamilton, que já avisa que em 2017 vai atrás do que perdeu este ano.

Presente de Natal? Talvez… Mas ponderar nunca foi demais para qualquer piloto que se preze e não queira ter um mimo de grego nas mãos.

GP da França – De volta a Paul Ricard em 2018

Um trecho mítico de volta: Em 2018, a França volta ao calendário e, para nossa alegria, na majestosa pista de Paul Ricard Reprodução)

Um trecho mítico de volta: Em 2018, a França volta ao calendário e, para nossa alegria, na majestosa pista de Paul Ricard (Reprodução)

Que saudades da França! Uma boa notícia para quem gosta de F1 em terrenos clássicos. Depois da volta do GP do México no ano passado (que ainda espera uma corrida verdadeiramente emocionante, mas já é um começo) é a vez da França voltar a sorrir com a confirmação da volta do GP caseiro para a temporada de 2018. E quem achava que seria um outro autódromo tilkiano mequetrefe enganou-se. O palco da volta é clássico ao extremo: A icônica parada de Le Castellet, o fabuloso circuito de Paul Ricard.

A famosa pista da reta Mistral – uma das mais longas do automobilismo – está mais tempo longe da categoria do que o próprio GP da França em si. A última corrida por lá foi no distante 1990, prova que teve a vitória de Alain Prost, conquistada depois de suar sangue diante da atuação surpreendente do italiano/arlequim do grid Ivan Capelli, a bordo de uma raquítica March-Judd, cujo pacote aerodinâmico de um certo Adrian Newey e uma estratégia ousada para a corrida salvavam a pátria no ano difícil. Ayrton Senna subiu ao pódio naquela ocasião, em terceiro. Foi lá também a primeira das únicas duas vitórias brasileiras em solo francês, com Nelson Piquet em 1985, a última dele a bordo da Brabham.

Piquet acelera o Brabham-BMW em 1985, no primeiro dos dois únicos triunfos brasileiros na França. Abaixo, Ivan Capelli dando suador em Prost na última corrida em Le Castellet, em 1990 Reprodução / Sutton)

Piquet acelera o Brabham-BMW em 1985, no primeiro dos dois únicos triunfos brasileiros na França. Abaixo, Ivan Capelli dando um suador em Prost na última corrida em Le Castellet, em 1990 (Reprodução / Sutton)

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O Grande Prêmio da França já é presente no automobilismo desde os pioneiros tempos das corridas de automóveis (afinal, foi na França que nasceu o automobilismo como esporte), tendo um número respeitoso de pistas lendárias que já passaram pela F1 e outras categorias de grande monta. Entre elas também se citam circuitos como Rouen, Reims, Clermont-Ferrand (Charade), a própria (e mítica) Le Mans, Dijon e Pau. O último palco foi a pista de Nevers, em Magny-Cours, que entrou no calendário em 1991, tendo como primeiro vencedor Nigel Mansell, depois de um duelo de verter sangue contra Alain Prost e sua Ferrari 643 tinindo de nova naquela corrida. Lá, Ayrton Senna também arrancou um terceiro lugar naquela prova. Ele nunca venceria na França em sua carreira.

A última na França: Na pista de Magny-Cours, Massa vence e lidera o campeonato pela primeira vez naquele ano. Raikkonen e Jarno Trulli, de Toyota, completaram o pódio Reprodução)

A última na França: Na pista de Magny-Cours, Massa vence e lidera o campeonato pela primeira vez naquele ano. Raikkonen e Jarno Trulli, de Toyota, completaram o pódio (Reprodução)

Se Senna não venceu, Felipe Massa conseguiu o feito. A última vez que a França sediou uma corrida por lá foi em 2008, no fervor da briga entre Massa, Hamilton e Kimi Raikkonen. À época na Ferrari, o brasileiro contou ainda com a sorte para vencer, superando o companheiro finlandês com problemas no carro. Ainda teve de ter nervos de aço para segurar Lewis Hamilton, que voava para cima do brasileiro, sem contar a garoa que caia nas últimas voltas e que complicava tudo. Naquela ocasião, Massa tomaria a liderança do campeonato, sendo o primeiro brasileiro a faze-lo desde Senna, em 1993.

Mas quem deve estar pulando de alegria mesmo é Alain Prost, Le Professeur foi um dos batalhadores para que o automobilismo não morresse na terra da Bleu-Blanc-Rouge, o que infelizmente aconteceu com poucos representantes de talento e a perda do GP francês. Entrementes, assim como Prost, os fãs da F1 também estão sorridentes, especialmente com a volta de um palco clássico aos calendários da categoria.

Prost no pódio em 1990. O último vencedor em Paul Ricard deve estar sorridente outra vez ao ver o GP caseiro regressar ao calendário, mesmo daqui a dois anos apenas Reprodução)

Prost no lugar mais alto do pódio em 1990, depois do duelo com Capelli e ladeado por Senna. O último vencedor em Paul Ricard deve estar sorridente outra vez ao ver o GP caseiro regressar ao calendário, mesmo daqui a dois anos apenas (Reprodução)

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