Um escandalo cinematográfico: A presidente, a amiga e a crise na Coréia do Sul

Quem explica? O escândalo político na Coréia do Sul pegou de surpresa o mundo nos últimos dias. Park Geun-Hye (foto), a primeira mulher presidente do país, é acusada de acobertar um esquema de chantagens e extorsão da amiga e, digamos, conselheira de longa data, Choi Soon-Sil. Um processo de impeachment já foi deflagrado e a agitação nas ruas de Seul é grande (Reprodução)

Tráfico de influência, chantagem, envolvimento com seitas, resistência a renúncia. A única diferença que há neste caso todo com as crises que o Brasil vive é o sentimento de vergonha, que mais pode ser jogada de marketing para livrar o nome da lama total. E quem pensa que um conto deste acontece num país africano, do leste europeu ou até por aqui mesmo engana-se. São estas denuncias e acontecimentos que tem tirado o sono da política da Coréia do Sul nos últimos dias.

Seul parece nunca ter assistido isso, e pela primeira vez na história está passando por momentos tão tensos politicamente quanto os vividos no período de reconstrução após a guerra na península. O centro do escândalo – que já vem se desenrolando há alguns dias – é a presidente do país, Park Geun-Hye, primeira mulher a governar a nação e que é denunciada por integrar um esquema de corrupção e influência encabeçado por sua amiga de 40 anos de convivência: Choi Soon-Sil.

Nas ruas de Seul e outras cidades sul-coreanas, o ritmo e bailar do K-pop parece ter sumido das TVs nos centros e nas casas com o acompanhamento quase diário do caso. Na última sexta-feira (09/12), chegou a notícia de que o parlamento decidiu pelo afastamento temporário da governante por 234 votos a favor, 56 conta, sete nulos e duas abstenções. Agora, o tribunal constitucional terá 180 dias de prazo para avaliar informações e concluir se Geun-Hye sofrerá ou não o impeachment definitivo.

Nas ruas da capital, Seul, os protestos contra a presidente tomaram de assalto as calçadas da sempre movimentada cidade. Uma espécie de revolta coletiva desde a revelação do escândalo Reprodução)

Nas ruas da capital, Seul, os protestos contra a presidente tomaram de assalto as calçadas da sempre movimentada cidade. Uma espécie de revolta coletiva desde a revelação do escândalo (Reprodução)

Park Geun-Hye: Da filha ferida a presidente de fachada

Filha do ex-presidente sul-coreano Park Chung-Hee (governou o país de 1963 à 1979), Park Geun-Hye assumiu o cargo de mandatária do país em 2013, e assim o seu antecessor – Lee Myung-Bak, é contra o que é chamado por lá de Sunshine Policy, ou Política do Pôr-do-sol. A postura da presidente é mais dura ante as agressões dos vizinhos do Norte, mesmo defendendo a unificação da península. Alias, se ela tem uma postura dura nas relações com Pyongyang isto pode ter um bom motivo vindo do passado: Sua mãe, Yuk Young-Soo, foi assassinada em 1974 por um espião norte-coreano no Teatro Nacional, durante as comemorações do dia da independência daquele ano. Atentado que a marcou para a vida inteira.

Veja abaixo:

A jovem Geun-Hye e o pai, então presidente sul-coreano Park Chung-Hye. Morte da mãe obrigou a jovem filha a voltar da Europa para fazer as funções de primeira-dama diante do país em choque Reprodução)

A jovem Geun-Hye e o pai, então presidente sul-coreano Park Chung-Hee. Morte da mãe obrigou a jovem filha a voltar da Europa para fazer as funções de primeira-dama diante do país em choque Reprodução)

No período de governo de Geun-Hye, a economia segue firme mantendo o país como um dos mais destacados entre os chamados Tigres Asiáticos, além de um exemplo de aliança entre trabalho e tecnologia até maior que o vizinho Japão. Na cultura, a Coréia do Sul experimentou um salto e uma descoberta dos talentos do K-pop, o que fez até o cantor Psy (autor da mundialmente famosa Gangnam Style) ser premiado pela presidente pela contribuição que o intérprete deu a divulgação da cultura sul-coreana. Um tanto surreal para um astro pop da noite pro dia, mas que aconteceu.

Voltando a morte da mãe, Geun-Hye estava estudando na Europa na época e teve de voltar a Seul para assumir, de certa forma, o papel de primeira-dama do governo do pai. Neste período ela conheceu Choi Tae-Min, autoproclamado líder de uma seita religiosa intitulada Igreja da Vida Eterna. Uma organização xamânica misteriosa criada por Tae-Min, à época um policial que do dia para noite virou pastor da dita igreja. A infeliz menina caiu no conto do vigário e as várias cartas enviadas a Geun-Hye sobre o espirito da mãe que visitara o tal pastor virou uma amizade sólida e uma virada na conta bancária do ex-homem da lei.

O presidente, a filha e o pastor Choi Tae-Min, criador da seita xamânica intitulada Igreja da Vida Eterna. A filha de Tae-Min, Choi Soon-Sil viria a ser amiga e confidente de Geun-Hye por anos, exercendo

O presidente, a filha e o dito pastor Choi Tae-Min (a direita), criador da seita xamânica intitulada Igreja da Vida Eterna. A filha de Tae-Min, Choi Soon-Sil viria a ser amiga e confidente de Geun-Hye por anos. Ambos exerciam forte influência na família, já que, segundo eles, a mãe da jovem filha do presidente havia se comunicado com o ex-policial e criador da seita (Reprodução)

Bem relacionada amigavelmente com o pastor Tae-Min, Geun-Hye acabou fazendo amizade das grandes com a filha dele, Choi Soon-Sil. É nesta hora que entra na história a famigerada mulher que causou este redemoinho na política sul-coreana. A influencia do pastor era tamanha que a jovem Park chegou a livra-lo de interrogatórios com a justiça de Seul já que Tae-Min era a única forma, segundo a filha do presidente, de se comunicar com a mãe morta.

Park Chung-Hee teve o mesmo caminho da esposa: Foi assassinado em 1976, mas ao contrario da amada morta no Teatro Nacional, o presidente sul-coreano foi abatido por um funcionário da Agencia Central de Inteligência do país. Ele usou como argumento para o crime, justamente, a relação da família do presidente com a seita, argumentando que, com essa proximidade de Geun-Hye com a dita igreja, Chung-Hee não tinha mais significado para estar a frente da nação.

Soon-Sil mais próxima da amiga… e do poder

Park Geun-Hye, de azul, e Choi Soon Sil, de branco apontando algo. Duas amigas e uma relação obscura de influência psicológica e poder Reproduçãp)

Park Geun-Hye, de azul, e Choi Soon Sil, de branco apontando algo. Duas amigas e uma relação obscura de influência psicológica e poder (Reprodução)

O pai de Soon-Sil, pastor da seita, morreu em 1994, e dali por diante a relação de Geun-Hye com a herdeira da tal Igreja ficou ainda mais intensa e, por que não, perigosa. Eleita presidente em 2013, Soon-Sil agora era a BFF (best friend forever, na giria jovem) da mulher mais poderosa do país e, por que não, da Asia em si. O que ninguém sabia era o que se passava nos obscuros da vida de ambas.

E toda a desconfiança começou com a ida da filha de Soon-Sil para uma das melhores universidades do país, a Ewha Womans University, no centro de Seul. No entanto, a moça não tinha um histórico escolar admirável e, a partir disso, os boatos de um favorecimento começaram a pipocar. A situação das duas amigas ficaria ainda pior quando a TV estatal do país, a JTBC, encontrou um tablet deixado por Soon-Sil num escritório abandonado. Totalmente desbloqueado para o acesso de qualquer um.

Tudo começou aqui. A Ewha Womans University, onde a filha de Soon-Sil entrou mesmo sem ter histórico escolar para tanto. Suspeitas de favorecimento rolaram pelo ar Reprodução)

Nele, registros de discursos da presidente com alterações feitas por Soon-Sil, boletins da presidência, agenda de férias, documentos ultrassecretos e tudo mais que tinha relação com o alto poder sul-coreano. As investigações começavam a desenterrar coisas ainda piores no submundo da Casa Azul. Choi Soon-Sil teria sido responsável por chantagear e extorquir cerca de US$ 69 milhões (cerca de R$ 200 milhões) de duas grandes empresas do país através de duas ONGs controladas por ela. Ou seja, por trás da presidente, a amiga de longa data era quem, de fato, parecia estar mandando na Coréia do Sul.

Apelidada de rasputina pela imprensa e pelos manifestantes contra a presidente – numa referencia ao mago Rasputin, que exercia influencia no reinado do czar Nicolau II na Rússia pré-revolução – Soon-Sil tem atualmente 60 anos e foi detida pelas autoridades sul-coreanas tão logo o tamanho do escândalo formado e a veracidade das provas cada vez mais assustadora. A população foi as ruas e só restou a Geun-Hye correr para a TV para negar as acusações e pedir desculpas. Nada feito.

Suicídios?: Uma teoria maluca

A balsa Sewol adernada no naufragio que vitimou 300 pessoas, a maioria estudantes e professores. Uma tragédia premeditada pela seita? Reprodução)

A balsa Sewol adernada no naufrágio que vitimou 304 pessoas, a maioria estudantes e professores. Uma tragédia premeditada pela seita? (Reprodução)

É claro que no meio do rebuliço todo tudo quanto que é história e teoria oriunda da relação das duas ganha destaque no meio das rodas de conversa das grandes cidades da Coréia do Sul. Uma delas soa ainda mais macabra se observada do chamado ponto de vista das coincidências. Trata-se da ligação de acontecimentos envolvendo a presidente sul-coreana e o naufrágio da balsa Sewol em abril de 2014, vitimando 304 pessoas, entre eles 250 estudantes e 11 professores.

Há teorias que dizem que o fato tem ligação com a seita da qual Geun-Hye faz parte, já que no mesmo dia a presidente não se pronunciou e tampouco era encontrada para dar alguma palavra a imprensa. Foram sete horas de ausência até mandatária aparecer. Ela estaria, segundo rumores, participando de um memorial em homenagem ao fundador da seita e pai de Soon-Sil, o tal pastor Choi Tae-Min. A cerimônia teria acontecido no mesmo dia do acidente que, segundo outros teóricos de boteco, teria sido obra de uma seita bizarra, como a tal da Igreja da Vida Eterna.

Presidente interino e reflexões do caso de cinema

Hwang Kyo-Ahn, o primeiro-ministro, agora presidente interino com uma missão complicada nas mãos: Apaziguar os ânimos entre os sul-coreanos (Reprodução)

Hwang Kyo-Ahn, o primeiro-ministro, agora presidente interino com uma missão complicada nas mãos: Apaziguar os ânimos entre os sul-coreanos (Reprodução)

Sejam quais rumores são, a verdade é que agora, de forma interina, a Coréia do Sul está sendo governada por Hwang Kyo-Ahn, primeiro-ministro do país e que tem uma difícil missão diante dos sul-coreanos preocupados e, ao mesmo tempo, revoltados com a situação nacional: Normalizar as instituições, garantir a segurança e estabilizar o mercado preocupado com todo o turbilhão em que Seul se envolveu numa situação em que, de fato, um fantoche parecia governar a nação. E errados sem dúvida não estavam grande parte dos sul-coreanos que saíram as ruas com palavras de ordem, muitos deles fantasiados de marionetes (Geun-Hye) e manipuladores (Soon-Sil).

Por experiência própria ou por observar quadros semelhantes vindos da Asia, o caso de Park Geun-Hye é muito mais complicado do que qualquer desvio de conduta de um governante asiático. Trata-se de uma espécie de governo sem governante, alguém que tomava as rédeas por trás de quem o é por direito. Diferentemente daqui, quem pisa na bola no oriente não consegue esconder a vergonha, mesmo que por várias vezes se esquive do que é denunciada. Há algum tempo sabia da postura de durona de Geun-Hye, talvez seja por isso que não esteja eu mesmo engolindo o que ela passa de arrependimento aos seus concidadãos.

Uma marionete: A visão dos sul-coreanos que protestam e externam a revolta de ver a mais poderosa mulher do país manipulada pela amiga num escândalo cinematográfico, digno de filme de drama. Soon-Sil (abaixo) já está presa preventivamente e a presidente afastada temporariamente enquanto as investigações correm (Reprodução)

Uma marionete: A visão dos sul-coreanos que protestam e externam a revolta de ver a mais poderosa mulher do país manipulada pela amiga num escândalo cinematográfico, digno de filme de drama. Soon-Sil (abaixo) já está presa preventivamente e a presidente afastada temporariamente enquanto as investigações correm (Reprodução)

1630659

O processo de impeachment e investigações deve durar 180 dias, isto se a presidente afastada mudar de ideia do discurso de esquiva e renunciar definitivamente. Choi Soon-Sil está presa preventivamente, mas deve ter um destino ainda mais inglório do que sua fiel amiga de longa data, já que partia dela os mandos e desmandos de um país inteiro. E a tal igreja do finado pai de Choi? Ninguém sabe como está reagindo, mas feliz é o que não está ao ver a filha do mentor detida por tamanho rebuliço.

Aguardemos o desfecho desta história que, sem dúvida, dá um bom roteiro para Hollywood. O conto da presidente coreana e sua amiga fiel que envergonharam Seul e todo mundo numa trama sem igual na política do planeta.

Um comentário sobre “Um escandalo cinematográfico: A presidente, a amiga e a crise na Coréia do Sul

  1. Pingback: Moon Jae-In: Um novo presidente para velhos (e complicados) problemas na Coréia do Sul | A Boina

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s