Vida Alves: O adeus da história viva (e do beijo pioneiro)

Uma veterana da TV e uma memorialista de mão cheia. Vida Alves tinha muito mais do que a preservação da memória da TV brasileira na mente, mas também as lembranças de grandes e piomeiros momentos como atriz. Ela nos deixou na terça-feira a noite, aos 88 anos bem vividos entre atuação e histórias da nossa televisão Tiago Queiroz/Estadão Conteúdo/Arquivo)

Uma veterana da TV e uma memorialista de mão cheia. Vida Alves tinha muito mais do que a preservação da memória da TV brasileira na mente, mas também as lembranças de grandes e pioneiros momentos como atriz. Ela nos deixou na terça-feira a noite, aos 88 anos bem vividos entre atuação e histórias da nossa televisão (Tiago Queiroz/Estadão Conteúdo/Arquivo)

Uma das mais importantes personagens da teledramaturgia nacional nos deixou na noite desta última terça-feira (22/01). Atriz, escritora, memorialista e pioneira da TV brasileira, Vida Alves passou da qualidade de lenda viva a um vulto histórico dos maiores já vistos em nossa televisão. Ela estava internada no Hospital Sancta Maggiore, em São Paulo, recuperando-se de complicações de saúde e foi vitimada por uma falência múltipla de órgãos. Ela tinha 88 anos e está sendo velada no Cemitério do Araçá, também na capital paulista, onde também será sepultada.

Mineira da pacata Itanhandu, Vida Amélia Guedes Alves nasceu em 1928 e começou a vida artística atuando no rádio. No entanto, seria na televisão que ela escreveria as páginas mais marcantes de seus 70 anos de carreira. Nesta trajetória pela telinha, contracenando com outros mitos da teledramaturgia, somaram-se 25 produções, entre novelas, séries e teleteatros, a grande maioria nos anos 60, além de três filmes. No entanto, dentre tantos trabalhos dois deles seriam suficientes para coloca-la em qualquer compêndio da história de nossa televisão.

Vida e Wálter Forster, um beijo recatado que entraria para a história das novelas brasileiras para sempre. O registro? Apenas na mente de quem viveu aquele momento Reprodução)

Vida e Wálter Forster, um beijo recatado que entraria para a história das novelas brasileiras para sempre. O registro? Apenas na mente de quem viveu aquele momento (Reprodução)

Foi ainda no tempo da TV a lenha, em 1951, que Vida fez história ao ser protagonista junto de outro grande ator do passado – Wálter Forster – da primeira cena de um beijo de que se tem notícia na televisão nacional, na novela Sua Vida me Pertence, na TV Tupi, a primeira novela da TV nacionalUma ousadia para aqueles tempos tão inocentes e que não foi registrada nem pelo fotógrafo da Tupi – que achou a cena ousada demais – nem por nenhum rolo de filme, já que naqueles idos as novelas eram rodadas ao vivo.

Uma cena simples e um beijo técnico tão esquematizado para à época que valeria uma história só para ele. Segundo Vida, Walter – que era também o diretor artístico da Tupi – praticamente preparou palmo a palmo um terreno que, hoje, é tão corriqueiro quanto. Ele explicou ao meu marido, numa visita à minha casa, como seria. Absolutamente marcado. ‘Tal postura, tal olhar, a boca ligeiramente aberta, me aproximo e fico uns segundinhos’. Assim foi feito, sem ensaio, tudo ao vivo, disse Vida ao portal G1 em 2014.

O único registro Vida e Geórgia Gomide selam os lábios no teleteatro Calúnia, do TV de Vanguarda TV Tupi) em plenos anos 60. Um recatado beijo gay que também entrou para a história Reprodução)

O único registro: Vida e Geórgia Gomide selam os lábios no teleteatro Calúnia, do TV de Vanguarda TV Tupi) em plenos anos 60. Um recatado beijo gay que também entrou para a história (Reprodução)

E ela iria mais longe, em plenos anos 60 (1963 ou 1964, não há registro certo) protagonizaria também o primeiro beijo gay da TV brasileira, uma ousadia para a época. Foi no teleteatro Calúnia, gravado para o programa TV de Vanguarda também da TV Tupi. Ela contracenava na cena com a atriz Geórgia Gomide, a qual fazia um par romântico naquela produção.

Um ato que, apesar do conservadorismo daqueles idos, não chocou tanto quanto poderia ser, Eu me lembro dos comentários. Diziam que ‘estamos ficando extravagantes’. Mas não foram tão exagerados, afirmou também ao G1. Há apenas uma foto da cena, e nada mais. E isto mais de 40 anos antes do tão falado beijo dos personagens Niko (Thiago Fragoso) e Felix (Mateus Solano) na novela Amor a Vida, produzida pela Rede Globo em 2014.

O Pró-TV, responsável por preservar a memória de nossa televisão. Obra da memorialista Vida Alves Reprodução)

O Pró-TV, responsável por preservar a memória de nossa televisão. Obra da memorialista Vida Alves Reprodução)

De histórias em histórias, Vida Alves acabou como uma defensora de tantas histórias que a TV brasileira pode produzir em mais de 50 anos. Em 1995, juntamente de outros artistas veteranos, criou a Associação dos Pioneiros Profissionais e Incentivadores da Televisão Brasileira – a Pro-TV, com o objetivo de preservar a história da industria televisiva tupiniquim. Ela também comandava o Museu da TV e até na própria casa guardava peças icônicas da história da telinha, em fotos e objetos.

E de histórias em histórias, Vida Alves ficou marcada nelas no mundo tão complexo e genioso da televisão nacional. Entre tantos vultos de um passado distante, Vida tem seu lugar grifado com honras, especialmente por ter em si a vontade de preservar estes momentos passados vividos e construídos por quem ainda faz a história da nossa TV. Uma vida feita de grandes histórias, e de grandes beijos.

Vida Alves (1928-2017)

Reprodução)

(Reprodução)

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