Gramming & Marbles (F1): O dia que Sonic perdeu para Senna

11 de abril de 1993. Um dia épico para a F1, para os games, para uma reflexão poética da corrida entre Ayrton Senna e Sonic, aquele que é o ouriço mais rápido do mundo (Reprodução)

11 de abril de 1993. Um dia épico para a F1, para os games, para uma reflexão poética da corrida entre Ayrton Senna e Sonic, aquele que é o ouriço mais rápido do mundo (Reprodução)

(André Bonomini)

Todo mundo que curte, segue e come F1 diariamente jamais esquece (mesmo que tendo névoas na lembrança) da sua primeira experiência diante da categoria máxima do automobilismo mundial. A primeira corrida, os primeiros nomes, as primeiras sensações nas brigas, momentos tensos, rodadas e acidentes. Alguns gravam quase tudo detalhe por detalhe, e quando volta a assistir esta passagem única na vida não deixa de recordar também a inocência de ver a F1 com imaginação de criança.

Talvez eu seja meio privilegiado. Mesmo com espasmos memoriais, minha primeira experiência com F1 foi, simplesmente, um sonho para qualquer fã e um motivo de emoção para nós que seguimos o circo onde quer que vá. Eu era um garoto de reles dois para três anos de idade quando meu pais me cativava a ver corridas nos sonolentos domingos pela manhã. Era dia da terceira etapa do mundial de 1993, e de uma conjunção de fatos que ficou na história e marcou uma geração: O dia que Sonic, o ouriço mais veloz do mundo, foi vencido por um sujeito que usava vermelho como Eggman, mas que queria apenas ser o mais rápido e nada mais.

A lembrança aos amigos e amigas do velho Fórum Portal Sonic (Reprodução)

A lembrança aos amigos e amigas do velho Fórum Portal Sonic (Reprodução)

Eu contei esta história em 2008, ainda no antigo Fórum Portal Sonic, quando eu tinha 18 anos e quase nenhum domínio na construção de texto. Lembro-me do dia que encontrei este fórum na internet e de tantos amigos e amigas que hoje ainda tenho comigo, mesmo sem nunca ter jogado um único game da franquia do ouriço azul. No entanto, esse cruzamento de fatos entre Sonic e a F1 me permitiu voltar no tempo em que meu pai, animado com as corridas do circo, me acordava e me cativava a acompanhar as transmissões.

Era uma criança ainda descobrindo o mundo a volta, tendo que pedir tudo aos meus pais e ainda sem saber contar de dois em dois e amarrar os sapatos. No entanto, neto e sobrinho de taxistas e embalado pela pátria sobre todas que vivianos ainda naquele ano o que não me faltavam eram carrinhos, especialmente de corrida. Um mês depois meu aniversário teve temática de F1, com posteres na parede e um bolo em forma de autódromo com carrinhos e tudo. Doces momentos que jamais esqueci, tal como este vago espasmo memorial.

Eu e meu avô ao fundo, aos três anos de idade. Aquela vontade de estar perto de quatro rodas, velocidade, coisas que se confundiram com a F1 Arquivo Pessoal)

Eu e meu avô ao fundo, aos três anos de idade. Aquela vontade de estar perto de quatro rodas, velocidade, coisas que se confundiram com a F1 (Arquivo Pessoal)

Senna, Prost e Schumacher dividindo curvas em Kyalami. Um ano que previa um acachapante domínio das Williams e que, até ali, assistia ao contrariar da lógica de Ayrton e a inferior McLaren Sutton)

Senna, Prost e Schumacher dividindo curvas em Kyalami. Um ano que previa um acachapante domínio das Williams e que, até ali, assistia ao contrariar da lógica de Ayrton e a inferior McLaren (Sutton)

No entanto, longe de todo esse saudosismo, uma história corria. Já havíamos vivido duas provas em 1993 e assistido o desfile das Williams de Alain Prost e Damon Hill, que mais uma vez despontavam como os grandes carros favoritos a vitórias no ano. Embora, claro, o início daquela temporada não parecia indicar isso. Mesmo com um equipamento inferior, Ayrton Senna operava pequenos milagres e estava nas cabeças com Prost naquele início de ano. Foi segundo na Africa do Sul e faturou no Brasil, sob chuva e loucura, enquanto o Professor vencia em Kyalami e sucumbia ao dilúvio de Interlagos.

Para quem ainda não conhecia, Sonic The Hedgehog, o cartaz maior da Sega e icone dos games que viveria um dia único em 1993 Reprodução)

Para quem ainda não conhecia, Sonic The Hedgehog, o cartaz maior da Sega e icone dos games que viveria um dia único em 1993 (Reprodução)

Naquele fim de semana, a F1 pousava em uma pista nova. Na verdade, para alguns deles – e especialmente Senna, que testou um F1 pela primeira vez por lá em 1983, e em um Williams, diga-se – uma velha conhecida de categorias inferiores. Localizado entre colinas no condado de Leicestershire, Inglaterra, a pista de Donington Park era uma parada clássica em categorias de turismo, protótipos e monopostos como a F3. O circo pousava lá num fim de semana que alternou um tempo bonito a uma chuva chata no domingo da prova. Mas não era só Senna e o circo que pousavam lá, e ai voltamos a história do Fórum Portal Sonic.

O ano de 1993 pode ser dito como um dos anos de ouro da Sega no mercado de games no mundo. Faziam apenas dois anos que o mundo conhecia o ouriço mais veloz do mundo (tese contestada por Rainbow Dash até hoje). Sonic The Hedgehog era a arma da marca para combater em pé de igualdade o já consagrado Mario Bros., o italiano bigodudo de quepe vermelho e jardineira que faturava milhões pelos lados da Nintendo. E a Sega vinha conseguindo entrar na briga com louvor, especialmente com o advento do Mega Drive.

A imagem de Sonic era consolidada mundialmente numa tamanha velocidade que é impossível dissociar o ouriço daquele mundo pop de início dos anos 90. E no mundo dos negócios, publicidade é a alma do negócio e todo mundo sabe bem disso. Em busca de difundir ainda mais a imagem da marca e de seu carro-chefe, a Sega não poderia ter outra ideia senão associar Sonic a velocidade da F1, e foi o que foi. Entre os patrocinadores de peso da então poderosa Williams, como Camel, Canon e Elf, lá estava a Sega e Sonic, dando o ar da graça. Ao que se recorda, era a primeira vez (e talvez a única) que uma marca de games patrocinaria uma equipe de F1.

Prost, Hill e... Sonic. A ação publicitária em Kyalami assinalava a presença da Sega na Williams, assimilando a velocidade de Sonic ao poderio da equipe mais forte do grid, armada até os dentes com a tecnologia a seu favor desde os idos de 1991

Prost, Hill e… Sonic. A ação publicitária em Kyalami assinalava a presença da Sega na Williams, assimilando a velocidade de Sonic ao poderio da equipe mais forte do grid, armada até os dentes com a tecnologia a seu favor desde os idos de 1991 (Reprodução)

Era domingo de páscoa, e todo esse universo iria colidir diretamente com a pista inglesa, que para a corrida recebeu um tratamento especial por parte da Sega. Placas que margeavam a pista, que encobriam a reta, em quase todo o lugar a marca e Sonic estavam presentes. Seria o ambiente perfeito, quem sabe, para uma vitória tranquila. Tal como se desenhava no sábado (isto depois de uma sexta de chuva forte). As Williams fecham a primeira fila, relegando Senna a quarta posição, atrás ainda do atrevido alemão da Benetton que atendia pelo nome de Michael Schumacher.

Mas no dia seguinte, um roteiro que se repetia pela terceira vez em três corridas daquele ano: Chuva. Diferentemente de Kyalami e Interlagos, desta vez não teria trégua, ou as tréguas seriam em intervalos que tornariam a prova uma verdadeira loteria. Prost, como todo mundo bem sabe, não era o pato que adora água, mas nada que se pudesse prever antes da luz verde. Todo mundo iria largar de pneu de chuva, mas sem chuva. No entanto, iria ter chuva ou não?

O Spitfire em destaque no mergulho pós-largada em Donington. Vai acontecer um espetáculo em poucos instantes Reprodução)

O Spitfire em destaque no mergulho pós-largada em Donington. Vai acontecer um espetáculo em poucos instantes (Reprodução)

Com dúvidas ou sem dúvidas, deu-se a largada. No Brasil, quem começava a abrir os ovos de páscoa parou por um momento. Quem começava a temperar o assado para aquele domingo parou por um momento. Quem limpava os olhos ao acordar em cima do laço da largada… parou por um momento. Senna patinou, caiu para o quinto lugar e, tão logo pintou a primeira chance tratou de decidir a verdade da prova. E quem viu ao vivo, como eu (que, ao menos tentava entender as reações de meu pai) não esqueceu mais do que viu.

O McLaren #8 superou a Michael Schumacher, que veio alargando espaço na largada, passou pelo Sauber de Karl Wendlinger como um vulto, colou em Damon Hill e o deixou para trás sem dificuldades. Tudo isso para encontrar-se lado a lado com um escorreguento Prost no primeiro grampo que trazia para a reta para tomar-lhe a ponta. Estava feito o espetáculo, o miráculo da primeira volta mais espetacular da história da F1, como até hoje é bradado por quem entende da coisa. E não dá para dizer o contrário, não duvido que teve gente que nem sentou acompanhando os lances daquela volta.

Aqui cabe aquele transcendente que separa o real do abstrato, o texto memorialístico da poesia. Lembram de Sonic? Do ouriço mais veloz do mundo? Pois então, conta a história que ele nunca foi de se dar com a água e nunca soube nadar. Correr em pista molhada não deveria ser tão simples como deveria. E quem parece surgir diante das névoas daquele lugar que fazia o lembrar de Mobotrópolis? Um sujeito vermelho como Eggman, mas bem diferente nas intenções. Seu objetivo não era robotizar ninguém, mas chegar apenas a sua frente. Estava desenhado o enredo de mais um jogo difícil para Sonic e que teria várias fases em um dia.

Varias, diz-se, pois não foi uma corrida fácil para Senna. O brasileiro teve de jogar com os dados certos num intervalo sem chuva para superar Prost mais uma vez, isto quando a pista dava sinais de estar secando. A água volta a cair num espaço curto de tempo e quem tinha tirado os pisantes biscoito é forçado a mudar a tática. Foi nesta que o Professor acabou naufragando. Em uma das paradas, o motor da Williams morre numa saída afobada dos boxes. Foi-se uma semana no pit, como definiria Galvão Bueno, na euforia que o dominava na cabine naquele dia.

No pelotão intermediário, o show de Rubens Barrichello, saído de 12º e brigando com as cobras para um resultado histórico. Seria assim se o Hart V10 não sucumbisse a tão somente quatro voltas pro final LAT Photographic)

No pelotão intermediário, o show de Rubens Barrichello (a frente), saído de 12º e brigando com as cobras para um resultado histórico. Seria assim se o Hart V10 não sucumbisse a tão somente quatro voltas pro final (LAT Photographic)

Enquanto isso, no intermédio da prova, outro brasileiro vinha remando e se aproveitando das bolas divididas. Era o ainda menino Rubens Barrichello, que assombrava quem assistia a prova entre um gole de champanhe e outro nos corredores do paddock. Saído de um ano terrível como fora 1992, a Jordan entregava ao brasileiro e ao sempre prestativo Thierry Boutsen (que se apresentava ao dever naquela corrida) um projeto simples com motor Hart V10 consistente. Foram atuações discretas nas primeiras provas do ano até o dilúvio de Donington.

Barrichello, para começar, teve de ganhar na queda de braço contra Eddie Jordan, que preferia o cambio manual ao semi-automático para o carro de Rubens. Prevaleceu o pedido do brasileiro, que largava em uma boa 12ª posição. Quem piscou os olhos ou estava paralisado com o espetáculo de Senna tomou um susto ao ver Rubinho cruzar a primeira volta em quarto! E tudo isso encarando as cobras, como Schumacher e Jean Alesi de igual para igual.

No correr da prova, e com a estadia de uma semana de Prost no box, Barrichello se viu no segundo lugar, que viraria terceiro ao ser passado por Hill, mas sem mais ninguém que pudesse o ameaçar. Infelizmente, para desespero do menino de tio Eddie, a distribuição de gasolina do motor Hart pede demissão a quatro voltas do final, deixando o Jordan inerte na pista. Era o fim da odisseia de Rubinho numa prova memorável e tampouco lembrada atualmente.

A vitória é lembrada por muitos como a maior de Senna na F1. E para esta crônica, carregada de simbolismo ao dominar o palco preparado para Sonic e a poderosa Williams triunfarem

A vitória é lembrada por muitos como a maior de Senna na F1. E para esta crônica, carregada de simbolismo ao dominar o palco preparado para Sonic e a poderosa Williams triunfarem (Reprodução)

Lágrimas a parte, Senna despencava com uma volta a frente da corrida inteira. A bandeirada estava perto. De volta a realidade virtual, Sonic ofega, parece não entender ou não compreender se corre com cuidado ou acelera o que tem nos pisantes vermelhos. A sua frente, aquele cidadão vestido vermelho como Eggman, querendo apenas o vencer, derrubar paradigmas ao menos naquela ocasião. tentou, escorregou, delirou e, bem diferente de seu gênio competitivo, parecia estar entregando seus rings pelo caminho.

Enfim, a bandeirada. Em minha casa, a vibração de meus pais, assim como em várias casas brasileiras extasiadas com o espetáculo de quem a imprensa internacional chamava de Magic Senna. Um espetáculo digno dos bons tempos da F1 e daquela temporada de 1993, tão memorável mesmo sendo tão previsível. Para terminar, o encontro emblemático de Sonic e seu adversário no pódio, na forma de um modesto troféu em cobre. Senna ergue o ouriço e era o vencedor do dia, e o mundo iria dormir mais emocionado naquela noite de domingo de pascoa.

Senna ergue o ouriço ao ar depois do triunfo conquistado. Pudera, há algumas corridas, levada ao lado no cockpit a simpatica ilustração de um ouriço atropelado. O corredor vermelho como Eggman havia vencido a prova mais dificil de Sonic, num domingo de páscoa inesquecível Reproduçao)

Senna ergue o ouriço ao ar depois do triunfo conquistado. Pudera, há algumas corridas, levada ao lado no cockpit a simpática ilustração de um ouriço atropelado (abaixo). O corredor vermelho como Eggman havia vencido a prova mais difícil de Sonic, num domingo de páscoa inesquecível (Reprodução)

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Anos se passaram e o mundo, que muda tanto, continua mudando. Senna não está mais entre nós, correndo na tal pista que papai do céu fez no firmamento. A F1 ainda busca voltar ao caminho daqueles tempos, assim como a Williams, que outrora poderosa, ainda está presa ao conservadorismo e sonha reviver os dias de glória. Assim como Sonic, que de um ícone dos anos 90, volta e meia retorna em um novo jogo que agrada mais a um povo mais cult e vanguardista de games. E eu? Bem, estou aqui no G&M junto do grande amigo-irmão Douglas Sardo recordando, observando, comentando, elogiando e criticando o que gira em torno deste mundo maravilhoso que é o circo da F1.

Mas se tudo precisava ter um ponto inicial, não poderia ter sido melhor para mim, numa passagem tão importante na vida. O dia que Sonic, aquele que muitos dizem ser o ouriço mais rápido do mundo, tinha alguém a sua frente.

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