Jornalismo regional: Encolhimento e consequências

Encolhendo: O Jornal do Almoço volta a ser 90% de Florianópolis, sendo reservado apenas blocos para as notícias locais. Uma mudança que reflete o momento da antiga RBS em SC e o encolhimento do espaço local de notícias no estado e, por que não, no Brasil (Reprodução)

Nas minhas saudosas recordações do bom tempo da faculdade, recordo-me de aulas que proporcionavam debates salutares sobre o futuro do jornalismo no nosso cercado. Talvez nós, naquela mente ainda meio adocicada de acadêmicos querendo viver plenamente o mundo da notícia nem pensava que chegaríamos a tempos tão nebulosos quanto estes que vivemos agora.

E, nos acontecimentos de hoje, recordo com clareza uma noite de sexta na sala 109 do IBES Sociesc, quando o professor, radialista e um sábio de mão cheia da comunicação, Arnaldo Zimmermann, nos falava em slides e no conhecimento de causa sobre a tendência daqueles tempos: A regionalização cada vez maior da notícia. Dar espaço cada vez maior as coisas daqui: Fatos, histórias únicas, eventos, gente que faz, bem por este caminho. Eram tempos áureos para o jornalismo caseiro.

Este escriba em visita a RICTV Record Florianópolis, no início de 2014. Um tempo áureo, onde o jornalismo regional era (e ainda é, mesmo com as mudanças) uma bandeira principal (Arquivo Pessoal)

Naquele período, ainda buscava inserção no mercado da notícia, até receber a mão estendida de Alexandre Gonçalves para integrar – como estagiário – a equipe da RICTV Record, isso em março de 2013. Tem quem me encontra e diz que eram os tempos áureos da emissora dos Petrelli aqui em Blumenau.

Fora todo o aprendizado, o que eu via na tela cada vez que rodava o jornal era, muito mais, o Vale e Alto Vale do Itajaí do que outras regiões. Se uma matéria vinda de Florianópolis ou Joinville ia ao ar naquele dia, ou era tempo sobrando para uma produção de gaveta, ou pedido da matriz ou um assunto tenso demais que não pudesse esperar.

Agora, vamos puxar o filme com vigor para os tempos de hoje. Semana passada, uma nota no Informe Blumenau (tocado com primor pelo mesmo Gonça que estendera a mão em 2013) me assustou: Tratava da redução do espaço para notícias locais que o Jornal do Almoço, da RBS (ou Grupo NC, como melhor lhes convém) pretende fazer, a partir de 22 de março.

Quem viveu bem a década de 90 há de recordar como era o espaço local no passado: O grosso vem de Florianópolis, sendo destinado as praças apenas o espaço de um bloco para notícias locais. Veremos a cara do veterano Mário Motta e da bela Laíne Valgas (que este escriba achou sempre que eraVargas”) outra vez.

Laine Valgas e Mario Motta: A dupla da capital de volta as TVs de Blumenau (Reprodução)

Retrocesso? Completo, claro! Não dá pra negar ou acreditar que aquilo que era debatido com orgulho em sala acadêmica, agora, é sombra de um passado distante. A RICTV passou quase pelo mesmo remelexo nos últimos tempos.

O noticiário local noturno desapareceu, restando apenas a produção na capital com matérias e entradas no ar dos repórteres aqui. A produção local da revista de variedades Ver Mais também diminuiu muito. No grosso, muitas matérias da matriz e apenas pequenas notas ou uma e outra produção da emissora blumenauense, e nada mais.

O Jornal do Meio-Dia ainda, e felizmente, é o último reduto televisivo dos fatos locais, e queira Deus que continue assim.

Na estrutura física das emissoras, muita gente saiu, outra gente veio e as direções mudaram de cabeças. Arrisco a dizer que a crise econômica teve seu papel, especialmente em faturamento: Está mais difícil vender, e neste campo, ou refazem-se contratos ou perdem-se os anunciantes. E menos um anunciante, menos verba. Menos verba, menos condição de manter pessoas e operações. É como a casa da gente, numa situação adversa economicamente se sacrifica algo, muda-se um comportamento, por ai.

Alexandre José, que neste mês voltou ao comando do Jornal do Meio-Dia. A RICTV também teve suas alterações profundas neste meio-tempo, mas ainda tem no seu noticiário do almoço um reduto de notícias locais, que espera-se continuar assim (Reprodução)

Já no caso da RBS (Grupo NC, como for…) a história é bem diferente. No ano passado, os gaúchos resolveram arredar pé do estado onde estavam desde maio de 1979. Foi uma despedida cheia de saudosismos, uma certa gratidão e sinais de outros tempos.

Agora, as estruturas que estão em atividade são controladas pelo grupo supracitado, tendo a frente o sr. Carlos Sanchez, milionário da indústria farmacêutica e que vê a comunicação pelas planilhas de gastos, ativos e passivos, como o próprio Gonça tinha nos dito semana passada.

O nome disto para quem trata este campo como um contabilista é reestruturação. Fora as mudanças e encolhimento no espaço local de notícias, as demissões também vem a cavalo, num pacote combo um tanto indigesto.

Fala-se na tal da renovação, na busca de novos talentos – que, felizmente, ainda existem – mas tudo, sem dúvida, restrito ao campo dos números, e o que eles dizem é salários menores e trabalho mais concentrado. Afinal, como produzir material suficientemente esclarecedor para um bloco noticioso apenas ou que seja atraente para a matriz colocar na sua grade do dia?

Reprodução)

O interesse de quem mora numa região como Blumenau, Joinville, Chapecó, Criciúma, onde for, é o nosso cotidiano. Naqueles outros tempos, nos víamos muito na TV. O noticiário local nos fez conhecer histórias interessantes, pessoas que movem nossos destinos, nos deu o jornalismo como instrumento de cobrança para com as autoridades acerca das demandas do dia a dia, fora o espaço que eventos da nossa terra ganharam para serem mostrados e vendidos ao telespectador.

Ok, os portais de notícias tem parte nisso hoje, mas a TV ainda é um dos meios que primeiro impacta, assim como a internet tornou-se. E em igualdade, todos eles informam e formam opinião.

Mas, falando nisso, no turbilhão das redes sociais – em rápido crescimento naquele tempo e ainda em ascensão – as pessoas iam ao Facebook para comentar, mesmo que garganteando impropérios, o que viram na TV.

A comunidade conheceu e reconheceu rostos, que viraram companhia do cotidiano a cada telejornal. Fora que estas pessoas, até hoje, são inspiração para muitos como eu, como você e tantos outros, que querem, sedentas, viver este universo louco, mas prazeroso.

(Paulo Roberto Leite)

A tendência era esta, não é mais.

Alguns críticos vão dizer que o tempo disponível é o suficiente. Tem quem já falava naquele tempo que os 45 minutos de Jornal do Meio-Dia eram demais, não fazia sentido ter tanto tempo no ar. Isto que o Jornal do Almoço tinha meia hora de material do Vale no ar, sobrando, em momentos, espaço para produções da capital.

Independente do tempo que havia, era nossa região em foco, o verdadeiro interesse de qualquer blumenauense, gasparense, itajaiense, rio-sulense, enfim, de quem mora no Vale ou em qualquer outro canto na tela.

E a situação que se descortina não se restringe apenas ao campo do conteúdo. Há algum tempo, encontrar uma oportunidade no mundo da comunicação estava cada vez mais raro. É quase como procurar uma agulha de ouro no palheiro. Estes encolhimentos, por si só, restringem a possibilidade de novos talentos de buscarem um novo espaço ou, ainda, terem a primeira chance para demonstrar o que sabem.

Sem uma porta aberta, restam-lhes dois caminhos: O da independência em pequenos veículos e iniciativas – como A BOINA – para mostrar seu talento, ou o de outras ocupações profissionais para, também, não viverem a zero.

Cruel, e como é cruel! Mas é o que vemos a nossa frente.

(Reprodução)

E o que é pior, neste turbilhão de mudanças não escapa ninguém: Do estagiário ao senhor ou senhora com tarimba, qualquer um está sujeito a caneta da demissão, hoje ou amanhã. E no caso da RBS, ainda não há números e nomes dos demitidos nestas mudanças, mas infelizmente haverão.

O destino que o jornalismo local tem tomado, se permite sorrisos em horas, nos traz névoas em grande parte do tempo. As impossibilidades e renovações dos grupos cortam nosso direito de ver na tela os acontecimentos e histórias que nos cercam e influem no nosso dia a dia.

Vindo da RBS, que já vem tonteando há algum tempo no estado, assusta muito pensar na perspectiva que nos é mostrada. É toda uma roda que já é prejudicada há algum tempo, por vários fatores ou, também, pelos duros tempos da economia nacional. E isso não há como negar, nem mesmo com planilhas de números.

As lições e lembranças do banco de faculdade se apagam na dura vida de hoje. Sendo assim, o jeito é buscar novos caminhos ou torcer que alguma coisa aconteça que reverta o quadro, o que para agora é muito difícil. E, claro, torcer para que, no futuro, o espaço local não seja reduzido a, tão somente, um mero suspiro diário e nada mais.

(Reprodução)

E, como bom samaritano, meu bom dia ao Mario e a Laine, embora gostaríamos de ver mais a nossa terra, veremos um pouco mais da sua e do resto do estado. Nos encontramos, outra vez, dia 22.

Um comentário sobre “Jornalismo regional: Encolhimento e consequências

  1. É por estas e outras que os telespectadores estão correndo dos canais regionais, aí não apenas os profissionais das emissoras locais, mas também profissionais que trabalham nas empresas de TV a cabo, pois sem programações locais não há necessidade de pagar por um pacote de TV a cabo para transmitir programação local porque já não mais exite, provocando o enfraquecimento dos serviços destas operadoras de TV a cabo (porque não dar nome aos bois: a NET), aí melhor é ter uma antena via satélite, só para assistir a filmes e séries, ficando o povo cada vez mais analfabeto da informação.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s