Busscar: Quatro leilões depois, encarroçadora de Joinville é vendida

Eis a venda. Depois de quatro tentativas, a falida Busscar agora pertence a Caio, que pagou cerca de R$ 67 milhões pelo pacote completo da estrutura. E os planos para reativar a empresa são para logo (Reprodução)

Cinco anos depois do doloroso decreto de falência que colocou um ponto final na história de uma das mais tradicionais encarroçadoras do país, o imbróglio sobre a venda da antiga Busscar tem um final feliz. Na tarde do ultimo dia 21, foi anunciada a venda das estruturas da empresa para a Caio Induscar, pela importância de R$ 67,15 milhões.

O pacote adquirido pela encarroçadora de Botucatu (SP) inclui a planta principal, em Joinville, as unidades fabris de Piraberaba e Rio Negrinho, além de toda a tecnologia, maquinário, terrenos e demais edificações pertencentes a antiga marca. A assinatura do ato de arrematação já foi feita nesta quarta-feira última (22/03) por sócios da Caio vindos à Manchester Catarinense para a oficialização da compra. Serão pagos a vista R$ 9,40 milhões e o valor restante (R$ 57,74 milhões) divididos em 52 parcelas.

 

Com mais de 70 anos de experiência na construção de ônibus, a Caio vem crescendo palmo a palmo no mercado de coletivos. Com a planta da antiga Busscar, em Joinville, pretende ampliar a produção de veículos rodoviários, ainda não tão populares no mercado (Reprodução)

Além da montadora paulista, estavam na concorrência para a compra da Busscar uma empresa chinesa (Liaoyuan Road Construction Machinery Co.) e uma portuguesa (Imparável Epopeia UniPessoal Ltda.). Na fase de lances e propostas, os chineses chegaram a oferecer cerca de R$ 160 milhões em parcela única para a compra da encarroçadora enquanto os lusitanos, que atuam como fundo de investimento, ofertaram R$ 73 milhões.

No fim, prevaleceu a compra pela Caio, empresa com 70 anos de tradição no segmento de ônibus urbanos e rodoviários e que tem aumentado ano a ano sua participação no mercado brasileiro. Blumenau era um exemplo claro deste crescimento, já que grande parte da frota do antigo Consórcio SIGA era composta por coletivos fabricados pela montadora paulista.

Dois antigos articulados da Busscar que circularam em Blumenau nos tempos do SIGA. O primeiro, acima, um Urbanuss de segunda geração da primeira remessa, de 1997. O segundo, um Urbanuss de terceira geração vindo na remessa usada de Curitiba, por volta de 2011 (Fabio Julio)

A planta de Joinville será destinada à fabricação de ônibus rodoviários da marca (modelos Solar 3200 e 3400) e, pelas ambições dos paulistas, a Caio não quer esperar muito para iniciar os trabalhos na cidade e já começou a mobilizar ex-funcionários da Busscar. No entanto, ainda não há data para o início das contratações e a retomada dos trabalhos na planta joinvilense, mas há previsão para a volta a atividade da fábrica na segunda metade do ano.

Apesar do esperado leilão concretizado, a encarroçadora paulista terá de enfrentar um primeiro problema já de princípio: Segundo o Sindicato dos Mecânicos de Joinville, o valor de compra da Busscar pela Caio é insuficiente para a quitação das dívidas trabalhistas, que chegam, segundo o sindicado, aos R$ 250 milhões. Mais de 5 mil trabalhadores estão com processos no judiciário cobrando o pagamento do que lhes é devido.

Histórico

Publicidade da pequena Nielson & Irmão, o embrião da Busscar (Reprodução)

Fundada no mesmo ano da Caio, 1946, pelos irmãos Augusto BrunoEugênio Nielson, a Busscar ainda levava o sobrenome dos fundadores – Nielson – quando começou a apostar na construção de estruturas para ônibus. Alcançou o sucesso por volta da década de 60 com a chegada ao mercado do Diplomata, carroceria rodoviária muito combinada em chassis Scania. Empresas de ônibus como a paranaense Pluma chegaram a ter grande parte de suas frotas compostas com os Diplomata fabricados pela Nielson.

Acima, um Nielson Diplomata da Auto Viação Rainha, um dos veículos mais populares e icônicos da Busscar. A empresa resolveu diversificar e, em fins dos anos 80, iniciou a produção do Urbanuss, para entrar num mercado ainda mais competitivo: O dos coletivos de transporte público. O da imagem foi utilizado no início da implantação do sistema de transporte coletivo de Blumenau, em 1995 (Egonbus | ValeBUS)

No fim dos anos 80, a marca entrava no segmento de coletivos urbanos com o lançamento da linha Urbanuss. Seguindo uma nova estratégia de negócios, a Nielson troca seu nome para Busscar e ganha o mundo, passando a exportar para países como Uruguai, Chile e Venezuela. Chegou a ser líder do mercado nacional de ônibus, num mercado muito competitivo no país.

No entanto, ao entrar nos anos 2000, a encarroçadora começou a sofrer de problemas econômicos por conta da variação cambial, além de erros administrativos que também corroíam a estrutura da empresa e pequenas crises internas, que começaram minavam sua capacidade de produção e sobrevivência.

Em 2012, depois de várias crises, o juiz Maurício Cavalazzi Povoas decretou oficialmente a falência da Busscar. A administração da empresa chegou a ser definida pelos responsáveis pelo fechamento como uma balbúrdia, e não tinha como ser diferente. As dívidas se aproximaram da cifra de R$ 2 bilhões, contando juros, tributos e dividas com fornecedores, trabalhadores e bancos.

Na Colômbia, a Busscar segue firme desde 2002. Melhor sorte não teve a matriz catarinense, envolta em dívidas e numa administração considerada por muitos especialistas como uma balbúrdia (Reprodução)

A marca Busscar segue em atividade, estampando ônibus na Colômbia desde 2002. Ademais, a Caio talvez deseje aproveitar o nome da antiga empresa no novo empreendimento, já que a marca veio junto no pacote comprado. Talvez uma busca de somar sua história com a tradição da marca da família Nielson.

Quanto a compra e os novos donos, tudo ainda é muito recente e novidades ainda virão. O passo mais aguardado – o do leilão – foi concluído. Agora, é aguardar as próximas ações da Caio para com a empresa. E, claro, as sonhadas voltas ao trabalho de grande parte dos homens e mulheres que construíram parte de suas vidas nas linhas de montagem da Busscar.

(Reprodução)

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