Gramming & Marbles (F1): Ferrari acerta a tática e Vettel fatura sob o sol de Melbourne

O dono da primeira vitória de 2017 não é prata. Sebastian Vettel fez corrida primorosa diante das Mercedes e sai da Austrália como vencedor, provando que a Ferrari pode, sim, ameaçar o domínio da Mercedes (AFP)

(André Bonomini & Douglas Sardo)

Enfim, começou! Não dá pra esconder que muitos, além de nós, estávamos batendo o pé com certa ansiedade para o início dos trabalhos em 2017 da sempre clássica e magnânima F1. Carros novos, novas regras, novos donos da brincadeira, algumas caras novas e… não, a Mercedes não está sobrando, pelo menos nesta boa tarde em Melbourne.

O fim de semana, como alguns já pareciam prever, foi vermelho, ou melhor, rosso ao tom de Maranello. Vitória da Ferrari em qualquer tempo de jejum sempre é uma festa especial. A mais antiga equipe do certame já sentia falta disso desde que Sebastian Vettel colocara a macchina no primeiro lugar em Cingapura, isto lá em 2015! Um ano sem vencer não combina nada com il tifosi e o novo ano, junto do novo carro, trouxe novas esperanças.

Eis a turma de 2017. Ano de incertezas perto dos carros novos e novas regras AFP)

E elas se concretizaram. Com uma tática perfeita e uma pilotagem que há tempo não fazia, Seb Vettel foi a forra e demonstrou nas curvas do Albert Park todo o bom equilíbrio do SF70H. Diante das ainda poderosas Mercedes de Lewis Hamilton e do novato da casa, Valtteri Bottas, o alemão sobrou e mostrou perícia, recolocando o time vermelho no topo e fazendo feliz o tifosi interior de cada um.

Se teremos campeonato em 2017, ainda é cedo para dizer. Mas alguma coisa boa aconteceu, isso sim.

Cautela, a lei na largada e das primeiras voltas

Extremamente cautelosa, a largada em Melbourne, com Hamilton assumindo a ponta. Iniciava a perseguição de formiguinha de Vettel contra o inglês (Reprodução)

Com as bençãos do bigodudo Chase Carey, o nomo CEO da F1, a F1 partiu para a prova com uma largada extremamente cautelosa. Os seis primeiros todos praticamente se mantiveram no mesmo lugar, sem tomar riscos. Talvez descobrindo o que cada carro podia fazer nesta situação. A exceção da partida foi a rastelada de Kevin Magnussen no pobre Marcus Ericsson, logo na segunda curva.

Mesmo com a aparente cautela no ar, Hamilton e Vettel não se descolavam. A diferença entre ambos não chegava nem próximo de três segundos e o inglês parecia ser o que mais sofria com os pneus macios que o calçavam. Seb, de ultramacios, virava melhor e a briga entre os depois virou uma espécie de Guerra Fria, trocando tempos rápidos mas sem abusar dos compostos.

Hamilton torrou os ultramacios nas primeiras voltas, tentando fugir de Vettel. Acabou antecipando parada e terminou a corrida perseguido pelo companheiro, o agoniado Bottas (Getty Images)

Atrás, Bottas e Kimi Raikkonen faziam as vezes de coadjuvantes de luxo muito bem. O finlandês da Mercedes parecia querer conhecer o carro nas primeiras voltas e não se arriscava tanto para buscar algo. Andava contido, com o compatriota da Ferrari o comboiando, seguido por Max Verstappen, lutando com o Red Bull ainda irregular, e Felipe Massa, partido de sétimo lugar e alocado tranquilamente no sexto posto.

De repente, a Mercedes muda a tática a pedido de  Hamilton. O inglês  trocou os ultramacios, já na lona, pelos macios e retornou atrás de Verstappen, visivelmente mais lento. Seria a tortura de Lewis, já que tinha de segurar o ritmo atrás do filho de Jos aguardando, talvez, a parada do carro a frente. Max fez um bom trabalho dentro das suas possibilidades e Vettel que o diga: Se a diferença aumentou bem e lhe permitiu voltar a frente de Hamilton, a responsabilidade disso foi, simplesmente, do holandês.

Um momento de aperto

Verstappen esteve longe de uma boa corrida, limitado pelos problemas da Red Bull. No entanto, seu momento a frente de Hamilton foi o suficiente para mudar a dinâmica da prova (AFP)

Vettel para para a troca, saca os ultramacios e calça macios. Na volta, o momento de maior aperto do líder e de maior emoção de toda a corrida (no geral, morna). Seb cai justo a frente de Verstappen, que vinha rápido e trazendo Hamilton no comboio. Vettel teve de esfriar o sangue para evitar o ataque do holandês, na manobra que praticamente lhe deu a corrida. Simplesmente brilhante!

Para Hamilton, a problemática não poderia ter ficado pior: Além de ficar preso atrás de Max, assistia Vettel sumir aos poucos da sua vista, algo que seria improvável no ano anterior. Para Seb, o que lhe restou foi fazer tempo, limpar o tráfego e manter a constância, o que conseguiu e bem.

Com o desgaste de pneus de Hamilton, Bottas apertou o passo para buscar o companheiro. Chegou perto (AFP)

Hamilton se viu livre do jovem holandês quando Max foi para a parada, mas desgastando mais os macios do que Vettel, nada mais podia fazer. Restou a ele cerrar os dentes e começar a se preocupar com o que vinha atrás. Era um alucinado Bottas, melhor usando a borracha macia e voando baixo, fazendo voltas mais rápidas que Lewis consecutivamente. Valtteri chegou perto, mas talvez o tráfego (e aquela ordem para maneirar, que deve ter tido) o impediu de colar mais.

Vettel não tinha mais ameaças, e tocando firme e constante seguiu até o final feliz. Enfim, Seb fez as pazes com a vitória, distante dele há um ano e pouco. A Ferrari não liderava um campeonato desde os tempos de Fernando Alonso, em 2012. Festa para os tifosi e a alegria da F1 por ver, outra vez, o time de Maranello de volta ao topo do pódio. Hamilton e Bottas, comboio de luxo, completaram o pódio nesta ordem.

Tem quem fale que agora teremos um campeonato. No entanto, ainda é cedo para tachar isto. Estamos apenas na primeira prova da temporada e muita coisa vai acontecer ainda. Mas, ao sair de Melbourne, da pra dizer que alguma coisa de bom aconteceu e a Ferrari está afim de brigar.

Festa de vitória é uma coisa. Festa da Ferrari por uma vitória tem lá seus Qs de especial. Ainda mais depois do jejum de um ano e pouco (AFP)

Os 10 mais – Corrida

1 – Sebastian Vettel (Ferrari)
2 – Lewis Hamilton (Mercedes)
3 – Valtteri Bottas (Mercedes)
4 – Kimi Raikkonen (Ferrari)
5 – Max Verstappen (Red Bull-TAG)
6 – Felipe Massa (Williams-Mercedes)
7 – Sergio Pérez (Force India-Mercedes)
8 – Carlos Sainz Jr. (Toro Rosso-Renault)
9 – Daniil Kvyat (Toro Rosso-Renault)
10 – Esteban Ocon (Force India-Mercedes)

MENINO DE MUZAMBINHO: Sebastian Vettel (Ferrari)

Inconteste. A atuação medida, constante e fria na hora certa de Vettel lhe devolveram o prazer de uma vitória. E com méritos diante das Mercedes (Reprodução)

Tá, não é porque ele venceu a corrida que ele está aqui. Pelo que Valteri Bottas fizera na metade final da prova, andando rápido e assustando Hamilton, ele poderia também estar aqui. Mas Vettel fez por merecer depois de uma atuação impecável nas curvas do Albert Park. Desfilou na pista, teve sangue frio no aperto e conduziu-se a uma vitória que há tempos lhe passava longe.

De quebra, mesmo com ultrapassagens quase inexistentes, o desempenho de Seb mostrou também que a Ferrari está disposta, tem bom e durável equipamento e pode fazer frente sem dúvida as Mercedes. Vettel tem cabeça quando lhes dão condições, e, ao menos, nestas horas ele se mantém calado, esquecendo a chiliquenta que era em 2016.

Que Seb continue assim, porque o duelo será grande.

Túnel do erro, Galvão imperativo e FOM perdida

O grande destaque negativo da corrida, sem dúvida, foram os erros e acertos de transmissão. Desta vez, as trapalhadas não ficaram apenas com a Venus Platinada e seu canal-satélite fechado, até mesmo a outrora gloriosa Formula One Management (FOM) sofreu para acertar as informações nos caracteres da tela. Um fato vergonhoso.

Lauda na Inglaterra, em 1982. Para as estatísticas do Tunel do Tempo, do Sportv, esta foto nunca existiu ou, quem está ai é outro. Mais um erro crasso da emissora global (Reprodução)

Da parte da Sportv, o Túnel do Tempo de Sérgio Maurício e Lito Cavalcanti já abriu a temporada de erros homéricos. Fora afirmar que Niki Lauda voltou a F1 pela McLaren em 1984 (ele retornara na casa de Woking em 1982), a produção e a dupla confundiram Michael Schumacher com o filho, Mick, em outra passagem. Inadmissível para não dizer incompetência da produção e da dupla, que outra vez se esquiva de qualquer correção.

Enquanto isso, na madrugada da Globo, Galvão Bueno parecia estar sobre efeito de algum energético, gaguejando e com uma empolgação acima do normal em muitos momentos. Para completar o esquema, a emissora perdeu o pique e o ponto do começo da volta de apresentação durante a exibição dos patrocinadores. Oh escorregada de quem parece ter caído de paraquedas no início da temporada. Várzea!

No entanto, a ele se dá um desconto, já que o trio global (some-se Reginaldo Leme e Luciano Burti) foram vitimas do apagão nos caracteres gerados pela FOM, trocando ou demorando para fornecer as tão preciosas informações da corrida.

Patético, ta ai o primeiro problema que a nova turma de manda-chuvas já tem que atacar. Quanto ao Túnel do “Erro”, na boa, tirem essa joça do ar!

Massa de volta, Stroll agoniado

Nada mal para um ex-aposentado. Massa saiu em sétimo, chegou em sexto. O máximo que a Williams pode lhe dar por hora (Reprodução)

Foi uma prova tranquila para Felipe Massa. Talvez por ainda não conhecer bem o carro em condição como aquela e por saber das limitações da Williams neste momento, o ex-aposentado fez um bom treino e partiu de sétimo para terminar apenas uma posição a frente da de grid. Não dava pra pedir demais, fora que durante a transmissão, Massa ficou praticamente sumido. Pontos, por hora, devem ser um bom consolo.

Enquanto isso, na outra ponta do grid, Lance Stroll teve de recuperar, ou ao menos tentar recuperar, o caótico último lugar na grelha. Em vários momentos da prova, mostrou a típica postura atirada de qualquer jovem de 18 anos que pousa na F1 querendo mostrar algo. Conseguiu algumas ultrapassagens, mas a pressa lhe cobrou o preço e, depois de passar reto em uma curva, abandonou com problemas.

O canadense vai ter que aprender e muito. E as lições começam pelos erros.

Rapidinhas:

– Falta de ultrapassagens, ta ai uma coisa que já preocupa de começo com estes novos carros. Aumento da turbulência pode impedir tal manobra. Não seria surpresa que o número de corridas mornas (como a da Austrália) ou chatas aumentasse significativamente este ano.

Haas de Grosjean no grid. Um sexto lugar fantástico que virou fumaça no problema do motor (Reprodução)

– Uma pena a corrida tão curta para a Haas de Romain Grosejan. O francês foi a sensação dos treinos, colocando o bólido yankee na sexta posição da grelha. Porém, enquanto mantinha o sexto lugar na prova e podendo fazer alguma estratégia diferente, o motor do carro abriu o bico, forçando o abandono. Kevin Magnussen também abandonou voltas depois, isto após ter rastelado Ericsson na largada.

– Novas cores e um carro medio. A Force India conseguiu levar as rosinhas a zona de pontos. Sérgio Checo Perez em sétimo, sabendo das limitações de inicio. Esteban Ocon mostrando que treinar até vomitar valeu a pena e arrancou o ponto insólito de Fernando Alonso no final e na marra.

A rosinha Force India de Perez. Dupla do team indiano colocou os carros na zona de pontuação. Checo em sétimo. Ocon superou o amargurado Alonso para ser o décimo. Alias, Alonso (abaixo) bem que quis extrair leite de pedra, mas a McLaren é um dos piores carros do grid, sem questão (AFP | Getty Images)

– Falando em McLaren, foi até milagre Alonso andar em 10º grande parte da prova. Resistiu até onde o carro permitia. Dai, Ocon lhe roubou o ponto e o bólido laranja lhe roubou a corrida, abandonado perto do fim da prova. Stoffel Vandoorne foi, dos 13 que chegaram, o último. Atrás, ainda, da draga do ano: A Sauber, conduzida pelo suplente Antonio Giovinazzi.

Um mito nacional nos deixa: Morre Alfredo Guaraná Menezes

Magro, sorridente e bom piloto pacas. Um ícone do automobilismo dos anos 70, Alfredo Guaraná Menezes, nos deixou hoje, aos 64 anos (Reprodução)

Ícone do automobilismo tupiniquim dos anos 60 e 70, famoso nos bólidos da F VW 1600 e um dos atrevidos em Le Mans, em 1978, Alfredo Guaraná Menezes nos deixou neste domingo, aos 64 anos de idade. O ex-piloto foi vitima de uma falência múltipla de órgãos, quadro detectado ainda no sábado. Ele estava internado no Hospital da Clinicas de São Paulo, onde se preparava para um transplante de figado e estava com a saúde debilitada por infecções e hemorragias decorrentes da cirrose hepática que sofria.

Criado na antiga Divisão 3 e mesmo sem nunca se firmar bem nos monopostos, Guaraná era presença marcante na antiga F-Super Vê / F-VW 1600, categoria que originou nos anos 80 a F-2 Codasur e, por conseguinte, a F-3 Sul-americana. As mãos, tinha o também icônico Polar-Gledson, que há alguns anos antes tinha sido de Nelson Piquet, campeão da categoria em 1976. Era seu sucessor na equipe e foi muito bem, conquistou dois títulos, em 1977 e 1978. Ainda teria mais um título na então criada F-2, em 1981.

No entanto, a maior proeza da carreira foi ser o feliz membro da trinca brasileira que foi capaz de um feito nas 24h de Le Mans, em 1978. A bordo de um Porsche 935/77 do Cachia Team França, Guaraná, mais Paulo Gomes e Marinho Amaral, embarcaram numa aventura na prova daquele ano. O carro tinha apenas um turbo e todo cuidado era pouco. Aproveitando-se da regularidade em detrimento do desempenho, o trio alcançou uma fantástica sétima posição geral e o segundo lugar na sua classe. Um fato histórico para o Brasil na tradicional prova de resistência.

Acima, o Polar com as cores da Gledson, que vira Piquet campeão em 1976 e que viu Guaraná dominar os dois anos seguintes na F VW 1600. Abaixo, o ainda mais histórico Porsche 935/77, onde traçou uma histórica épica em Le Mans, 1978, junto de Paulo Gomes e Marinho Amaral (Reprodução)

Ultimamente, Guaraná trabalhava como comissário da Federação de Automobilismo de São Paulo (FASP), sendo sempre lembrado com carinho por quem recordava daqueles momentos nostálgicos do automobilismo nacional. Guaraná era um deles, e sempre será lembrado por estas e outras tantas passagens fantásticas nas pistas brasileiras.

Vida que segue, reverencia que se faz, nos despedimos lembrando aos amigos que a F1 se reencontra novamente (e esperando um pouco mais de emoções) na nebulosa Xangai, para o GP da China. É dia 9 de Abril, daqui a duas semanas apenas.

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